• Sonuç bulunamadı

C. İşletme Adının Korunması İçin Türk Ticaret Kanunu Kapsamında

3. İhtiyati Tedbir

Não obstante, bem ou mal sucedidas, as relações assimétricas entre cavalos e pessoas tendiam a ser alvo de especulações-explicações da parte dos terapeutas, e eram parte estruturante do circuito da montaria. Creio estar em questão um tipo de conhecimento corporificado utilizado pelos atores como guia para a leitura do estado interno alheio, como suas intenções e pensamentos (Murray, 2007).

Vejamos abaixo alguns sentidos dados aos movimentos corporais de cavalos, e de que modo terapeutas os tomavam. Antes, porém, de prosseguir com a análise dos sinais, é válido salientar que não se pretende aqui estabelecer uma polarização acerca do modelo das montarias, e distinguir

ao praticante.

114

Ao sair do cavalo, o praticante caminhou sozinho, na direção contrária à equipe. Sua mãe disse que ele estava

fazendo graça; porque ele foi condicionado e estava acostumado a tê-la por perto, ele não iria longe nem sairia correndo.

115

165 aquilo que funciona ou não. Não é meu objetivo investigar aquilo que funciona em termos de “eficácia terapêutica”, mas tão somente observar o modo como os próprios interlocutores tematizam as diferentes ações de cavalos e praticantes que irrompem durante as montarias.

No que se refere às especulações sobre os cavalos, alguns de seus movimentos e/ou alterações de seu comportamento no fluxo da sessão levavam os terapeutas a acionarem algumas explicações sobre o estado interno dos cavalos. Neste sentido, alguns movimentos executados pelos cavalos em certos momentos eram tomados como sinais, e abriam a possibilidade de acessar sua subjetividade e estado interno. Retomemos a sessão de avaliação dos cavalos Sol e Simba que descrevi anteriormente. No momento em que Simba havia parado de andar na frente dos avestruzes, foi dito que ele estava assustado; depois, na volta para o galpão, ao passar pelas avestruzes novamente, mas, desta vez, sem mais interromper ou acelerar seu passo na volta, o cavalo foi considerado mais “tranquilo, embora não totalmente”. A égua Sol, por sua vez, abaixou suas orelhas, porque não gostava muito de carinho. Ela não teria entendido quando a terapeuta e o praticante jogaram argolas no ar. E não se assustou ao receber um tapinha em suas ancas, mas sim quando terapeuta e praticante jogavam a bola. Em certo momento, quando a égua parou de caminhar, como disse Marina, foi porque ela quis me ver. E, ainda, considerava-se que Sol tinha muita energia porque ela saltava muito116.

Outros sentidos poderiam ser dados aos movimentos e ações dos cavalos, em termos de suas vontades físico-corporais. Quando o cavalo se inclinou em direção ao pote de ração, que estava nas mãos de Gabriel, Marina disse: “O que o cavalo mais quer é comida”. E, certa vez, antes de iniciarem a sessão de treino dentro do redondel, o cavalo começou a cavar a terra. De acordo com a leitura da terapeuta, havia duas razões para o animal estar fazendo isso: ou ele estava buscando

116

Talvez a energia creditada aos cavalos possa ser relacionada à noção de eletricidade, como princípio vital de seres vivos, que já foi central para a compreensão da vitalidade de outros animais (Kim, 2013, p. 450; Shukin, 2009, p.131; Rennesson et al, 2012).

166

comida, ou iria se jogar e rolar no chão.

E, ainda, se o cavalo para de caminhar, é porque ele quer urinar ou defecar117. Se, além de parar, ele também movimentar sua cabeça, para cima e para baixo, é porque quer coçar o rosto, a cabeça ou o pescoço. Em uma destas ocasiões, terapeutas disseram “a gente tem que emprestar a nossa mão, porque ele não tem mão para se coçar”. Aconteceu também de terapeutas caminharem até a frente do cavalo, de modo que o cavalo esfregasse seu rosto contra o corpo deles. Nestas circunstâncias, podemos pensar que os humanos vêm a desempenhar, em certa medida, papel complementar para a satisfação das necessidades do cavalo. Pergunto: seria esta uma ocasião de hipotética (e efêmera) reversão de papéis entre humanos (aqueles que comandam, montam e puxam) e cavalos (aqueles que carregam, deslocam e obedecem)? A relação de dependência, assim como outras mencionadas, como a de que na Hípica do Damha os cavalos conseguem comida da

melhor qualidade, um pasto grande e são muito bem tratados e medicados, ao passo que, se

estivessem soltos (e aqui por “solto”, imagino tratar-se de uma ideia de que os cavalos, fora da equoterapia e da Hípica, estariam livres numa natureza entendida como espaço desprovido de quaisquer barreiras humanas), talvez não encontrassem as mesmas condições de conforto que havia na Hípica, além de que poderiam ser picados por outros animais, eram as justificavas usadas pelos funcionários (terapeutas, auxiliares-guia e demais trabalhadores do local).

Não obstante, terapeutas frequentemente reconheciam sinais de dor ou mal-estar nos cavalos. Numa sessão, a terapeuta disse achar que Dominó estava ruim da barriga, e que por isso ele ora acelerava, ora andava devagar. Além destes, outros sentidos eram atribuídos aos cavalos e sua relação com o entorno, por exemplo: se ele empaca pode ser porque está com medo ou se assustou com veículos, objetos (como um saco plástico preto balançando ao vento) ou animais no entorno (gavião, pavão, vaca, avestruz). Por outro lado, se o cavalo caminha em direção aos outros animais,

167 pode ser índice de curiosidade ou interesse; se eles se aproximam, é porque querem paquerar e

conversar. E pode ser até que eles adorem o passeio. Ou, então, se incomodem com as condições

climáticas; Tic-Tac, por exemplo, se incomodava com o vento porque tinha rinite e espirrava com frequência; já Chocolate, detestava que encostassem em sua garupa: foi dito que, uma vez, ele se

estapeou inteiro e saltou quando o praticante encostou neste ponto de seu corpo. Assim, alguns

sinais podem mostrar que o cavalo está bravo, como a orelha que, quando murcha, é sinal de

braveza ou de algum incômodo. Nestas circunstâncias, o cavalo tende a acelerar, ficar agitado e a

se assustar com facilidade. O bufar e o mexer a garupa também são sinais de que o cavalo está em

condições de perigo, e por isso pode querer sair correndo.

Numa sessão, o cavalo Dominó parou e olhou para os lados, na pista. A terapeuta perguntou ao praticante: “O que será que ele viu? Um fantasma, só se for”. E depois acrescentou: “Lembra que o ‘Domi’ dava uns pulinhos antes, quando via alguma coisa?”. Já em outra ocasião, enquanto caminhávamos pela pista do bosquinho, o cavalo rodopiou porque assustou-se com um barulho, que nada mais era do que o barulho da folha seca em que Lúcia pisou, e, porque estava fora de seu campo de visão, o cavalo ficou sem saber de onde vinha o barulho.

Em casos como os expostos acima, as especulações sobre os cavalos oscilam entre evocar sua individualidade, preferências e antipatias, lidas a partir da experiência pessoal, contínua e cotidiana que os terapeutas têm com o animal, e entre remeter a uma natureza genérica e própria da espécie cavalo (Equus caballus), com explicações de fundo naturalista, apoiadas no conhecimento da biologia e da etologia.

Algumas interpretações dos terapeutas, no entanto, carregavam certa imprecisão quanto às causas dos comportamentos dos cavalos. Diversas vezes os terapeutas não souberam explicar o porquê de o cavalo se irritar. Numa ocasião, a terapeuta Marina disse: “Vai saber...Às vezes era porque dormiu mal [no pasto]”. Um dia, até mesmo Vagalhão (o cavalo que era estável e não se

168

alterava) estava, naquela ocasião, surpreendentemente nervoso e agitado, porque algum bicho

entrou no piquete e assustou todo o mundo, deixando os cavalos histéricos (nesta mesma ocasião, de acordo com Marina, uma égua foi encontrada morta no pasto, o que levantara a suspeita de que uma cobra havia invadido o local dos piquetes).

No pasto, chamado também de casa dos cavalos, pode ser que os cavalos distribuam coices e até mesmo disputem a comida uns dos outros. Dois a dois, eles se cumprimentam e podem querer

mordiscar o pescoço um do outro, brincando e se saudando. Certa vez, enquanto caminhávamos

para o pasto (eu, a terapeuta, o praticante e o cavalo), a terapeuta disse que o espirro do cavalo não era uma forma de comunicação, mas seu relinchar poderia ser. De acordo com ela, na comunicação

entre os cavalos, contava muito mais o que o cavalo fazia com seu corpo do que o som que ele

emitia.

Os sinais, além de interpretados como expressão de estados internos, são também associados a certas intencionalidades, como vimos quando seus movimentos e ações são tomados como expressão de sua vontade própria, associada à sua capacidade perceptiva em relação ao entorno ou, ainda, à leitura dos próprios cavalos em relação às vontades de outros seres. Daí que o cavalo pode antecipar algumas ações e situações, como já saber que vai ter de subir a ladeira, ou que terá de dar outra volta na pista, e por isso pode querer cortar caminho; ou, ainda, ele pode diminuir seu passo se já tiver visto que a “turma da APAE” está à sua espera (praticantes cujas sessões são encaradas como mais cansativas). Trata-se, portanto, de cavalos que têm uma percepção sofisticada das coisas, tarefas, pessoas, ambiente e também de seus entrelaçamentos.

Assim, é a partir do reconhecimento de uma série de intencionalidades pertencentes aos cavalos da equoterapia que os terapeutas buscam prever suas ações118. Se o cavalo parasse de

caminhar, era possível também que, além de querer urinar, ele estivesse com preguiça e frescura,

118 As bases para a interpretação, conforme disse a terapeuta, vêm do estudo de livros da área, além da experiência

169 ou não queria trabalhar. Ou então, se ele empacasse, era porque estava apenas enrolando e

fingindo119 querer urinar, e até mesmo simulando sentir dor.

A respeito da comunicação e da troca de sinais entre humanos e não-humanos, Eduardo Kohn (2013) traz importantes contribuições, as quais merecem ser discutidas aqui com mais pausa. O conceito de “ecosemiose”, elaborado para tratar da cosmologia do povo Ávila Runa, habitantes da Amazônia equatoriana, ilustra a ideia de que tanto humanos como não-humanos possuem capacidades de produção e interpretação de signos sobre o ambiente em que vivem (Kohn, 2013). Assim como nos parece, encontramos algumas similaridades nas dinâmicas relacionais que tomam parte entre cavalos e pessoas na Hípica. Vimos acima que os terapeutas levam em conta os fluxos comunicativos que os cavalos constituem entre si, com outros animais e com as pessoas. E, se estes cavalos são reconhecidos como sujeitos que observam, conhecem e apreendem o mundo, eles são, portanto, “selves” (Kohn, 2013). Além disto, uma vez que os cavalos percebem seu entorno, preveem situações e fingem outras, os cavalos, além de representados, são também capazes de representar os outros.

Segundo Kohn, o conhecimento da perspectiva de outro ser oferece a possibilidade de prever seus comportamentos. Por isso os sinais são também formas de representação que se referem a algo que vai ocorrer no futuro (Kohn, 2013). Esta capacidade de adentrar o ponto de vista dos animais e prever suas ações futuras (tal como o bufar do cavalo Simba, que apontava para a possibilidade de ele sair correndo ao se sentir ameaçado), é também o que permite aos terapeutas

minimizar os riscos implicados na sessão, atentando para eventuais reações dos cavalos à presença

de veículos, objetos e animais no entorno.

119 Uma vez que os cavalos podem fingir, os cavalos aparentam ter juízo sobre seus atos, tema que será discutido no

170