1. HİLAFET İMAMET MESELESİ
1.6. Hz Ali’nin Vefatından Sonra Hilafet
1.6.2. Hz Muaviye’nin Halifeliği
Com intuito de esboçar um breve panorama da mentalidade do campo psiquiátrico no Brasil, lança se mão aqui do trabalho de Jurandir Freire Costa que, em História da Psiquiatria no Brasil, converge seu olhar analítico para o caso paradigmático do pensamento da Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM) nos anos 20 e 30. Mediante tal recorte, o autor demonstra como expectativas normativas socioculturais podem ser responsáveis por fornecer a base para a solidificação de algumas práticas no campo da psiquiatria. Acontece que, à medida que adota a ideia de prevenção na prática psiquiátrica, a Liga faz com que a psiquiatria se transforme num universo de polemização dos motivos do atraso social brasileiro. Cenário no qual ocorre uma união perfeita entre o autoritarismo normativo do discurso psiquiátrico e políticas como a de "saneamento moral" e aprimoramento da raça, como a eugenia e a crítica à miscigenação. Com essa reflexão, Costa procura expor enfaticamente a ligação que há entre o tipo de tratamento psiquiátrico e os modelos culturais de conduta e valoração.
Como pontua o autor, ao analisar a LBHM, o psiquiatra corre grandes riscos quando tende a se imaginar apenas homem de ciência esquecendo se de que “é homem de seu tempo”, desconhecendo a “história de suas contingências” (COSTA, 2007, p. 19). É necessário estar se atento à cientificidade e não cientificidade das noções, ao que é exigência da cultura e não da teoria psiquiátrica, tal como foi o caso da prevenção eugênica (IBIDEM, p. 22). A loucura resistia à psiquiatria e “a prevenção eugênica foi o esforço desesperado do psiquiatra para quebrar essa resistência” (IBIDEM, p. 23). A Liga seria o exemplo do condicionamento histórico das concepções psiquiátricas (IBIDEM, p. 27).
Houve momentos em que, no âmbito da psiquiatria, a relação de saber cedeu à relação de poder. Momento esse em que, em vez de conhecimento, a
psiquiatria tornou se um campo de batalha: a questão não era mais possuir um saber sobre a doença mental89, mas dominar a qualquer custo a loucura. (COSTA, 2007, p. 23). A psiquiatria da Liga foi assim e a psiquiatria atual parece assemelhar se a esse modelo, na medida em que “a idéia de prevenção impregna o discurso psiquiátrico moderno”. Por isso é importante frisar como a psiquiatria, por vezes, pode estar sujeita às exigências da cultura (IBIDEM).
A verdade é que toda psiquiatria está inevitavelmente comprometida com o social, na medida em que existe uma “determinação histórica das nossas formas de pensar ou lidar com a loucura”, ou seja, é preciso ter a convicção de que “não há conhecimento sem interesse” (IBIDEM, p. 28). Está se falando claramente da importância dos contextos históricos na produção de teorias (IBIDEM, p. 30), no caso da psiquiatria preventiva dos anos 70 e a psiquiatria da Liga dos anos 30, o comprometimento com finalidades político sociais. Tanto uma como a outra fracassaram devido a tal comprometimento e em função da crença na unidade do saber psiquiátrico
Valendo se da frouxa analogia existente entre os fundamentos do conhecimento psiquiátrico e a pretensa lógica universal que orienta a investigação científica – leia se ciências físico químicas , os psiquiatras acreditaram encontrar a síntese teórico prática de que necessitavam, pirateando os modelos de prevenção da medicina orgânica ou hipertrofiadas noções como a de indivíduo enquanto unidade biopsicossocial (IBIDEM, p. 31, destaque do autor).
Para Costa (2007, p. 31) é um engodo pensar que existe unidade do conhecimento psiquiátrico, assim como “não existe unidade da ciência ou da lógica científica”. Essa pretensa unidade pode ser caracterizada quando a psiquiatria brasileira, a partir dos anos 30, definiu os parâmetros do saber psiquiátrico moderno em torno de três modalidades de discurso: o organicista, o preventivista, e o psicoterápico. Eles “foram criados e legitimados em função de estratégias de poder/saber diversas: reconhecimento científico, prestígio político profissional;
89
Szasz (1979, p. 12, 14) considera o conceito de doença mental “vago, caprichoso, e em geral insatisfatório”. Não obstante tenha sido útil no século XIX, atualmente esse conceito é “cientificamente inútil e socialmente prejudicial”. Ainda que o autor sustente a ideia de que a doença mental é um mito, ele afirma não ser sua intenção “desmascarar a psiquiatria” como fazem muitos estudiosos. Ele acredita que a psiquiatria possa ser uma ciência, mas não admite que as pessoas devam ser recuperadas de uma “doença”, ao contrário necessitam ser orientadas a “se conhecerem a si próprias, aos outros, e à vida”.
interesses corporativos, econômicos, etc.” (COSTA, 2007, p. 31). Com isso, segundo o autor, pode se perceber que o conhecimento científico é, na teia institucional, um entre tantos elementos que dá suporte ao pensamento psiquiátrico que podem ser responsabilizados pelas percepções históricas e contingentes da loucura ou da saúde/doença mental (IBIDEM).
No entanto, a psiquiatria não pode ser resumida ou definida a partir de algumas noções, pois cada uma de suas práticas é concebida para dar conta de um aspecto da vida psíquica. Não se pode, portanto, subordinar “a totalidade das práticas envolvidas no campo psiquiátrico a um único critério normativo de cientificidade, a uma única teoria e, ainda menos, a duas ou três noções tiradas da algibeira” (IBIDEM, p. 32).
Apesar de todas as críticas passíveis de serem feitas a um saber psiquiátrico que se encontra preso a exigências culturais ou a finalidades político sociais, não é correto que se atenha a uma responsabilidade teórico técnica, culpabilizando, como diria Costa, “o elo mais fraco da cadeia, deixando impunes os interesses dos industriais da doença e seus representantes nos aparelhos estatais de gestão da loucura” (IBIDEM, p. 36). Não é possível culpar apenas técnicos, assim como não é possível culpar apenas o Estado. Há uma cumplicidade científica da psiquiatria e Costa irá indicar isso partindo do caso da Liga com as razões de Estado (IBIDEM).
No Brasil, os doentes mentais, especificamente os habitantes do Rio de Janeiro até a segunda metade do século XIX, não eram beneficiados com nenhuma assistência médica específica. Normalmente, quando não eram despejados nas prisões por vagabundagem ou perturbação da ordem pública, “os loucos erravam pelas ruas ou eram encarcerados nas celas especiais dos hospitais gerais da Santa Casa de Misericórdia” (IBIDEM, p. 39). A partir de 1830 alguns médicos começam a demandar a construção de um hospício para alienados e apenas em 1852 é inaugurado o primeiro hospital psiquiátrico brasileiro, o qual teve o decreto de sua fundação assinado pelo imperador Pedro II. Nesse momento o hospício era confiado aos religiosos da Santa Casa de Misericórdia, somente com a instauração da República em 1890 ele é separado da administração da Santa Casa e coloca se sob a tutela do Estado (IBIDEM, p. 40).
Especificamente em 1912, a psiquiatria passará a ser uma especialidade médica autônoma, e a partir de então ocorre um aumento considerável de locais destinados aos doentes mentais. Graças a Juliano Moreira90, será inaugurada uma psiquiatria “cujos fundamentos teóricos, práticos e institucionais constituíram um sistema psiquiátrico coerente” (COSTA, 2007, p. 42), visto que até esse momento ocorria apenas a reprodução do discurso teórico da psiquiatria francesa e, também, o cumprimento das regras ditadas por leigos ou religiosos que administravam os hospitais (IBIDEM).
Apesar da revolução que advém com Juliano Moreira e seus seguidores reconhecimento jurídico da psiquiatria, desenvolvimento da pesquisa psiquiátrica, consolidação dos mecanismos institucionais de formação de outros psiquiatras (internato psiquiátrico) evidencia se “uma extrema vulnerabilidade diante dos preconceitos culturais da época” (IBIDEM, p. 42). Associado a isso está o fato de não conseguirem delimitar o campo próprio à psiquiatria, o que justamente induzia a que esses profissionais confundissem problemas psiquiátricos e problemas culturais. Nesse tipo de raciocínio, o psíquico e o cultural explicavam se “pela hipótese de uma causalidade biológica que, por sua vez, justificava a intervenção médica em todos os níveis da sociedade” (IBIDEM).
Para Juliano Moreira, por exemplo, a doença mental, a situação social dos imigrantes recém chegados ao Brasil ou a constituição étnica do povo brasileiro relevavam do mesmo sistema de interpretação biologizante proposta pela psiquiatria organicista alemã. (IBIDEM, destaque do autor).
90Juliano Moreira (1873 1933) é normalmente designado como fundador da disciplina psiquiátrica no
Brasil. Moreira procurou fazer parte de linhas de pensamento – um exemplo seria a escola alemã de Kraepelin que naquele momento (primeiras décadas do século XX) eram o modelo de modernização tanto no âmbito teórico da psiquiatria quanto na prática asilar. Ao mesmo tempo em que se baseava em pressupostos organicistas, Moreira divergia da ideia corrente na época e defendida pela maior parte de seus colegas quanto à atribuição da degeneração do povo brasileiro à mestiçagem e quanto à questão de que existiriam doenças mentais próprias dos climas tropicais. Em consonância com a medicina das primeiras décadas do século XX, que buscava dirigir o processo de modernização e sanitarização do País, Moreira tinha como pressuposto que o papel primordial da psiquiatria era promover a profilaxia, a higiene mental e a eugenia. Assim ele desenvolverá seu trabalho em prol de uma ciência psiquiátrica brasileira a serviço da nação. Mediante ações como higiene, educação e saneamento, ele acreditava ser possível tanto recuperar quanto prevenir doenças nos brasileiros. Ainda que possa ser alvo de críticas por semelhante projeto, não é possível deixar de creditar a Moreira uma grande inovação no campo psiquiátrico, visto que entre outras coisas foi ele o defensor da reformulação da assistência psiquiátrica pública e da promulgação da primeira lei de assistência a alienados no Brasil (1903).
Tal biologicismo tinha fundamentos ideológicos e não científicos. Os eugenistas procuravam justificar as suas ações associando as ao pensamento psiquiátrico organicista (COSTA, 2007, p. 56). Portanto, ideologia eugênica e biologicismo organicista impediam que os psiquiatras da época estivessem atentos a outras variáveis importantes que compõem e determinam a demanda de atenção médico psiquiátrica (IBIDEM, p. 132).
É necessário cotejar essas reflexões feitas por Costa (2007) com a psiquiatria atual, mediante a situação da prática psiquiátrica compartilhada no IPQ do HCFMUSP pelos profissionais de saúde mental. A realidade descrita por Costa estende se aos dias de hoje; no entanto, até onde ela é contestada é algo que se deve tentar elucidar ao longo deste trabalho.