A observação da história permite perceber que as distintas formas de organização social influenciaram diretamente em mudanças ocorridas no trabalho e na percepção que se tem a respeito deste. O trabalho se encontra na base de todas as sociedades, mas, assumiu diferentes conotações a depender do período histórico no qual se desenvolveu, em razão das diversas formas de organizações da sociedade em diferentes épocas.
A seguir, serão apresentadas as mudanças ocorridas nos diferentes períodos da história. Sob a égide do capitalismo, serão destacados os modos de organização da produção, tais como o taylorismo e o fordismo. Ademais, a crise do modelo fordista também terá destaque, justamente por ter dado ensejo à acumulação flexível e suas consequentes mudanças, dentre elas, a precarização do mercado de trabalho, que resultou na condução de elevado contingente de indivíduos para atividades como a catação de materiais recicláveis.
Nos primórdios da sociedade primitiva, o trabalho era desenvolvido para fins de suprir as necessidades dos grupos humanos, sendo encarado como
parte da totalidade das atividades dessa formação social, distanciando-se do trabalho dotado de valor econômico. Na sociedade antiga, subsistiu o trabalho escravo, de forma que os indivíduos escravizados pertenciam ao seu senhor, servindo à produção de bens e de serviços, mas também configurando próprio produto a ser consumido no mercado de trocas (DIAS, 2011). Assim, o trabalho, com o passar dos anos, distanciou-se da sua forma originária, tornando-se, no geral, algo alheio aos mais ricos e atividade a ser realizada pelos menos abastados.
Durante a Idade Média, a terra era o principal meio de produção e, em torno dela, davam-se as relações sociais entre servos e nobres, de forma que o modo de produção feudal se caracterizava pela relação de subordinação entre os vassalos e os suseranos e entre servos e os senhores feudais. Destaca-se também, nesse tempo histórico, o trabalho exercido no interior das corporações de ofício, correspondentes a associações de trabalhadores com ordenações rígidas e estrutura de controle do trabalho do aprendiz por parte do mestre de cada corporação. Por volta do século XVI, sob as ruínas da sociedade feudal, surge o modo de produção capitalista. Cavalcante, Albuquerque e Jesus (2008, p. 23) expõem:
Se, na sociedade primitiva, o trabalho não era visto como uma categoria isolada, mas como algo constituinte do ser cultural do homem, misturando-se com suas crenças e tradições, na sociedade antiga e medieval ele vai perdendo pouco a pouco esse sentido positivo, passando a significar castigo, tortura, algo desonroso, que não se coaduna com a existência de um cidadão, já que ele deveria dedicar-se às atividades ligadas ao pensar, à palavra, à política, ao ócio e ao lazer. Com a Idade Moderna e a emergência do Capitalismo, forma-se aos poucos uma nova ideologia do trabalho em que este será enfocado como gerador de riquezas e formador da identidade dos homens, tornando-se, portanto, uma dimensão integradora e essencial na constituição do ser humano.
Entretanto, na sociedade capitalista, ao mesmo tempo em que o labor se constitui a finalidade do indivíduo, a força de trabalho se transforma em mercadoria. Desde a sua gênese, o capitalismo se reproduz por meio de seu caráter destrutivo em relação ao trabalho e à natureza (ANTUNES, 2011). Assim, há a desrealização do ser social, pois o produto de seu trabalho aparece perante o trabalhador como algo estranho a ele e apropriado por outro.
Para Antunes (1998, p. 125) “significa dizer que, sob o capitalismo, o trabalhador repudia o trabalho; não se satisfaz, mas se degrada; não se reconhece, mas se nega”.
Dessa forma, o trabalho será assalariado e transformado em mercadoria. O trabalhador, por sua vez, se converte em força de trabalho5, de forma que as características inerentes ao modo de produção capitalista inserem-se nas relações de trabalho. A fim de transformar dinheiro em capital, o proprietário dos meios de produção necessita adquirir força de trabalho, a qual utiliza em seu favor, de forma que, ao final do processo de produção, ele tenha mais dinheiro do que possuía. Existem, portanto, duas classes distintas, a burguesia, que detém os meios de produção, e o proletariado, despojado desses meios e obrigado a vender sua força de trabalho em prol de sua sobrevivência.
No contexto capitalista, a organização da sociedade gira em torno dessa relação desigual e da compra da força de trabalho, convertida em mercadoria, para a geração da mais valia. Em troca da venda de sua força de trabalho, o trabalhador obtém dinheiro, enquanto meio de circulação, o que possibilita a obtenção de valores de uso – mercadorias necessárias para a manutenção da sua capacidade de trabalho e da sua sobrevivência. Entretanto, sob esse novo sistema de produção, essa troca não é justa, sendo o trabalhador alienado do processo produtivo e utilizado como meio para obtenção de lucro para a burguesia (MARX, 1975).
Em Marx, ao mesmo tempo em que o trabalho distingue o homem do animal, tornando possível àquele se realizar enquanto um ser livre (MARX e ENGELS, 2002), ele também, na sociedade capitalista, é o elemento que subordina o homem ao capital, tornando-o estranho ao que produz (MARX, 1974). De tal modo, na especificidade do contexto capitalista, a busca da realização humana é, portanto, extremamente injusta e, por vezes, penosa, de maneira que “(...) o trabalho que estrutura o capital desestrutura o ser social” (ANTUNES, 2009, p. 261).
_______________________________________________________________
5
“Por força de trabalho ou capacidade de trabalho compreendemos o conjunto das faculdades físicas e mentais, existentes no corpo e na personalidade viva de um ser humano, as quais ele põe em ação toda a vez que produz valores-de-uso de qualquer espécie.” (MARX, 1975, p.187).
Também no contexto capitalista, com o propósito de elevar os níveis de produtividade e preservar os interesses do capital, foram criadas técnicas organizacionais. A seguir, serão elencadas algumas dessas formas de organização da produção e as mudanças ocorridas no mercado de trabalho e na atuação estatal a partir da crise do capital de 1970.
2.2 A CRISE DO FORDISMO E A REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA: