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A partir da apresentação dos edifícios, das entrevistas com os arquitetos-incorporadores (Apêndice B, E, H) e das entrevistas com os clientes e investidor (Apêndice C, F, I, J), sistematizou-se nesta seção alguns apontamentos sobre a atuação dos arquitetos.

Embora para cada arquiteto-incorporador entrevistado o interesse pela incorporação tenha surgido de maneira diferente, os objetivos são semelhantes: obter um maior controle na produção dos edifícios, mais liberdade projetual e ganhos financeiros maiores.

A participação de cada um dos arquitetos-incorporadores nos empreendimentos foi diferente. No que diz respeito à localização dos empreendimentos, em dois dos casos, edifício Montevidéu 285 e Estúdios Capelinha, os arquitetos estiveram envolvidos desde a escolha do terreno, realizando estudos para verificar a viabilidade econômica e arquitetônica dos empreendimentos. Apenas no edifício Zider o lote já estava definido de antemão por ser de propriedade de um dos investidores.

Os corretores de imóveis interferiram na concepção dos empreendimentos sugerindo ou validando os programas definidos pelos arquitetos-incorporadores. No caso do edifício Estúdios

Capelinha a função do corretor foi diferente, já que nesse caso o arquiteto-incorporador era também corretor e proprietário de uma imobiliária.

Dos três empreendimentos, apenas um — edifício Montevidéu 285 — foi de fato incorporado e comercializado antes de sua conclusão, por volta do décimo mês de obra. Até aquele momento o empreendimento tinha sido financiado pelo próprio arquiteto e pela construtora. Nos outros dois casos os grupos de investidores foram formados para viabilizar a construção com capital próprio. Contudo, as pessoas que compunham os grupos já se conheciam e possuíam algum grau de relacionamento ou parentesco. Nesses dois casos não houve a necessidade de captação de investidores o e ado .

As estratégias projetuais adotadas pelos três arquitetos-incorporadores tem alguns pontos similares, como por exemplo a supressão de áreas comuns (salões de festa, espaço gourmet etc.) e a inclusão de áreas privativas em um maior número de unidades. As soluções usualmente adotadas pelas construtoras, que tem o costume de trabalhar com um ou dois apartamentos por andar, oferecem áreas privativas apenas para os apartamentos do térreo e da cobertura. Nos edifícios Zider e Estúdios Capelinha, os arquitetos optaram por trabalhar com mais apartamentos nos andares térreos para que existissem mais unidades com áreas privativas, além das coberturas. No edifício Montevidéu, por se tratar de uma solução com somente um apartamento por andar, apostou-se em uma varanda contornando dois lados do perímetro da unidade, bem como em uma altura de pé-direito mais generosa, criando uma terceira opção de apartamento com área privativa além do térreo e da cobertura.

As plantas dos edifícios Zider e Montevidéu 285 não trouxeram grandes inovações com relação à divisão do espaço, como foi dito pelos próprios arquitetos. Nesse sentido, o edifício Estúdios Capelinha diferenciava-se pela indeterminação espacial, permitindo, segundo o arquiteto, uma maior adaptação dos espaços as necessidades dos usuários. Uma das moradoras do edifício, embora tenha elogiado muito a ambiência do apartamento como um todo, contraria alguns pontos da fala do arquiteto. Ela argumentou que de fato é possível organizar o mobiliário de algumas maneiras diferentes como o apartamento foi projetado, sem compartimentações, porém, em função das dimensões dos ambientes, ela julga difícil separar o espaço em cômodos, sendo mais apropriado mantê-lo como está.

A tecnologia construtiva adotada nos empreendimentos não trouxe novidades. Os edifícios Estúdios Capelinha e Montevidéu 285 optaram pelo concreto armado, com estrutura independente, alegando maior disponibilidade de mão de obra, baixa especialização necessária para execução,

difusão da tecnologia e previsibilidade de custos. O edifício Zider adotou a tecnologia da alvenaria estrutural por ser de execução mais rápida e custo reduzido.

Um ponto que chamou a atenção foi o evidente domínio da LPUOS-BH pelos arquitetos- incorporadores. Embora isso possa parecer trivial, é justamente a compreensão da lei, seus mecanismos e brechas, que permite aos arquitetos-incorporadores desenvolverem estratégias que são simultaneamente projetuais e comerciais.

No edifício Zider, as áreas privativas descobertas dos apartamentos do pavimento térreo e das coberturas, ao mesmo tempo que geram benefícios comerciais por serem áreas que agregam valor as unidades, não são computadas no cálculo de áreas exigido pela LPUOS-BH. No edifício Estúdios Capelinha, além das áreas privativas, as unidades tem pés-direitos duplos ou triplos que permitem a ampliação dos espaços internos por meio de instalação posterior de pisos intermediários e que também não são computados no cálculo de áreas. Além disso, o arquiteto instala a bancada dos banheiros em uma protuberância que avança 25 centímetros da fachada lateral, aproveitando-se de outra especificidade da lei que permite esse avanço além dos afastamentos. No edifício Montevidéu 285, os pés-direitos mais altos seguem a mesma lógica e as varandas, embora não sejam totalmente descontadas nos cálculos de áreas, tem parte de sua superfície não computada.

Todavia, apesar dos artifícios legais explorados pelos arquitetos, a LPUOS-BH parece restringir uma série de escolhas dos incorporadores limitando seu escopo de atuação. Na fala dos arquitetos- incorporadores vê-se que a LPUOS-BH é um pano de fundo que determina desde a escolha do lote à divisão dos cômodos das unidades, sendo portanto relevante sua investigação mais aprofundada realizada no próximo capítulo.

4. LEGISLAÇÃO URBANA DE BELO HORIZONTE: EVOLUÇÃO HISTÓRICA E PRINCIPAIS