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İdeal Tiplerin Tipik Olanı: Rakım Efendi

2.1. UMUT: Yeni Bir Geleceğin Umudu

2.1.3. Burjuva Umutlar

2.1.3.3. İdeal Tiplerin Tipik Olanı: Rakım Efendi

Sê plural como o universo! FERNANDO PESSOA (1998b: 81)

lvaro de Campos é todo emoção. Todos nós temos ou já tivemos algo dele, talvez por isso ele seja, dentre os heterônimos, o mais popular. Ele transpira uma certa adolescência, a vida pulsa em suas palavras, em suas muitas palavras, pois é próprio da emoção o extravasamento, o falar muito. Campos sente, e quer sentir de todas as maneiras, existe, e quer ser tudo e todos: “Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!” (Pessoa, 1997: 93). Maníaco-depressivo, quer viver a totalidade, mas encontra o mundo fragmentado; fragmenta-se também, como um vaso partido, e em partes busca o mistério que lhe fascina e assusta, mysterium fascinosum e tremendus, ora se entusiasmando, afinal a civilização moderna fez ampliar e acelerar as nossas sensações, ora se deprimindo, pois com pouca freqüência à sensação ou à vontade corresponde uma ação, principalmente em um mundo cuja objetivação, excessivamente racionalizada, diga-se logo, descolou seu sentido da experiência, da tradição e da totalidade.

Dionisíaco, entrega-se à orgia das sensações, crava suas garras na terra e, imiscuído em sua feminilidade, funde-se à noite sagrada, ancestral, à mãe, mãe-terra, mas também ao mar, à sua viscosidade unificante, de cujo cais, o Grande Cais Anterior, partimos. Titânico, deixa-se influenciar por Prometeu e saúda um novo mundo, uma nova humanidade, seduzido pela tecnologia, pelas máquinas, pelo progresso que vem aproximar o homem dos deuses, senão substituí-los, num arroubo desmedido da hybris heróica. Hermesiano, lança-se à vida como a uma viagem, está sempre de partida ou de chegada, mesmo que nunca chegue, mesmo que nunca parta, mesmo que adie indefinidamente a arrumação das malas; deslizando pelo labirinto ou nele se perdendo, concilia os contrários, razão e emoção, infância e vida adulta, sonho e técnica, grandes propósitos e nenhuma ação, enfim, o Prometeu e o Dioniso que o habitam.

Álvaro de Campos foi, de todos, o que mais desejou a pluralidade, foi o que mais a sentiu, o que mais se entusiasmou com ela, mas foi também o que esqueceu de agir, o que viveu freqüentemente deprimido, enfim, o grande fracassado, mitologema que a modernidade ajudou a criar e que ele, Campos, soube tão bem encarnar. No entanto, sua vida, obra-vida heteronímica não nos esqueçamos, não se deixa captar com tanta

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facilidade, não se resume, não é muito afeita a definições únicas, pois é ele mesmo, ele também, um ser plural. Mas deixemos que o criador apresente a criatura:

Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1:30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inatividade. (...) é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. (...) teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias, fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre (Pessoa, 1998b: 97-8).

Não há muito mais a acrescentar à sua biografia; à maneira dos demais heterônimos, e do próprio Fernando, cujos biógrafos são levados a se ater mais à sua realização literária que aos acontecimentos de sua vida, a trajetória de Campos é a história de suas sensações, de seus pensamentos, seu temperamento, sua sensibilidade, sua visão de mundo (weltanschauung). Acompanhar sua poesia é flertar com o universo do homem moderno, tanto em seu cotidiano quanto em suas inquietações metafísicas. Mas não nos enganemos quanto à sua existência. Não só sua poesia, e a constituição da pessoa Campos como poeta, é plausível, como também convincente. Se nos esquecermos de que Álvaro é uma criação ou uma extensão ou um descentramento de Fernando, não haverá um só evento, estilístico, biográfico ou psicológico, que o desabone como estrutura de sensibilidade. É bem verdade que não existiu em carne e osso, mas assim como certas personagens são tão reais que nos convencem de sua existência, podemos falar de Álvaro de Campos como um arquétipo; há sangue, suor, sêmen em suas palavras, há a sua verdade, uma realização arquetipal que é própria do homem moderno, inclusive e principalmente por sua carga de fracasso.

Campos era um homem do sul. A sua cidade natal, Tavira, na costa do Algarve, é como um quadro cubista de casas caiadas, podia surgir na costa da Sicília ou da Grécia. Do homem meridional, além dos traços somáticos (tinha o aspecto do judeu sefardita, especifica Pessoa) teve também a índole e os gostos: os ardores, as paixões, os entusiasmos; e os conseqüentes desalentos e desenganos. Deles, e de si próprio, soube ter pena: mas da sua pena soube sorrir com um sorriso lúcido e impiedoso, muitas vezes sarcástico (Tabucchi, 1984: 48).

Sorriso, lucidez, impiedade sarcástica como a que se encontra em Tabacaria, poema-paradigma que ao lado do Wasted Land1, de T. S. Eliot, sintetiza a primeira metade do século XX, o entre guerras, em que o homem calca aos pés “a consciência de estar existindo, / Como um tapete em que um bêbado tropeça / Ou um capacho que os

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Publicado em 1922, é uma alegoria ao mundo moderno, privado de alma: “I will show you fear in a handful of dust.” (Vou te mostrar o medo num punhado de pó.) (Eliot, 1969: 61)

ciganos roubaram e não valia nada” (Pessoa, 1997: 238). Nada, aliás, que é mote de muitos dos poemas de Campos. Niilismo, certamente, mas que dialoga constantemente com seu oposto, como atestam os versos iniciais de Tabacaria:

Não sou nada. Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

Àparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. (Pessoa, 1997: 235)

Todos os sonhos do mundo que o introduz no mundo, no centro de um mundo que o antropos ancestral soube (com)partilhar, fazer parte, soube se (con)fundir, mas do qual o homem moderno se afastou, com sua consciência racionalmente crítica. Daí a impossibilidade de ser qualquer coisa que não seja o nada, pois “O mundo [moderno] é para quem nasce para o conquistar” (Pessoa, 1997: 236) Conquista que é um mitologema prometeico, um ato heróico, como derrubar portas, diante do qual certas sensibilidades, mais afeitas ao labirinto, à viagem, ao caminho, se vê angustiadamente estagnada, como lamenta Álvaro:

Serei sempre o que não nasceu para isso; Serei sempre só o que tinha qualidades;

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta, E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira (Pessoa, 1997: 237)

O fracasso de Campos talvez seja o que mais se sobressaia em sua poesia, mas uma hermenêutica mitanalítica, como a que venho praticando, está atenta ao que à primeira vista parece uma contradição, pois é essa contradição que revela, na verdade, a ambivalência do símbolo, das imagens e da vida, para não dizer do homem, ser plural que, por isso mesmo, é antes de tudo paradoxal. Não por outra razão o fracasso de Campos se resolve em seus versos, “Pórtico partido para o Impossível” (Pessoa, 1997: 237), impossibilidade que no entanto não só é possível mas realizável, ainda que na dimensão da poesia, do sonho, da sensibilidade. Afinal, se Campos falhou em tudo, “talvez tudo fosse nada” (Pessoa, 1997: 236). Negada a racionalidade do mundo moderno, que convoca para a ação objetivada, um mundo de possibilidades impossíveis ou de impossibilidades possíveis se abre ao homem. Mundo pré-moderno, arcaico, tradicional, imaginário, pós- moderno? Talvez todos ou simplesmente um mundo antropológico, objetivo na subjetividade do homem ou subjetivo na objetivação que o homem lhe dá, mas sem dúvida mundo que se constitui na trajetividade:

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como varias pessoas, Quanto mais personalidades eu tiver,

Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver, Quanto mais simultaneamente sentir com todas ellas,

Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente attento, Estiver, sentir, viver, fôr,

Mais possuirei a existencia total do universo, Mais completo serei pelo espaço inteiro fora, Mais analogo serei a Deus, seja elle quem fôr, Porque, seja elle quem fôr, com certeza que é Tudo,

E fóra d’Elle ha só Elle, e Tudo para Elle é pouco. (Pessoa, 1997: 200)

Se tivesse que escolher uma única lição, alçado Campos a educador (embora fosse mais afeito a discípulo, como se diz em relação a seu mestre Caeiro), seria essa, a da pluralidade da alma, pluralidade que dialoga com a unicidade, que se realiza, simultaneamente, no arquétipo das possibilidades humanas (Gusdorf , 1987: 56). Salta aos olhos a insistência do poeta quanto ao sentir, que aqui não deve ser visto em oposição à razão mas em relação dialógica, simultaneamente complementar, antagônica e concorrente (Morin, 1979: 135), que evidencia a sensibilidade, estrutura de sensibilidade mítica como venho insistindo, como forma privilegiada de conhecimento, saber gnóstico que não se reduz a postulados teóricos ou programas, normas, leis, regras de conduta (nomos), mas que nasce junto da vivência. Conhecimento que é nascer com, como nos possibilita entender a etimologia francesa (connaître)2. Dimensão de vida, dimensão educativa eu diria, que põe o homem em ligação com a natureza, com o cosmo, com o sagrado; para ficar com as palavras de Campos, com a “existência total do universo”.

Totalidade essa que possibilita ao homem uma realização divina, ou uma experiência com Deus, pois “Cada alma é uma escada para Deus, / Cada alma é um corredor-Universo para Deus” (Pessoa, 1997: 200). Impossível? Para o mundo moderno, certamente, pois suas exigências só permitem que se ouça “a voz de Deus num pôço tapado” (Pessoa, 1997: 237). É entre esses dois mundos que caminha Campos, oscilando entre a plenitude do sentido que é imanente à transcendência e ao seu esvaziamento em um mundo onde “o impossível [é] tão estúpido como o real” (Pessoa, 1997: 239). “O movimento metafísico do pensamento dos heterônimos-discípulos hesita então entre a aspiração à presença máxima do Ser e a tentação do ceticismo absoluto” (Gil, 2000: 136). De um lado a totalidade, de outro os fragmentos, de um lado o sonho, de outro a

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realidade; no meio a metafísica de Campos, espaço da pluralidade e das sensações, mas também da angústia e do fracasso.

A figura de Campos, para um leitor de hoje, é de certo modo um paradigma. Campos é o século XX. As suas angústias, as suas neuroses, os seus cinismos, a sua disponibilidade para a contradição, o facto de ser essencialmente um falhado, o seu olhar alucinado e metafísico são as suas insígnias. E, vistas no negativo, a sua grandeza (Tabucchi, 1984: 50).

Paradigma do século XX! Que bela imagem! Como põe a nu os pólos irreconciliáveis que correram paralelamente ao longo do século! De um lado os totalitarismos políticos com sua lógica autoritária e excludente, titânica em sua natureza heróica, de outro o afloramento do inconsciente, a valorização surrealista dos sonhos; de um lado ciência e tecnologia contagiadas pelo espírito progressista do positivismo, de outro as revoluções epistemológicas da Física, tanto de Einstein quanto de Schröedinger, e a revalorização da mitologia; enfim, de um lado o declínio do instituído, de outro a força nascente e germinadora do instituinte. Poucos foram, no âmbito da arte, os que souberam operar a coincidentia oppositorum, harmonizando os contrários em suas obras e antecipando o ressurgimento de Hermes, cujos mitemas só se tornam socialmente visíveis com a pós-modernidade (Durand, 1992). Exceção feita a Proust, Joyce e Pessoa, entre essas antenas da raça, que visionariamente delinearam uma nova epistemologia, cuja base é a complexidade, como mostra Morin, mas também trouxeram à baila novas roupagens de antigos mitos, reatualizando arquétipo ancestrais que, sem deixar de existir, foram sufocados pela civilização moderna, como dão prova C. G. Jung e G. Durand.

É por isso que se pode falar, hoje, em uma dimensão educativa em Fernando Pessoa, com seu propósito de “ser um criador de mitos” (Pessoa, 1998b: 84), dimensão que tem por base a convergência de saberes tão distintos como a mitologia, a epistemologia, a sociologia, etc. Assim, se no mestre Caeiro encontramos uma sensibilidade que educa para a pluralidade objetivada da natureza, que por sua vez objetiva a subjetividade do homem, inserindo-o numa trama complexa regida pela relação entre diferença e repetição, em Campos sua sensibilidade, embora comungue da mesma pluralidade da visão caeiriana, propõe outros desdobramentos, cujos caminhos, ainda que se destinem a dotar de sentido a existência, passam pela emotividade, realizam-se na explosão das emoções. Caeiro está no pólo da objetividade enquanto Campos no da subjetividade, “o primeiro tem seu processo de construção poética organizado através da objetivação da subjetividade, o segundo, em sentido contrário, opera a sujetivação da objetividade” (Quesado, 1976: 119);

um é o mestre, o outro, discípulo; em ambos, a sensibilidade aberta à pluralidade da experiência de existir no mundo, em constante ressignificação, mitopoiesis.

Campos filtra a percepção que tem do mundo reelaborando-o através de suas emoções, que não são simples movimentos da alma, mas a língua, a fala, os alicerces que estruturam a sua sensibilidade. Se as sensações, em Caeiro, são um duplo do pensamento; em Campos, são o duplo das emoções. Se Caeiro corrige o pensamento moderno, que pensa exclusivamente com a razão, alçando-o à sensação, cujo pensar abarca a experiência da vida e de seu sentido, vivência, Campos corrige a emoção, que a modernidade opôs à razão, incorporando-a à sensação, para mostrar que nasce junto com, senão que orienta, direciona, a razão. Como defende Maturana (1999: 51-2), “a aceitação apriorística das premissas que constituem um domínio racional pertence ao domínio da emoção e não ao domínio da razão (...) Quer dizer, todo sistema racional tem um fundamento emocional”.

A educação de Campos passa, para parafrasear Nietzsche, além do bem e do mal, pois o juízo não pertence ao domínio das emoções e sim da razão. A sua consciência de que tudo é sensação o convoca a experimentar todas as sensações, ainda que imaginariamente, ainda que esteticamente, mesmo que sejam a expressão da crueldade e da luxúria, como vislumbra na criança pervertida de sua Ode Triunfal (“E cujas filhas aos oito anos – e eu acho isto belo e amo-o! – / Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.”).

Sensação que, diferentemente de Caeiro, não corresponde às coisas como são, mas que liberta, num âmbito psicológico, o homem das correntes da moral, normas de conduta que refreiam o lado selvagem, animal, do antropos, lado que a racionalidade moderna tentou extirpar, mas que a pós-modernidade, em suas efervescências sociais, vem reabilitando (Maffesoli, 2003). Álvaro de Campos sentiu isso através das sensações e, em busca de sentir o homem em sua totalidade, sentiu, ou procurou sentir, tudo de todas as maneiras. Mas quem fala melhor sobre isso e sobre ele é Fernando, em quem tudo se passou:

Para Campos, a sensação é de fato tudo mas não necessariamente a sensação das coisas como são, e sim das coisas como são sentidas. De modo que colhe a sensação subjetivamente (...) Sentir é tudo: é lógico concluir que o melhor é sentir toda espécie de coisas em toda espécie de modos, ou, como Álvaro de Campos diz, “sentir cada coisa de todas as maneiras”. Assim, aplica-se a sentir a cidade como sente o campo, o normal como o anormal, o que é mau como o que é bom, o mórbido como o saudável (Pessoa, 1998b:130-1).

Coincidentia oppositorum que se transmuta em sensação, essa a lição alquímica de Campos. Sensação que é sinergia entre emoção e inteligência, razão sensível. “Toda a emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois se não dá nela. Toda a emoção verdadeira tem portanto uma expressão falsa. Exprimir-se é dizer o que se não sente.” (Pessoa, 1998b: 163). Mais do que um paradoxo, essa reflexão de Campos dá conta de sua estética, em que a inteligência criativa, poética, transubstancia a matéria prima obtida na experiência, a emoção, e entra em ressonância com a própria estética, heteronímica, de Pessoa, para quem

O poeta é um fingidor, Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente. (Pessoa, s/d.b: 54)

Mas que não se pense que se trate apenas de uma questão estética; Fernando não hesita em afirmar que a sensação, ou seu culto literário, o sensacionismo, apresenta “uma nova espécie de Weltanschauung” (Pessoa, 1998b: 430). Visão de mundo que, à maneira dos alquimistas, busca a transformação e a integração, a participação efetiva do homem, sua imaginação, na matéria do mundo. Assim, é preciso não esquecer que fingir é etimologicamente (fingere) o mesmo que moldar, esculpir, imaginar, inventar, produzir, criar; enfim, fingir é forjar! É trabalho alquímico de transmutação: “a alquimia prolonga e consome um velhíssimo sonho do homo faber: colaborar no aperfeiçoamento da Matéria, assegurando simultaneamente a si mesmo a própria perfeição” (Eliade, s/d.b: 133). A conclusão, nas próprias palavras de Campos, é de incontornável lucidez: “Fingir é conhecer-se.” (Pessoa, 1998b: 163)

Quero, para pensar a educação, a verdade dessa máxima como epígrafe. A ela voltarei na conclusão do capítulo, mas que o ouvido ainda ouça o reverberar de um de seus desdobramentos. Se o autoconhecimento, conhecimento centrado de si, se dá pelo fingimento, em todas as acepções que a palavra aceita, então é a pluralidade a base desse conhecimento e a heteronímia, ou o descentramento – possível e realizável por qualquer um de nós, independente da esfera em que ocorra –, a forma privilegiada de uma educação do imaginário, educação pelo mito e para uma ética plural. Ética que não exclui, mas diferencia; ética que é diferença, mas que não exclui a repetição do Mesmo; ética que não substitui a sensação, que não a sufoca, mas que abre caminhos para sua manifestação, ainda que fingida, criada, imaginada. É dessa mesma ausência de princípios categóricos e postulados axiomáticos que participa o sensacionismo.

O Sensacionismo difere de todas as atitudes literárias em ser aberto, e não restrito. Ao passo que todas as escolas literárias partem de um certo número de princípios, assentam sobre determinadas bases, o Sensacionismo não assenta sobre base nenhuma. (...) Assim, ao passo que qualquer corrente literária tem, em geral, por típico excluir as outras, o Sensacionismo tem por típico admitir as outras todas. (...) O Sensacionismo a todas aceita, com a condição de não aceitar nenhuma separadamente (Pessoa, 1998b, 434).

Mais que uma estética; uma epistemologia, afinal “compara o sensacionismo com a teosofia no sentido de que um e outra são sincréticos por admitir idéias e crenças aparentemente irreconciliáveis” (Crespo, 1988: 161). Pensemos na complexidade de Morin, na razão sensível de Maffesoli ou na mitodologia de Durand e teremos um feixe de convergências, de correspondências. Mais que conclusões; ranhuras, fendas, aberturas: contra o espírito da decadência, um reencantamento: potência do devir.

Antes de acompanharmos a trajetória de Álvaro de Campos nas imagens de sua poesia, falta explicitar que, dentre os demais, foi o heterônimo que melhor se expressou como abertura à potência do devir, ou, dito de forma menos acadêmica, o que mais mudou, o que mais se transformou ao longo da vida-obra poética. De decadente a futurista, do entusiasmo violento pelas sensações à sensação de fracasso, do sentimento de nulidade da vida à contemplação do mais alto mistério – Campos evoluiu nas circunvoluções de seus versos, de modo que é possível se falar, a partir de Teresa Rita Lopes, de duas eras, antes e depois de Caeiro, cabendo à segunda era “três grandes momentos: a do Engenheiro Sensacionista que o encontro com o Mestre Caeiro acordou (iniciaticamente) no poeta decadentista e durará até 1923, a do Engenheiro Metafísico que irá até 1931, e a do Engenheiro Aposentado até ao fim da obra-vida: 1935” (apud Pessoa, 1997: 45).

Da era anterior ao conhecimento de Caeiro, que Lopes chamou de O Poeta Decadente, destaca-se o Opiário, datado de 1914, fingidamente “no canal de Sués, a bordo” (Pessoa, 1997: 80), sobre o qual Pessoa (1998b: 97) declarou:

Quando foi da publicação de Orpheu, foi preciso, à última hora, arranjar qualquer coisa para completar o número de páginas. Sugeri então ao Sá-Carneiro que eu fizesse um poema “antigo” do Álvaro de Campos – um poema de como o Álvaro de Campos seria antes de ter conhecido Caeiro e ter caído sob a sua influência. E assim fiz o Opiário, em que tentei dar todas as tendências latentes do Álvaro de Campos, conforme haviam de ser depois reveladas, mas sem haver ainda qualquer traço de contato com o seu mestre Caeiro.

O que o trecho revela, além de confirmar o fingimento, é a completa lucidez do poeta diante de sua criação e a importância que confere a Caeiro como mestre iniciador.

Fig. 25

Falar, portanto, de uma educação a partir de Caeiro não é mera hipótese, mas constatação, como o próprio Álvaro indica: “O que o mestre Caeiro me ensinou foi a ter clareza; equilíbrio, organismo no delírio e no desvairamento, e também me ensinou a não procurar ter filosofia nenhuma, mas com alma.” (Pessoa, 1998b: 155) Álvaro de Campos não é, no entanto, como uma leitura hierarquizante poderia supor, inferior a Caeiro; o