2.1. UMUT: Yeni Bir Geleceğin Umudu
2.1.3. Burjuva Umutlar
2.1.3.1. İktisat, Edebiyat ve Umut
I
caráter mediador do pastor, “Argonauta das sensações verdadeiras” (Pessoa. 2001: 85), “intérprete da Natureza” (Pessoa, 2001: 68), remete-nos à própria mensagem que a poesia de Caeiro transporta e, o que importa notar, à sua condição de mensageiro. Se no âmbito da mensagem, o poeta se mostra contrário a um racionalismo que opera a lógica do dever ser ou do não dever ser, que generaliza ou reduz as coisas ao pensamento, como mensageiro revela-se mestre e ensina que “Pensar é essencialmente errar” (Pessoa, 2001: 129). Mas sua negação é só o primeiro passo, uma aprendizagem de desaprender, em que se despe do que é acrescentado para afirmar o que está na origem, na coisa, na natureza e, principalmente, no antropos, não no homem dessa ou daquela civilização, mas no homem.
Essa afirmação da vida – “A espantosa realidade das coisas / É a minha descoberta de todos os dias” (Pessoa, 2001: 106) ou “Sinto-me nascido a cada momento / Para a eterna novidade do mundo...” (Pessoa, 2001: 26) – deixa-nos entrever o universo de Alberto Caeiro, universo que encontra seu fundamento mítico na figura de Hermes.
Hermes, “ínclito Hermes arauto dos imortais” (Hesíodo, 1981: 156), é o deus mediador, deus das estradas, intérprete da vontade dos deuses. É também protetor dos pastores: “Vê-se nele um deus dos rebanhos, um bom pastor, como o mostram as representações cristãs primitivas, onde ele aparece sob a forma de Hermes crióforo (ou seja, o que carrega aos ombros um carneiro).” (Brunel, 1998: 453) É também o protetor dos comerciantes, dos ladrões, está nas encruzilhadas, onde em sua homenagem os viajantes depositavam pedras. “É o mestre de um certo saber, ou melhor, de uma maneira de alcançar o conhecimento” (Brunel, 1998: 449), maneira esta que, em Caeiro, se traduz pela ciência de ver e pela linguagem que, com todo seu valor poético, assenta-se no jogo retórico. O que se diz vale tanto quanto o como se diz, daí a simplicidade, a obviedade e também a inovação de seus versos, inovação que é também renovação, e mais, despojamento.
No entanto, não se trata aqui apenas de buscar atributos coincidentes entre Hermes e Caeiro, são muitos e de espantosa similitude, mas de levantar os mitemas que estruturam o mito de Hermes e ver, no cruzamento dos planos sincrônico e diacrônico,
como as imagens caeirianas, trabalhadas pela sensibilidade criativa do poeta, incorporam e reatualizam o mito de Hermes. Em outras palavras, trata-se de ver, nas imagens arquetípicas da poesia de Caeiro, como Hermes se reaviva.
No Capítulo I, vimos como G. Durand (1979: 148-50) apresenta os três temas que organizam o mito de Hermes:
1) O poder do pequeno, em que aparece como a criança eterna (puer aeternus), ou como o
ágil, o que ata e desata;
2) O mediador, portador do caduceu, filho de Zeus e de uma mortal (Maia), pai de
Hermafrodita (com Afrodite), seu duplo andrógino, também o ladrão, o comerciante, o que promove a harmonia musical, com a invenção da lira e da siringe (a flauta de Pã);
3) O guia, psicagogo, iniciador e civilizador, o condutor de almas.
Os temas, ou estruturas mitêmicas, reúnem, por exemplo, sob o poder do pequeno, o roubo do gado de Apolo feito por um Hermes recém-nascido, que logo depois inventa a lira; como mediador, é o intermediário de Zeus na libertação de Io transformada em bezerra ou no episódio das três deusas (Afrodite, Atena e Hera) e Páris; é também o psicagogo que guia Heracles na descida aos infernos, que inicia Perseu e se constitui como civilizador, (trans)portando saberes musicais (lira, siringe), comerciais (trocas com Apolo), militares, medicinais, etc.
Poderia insistir em uma descrição pormenorizada do relato de Hermes, mas creio que esses pontos principais são suficientes para compreendermos a sensibilidade que ele estrutura, nem afeita aos valores solares, verticais e antitéticos dos heróis diurnos, nem entranhada nos valores intimistas da terra, do continente, ou no encaixe, miniaturização, na antífrase dos místicos noturnos. “Ad utrumque peritus, ‘hábil em ambas as funções’, isto é, versado em conduzir para a luz e para as trevas” (Brandão, 1987: 197), sua sensibilidade consiste justamente em intercambiar esses valores diurnos e noturnos, em mediá-los, harmonizá-los, costurá-los no tecido cultural, operar enfim a coincidentia oppositorum alquímica e caeiriana.
Proponho seguirmos essa presença de Hermes ao longo do poema VIII (Pessoa, 2001: 37-43), de O Guardador de Rebanhos, em que as pausas serão como lançar pedras à encruzilhada, ou seja, pontuarão a presença do mito por detrás da narrativa, escondido sub-repticiamente na profundidade dos símbolos.
Num meio-dia de fim de primavera Tive um sonho como uma fotografia. Vi Jesus Cristo descer à terra.
Tornado outra vez menino, A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se de longe. Tinha fugido do céu.
Era nosso de mais para fingir De segunda pessoa da trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem E subir para a cruz, e estar sempre a morrer Com uma coroa toda à roda de espinhos E os pés espetados por um prego com cabeça, E até com um trapo à roda da cintura Como os pretos nas ilustrações. Nem sequer o deixavam ter pai e mãe Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas –
Um velho chamado José, que era carpinteiro, E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida, A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba. E a sua mãe não tinha amado antes de o ter. Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe, E nunca tivera pai para amar com respeito, Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir E o Espírito Santo andava a voar, Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido. Com o segundo criou-se eternamente humano e menino. Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras. Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Neste trecho inicial, o atributo puer aeternus de Hermes presentifica-se no Cristo tornado novamente menino e agindo como um Trickster, o trapaceiro, figura mitológica das sociedades arcaicas que se caracteriza pela insensatez, pela irreverência e pela desordem, presentes nas brincadeiras das crianças, e por ser portador da cultura. Como pontua Campbell (1992: 226), “na esfera paleolítica, de onde essa figura provém, ele era o arquétipo do herói, o doador de todos os grandes benefícios – o portador do fogo e o instrutor da humanidade”.
Contra a seriedade da representação da divindade veiculada pelos dogmas da Igreja Católica, o Cristo de Caeiro surge como humano, ligado à natureza e à potência do pequeno, afinal é uma criança sem pai e cuja mãe não conhece o amor. Na inversão caeiriana, o seu ponto de vista destituí toda a grandeza do nascimento do deus que se fez carne para mostrar justamente o quanto isso é anti-natural e, portanto, caótico, pois está fora de seu centro de conhecimento, distante da sua sensibilidade. Pregar a bondade e a justiça! se encaixa muito melhor com a representação do Cristo prometeico do que com o Cristo hermesiano de Caeiro, esse menino que se apresenta diante de nós como um fugitivo e embusteiro.
À semelhança de Hermes, o menino é ladrão e conhece a arte da mantéia. No relato mítico, o recém-nascido, após desatar os nós das faixas que o enrolavam, costume comum dos antigos em relação a seus bebês, rouba o gado de Apolo e, após a intervenção de Zeus, termina por instaurar o comércio trocando o rebanho pela lira, que acabara de inventar. É de Apolo também que obterá os conhecimentos da mantéia, arte mágica da adivinhação, que reforça o mitema do atador/desatador dos nós, prática do universo da magia.
O Jesus menino de Caeiro vai à caixa de milagres e rouba três. Torna invisível seu desaparecimento, o que nos faz recordar da invisibilidade que Hermes oferece ao seu iniciado Perseu. Seu segundo milagre é tornar-se humano, diferentemente de um regime diurno em que, sob os cuidados de Prometeu, o homem almeja se tornar divino. O terceiro milagre, a criação do modelo de cruz que serve para todas as representações, remete-nos a um platonismo empobrecido. Em vez de uma reminiscência (anamnesis) em que o homem se encontra consigo mesmo através da revivescência de sua origem, em que desperta para “o reconhecimento da verdadeira identidade da alma” (Eliade, 1972: 115), a representação do modelo da cruz confirma uma tradição em que a imagem aparece como duplo do real, em que se deprecia este ou aquela por ser cópia. “Desde Platão, os filósofos geralmente trataram [a imagem] como uma realidade pobre ou uma cópia enfraquecida do real, e como um embuste que ilude, desvia o conhecimento do acesso às coisas próprias.” (Balandier, 1999: 130)
A criação do modelo da cruz por Jesus menino denuncia uma tradição ocidental de desvalorização da imagem, que é tratada como representação, como cópia, estanque e inalterável; o Jesus de Caeiro abre-se à experiência, re-instaura o seu próprio devir e
reativa a imagem em seu sentido simbólico, imaginal, pelo qual o símbolo coincide com o simbolizado e a imaginação, em seu poder criativo, vivifica o que toca.
Em Caeiro, o menino Jesus, sem deixar de pertencer ao universo divino, participa também do universo humano, como mediador, com a diferença de que, no plano divino, aparece como representação, imagem sem vida, sem alma e sem vontade, ícone de uma religião instituída e que não liga mais. O re-ligamento do homem à natureza se dá por sua sua presença viva entre os homens, agindo como menino, com as características que estamos começando a ver e que constitui o mundo sagrado da poesia caeiriana. Se Caeiro não nos pusesse demasiadamente próximo desse deus divino e humano que habita a criança, poderíamos ainda nos lembrar da passagem bíblica que diz “Deus estava com o menino” (Gn 21, 20) ou do poeta latino Ovídio, em sua passagem báquica: “Quando trouxeram o menino eu disse: ‘Há um deus nele, embora eu não saiba que deus.’” (apud Pound, 1990: 173)
Hoje vive na minha aldeia comigo. É uma criança bonita de riso e natural. Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as. Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares E foge a chorar e a gritar dos cães. E, porque sabe que elas não gostam E que toda a gente acha graça, Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias. A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas. Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente, Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia. E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica. Diz-me que Deus não percebe nada
“Se é que ele as criou, do que duvido” –.
“Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória, Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores. Os seres existem e mais nadam E por isso se chamam seres”.
E depois, cansado de dizer mal de Deus, O Menino Jesus adormece nos meus braços E eu levo-o ao colo para casa.
Contra a força de Prometeu e de sua transgressão civilizadora dos séculos XVIII e XIX, Hermes surge com a simplicidade e sabedoria de um menino divino e, sem a hybris5 característica dos heróis, inverte a representação oficial de Deus, da Virgem e do Espírito Santo apresentando-os a partir de um referencial humano. Deus é impertinente e mal- humorado, lembra-nos o pior momento de Prometeu, em que mesmo preso se mostra inflexível, arrogante e orgulhoso, o que lhe vale a reprimenda de Hermes, que o acusa de ter a “razão conturbada” (Ésquilo et al., 1953: 37-41). A insensatez de Deus está em não saber olhar para a própria obra e, vaidoso, crer que os homens cantam sua glória; a Virgem é apresentada como uma senhora entediada, que passa as tardes confinada em afazeres domésticos, como convém às sociedades patriarcais; e o Espírito Santo é a pomba e como pomba suja onde se empoleira, no caso a cadeira, o que reforça a inatividade divina na representação católica.
Se Caeiro aproxima as figuras divinas de imagens cotidianas para lhes desvestir dos velhos valores, será no mesmo movimento, aproximando Jesus ao menino comum, que o poeta celebrará o divino com os valores do mestre. Na estrofe em que Jesus é caracterizado, não há estrelas cadentes, sinais do céu, matanças e exílios, há apenas um menino que limpa o nariz ao braço, rouba fruta, chora de medo e levanta a saia das moças pela estrada. Reforçadas as características do Trickster, o mitema do guia, o condutor de almas, aparece quando Caeiro reconhece que “a mim ensinou-me tudo”.
A criança sábia é um arquétipo recorrente nas representações da infância de muitos heróis e místicos, mas cumpre a finalidade de reforçar seu destino, um episódio da infância remota sinalizando os feitos do futuro. O apóstolo Lucas trabalha bem esse arquétipo quando narra a passagem em que o menino Jesus permanece em Jerusalém para ensinar aos doutores do templo (Lc 2, 43-52). Como reforça Campbell (1993: 317):
São abundantes as anedotas sobre infâncias marcadas pela força, pela inteligência e pela sabedoria precoces. Héracles estrangulou uma serpente que fora enviada ao
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seu berço pela deusa Hera. Maui da Polinésia laçou e retardou o sol – para dar à sua mãe o tempo necessário ao cozimento dos alimentos. Abraão, como vimos, alcançou o conhecimento do Único Deus. Jesus confundiu os sábios. O bebê Buda havia sido deixado, certo dia, sob a sombra de uma árvore; suas amas perceberam que a sombra não se moveu por toda a tarde e que a criança sentava-se de modo fixo, num transe iogue.
O próprio Fernando Pessoa, ao caracterizar Caeiro como uma criança simples, um pastor de rebanhos quase sem estudo, faz uso do mesmo artifício, elegendo-o mestre, não só de si, seu próprio criador, como também dos outros heterônimos. Mas não é esse o Jesus de Caeiro. Porque ele não é um sinal do futuro, ele é o presente. Mais importante que o devir que carrega em cada ato humano de sua meninice, é a vida que vive hoje, simples porque original e complexa porque verdadeira. Ele é o que é. E é assim que ensina, pois é o puer aeternus, a criança eterna, o mestre, o mediador:
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural, Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda a certeza Que ele é o Menino Jesus verdadeiro. E a criança tão humana que é divina É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre, E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for, Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver, Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum Que é o de saber por toda a parte Que não há mistério no mundo E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre. A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando. O meu ouvido atento alegremente a todos os sons São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas. Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro, Mas vivemos juntos e dois
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta, E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis, E tem pena de ouvir falar das guerras, E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados. Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa E deito-o, despindo-o lentamente E como seguindo um ritual muito limpo E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos. Vira uns de pernas para o ar, Põe uns em cima dos outros E bate as palmas sozinho Sorrindo para o meu sono.
O oximoro põe a nu o tertium datum, realiza a conciliação dos opostos, situa-nos no intermédio, como no verso que mostra “a criança tão humana que é divina”; ainda no intermédio, não sabemos se o menino está fora ou dentro do poeta, pois efetivamente está dentro, “dentro da minha alma”, e está fora, pois brincam “como convém a um deus e a um poeta”. A questão da alteridade, implícita em toda pluralidade e pressuposto mínimo a qualquer mestre, não poderia estar melhor representada do que nesta imagem em que o outro habita o eu, “Ele dorme dentro da minha alma”.
E, então, como não prever para esta Eterna Criança, que tem tendência para dormir na alma das pessoas e brincar com os sonhos dos outros, um não-pacífico, desconfortável e, talvez, “selvagem” futuro psicanalítico? (Tabucchi, 1984: 38).
Mestre de si mesmo, Caeiro é o que se auto-inicia no caminho da pluralidade, da diferença e da alteridade. O outro que nele habita dá uma mão a ele e a outra a tudo que
existe para trilhar os caminhos que houver, mediação harmônica que concilia o homem e a natureza, expressão exata do sentido de cultura, como o entende Morin, no qual circulam os pólos das formas estruturantes e do plasma existencial (Porto et al., 2000: 22). Essa cultura caeiriana – que põe em relação metabólica o homem e a natureza através de uma vivência que não se deixa reduzir ao pensamento, que, ao contrário, faz do pensamento a própria sensação – é operada pela alquimia do verbo, pela afirmação contida na poesia caeiriana. São seus versos essa amálgama de sensações que liga o homem ao mundo em que vive, expressão do trajeto antropológico durandiano, através do qual ocorrem as trocas entre as intimações objetivas do meio cósmico-social e as pulsões subjetivas e assimiladoras (Durand, 1997: 41).
Caeiro traz em si o mestre e o discípulo, o humano e o divino, a natureza e a cultura e faz de sua própria existência um território sagrado, em que até mesmo brincar as cinco pedrinhas assume, no plano simbólico, uma dimensão cosmogônica, em que cada uma é um universo. Miniaturização do universo, poder do ínfimo, presença de Hermes.
Mas se em Caeiro o mundo assume o caráter da pluralidade, se em seu próprio ser se inicia o outro, é porque o poeta traz em si a multiplicidade que reconhece na natureza e da qual é mensageiro e pastor, ontologia da diferença que assegura a cada coisa a coincidência com ela mesma e a diferença das demais. No entanto, vimos que a diferença só existe em relação a uma repetição, a diferença habita a repetição (Deleuze, 1988: 136), e é justamente esse paradoxo que evidencia a presença dos arquétipos, pois ao trazer o menino Jesus para habitar sua alma, Caeiro “é projectado [e nos projeta] numa época mítica em que os arquétipos foram pela primeira vez revelados” (Eliade, 1985: 50).
É essa relação de Caeiro com os arquétipos que habitam sua alma – é de se dizer que a natureza que vê é a que traz em si – que expressa sua pluralidade, sua ética e sua mestria frente ao mundo, mestria que é assegurada pela ética da alteridade, pelo outro que se realiza em si:
A enigmática relação entre o si-mesmo e os arquétipos reproduz o antigo enigma do muitos-em-um e do um-em-muitos. Para dar pleno valor à multiplicidade diferenciada das figuras divinas, dos daimones e das criaturas míticas do mundo