1. TEMEL KAVRAMLAR
1.3. Hile Riski Yönetimi
1.3.1. Hile Kavramı
1.3.1.1. Hile Unsurları
A FAPE é fundada em 1930, em Paris, por Marques da Costa. A base da organização é constituída por núcleos (grupos) formados nos diferentes países de emigração portuguesa e tem por órgão directivo um secretariado-geral, presidido por Marques da Costa. Desconhece-se para este período a localização geográfica e o número de comités existentes, à excepção de Espanha, onde existiam dois, um em Madrid e outro em Barcelona.
O período “francês” da FAPE caracterizava-se por uma “monotonia”, no dizer de Marques da Costa. Marasmo que é sacudido pelo caso de Giuseppe Volonté, Giovanni Bidoli e Cesare Cuffini, anarquistas italianos que o governo espanhol pretende expulsar para Portugal em 1931 e que correm o risco de ser entregues a Mussolini pela ditadura portuguesa3. No sentido de impedir a expulsão para Portugal, a FAPE protesta junto dos governos espanhol e português e lança um apelo à Liga Internacional dos Direitos do Homem, assim como à sua secção portuguesa, para que intervenha em favor da atribuição do estatuto de refugiado político aos três anarquistas italianos. Com o mesmo objectivo, publica um artigo no jornal francês Le Libertaire, sendo o protesto repercutido por diversos organismos sindicais e anarquistas franceses, em
3 Presos em Barcelona por participação nas manifestações em favor da instauração da República. São expulsos para Portugal a 16 de Outubro de 1931, que os entrega a Mussolini. Bidoli será preso à chegada a Itália sendo liberto apenas em 1938, mas para ser logo de novo preso. Participa na resistência após a sua libertação em 1943, mas será preso pelos Alemães no ano seguinte e deportado para um campo de concentração na Alemanha onde morre. A Cuffini é-lhe fixada residência, sendo posteriormente preso, em 1934, por “ofensa ao Duce” e
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164 particular pela CGT-SR e pelo Comité Internacional de Defesa Social. Após a expulsão dos três anarquistas para Portugal, a FAPE solicita às organizações portuguesas que divulguem o caso no interior e organizem manifestações contra a extradição para Itália4.
No Verão de 1931, na sequência da agitação que se fizera sentir em Portugal nos meses de Abril e Maio e da nova situação política em Espanha, a FAPE publica uma circular destinada ao movimento anarquista do interior. Impressa em França, a circular é depois enviada para Espanha, de onde deveria ser posteriormente introduzida clandestinamente em Portugal. Por razões de economia com as despesas de transporte, a circular é enviada para Espanha por via postal, mas acaba por ser apreendida pelos correios franceses que detectam o conteúdo dos pacotes, classificado como propaganda subversiva, e por conseguinte contrário à lei francesa que obriga os estrangeiros à abstinência política.
A expulsão de França de Marques da Costa, em 1932, por militância no movimento sindical, e a sua consequente instalação em Espanha, onde já se encontrava Roberto das Neves, leva à reorganização da FAPE e à constituição de novos comités, nomeadamente em Valência, Sevilha e Galiza5. Nesta data existiam também comités em Bruxelas, no Rio de Janeiro, em Buenos Aires e nos Estados Unidos. A chegada de José Lopes Soares a Moçambique6 impulsionará a constituição de um comité em Lourenço Marques. Uma estimativa do número de comités que compunham a FAPE, assim como de aderentes, é um exercício de impossível concretização por falta de fontes fiáveis e, no caso espanhol, pela mobilidade provocada pela crise de emprego que leva a uma constante recomposição dos grupos, para além de que a adesão pode também ser feita a título individual.
Com a transferência da sede da FAPE para Madrid, o secretariado é reorganizado passando a ser composto por Marques da Costa e Roberto das Neves. Composição que será de curta duração, mergulhando a FAPE num novo período de desorganização após o regresso a Portugal de Roberto das Neves, na sequência da amnistia de Dezembro de 1932 e da participação dos anarquistas
4 Rebelião, n° 2, 15 de Abril de 1932.
5 O núcleo da Galiza é animado em 1932-1933 por José Rodrigues Reboredo, exilado em Vigo. 6 José Lopes Soares tinha sido deportado para Timor por atentado à bomba. Por razões de saúde é transferido em Abril de 1933 para Lourenço Marques, regressando pouco depois a Portugal. Participa na reorganização da FARP depois do 18 de Janeiro de 1934.
Os anarquistas no exílio (1930-1936)
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165 portugueses nas tentativas insurreccionais de Janeiro e Dezembro de 19337, fomentadas pelo movimento espanhol. A chegada a Espanha dos anarquistas implicados na greve geral revolucionária do 18 de Janeiro obriga a FAPE a reorganizar-se para prestar auxílio aos refugiados e ajudar o movimento do interior a fazer face à repressão policial desencadeada pelo fracasso do movimento. Nesse sentido, Marques da Costa fomenta uma reunião na qual participam os novos chegados a Espanha: Alberto Dias, Eurico Pinto Mateus, Custódio Bresce de Lima, Tarcísio de Sousa, para além de José Rodrigues Reboredo, que entretanto se deslocara da Galiza para Madrid. Da reunião resulta a constituição de um novo secretariado, composto por Marques da Costa, Eurico Pinto Mateus e Custódio Bresce de Lima. Contudo, a duração deste secretariado será breve, dado que os três serão pouco depois expulsos de Espanha8. À vaga repressiva que se abate sobre Madrid nos finais de 1934 apenas sobrevive José Rodrigues Reboredo. Os contactos com os grupos, assim como com a Federação Anarquista da Região Portuguesa (FARP) e com a Federação Anarquista Ibérica (FAI), encontram-se interrompidos entre Dezembro de 1934 e Março de 19359, data em que José Rodrigues Reboredo toma em mãos a reanimação da FAPE, secundado nessa tarefa por Correia Pires e Pedro Boaventura10. Mas a repressão, que continua a fazer-se sentir nos meios operários espanhóis, condiciona fortemente o seu funcionamento11, levando à transferência do secretariado para uma cidade onde o controle policial fosse menos intenso. As condições encontram-se reunidas em Sevilha, por nesta cidade residir um certo número de exilados, condição de base à reconstituição do secretariado12, que em Agosto de 1935 passa a ser composto por Germinal de Sousa e dois membros do grupo “Humanidade Livre”13. No final de Outubro, a questão da orientação a imprimir à FAPE abre uma cisão no secretariado, opondo Germinal de Sousa aos dois outros elementos. Acusado de
7 Nomeadamente Germinal de Sousa e Francisco Direitinho, que são expulsos por envolvimento na insurreição de Dezembro de 1933. Os dois anarquistas refugiam-se em França durante algum tempo, regressando posteriormente a Espanha.
8 Correia Pires, Memórias de um prisioneiro do Tarrafal, Lisboa, ed. Dêagá, 1975, p. 107.
9 Instituto de História Social (Amesterdão), fundo FAI-CP, maço 6, B3, circular da FAPE para os grupos, de 14 de Março de 1935.
10 Um imigrante económico da construção civil.
11 A máquina de escrever e o copiador utilizados para a publicação do jornal Rebelião são apreendidos, assim como a correspondência da caixa postal utilizada pelo secretariado. IHS, FAI-CP, maço 6, B3, circular da FAPE para os grupos, de Agosto de 1935.
12 Nomeadamente Adriano Pimenta, João Serra, Sebastião Pimenta e João Paulo Lola. 13 Instituto de História Social (Amesterdão), fundo FAI-CP, maço 6, B3, circular da FAPE aos grupos, de Agosto de 1935
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166 autoritarismo e intolerância, Germinal de Sousa acaba por pedir a demissão14, o que precipita a FAPE numa nova crise organizacional da qual só sairá com a reorganização impulsionada por Reboredo em Junho de 1936 e a consequente repatriação do secretariado para Madrid15.
Se, inicialmente, a FAPE aspirava tornar-se no meio de contacto entre os anarquistas portugueses no exterior, a evolução da situação de Portugal levará a organização exilada a adaptar os objectivos às necessidades do movimento anarquista português. Em 1932, a FAPE procura angariar nos países de emigração económica um auxílio financeiro para a luta dos anarquistas em Portugal16, assim como dá-la a conhecer no exterior através do fornecimento de informação aos órgãos de imprensa anarquista, espanhóis e estrangeiros. Com a reorganização de meados de 1935, a FAPE redefine a sua acção e dota-se de novas tarefas que passam agora pela promoção de uma campanha própria contra a ditadura portuguesa através da denúncia dos seus crimes, com o objectivo de despertar nas organizações estrangeiras um interesse por Portugal. Uma outra tarefa é o envio de propaganda anarquista para o interior para fazer face à falta de tipografias, mas também para combater a dinâmica da propaganda comunista. Uma terceira linha de acção é a colecta de fundos para auxílio de presos e deportados e respectivas famílias e para o financiamento da imprensa clandestina anarquista17.
O que faz diferir a FAPE saída da reorganização de 1935 da dos anos anteriores não é tanto os objectivos, que de modo geral permanecem os mesmos, mas o papel que a organização é chamada a desempenhar junto do movimento anarquista português, gravemente atingido pela repressão após o 18 de Janeiro, e que vê na FAPE um meio de contrariar o isolamento em que se encontra no interior de Portugal e de superar lacunas logísticas, de que é exemplificativo o pedido feito pela FARP de confecção de carimbos em Espanha18. Nestas circunstâncias, a FAPE é levada a transformar-se no canal de comunicação da FARP, e posteriormente da CGT, com o exterior. Se até 1934 as organizações anarquistas do interior utilizam canais paralelos para comunicar com as organizações espanholas e internacionais, em que a FAPE é apenas uma
14 Arquivo Histórico-Social, cx. 91, Ms. 1671, circular da FAPE aos grupos, de 13 de Novembro de 1935.
15 Idem, cx. 91, Ms. 1671, circular da FAPE para a FARP, de 26 de Junho de 1936. 16 Rebelião, n° 2, de 15 de Abril de 1932.
17 Rebelião, II série, n° 2, Agosto de 1935.
18 Arquivo Histórico-Social, cx. 91, Ms. 1681, circular da FARP para a FAPE, de 9 de Outubro de 1935.
Os anarquistas no exílio (1930-1936)
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167 das vias, a partir da repressão de 1934 fica na dependência da organização exilada para manter a ligação com o exterior, de onde espera receber apoio para sobreviver à repressão e fazer face à avançada comunista no movimento operário.
A FAPE é financiada por donativos de militantes e simpatizantes, pela venda de Rebelião e por subvenções das organizações espanholas, mas a insuficiência dos meios financeiros é uma constante. O balancete do comité de Madrid, datado de 1932, revela que os fundos recolhidos são empregues, na sua quase totalidade, na publicação e expedição de Rebelião e no envio da correspondência19. A publicação do jornal Rebelião constituirá a principal actividade da FAPE, jornal que será contudo editado de modo irregular devido aos problemas de tesouraria, assim como de funcionamento do secretariado. O documento contabilístico de 1932 mostra que nesta altura o movimento anarquista do interior está ainda em condições de apoiar financeiramente a FAPE através das organizações (Aliança Libertária Alentejana, Federação Anarquista da Região Norte, Aliança Libertária portuguesa) e de contribuições simbólicas a título individual. Porém, a principal ajuda financeira vem dos sindicatos anarquistas espanhóis (Madeira, Vestuário, Construção, Metalurgia), das Juventudes Libertárias e da FAI através do Comité Regional do Centro. Surpreendentemente, na lista de donativos recebidos de exilados em Espanha encontramos o nome de Joaquim Pratas, um republicano ligado ao grupo dos Budas, o que chama a atenção para as relações que os exilados anarquistas mantêm com a esquerda republicana exilada e para a consequente participação dos refugiados anarquistas nos preparativos revolucionários dos republicanos.
Durante o período em apreço, a actividade desenvolvida pela FAPE assenta na publicação de Rebelião e na introdução em Portugal de propaganda e imprensa anarquista espanhola para preencher o vazio criado pelas dificuldades de tipografia, em particular após 1934. É com esta preocupação que João Florista participa no pleno de grupos da província de Huelva, a 17 de Novembro de 193520, e que será montada uma rede de fronteira, com a colaboração de portugueses e espanhóis, para a passagem da imprensa anarquista espanhola (essencialmente Solidaried Obrera e Tiempos Nuevos) e de Rebelião21. A região entre a mina de S. Domingos e Barrancos é organizada para
19 De 1 de Março a 31 de Julho de 1932 as receitas ascenderam a 977, 08 pesetas, tendo-se elevado as despesas a 891,94 pesetas. Arquivo Histórico-Social, cx. 91, Ms. 242, Agosto de 1932 [?].
20 Idem, cx. 92, Ms. s/n, carta da FAPE para a CGT, de 23 de Novembro de 1935.
Atas do I Congresso de História do Movimento Operário e dos Movimentos Sociais em Portugal, 13- 15 de março de 2013, FCSH-UNL, Vol. I.
168 receber e distribuir propaganda no Alentejo, cuja área de acção se estenderá até Beja22. Quanto ao correio, este é introduzido por um grupo de espanhóis de Rosal de la Frontera, que o faz passar por Ficalho, sendo depois recolhido e encaminhado por militantes da CGT e da FARP.