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1. HİLAFET İMAMET MESELESİ

2.5. Şia’nın Fırkaları

2.5.4 Gulat-ı Şia

O serviço religioso católico e o serviço religioso evangélico compõem a capelania hospitalar e oficialmente têm a autorização para enquadrar o que é permitido (“o que faz bem”) e o que é proibido (“o que faz mal”). Afirma se, normalmente, que qualquer grupo pode atender o seu paciente, o que se proíbe é “fazer trabalho direto dentro” (AR1) do HCFMUSP.

Qualquer grupo religioso tem a permissão de entrar porque todo paciente tem direito, se quiser, de receber o seu representante religioso. Porém, pra fazer trabalho aqui hoje só quem tem permissão... O trabalho que eu falo é você ter uma atividade aqui, você visitar todos os leitos porque quem vem atender o paciente vem atender só aquele paciente especificamente. Hoje, pela determinação da superintendência, é o serviço religioso católico e evangélico. Agora, se uma comunidade judaica ou islamita, aí teria que fazer um processo diferente porque o pessoal tem que se enquadrar dentro das normas que existem. Porém, se a pessoa é judeu, ele não vai querer seguir as mesmas normas de católicos ou evangélicos. [...] Nós temos dois serviços cristãos. Na época achou 209

Segundo Bourdieu (1999, p. 73), “ao que tudo indica, a estrutura das relações entre o campo do poder e o campo religioso comanda a configuração da estrutura das relações constitutivas do campo religioso”.

se por bem que se algum outro serviço de uma outra denominação não cristã quisesse poderia fazer parte, mas na época falou: “Bom, vamos deixar em aberto. Se alguém procurar, tudo bem. Se ninguém procurar, vamos deixar”. (AR1).

E, assim, amparados no argumento de “não confundir a cabeça do paciente” e de que tudo passa “pela determinação da superintendência”, os especialistas religiosos restringem a participação de outros grupos atrelando a à questão da competência e da necessidade. Mesmo a participação residual de pentecostais e a predominância dos históricos no serviço de capelania são justificadas em função – além do argumento de que o movimento neopentecostal não existia na época da criação do serviço religioso – da falta de formação desses grupos, os quais não possuem “qualquer estudo ou formação teológica e filosófica”. (AR3). Dessa forma, eles cerram fileiras, ainda que não assumidamente, contra a ideia de uma igualdade de oportunidades para todos os grupos, defendida no contexto de diversidade religiosa. Ao contrário, acreditam que a oportunidade de participação deve ser muito bem avaliada em cada contexto e não necessariamente estar vinculada à máxima “Se fizer para um vai ter que fazer para todo mundo!” (AR1). “Se tiver um capelão padre então tem que contratar tudo porque todo mundo tem! Você contrata todo médico que vem aqui porque tem CRM ou você contrata porque o cara tem competência e o hospital tem necessidade?” [...] (AR1).

Segundo Bourdieu (1999), a estrutura social é vista como um sistema hierarquizado de poder e privilégio, tanto no que concerne às relações materiais como às relações simbólicas. Por isso, é necessário, para entender a dinâmica do campo religioso, levar se em conta uma série de interesses que estão por trás da mensagem religiosa e dos seus portadores, os quais, no final das contas, cumprem o papel de defensores de determinados grupos.

Em vista do monopólio, a religião assume uma função ideológica, a qual determinará o que merece ou não ser discutido, colocando em prática “a absolutização do relativo e a legitimação do arbitrário” (BOURDIEU, 1999, p. 46), legitimando assim determinadas posições sociais existentes na sociedade e reproduzindo a estrutura das relações econômicas e sociais. É que a religião, ao cumprir funções sociais, não apenas dá respostas às aflições existenciais do indivíduo (teodiceia do sofrimento), mas, além disso, fornece a ele justificativas quanto à posição social que ele ocupa (sociodiceia).

Tendo em vista uma distribuição desigual de capital religioso, os grupos que estão no topo dessa hierarquia encontram se em condições de se impor, enquanto detentores de um maior capital, na concorrência pelo monopólio da gestão dos bens de salvação, é uma verdadeira competição pela legitimidade religiosa. Assim, a luta pelo monopólio inicialmente gira em torno da oposição entre Igreja e a seita, com a Igreja constantemente tentando barrar a entrada de novas empresas de salvação. A Igreja possui um capital de graça institucional, que faz com que os sacerdotes tenham a sua autoridade legitimada211em contraposição ao profeta e ao feiticeiro.

A despeito disso, o profeta consegue realizar um acúmulo inicial de capital religioso, mediante a conquista de uma autoridade que é instável, e coloca em questão o monopólio dos instrumentos de salvação. E o feiticeiro, o qual é sustentado pelas classes inferiores, impõe à Igreja a ritualização das práticas religiosas. Essas contestações fazem com que a Igreja seja obrigada a fazer concessões (obviamente que com intuito de eliminar tanto o profeta quanto o feiticeiro) no sentido de acomodações que no final das contas tenderão a absorver essas formas de religiosidades de modo a não reconhecê las. É que somente uma burocratização da religião pode manter o capital religioso de forma a dar lhe um caráter contínuo e duradouro e reproduzi lo, o que nem a profecia nem a feitiçaria conseguem fazer.

Outra oposição que se desenvolve paralelamente àquela entre Igreja e profeta é a oposição dentro da própria Igreja entre a ortodoxia e a heresia; é luta por poder que se dá não só externamente em relação aos leigos e ao profeta e feiticeiro, bem como dentro do próprio subcampo teológico entre os especialistas. Começam a se desenvolver conflitos pela conquista da autoridade espiritual212.

211 No campo religioso, Bourdieu (1999, p. 61) fala frequentemente de uma conservação do

monopólio do poder simbólico que só pode ocorrer se a instituição que o detém tenha a seguinte aptidão: “Fazer reconhecer, por parte daqueles que dela estão excluídos, a legitimidade de sua exclusão (ou seja, fazendo com que desconheçam o arbitrário da monopolização de um poder e de uma competência acessíveis a qualquer arrivista)”. Existem, consequentemente, nesse cenário de luta por monopólio e poder, as contraideologias, levadas a cabo pelo profeta e o feiticeiro, e até mesmo pelos sacerdotes heréticos, que visam contestar esse monopólio, mas que no final das contas, segundo o autor, quando se legitimam, assumem a mesma função de dominação e atraem, assim, novas contestações. E é segundo essa lógica que o campo religioso movimenta se e mantém se vivo, é essa luta por poder que é o motor e as engrenagens responsáveis pela dinâmica desse campo.

212

Os cismas clericais se transformam em heresias ao defenderem a igualdade de qualificações religiosas.

O discurso das autoridades religiosas no HCFMUSP, mormente, apresenta se como favorável à presença de outros grupos, mas sem representação no CARE, o qual tem como proposta “servir de apoio ou de ponte para determinadas religiões que não estão presentes no comitê”, mas que são referidas nas necessidades espirituais dos pacientes. A institucionalização conduziria a presença de uma miríade de religiões. Isso possivelmente colocaria em risco a autonomia e o monopólio dos cultos cristãos, já que nesse espaço – onde é proibida a disputa religiosa pelo paciente (como apregoado pelas autoridades religiosas aí presentes) – haveria que se concorrer com outros tipos de propostas religiosas. Assim, outros grupos não têm livre acesso, a sua entrada é possível, mas “depende da liberação do CARE, que é o grupo de assistência religiosa do hospital” (AR3).

Eu acho normal, até porque eu vejo religião uma coisa cultural. Se eu tivesse nascido em Israel, eu seria judeu. Se tivesse nascido na China, provavelmente seria budista. Eu não vejo nenhum problema em ter outra convicção religiosa aqui dentro. Eu acho que não pode misturar coisas. Por exemplo, o espiritismo: “Nós somos religião” Não, não é religião, porque o evangelho é diferente, porque o evangelho é segundo Allan Kardec. “Mas é o mesmo de Jesus.” “Se é o mesmo de Jesus, pra que fazer outro?” “Mas nós somos cristãos.” “Se vocês são cristãos, não se enquadra [sic] no serviço... deve se enquadrar no serviço católico e evangélico, não num outro”. Agora, eu não teria nenhum problema em ter outra religião aqui. (AR1).

O preconceito com relação à presença de outras religiões é real e, frequentemente, constatado nas falas dos voluntários. Chega se mesmo a afirmar que realmente só deveriam ter representação na assistência religiosa os católicos e evangélicos, pois “o resto não é religião” (VR8); ou ainda, como VR1, ao dizer que “depende da religião, não dá pra ter certas religiões fanáticas [inclui a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) entre estas, que classifica como um comércio e não uma religião]” (VR1). Entretanto, é interessante a boa convivência (divulgada por alguns religiosos) entre católicos e evangélicos. Estes, até mesmo fazem uso do espaço católico para se reunirem: “Fazemos culto na capela cheia de santo [...] Agora tem gente que não entra por causa do santo” (VR3).

Os relatos anteriores apontam para dois aspectos (compartilhados tanto por voluntários quanto pelas autoridades religiosas), o conflito religioso e a exclusividade religiosa que, no final das contas, tem como expectativa uma coisa apenas: a

detenção de uma “posição sacerdotal central”. Assim, inevitavelmente, a centralização religiosa que coloca em parceria os católicos e evangélicos é levada a cabo na assistência religiosa hospitalar a despeito da diversidade de religião/religiosidade que possa ser demandada tanto pelos profissionais de saúde quanto pelos pacientes e seus familiares.