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Nessa segunda fase de discussão, foram analisados os primeiros impactos vividos pelos estudantes no contato inicial com a realidade comunitária, quando se inseriram no PEPASF. Foram momentos de perplexidades que causaram estranhamentos, inquietações, surpresas, dúvidas, descobertas, encantamentos e muitos aprendizados, geraram um processo importante de questionamentos de valores e de leituras da realidade e propiciaram mobilizações internas com significados espirituais. Trata-se de um momento de desarrumação e de questionamento de valores e motivações anteriores. O questionamento de valores é uma fase importante no processo de mudança espiritual. Por essa razão, é pertinente determo-nos nesses momentos iniciais dos estudantes no Projeto, como forma de compreender a maneira como perceberam essa aproximação e quais as emoções despertadas nesse início de caminhada.

Logo no início da chegada da nova turma de estudantes, foi feita uma dinâmica de apresentação, que foi muito rica como espaço de explicitação das expectativas iniciais. As expectativas expressadas diziam respeito ao que eles esperavam como novas experiências e aprendizados e iam desde a apreensão com o desconhecido, representado pela comunidade e

pelo Projeto, até a alegria dessa nova possibilidade aberta de conhecimento. Alguns falaram da vontade de aprender e de se doar.

A primeira observação a ser feita refere-se à questão da escolha desses estudantes pelo Projeto. Isso representa um movimento interno de busca por algo com que se identifiquem como trabalho em Saúde, que os possibilite conquistar seus interesses ligados as suas escolhas pessoais, sejam de ordem objetiva ou subjetiva. Por isso selecionam, entre tantas possibilidades de atuação extensionista no âmbito da universidade, um projeto com as características do PEPASF. E essa escolha se liga, para alguns deles, ao ímpeto de curiosidade com o que é o novo, o desconhecido, configurado pelo trabalho desenvolvido na comunidade e com o qual eles sentem-se atraídos. Além disso, essa escolha oferece a possibilidade de viver novas experiências significativas para seu aprendizado e para sua formação, como também uma possibilidade de conhecer aspectos diferentes das formas de lidar com a Saúde das pessoas com as quais estão acostumados em seus cursos, e que, até o momento, muitos deles ainda não tiveram oportunidade de vivenciar. A expectativa de se doar ao trabalho, mencionada por alguns, representa esse interesse voltado para a ação junto ao outro que compreende também a realização de seus interesses pessoais.

Partindo dessas expectativas, eles vão tendo impactos, e as perplexidades vindas de diversas situações, que iam encontrando no Projeto e no contato efetivo com o contexto comunitário, mobilizava-os para reações e sensações significativas. O primeiro movimento interno relatado pelos estudantes foi o de estranhamento à realidade apresentada pela comunidade e pelos seus moradores. Esse estranhamento diz respeito aos aspectos dessa realidade que foram considerados diferentes e surpreendentes para os estudantes, acostumados com outros contextos de vida. Este depoimento de um estudante de Medicina demonstra uma dessas reações: “Qual foi a minha primeira impressão? Sendo curto e grosso: péssima! O calor estava insuportável! E andar por aquelas ruas, com esgoto a céu aberto e jovens consumindo drogas livremente me incomodou de tal forma que disse a mim mesmo que nunca mais voltaria ali” (AGRA, 2011, p. 36). Esse incômodo é bem comum aos iniciantes, quando entram em contato com o ambiente comunitário, cheio de precariedades. E pode ser tão inquietante que aparece, rapidamente, o ímpeto de recusar a conviver com aquela realidade, a ponto de decidir, como uma reação às sensações negativas sentidas, “nunca mais voltar ali”. Dessa forma, à primeira vista, as características urbanas locais vão se descortinando aos seus olhos, demonstrando a extrema pobreza e a vulnerabilidade daquela realidade. Isso se torna chocante para alguns, que decidem não estar tão próximos dessa visão incômoda e se negam a compartilhar daquelas condições de vida. Por outro lado, para muitos

desses estudantes, as sensações incômodas, vivenciadas nesse primeiro momento de aproximação com a realidade da comunidade, além de aflorar sentimentos profundos, pode ser uma preparação para adentrar uma faixa de percepção profunda. Nesse sentido, esse incômodo tem o significado de adornar, pelo contraste, os aspectos positivos que logo encontram. Sob a perspectiva do processo de transformação espiritual, essa abertura passa a ser importante e necessária para uma motivação e para uma possível mudança interior. Esse contato com o que é incômodo, que gera perturbação e desarrumação dos valores estabelecidos, abre o ser para um estado perplexo que é o de abertura ao novo espiritual. O impacto negativo com o que é diferente e considerado inadequado é compreensível, mas ele precisa ser ressignificado subjetivamente para possibilitar um olhar mais amplo sobre a realidade do outro e facilitar a aproximação com uma postura de disponibilidade para a vivência de uma relação mais ampla e positiva. Essa é uma possibilidade de o estudante sair de si mesmo e olhar para o outro e para o mundo de uma forma mais acolhedora.

Por isso, a primeira dificuldade que se apresenta é a de compreender a alteridade do pobre, pertencente a essa realidade completamente diferente da que, geralmente, provém dos estudantes. Batista (2012) contextualiza essa conjuntura e seu impacto negativo causado nos estudantes recém-chegados ao Projeto.

Eles encontram com um mundo formado por um ambiente insalubre, desprovido de saneamento básico, composto por terreno cheio de ladeiras, acidentado e ruelas estreitas que dão acesso às moradias. As casas construídas desorganizadamente, algumas, inclusive, em área de situação de risco, dispõem-se em ruelas e becos estreitos, onde a presença de entulhos e de esgoto a “céu aberto” dificulta a passagem e traz ao ambiente úmido uma mistura de odores bem diferentes daqueles que estão acostumados a vivenciar em seu cotidiano. (p. 74).

Esse contato com o diferente impulsiona o estudante a uma insegurança interna de permanecer diante dessas condições de vida. Surgem, assim, questionamentos inquietantes para eles, ao se perguntarem como os moradores daquele local podem sobreviver naquelas condições. Essa pergunta é resultado do estranhamento inicial e corresponde a um segundo movimento feito pelos educandos no esforço de aproximação dessa nova realidade. Foi possível perceber esse tipo de questionamento ao acompanhar alguns estudantes nas primeiras semanas de visitas às famílias. Comentários como a de uma estudante do Curso de Enfermagem de uma faculdade particular, que mencionou, demonstrando preocupação: “Não sei como essas pessoas conseguem viver desse jeito. Fico pensando nas crianças brincando dentro desse esgoto e no meio desse lixo”. Esse comentário revela uma impressão negativa, mas também uma dimensão positiva: a estudante questiona a força que permite as pessoas

viverem com alguma alegria num ambiente insalubre, que encanta em meio à lama. Essa força é que o seduz os estudantes. Nessa fase, é comum eles experimentarem várias sensações como choque, incômodo, nojo, perplexidade e encantamento.

Esse primeiro impacto diante da realidade faz com que o estudante se sinta tocado com o que considera problemático no outro, do qual não tem conhecimento prévio e com o qual nem sabe lidar. Boff (1999, p. 139) nos fala desse impacto proporcionado pela diferença no outro, na perspectiva de recusar ou de aceitar essa relação, particularmente do outro, que é o oprimido, acolhendo ou rejeitando sua presença, criando uma aliança ou uma hostilidade com ele, podendo estabelecer relações de cooperação ou distanciamento. Nesse sentido, podemos compreender esse estágio de perplexidade dos estudantes, baseado em Freire (2005, p. 82), como o início de um processo de percepção do mundo e de si mesmo inserido nele, que começa na direção do olhar para perceber as implicações mais profundas da realidade vivida pelos sujeitos. Esse “percebido” agora se destaca e assume um caráter de problema desafiador. Assim, essa imagem da realidade comunitária em cores tão vibrantes inquieta e instiga sentimentos e impressões dos estudantes que se deparam com ela, de maneira tão próxima, sendo quase impossível ignorá-la.

Com isso, nessa etapa, o estudante pode entrar num dilema entre a continuidade do processo de conhecimento e a convivência com esse novo que se configura na realidade comunitária, ou de desistência pelo choque com o que presenciou. A esse sentimento de inquietação pela visão mais próxima da realidade comunitária, pela apreensão diante desse mundo desconhecido, soma-se outra apreensão ligada à relação com o morador visitado.

[...] ao adentrar as residências, a fim de visitar as famílias em acompanhamento, começam a ter contato com pessoas que apresentam hábitos (sociais, alimentares, higiene, entre outros) bem distintos dos seus, que vão conhecendo gradativamente a partir das visitas semanais. Eles veem sinais claros de uma desorganização da vida comunitária: violência, conflitos, precariedade das moradias. O encontro com esse caos comunitário geralmente causa estranhamentos aos estudantes, que se sentem incomodados com essa situação (BATISTA, 2012, p. 74).

O desconhecimento sobre essa realidade vivida pelas pessoas leva o estudante a um estranhamento inicial relacionado não somente ao outro, o morador, mas também a si mesmo, sobre sua postura e desenvoltura diante daquela realidade desafiadora, o que o deixa inseguro e duvidoso sobre seu papel naquela conjuntura de vida. O depoimento de uma estudante do Curso Técnico de Enfermagem fala dessas dificuldades que alguns educandos enfrentam para conviver com a realidade de uma comunidade pobre:

Muitos não querem entrar em contato com uma realidade de dificuldades, na maioria das vezes financeira, que vivenciamos nessa comunidade, pois acredito que se sentiriam atormentados ao ver que as pessoas têm pouco o que comer, vivem com grande instabilidade financeira e chegam a gastar dinheiro com extravagâncias e futilidades para satisfazer o ego e não com o que consideramos serem suas reais necessidades. É intrigante ver tanta carência misturada com alegria, luta e sentimentos aparentemente fúteis e ter contato com a surpreendente diversidade de valores existentes na sociedade (OLIVEIRA SILVA, 2011, p. 103).

Essas inquietações podem levar o estudante sem experiência ou conhecimento sobre essa realidade a ir perdendo a motivação para sua atuação ali e a se retrair, no sentido de não se sentir preparado para vivenciar esses desafios postos. Porém, de maneira geral, ele persiste e, mesmo com esses entraves interiores, resolve continuar no Projeto. Esse dilema reflete uma luta interior desencadeada pelas implicações do choque de realidade em sua subjetividade. O que está em jogo é essa luta desencadeada pelos valores desarrumados pelos sentimentos tidos nesse contato. Não apenas se vê a realidade nova, que o perturba interiormente. Nesse sentido, é importante criar espaços (dinâmicas) para que esses incômodos confusos possam ser elaborados. Esses espaços não servem apenas para tirar as dúvidas e ajudar o estudante a ficar no Projeto, mas são momentos de elaboração dessa confusão de valores e sentimentos desarrumados.

Contudo, começa para ele outro processo desafiador: o de seu comportamento durante as visitas. É o que nos conta essa mesma estudante do Curso Técnico de Enfermagem: “Na primeira visita, sempre vamos apreensivos, sem saber como chegar e por onde começar a falar” (OLIVEIRA SILVA, 2011, p. 101). Assim, ao adentrar as casas, o estudante se sente inseguro para enfrentar esse contato desconhecido. Internamente, não sente confiança e firmeza em si mesmo e no seu proceder, pois não conhece, previamente, os moradores, nem sabe como lidar com esse encontro. Outro depoimento que corrobora essa ideia foi dado por um estudante do Curso Técnico em Biodiagnóstico, da Escola Técnica de Saúde da UFPB, que também cursava Biomedicina, em uma faculdade particular, apontando suas incertezas relacionadas às casas visitadas. Ele disse aos professores, numa reunião avaliativa do Projeto, que se sentira “solto” e sem saber como se conduzir ou o que abordar durante as primeiras semanas de visitação. Para ele, esses momentos foram ruins, porque geraram inseguranças e dúvidas sobre sua postura e sobre o significado de sua participação naquele trabalho. Esse estado de apreensão é angustiante, causa medo, mas, ao mesmo tempo, é desafiador para o estudante. O estranhamento sobre si mesmo o faz questionar-se sobre sua postura e condução para conviver com aquela realidade. “Fazia pouco tempo que eu ingressara no Projeto e ainda estava um pouco desnorteada. Não sabia muito bem o que fazer, o que falar e também qual a

minha importância ali, naquela comunidade” (SOUSA, 2011, p. 62). Essa sensação de estar sem norte, sentida por essa estudante do Curso de Nutrição, demonstra sua hesitação sobre o significado e a relevância de sua presença naquele contexto e sobre suas capacidades e habilidades na perpetuação do vínculo com o outro. Outra insegurança percebida se refere aos seus conhecimentos de cuidado com as pessoas acompanhadas, sobre o seu ‘que-fazer’ ali, relacionado aos seus conhecimentos técnico-científicos. É o que revela, ainda, essa estudante de Psicologia: “Fiz a inscrição, participei da seleção e ingressei no Projeto. Aí pensei: ‘Que aprendizado pôr em prática? Acabei de terminar o primeiro período letivo!’” (COSTA, 2011, p. 223). Essa colocação revela que eles não percebem suas potencialidades como sujeitos. Muitos deles, principalmente nos semestres iniciais de seus cursos universitários, não conseguem visualizar suas contribuições no contexto comunitário, pois se consideram ainda desconhecedores sobre as técnicas e os procedimentos ensinados nas disciplinas mais instrucionais. Essa ideia está atrelada à concepção de supremacia do conhecimento científico, em relação às outras formas de saber que, porventura, poderiam ser acionados nas visitas. Aparecem, ainda, outros sentimentos que os levam a se retrair diante da relação com os moradores, como timidez e vergonha de expor suas ideias, traços emocionais que dificultam ainda mais o início do contato com os moradores. Subjacente a esse contexto, está a percepção parcial sobre si mesmo e suas potencialidades como ser humano, suas perspectivas de mundo, de vida e de ideais. São questionamentos reveladores de suas dúvidas sobre a ação com os moradores, como também falam sobre sua forma de se ver e da autoimagem como pessoa.

Benzer Belgeler