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1. HİLAFET İMAMET MESELESİ

2.2. Şia’nın Doğuşu

A hipótese levantada é de que, ao estabelecerem pontes de contato, os campos psiquiátrico e religioso tornam se vulneráveis, podendo assim colocar em risco o seu desenvolvimento e a sua legalidade enquanto áreas de atuação autônomas.

Ao se observar o diálogo que é instaurado entre esses dois campos – mediante os relatos dos depoentes de ambas as partes –, é possível perceber que, na relação entre eles, tem ocorrido uma influência recíproca, a qual pode expandir ou recuar conforme a dinâmica de cada campo. Porém, existem diferenças que não podem ser desprezadas. Como já fora dito em outra parte deste texto, enquanto a religião é movida pela moral, “o mercado dos bens científicos tem suas leis, que

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Na perspectiva de Bourdieu (1999, p. 39, aspas do autor), os especialistas seriam aqueles agentes reconhecidos como tendo a exclusividade sobre a competência necessária “à produção ou à reprodução de um ‘corpus’ deliberadamente organizado de conhecimentos secretos”.

nada têm a ver com a moral” (BOURDIEU, 1983a, p. 133). Além disso, vale a pena frisar: os produtores de um determinado campo só reconhecem como clientes seus próprios concorrentes, o que faz com que o valor de um produto só seja reconhecido por outro produtor do mesmo campo.

Tomando como ponto de partida a afirmação de Bourdieu (1983a) de que “aquele que faz apelo a uma autoridade exterior ao campo só pode atrair sobre si o descrédito”, é possível que os diferentes campos (religioso e médico) estejam comprometendo o seu bom funcionamento, a partir do momento em que procuram valer se de uma intimidade maior entre si. Desse modo, a intenção é verificar, primeiramente, se, e até que ponto, essas suspeitas são verdadeiras.

Num segundo momento, apesar das diferenças existentes na capelania (entre o serviço religioso católico e o serviço religioso evangélico), interessa compreender de que maneira se dá a convivência, qual tipo de relação os especialistas religiosos estabelecem entre si.

O discurso religioso elimina, de antemão, a presença de crenças não cristãs no hospital. O representante católico afirma que o serviço religioso do HCFMUSP possui caráter ecumênico e, por isso, tem de respeitar as crenças das pessoas: “A nossa filosofia é propor e não impor” (AR1). Mas, ao mesmo tempo, deixa claro que o ecumenismo do qual está falando restringe se “às igrejas cristãs tradicionais”, dentro das quais pode haver variações104. O contrário, para ele, é a reunião de várias crenças, que não se trata de ecumenismo, mas sim diálogo inter religioso.

Espíritas negam o princípio fundamental do cristianismo, que é a ressurreição de Jesus. O serviço religioso é ecumênico, mas não é interAreligioso, por isso que não colocamos o espiritismo aqui dentro. É uma determinação da Ordem de Serviço. Devemos poupar o paciente105, se você começa a colocar diversas crenças aqui dentro, você começa a fazer uma confusão na cabeça do paciente106. (AR1).

104 Esse é um conceito teológico de ecumenismo. Entretanto, para além dessa definição, o

ecumenismo não se relaciona a apenas uma crença de mesma linha teológica, ao contrário, qualquer religião pode manter uma interlocução, desde que seja considerada legítima. Ou seja, o que exclui o espiritismo não é o caráter cristão ou não cristão, mas sim o fato de não ser tido como legítimo pelas religiões que compõem o serviço religioso.

105 No entanto, como ver se á em momento oportuno, os pacientes queixam se de falta de opções

religiosas, mostram se descontentes com uma proposta religiosa única.

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Numa segunda conversa com o entrevistado, após o projeto haver sido aprovado pela Comissão de Ética do HCFMUSP, ocorre uma inflexão no discurso, o qual se torna mais maleável. Isso é compreensível, já que um campo é um espaço onde existem muitas contradições e também muitas pressões.

Por meio desse discurso é possível perceber que os conflitos internos ao campo religioso fazem se notar e não são ocultados, ainda que à frente desses atritos empunhe se a bandeira do ecumenismo. No HCFMUSP, que é um hospital público, não confessional, o fato de haver ditames colocados pelo governo (superior de todos ali) orientando a se fazer um trabalho em comum – “a gente tem que obedecer necessariamente às normas do governo que nos manda trabalhar de uma maneira ecumênica” (AR3) – não impede a manifestação de conflitos. Desse modo, AR3 afirma: “Não é porque o governo nos manda trabalhar de uma maneira ecumênica que as coisas são pacíficas” (AR3). Ou seja, ainda que de forma discreta, o conflito acontece, em oposição às recomendações da hierarquia hospitalar.

Pode se, tomando como base a afirmação acima, pensar a superintendência do HCFMUSP – representante do governo ali dentro – como a instância que controla a entrada e a distribuição de bens simbólicos no hospital, na medida em que é ela quem decide, a princípio, que religiões podem e não podem atuar ali dentro. Assim, é por ela que qualquer ministro religioso tem de passar para obter a permissão para realizar o seu trabalho.

Por exemplo, a gente recebe muitos pedidos de pessoas, já recebi de espíritas, da Seicho No Ie. O que fazemos nesse caso: normalmente, eles vão à superintendência e a superintendência nos encaminha107. Aqui, mesmo sendo um hospital público, se eles insistirem realmente em fazer trabalho, o hospital vai falar: ‘não, nós já temos um serviço religioso organizado’. (AR1).

Finalmente, no que diz respeito às crenças e atitudes religiosas dos pacientes, investigar se á como os agentes religiosos, de um lado, e os psiquiatras, de outro, posicionam se: se há o cuidado em respeitar as crenças, os valores que o paciente traz consigo, levando em consideração que, no momento em que ele entra no hospital, traz consigo sua própria cultura. Isso quer dizer que suas crenças, atitudes, valores e relações sociais, o acompanham sempre e em qualquer momento da vida (GOFFMAN, 2005).

107Nota se que a decisão final fica a cargo dos ministros religiosos. Isso não exclui, no entanto, o fato

Os ministros das duas capelanias colocam claramente o seu propósito enquanto religiosos que realizam um trabalho junto aos pacientes. Deve prevalecer, no ponto de vista de ambos, uma relação de respeito, em primeiro lugar, aos valores que o paciente traz consigo, sem o caráter de evangelização108, mas de “consolo”, “de promoção do indivíduo na situação em que ele se encontra, de ruptura com a normalidade dele” (AR3). A finalidade última do trabalho religioso, nesse sentido, seria de “fazer com que o paciente resgate, sobretudo, os valores internos, interiores, subjetivos que ele tem e possa com esse resgate superar a sua situação de doença, de dor, de ruptura...” (AR3). A religião não deve ser vista como uma forma de “barganha” com o paciente, o que significaria claramente um desrespeito aos seus valores (AR3). Tendo em vista o caráter ecumênico do serviço religioso – como lembra um dos religiosos, essa “é a regra do próprio hospital” (AR1) –, subentende se que deva haver o respeito pela crença de cada um: “Você não deve tirar nada do que a pessoa acredita ou tentar impor alguma coisa pra pessoa” (AR1).

Se existe uma luta simbólica – procurar se á verificar em que medida isso acontece – no interior do espaço hospitalar, ela pode ocorrer tanto entre os religiosos de diferentes denominações quanto entre estes e os médicos. Pode tratar se de um campo de lutas por legitimidades e reconhecimentos entre aqueles que tradicionalmente detêm, de um lado, o monopólio do corpo (os médicos) e, de outro lado, aqueles que detêm o monopólio da alma (os religiosos). Nessa dicotomia, cada campo desempenha um papel fixo: assim como a bênção deve ser realizada pelo padre ou pastor, a cura deve ser posta em prática pelo médico ou psiquiatra, donos do discurso eloquente (OLIVEIRA, 1985, p. 85).

108 Em momento oportuno, no capítulo 6, será possível perceber até que ponto isso é respeitado