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Finansal Hizmetler

Belgede Doktora Tezi (sayfa 20-26)

1. TEMEL KAVRAMLAR

1.1. Finansal Hizmetler

O operariado e o anarquismo em Amanhã, de Abel Botelho

Atas do I Congresso de História do Movimento Operário e dos Movimentos Sociais em Portugal, 13- 15 de março de 2013, FCSH-UNL, Vol. I.

67 século XIX: a social, a política e a religiosa. Ao reflectir o antagonismo de classes num momento de ascensão do catolicismo e de propagação do anarquismo pelos trabalhadores, esta obra inaugura em Portugal, tal como já havia sucedido em Inglaterra com Tempos Difíceis (1854), de Charles Dickens, ou em França com Germinal (1885), de Émile Zola, a exposição literária das míseras condições sociais do proletariado. Com efeito, o seu conteúdo envolve a intensificação da luta do operariado fabril dos bairros ribeirinhos de Marvila e Xabregas e decorre ao longo dos sete meses de celebrações religiosas que assinalaram o sétimo centenário do nascimento de Santo António, mais precisamente entre Novembro de 1894 e Junho de 1895.

Na década de 90, aumenta a contestação aos efeitos negativos do Ultimato inglês, sendo a sublevação militar de 31 de Janeiro de 1891, no Porto, a tarefa mais radical – e inglória – executada   pela   “geração   activa”   do   Partido   Republicano Português. Em Amanhã, a ficção romanesca concentra-se nos principais eventos históricos ocorridos neste período de profunda depressão económica, documentando a implantação do anarquismo no seio do operariado, o crescente recurso à greve4, a visita de delegados da Internacional, o desfile de trabalhadores no 1.º de Maio de 1895 entre os Restauradores e o Largo do Rato, a procissão do Centenário Antoniano, ocorrida a 29 de Junho desse ano, ou ainda a preparação de um atentado bombista.

Com efeito, 1895 é, como refere Luiz Gonçalves, um ano-chave na orientação  libertária  dos  socialistas  portugueses:  “Desde 1882, e principalmente desde 1895, parece ser o anarquismo o ideal economico e político dos socialistas portuguezes,  pelo  menos  dos  que  mais  se  salientam  como  taes.”5

O anarquismo, cuja etimologia provém da raiz grega an (sem) e arkhê (governo), é uma corrente de pensamento socialista que veicula a dissolução do Estado em todas as suas formas históricas, o combate à autoridade civil e religiosa e a construção de uma sociedade sem leis. As suas diversas vertentes doutrinais – tais como o socialismo libertário, o individualismo, o mutualismo ou o anarco-sindicalismo – têm ainda em comum a luta pela abolição das desigualdades sociais e pela transformação da economia privada numa nova ordem em que os meios de produção serão controlados pelo operariado.

4 Greve é um neologismo derivado do lexema francês grève, surgido a partir do nome da praça onde  se  situa  a  Câmara  Municipal  de  Paris,  a  actual  Place  de  l’Hôtel-de-Ville, ponto de encontro de gente sem emprego ou de trabalhadores descontentes com as suas condições. Em Portugal, o primeiro surto grevista ocorre em 1872, em luta pela redução do horário laboral, pela abolição do trabalho nocturno e pelo aumento salarial.

5 Luiz Gonçalves, A evolução do movimento operário em Portugal. Lisboa: Adolpho de Mendonça & Cª, 1905, p. 184. Itálico nosso.

Atas do I Congresso de História do Movimento Operário e dos Movimentos Sociais em Portugal, 13- 15 de março de 2013, FCSH-UNL, Vol. I.

68 Ao longo da história, socialistas libertários como William Godwin, Jean- Pierre Proudhon, Mikhail Bakunine e Piotr Kropotkine aludiram ao poder do Estado como a causa primeira da desigualdade social. Em Qu’est-ce que la propriété? (1840), Proudhon emprega pela   primeira   vez   a   palavra   “anarquia”   para denominar um modelo de sociedade mutualista, sem a tutela estatal. É precisamente por via da obra de Proudhon, autor referenciado em Amanhã, que são divulgadas as primeiras ideias anarquistas em Portugal, visando criar melhores condições humanas para os trabalhadores através da união em cooperativas e federações; um dos órgãos promotores do associativismo é O Eco dos Operários, fundado em 1850.

Em 1864, surge a Associação Internacional dos Trabalhadores, que irá exercer um papel determinante na Península Ibérica a partir da década de 18706, especialmente na organização do movimento operário em estruturas associativas. Um ano após a criação da AIT, também conhecida como Primeira Internacional, o Catecismo Revolucionário de Mikhail Bakunine salienta que a força laboral é a forma mais eficaz de evolução civilizacional e de libertação do homem:

O trabalho é a base fundamental da dignidade e do direito humano. Pois é unicamente pelo trabalho livre e inteligente que o homem, tornando-se por sua vez criador e conquistador sobre o mundo exterior e sobre a sua própria bestialidade, humanidade e direito, cria o mundo civilizado.

Em 1871, o ano da Comuna de Paris e das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, Antero de Quental expõe as ideias essenciais da Internacional num texto decisivo para a consolidação do socialismo em Portugal, enfatizando igualmente o trabalho e a luta de classes:

Há, efectivamente, um grande combate travado; há dois exércitos e duas bandeiras inimigas: dum lado o Trabalho, do outro o Capital: dum lado aqueles que, trabalhando, produzem; do outro lado, aqueles que, sem esforço, e só porque monopolizaram os instrumentos do trabalho, terras, fábricas, dinheiro, vivem da pesada contribuição que impõem a quem, para produzir e viver, precisa daqueles instrumentos, daquele capital.7

6 Para mais pormenores acerca da fundação da Internacional em Portugal, cf. Anselmo Lorenzo, “A   fundação   da   Internacional   em   Portugal”,   in   João   Medina,   As Conferências do Casino e o

Socialismo em Portugal, 1984, pp. 179-189,  e  António  José  Saraiva,  “Como  e  por  quem foi fundada a   Internacional   em   Lisboa”,   in   A Tertúlia Ocidental – estudos sobre Antero de Quental, Oliveira

Martins, Eça de Queiroz e outros, 2ª ed., 1995, pp. 51-60.

O operariado e o anarquismo em Amanhã, de Abel Botelho

Atas do I Congresso de História do Movimento Operário e dos Movimentos Sociais em Portugal, 13- 15 de março de 2013, FCSH-UNL, Vol. I.

69 Para além de Carrilho Videira, um outro autor referido na obra de Abel Botelho é José Fontana (1840-1876), considerado o primeiro doutrinador do movimento operário em Portugal. Imbuído do espírito da Internacional e inspirado em Bakunine, forma as bases da resistência operária, convoca greves e organiza as primeiras manifestações do 1.º de Maio. Em 1872, promove a criação da Associação Fraternidade Operária. Mateus, o operário protagonista de Amanhã, tem o seu retrato na parede do seu quarto, ao lado do de Kropotkine, e chega a tecer algumas considerações elogiosas a propósito da missão evangelizadora deste grande ideólogo:

Pois   José   Fontana   […]   viu   o   espectáculo   doloroso   da   miserável inércia do nosso povo e tremeu de indignação, consumiu-se de piedade. Quase simultaneamente, o estrondear do canhão nas ruas de Paris, os paroxismos iconoclastas da Internacional, anunciavam ao proletariado de todo o mundo que havia soado a hora de ele impor a sua vontade, de fazer ouvir dominadoramente a sua voz. E então José Fontana foi o arrojado clarim da Ideia nova em Portugal. Veio soletrar-nos o novo Verbo8.

Em 1886, a visita do ideólogo francês Elisée Reclus vem estimular a fundação de algumas associações anarquistas e a edição de obras como A Anarquia na Evolução Socialista, de Piotr Kropotkine. Em Novembro do ano seguinte, surge no Porto A Revolução Social, o primeiro jornal anarquista, em cujo “número-programa”   é   publicada   a   Declaração   de   Princípios do Grupo Comunista-Anarquista em Lisboa, onde se afirma que a propriedade individual e os instrumentos de trabalho provocam a miséria dos operários e que o Estado é a causa da divisão de classes, da corrupção social e dos privilégios; como meios de acção, propõe-se a abstenção eleitoral, a deserção militar, a greve violenta ou a propaganda ilegal.

Para o final do século XIX, o pensamento libertário é já difundido por várias publicações periódicas, tais como A Revolta (1892), A Propaganda (1894), O Agitador, Grito de Revolta e O Lutador (1895). O romance de Abel Botelho alude mesmo a alguns órgãos de imprensa nacional, como a Pátria e O Século, e de imprensa estrangeira, como Avanti!, Combattiamo, La Dinamite, Eguaglianza, Révolté e Vanguarda.

Ao longo dos vinte e três capítulos de Amanhã, o narrador referencia ainda um vasto número de autores, dado que, durante anos, muitas das suas obras teóricas   foram   sendo   acumuladas   na   “rica   biblioteca   profissional”   de   Mateus,   um autodidacta amante de livros e ávido de conhecimentos destes novos princípios políticos, sociais e económicos:

Atas do I Congresso de História do Movimento Operário e dos Movimentos Sociais em Portugal, 13- 15 de março de 2013, FCSH-UNL, Vol. I.

70 [...] em suma, um curso perfeito de iniciação, o foral completo da doutrina comunista-anarquista, trazida desde a origem na sua evolução vertiginosa – estremecido tesouro que o Mateus, durante anos, sistematicamente amontoara, com uma paciência, uma isenção e uma porfia inarráveis, tirando muitas vezes ao vestuário e ao sustento para poder acrescentá-lo.9

É, na verdade, colossal o elenco de livros e autores subversivos que moldam o pensamento do protagonista: O Capital, de Karl Marx; A Sociedade Futura, de Jean Grave; Páginas Rubras, de Sévérine; Os Bastidores do Anarquismo, de  Flor  O’Squarr; Filosofia da Anarquia e Da Comuna à Anarquia, de Carlo Malato; A Moral Anarquista e Um Sonho de Ansiedade, de Piotr Kropotkine; A Rússia Subterrânea, de Kravtchinski10; O Socialismo Integral, de Benoît Malon (1891); a Psicologia do Anarquista Socialista, de Augustin Hamon (1893); O Anarquismo, de António de Serpa Pimentel (1894); ou, entre outros, A Conquista do Pão, de Paul Reclus11.

Como refere Abel Botelho na sua Dedicatória, em Amanhã “bacilam   e   fermentam   os   mais   tragicamente   desoladores   aspectos   da   Miséria”;   assim,   o   enredo desta narrativa decorre numa Lisboa pobre, envolvendo essencialmente a zona oriental junto ao Tejo: o estreito vale de Chelas, o Poço do Bispo e Cabo Ruivo; a fábrica de cartuchame e o apeadeiro de Braço de Prata, onde, vindos no expresso de Madrid, são recebidos os delegados da AIT; a Rua de Marvila com os seus raros   candeeiros   de   petróleo;   ou   a   Vila   Dias   e   a   “ilha”   do   Grilo,   espaços onde os operários da fábrica têxtil de Almargem residem.

É ainda descrita, com toda a minudência naturalista, a cidade no seu quotidiano finissecular, tendo como pano de fundo principal os bairros populares de Alfama, Alcântara, Mouraria, Benfica, Xabregas e Marvila: o lausperene comprado em Santa Justa; o santeiro da Rua Augusta e a mulher que vende tintura no Rossio; Santa Apolónia e o Terreiro do Paço, por onde passam os carros da Lusitana; a Escola Politécnica, onde Mateus se tinha matriculado; as igrejas de S. Vicente de Fora e de S. Domingos, aonde as famílias iam à missa; a Feira da Ladra; e os centros de propaganda anárquica, como o Largo da Páscoa, o Pátio do Fiúza (Alcântara), as ruas do Bem Formoso e do Arsenal, e a Junqueira, em frente à Cordoaria.

Ao nível do associativismo, um pilar fundamental na união dos povos e do proletariado, a obra menciona diversas organizações, tais como, para além

9 Abel Botelho, Amanhã. Porto: Lello & Irmão – Editores, 1982, p. 194. 10 Publicado em 1882 sob o pseudónimo de Stepniak.

O operariado e o anarquismo em Amanhã, de Abel Botelho

Atas do I Congresso de História do Movimento Operário e dos Movimentos Sociais em Portugal, 13- 15 de março de 2013, FCSH-UNL, Vol. I.

71 da já referida Associação Internacional dos Trabalhadores, a Liga das Artes Gráficas, a Associação Fraternal dos Fabricantes de Tecidos e Artes Correlativas, ou a Voz do Operário, editora de um periódico muito elogiado pelo   narrador:   “A   benemérita   Voz do Operário, sempre firme e inalterável na prossecução do seu programa – a união pela vida – chamava com insistência às armas  os  correligionários  pela  voz  tão  autorizada  como  difusa  do  seu  jornal;”12.

Ao descrever as reuniões clandestinas de propaganda anarquista, o autor procura transmitir essa mesma ligação extremosa entre a classe trabalhadora, cujos membros e ramos profissionais se misturavam ordeiramente:

Viam-se ali, numa cordial promiscuidade indistintamente baralhados, os mais prestigiosos chefes socialistas, e representantes das classes dos torneiros, serralheiros, fundidores, tipógrafos, litógrafos, canteiros, jardineiros, tanoeiros, mecânicos em madeira, calceteiros, marceneiros, sapateiros, tecelões, condutores de carroças, cocheiros, cigarreiros, manipuladores de farinha, refinadores de açúcar, corticeiros, oleiros, carpinteiros de carros, pintores, carregadores, fabricantes de carruagens, latoeiros, varinos e outros mais. Eram todos os baixos misteres e profissões. Toda a miuçalha, toda a escória.13

O romance Amanhã é protagonizado por Mateus, um contramestre de uma tecelagem em Lisboa que irá convocar greves, preparar manifestações, organizar reuniões com dirigentes estrangeiros, e planear uma revolução para destruir o regime, a ser iniciada durante o préstito das Celebrações Antonianas. Solidamente consolidado na mais genuína ideologia libertária, todo o discurso deste líder operário é proferido contra a entidade estatal:

[...] o Estado é uma pura excrescência que vive à custa de todos nós. Dispensa-se... Ele nada nos faz, nada nos traz de bom...

[...]

É uma organização artificial, violenta, contrária às leis naturais... a qual não aproveita senão a um limitadíssimo número de indivíduos, com prejuízo de todos os outros... que não tem outro fim senão explorar o mísero trabalhador!14 Dois delegados da Internacional deslocam-se a Portugal para doutrinar os operários em reuniões clandestinas, durante as quais os incentivam à união em associações de classe para que as suas reivindicações ganhem mais força. O pensamento de um destes dirigentes confirma a mesma ideia de Mateus quando associa a decadência social ao regime monárquico e, sobretudo, à estrutura estatal:

12 Abel Botelho, Amanhã. Porto: Lello & Irmão – Editores, 1982, p. 251. 13 Abel Botelho, Amanhã. Porto: Lello & Irmão – Editores, 1982, pp. 351-352. 14 Abel Botelho,. Amanhã. Porto: Lello & Irmão – Editores, 1982, p. 46.

Atas do I Congresso de História do Movimento Operário e dos Movimentos Sociais em Portugal, 13- 15 de março de 2013, FCSH-UNL, Vol. I.

72 O Estado, nascido da divisão da sociedade em castas, atingiu o seu período áureo quando? Com a centralização monárquica absoluta. Depois, pela adopção do sistema representativo e a consequente democratização social, começou do Estado, como instituição, a inevitável decadência.15

Para além do Estado, os anarquistas opõem-se ainda ao patriotismo e à religião, dois instrumentos usados pelo poder para tiranizar os povos ao longo dos séculos. Mateus, o líder revolucionário cujo nome coincide ironicamente com o do primeiro evangelista do Novo Testamento, dirige-se aos seus colegas num discurso panfletário, onde culpa a religião pelo atraso do país e considera o amor à pátria um sentimento egoísta da burguesia:

O patriotismo é uma das muitas e habilidosas formas de opressão que, para impunemente nos esmagarem, têm inventado os ricos e poderosos. Durante séculos, vocês sabem, o seu meio de dominação foi outro: foi a religião. Quanto tempo as classes privilegiadas não exploraram e cavalgaram a seu bel- prazer o povo, ameaçando-o, fanatizado e embrutecido, com o temor dum Deus de açougue, vingativo, cruel... com os tétricos horrores das penas do inferno! E depois, quando essa formidável criação de hipocrisia e de embuste caiu, quando o espectro religioso se esvaiu na sombra e o poder de Roma se afundou no ridículo, substituíram-no então pela ideia de pátria.

[...] em Portugal o jesuitismo arrastara a nação ao último grau de abjecção moral e fizera muito de propósito estagnar as ciências, as letras e as artes, no mais esterilizante marasmo de que há notícia em toda a história pátria.16

Ao longo do século XIX, desde o liberalismo romântico da monarquia constitucional ao positivismo realista da Regeneração fontista, a hegemonia da Igreja Católica vai perdendo a sua influência tentacular; contudo, esta instituição ganha um novo alento na década de 90, após a publicação das encíclicas Rerum Novarum, onde é estabelecida a participação dos católicos na actividade política.

Em Portugal, a fé católica ganha novo alento a partir de 1895, o ano do Congresso Católico Internacional e das celebrações de Santo António. O romance de Abel Botelho retrata precisamente a questão religiosa no seu auge:

Andava ao tempo em Lisboa um pouco acesa a questão religiosa. Durante os últimos oito anos que o partido ultramontano, cobrando progressivos alentos, vinha estadeando um crescente aparato de forças e promovendo a aliciação de influências novas.17

15 Abel Botelho, Amanhã. Porto: Lello & Irmão – Editores, 1982, pp. 322-323. 16 Abel Botelho, Amanhã. Porto: Lello & Irmão – Editores, 1982, pp. 57-58 e 182. 17 Abel Botelho,. Amanhã. Porto: Lello & Irmão – Editores, 1982, p. 249.

O operariado e o anarquismo em Amanhã, de Abel Botelho

Atas do I Congresso de História do Movimento Operário e dos Movimentos Sociais em Portugal, 13- 15 de março de 2013, FCSH-UNL, Vol. I.

73 Após as medidas legislativas sobre a saúde pública e a construção de cemitérios, que vêm dessacralizar a morte e retirar ao seu cerimonial o rentável monopólio da Igreja Católica, a sociedade adquire um espírito mais laico. A narrativa dá-nos  uma  perspectiva  do  cemitério  do  Alto  de  São  João,  um  “jardim   de   pedra”   inaugurado   em   1835   na   zona   oriental   para   sepultar   sobretudo   a   população  mais  pobre:  “[...]  o  encastelamento  sepulcral  do  Alto  de  S.  João,  todo   riscado a arestas de mármore e agulhas  de  cipreste.”18.

As alusões do Padre Sebastião aos funerais realizados pela classe operária também confirmam, por sua vez, a crescente laicização da morte:   “Eles   não   querem saber de nós para nada, eles não concorrem à igreja, não conservam as mulheres, não  legitimam  os  filhos…  nem  sequer  os  mortos  respeitam,  porque   os  levam  civilmente  ao  cemitério!”19

Esta   “cidade   dos   mortos”   serve   para   Abel   Botelho   denunciar   não   só   a   desgraça extrema ou o forte anticlericalismo da classe operária, mas também para registar alguns casos trágicos de violência doméstica, a incidir usualmente sobre os mais desprotegidos em termos sociais – mulheres e crianças:

No  Domingo  Gordo,  duas  vezes  fez  o  passeio  lúgubre  da  “ilha”  do  Grilo  ao   Alto de S. João, a singela carreta negra da Voz do Operário. Para levar, primeiro, a Chica, da qual era voz corrente entre o povo que as brutalidades do pai tinham abreviado a existência; e depois, vitimada pela discrasia galopante do desgosto, a héctica e inconsolável Ana, com a filha mais nova, mortinha de inanição.20

Segundo Mikhail Bakunine, o regime anárquico só é possível através do recurso a uma revolução violenta, a partir da qual desaparecerão todas as instituições para dar lugar a uma nova sociedade. Seguindo esta linha de raciocínio, alguns estrategas libertários passam à acção directa; o terrorismo individual, nascido com o firme propósito de desencadear uma revolução para destruir o aparelho estatal, ocorre em países como França, Alemanha, Itália, Espanha, Rússia e Portugal, sendo praticados diversos actos e atentados violentos entre os anos 70 do século XIX e a primeira década do século XX.

Para provocar a mudança desejável em Portugal, os adeptos mais radicais rejeitam a via eleitoral ou a mediação político-partidária e optam por recorrer à sabotagem ou por dedicar-se inclusive ao fabrico de bombas artesanais, que cederão mais tarde à Carbonária e ao PRP, no apoio à luta pela implantação da

18 Abel Botelho, Amanhã. Porto: Lello & Irmão – Editores, 1982, p. 108. 19 Abel Botelho, Amanhã. Porto: Lello & Irmão – Editores, 1982, p. 93. 20 Abel Botelho, Amanhã. Porto: Lello & Irmão – Editores, 1982, pp. 408-409.

Atas do I Congresso de História do Movimento Operário e dos Movimentos Sociais em Portugal, 13- 15 de março de 2013, FCSH-UNL, Vol. I.

74 República: em 1892, uma bomba explode no Consulado de Espanha e há um atentado na casa do Conde de Folgosa.

Em 1895, ocorre um atentado contra os manifestantes do centenário de Santo António de Lisboa, cuja bomba, segundo narra Abel Botelho, é fabricada por Mateus. A propósito deste episódio violento, um excerto do romance poderá ajudar a entender o motivo pelo qual o ataque bombista nunca chegou a ser uma actividade benquista dos revolucionários portugueses, mais inclinados para  os  “brandos  costumes”  – durante uma sessão de demonstração de fabrico de engenhos explosivos, os operários sentem-se pouco confortáveis ao tomarem consciência dos efeitos devastadores da dinamite, que havia sido inventada por Alfred Nobel em 1868:

A sessão havia tomado assim uma feição carniceira e odienta que repugnava a uma parte da assembleia. Cheirava-lhe a sangueira e a carne derretida... já não estavam bem ali! Ante os seus alarmados corações, ante as suas sensitivas almas, formadas na severidade e na obediência, o grosso e imperioso belga revestia o aspecto dum carrasco, o italiano era positivamente um demónio.21 Para resolver este inconveniente, os operários optam então por utilizar uma composição mais fraca, substituindo a dinamite por picrato de chumbo, e

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