Ao longo da Primeira República, nos principais centros urbanos, surgiram clubes, facções e partidos que questionavam o modelo político-econômico adotado no país. Os grupos dissidentes comumente veiculavam seus programas, reivindicações e insatisfações através de panfletos e jornais.
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No Espírito Santo, em 06 de junho de 1890, foi fundado o Partido do Operário94. Ele apresentava à classe operária, que crescia em algumas regiões como em Cachoeiro de Itapemirim, um conjunto de propostas que visavam melhorar sua condição de vida e situação social. Dentre os objetivos almejados pelo partido merecem destaque:
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Apressar, quanto for possível, as leis necessárias para tornar as habitações dostrabalhadores mais higiênicas e baratas com meios fáceis de condução.
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Apresentar as leis imprescindivelmente urgentes para melhorar a educação dosfilhos dos operários.
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Combater toda e qualquer injustiça em matéria de impostos, que por falta de eqüidade, pesarem sobre o operário indevidamente..
Tomar as medidas necessárias para obter a diminuição dos impostos dosgêneros de primeira necessidade.
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Criar escolas teóricas e práticas, a fim de ajudar as classes a adquiriremconhecimentos profissionais e facilitar-lhes o ensejo para estudar todas as novas invenções do progresso europeu e americano.
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Abolir todos os privilégios e monopólios ofensivos aos direitos e prejudiciais aos interesses da classe operária..
Reformar o sistema judiciário, a fim de dar ao pobre a mesma justiça que aos ricos, evitando as delongas a que atualmente está sujeito o acusado antes da sentença..
Esforçar-se, a fim de regularizar e resolver a importante questão da duração e remuneração do trabalho.
94
PACHECO, Renato. Estudos espírito-santenses. [Vitória, ES?]: Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, 1994. p. 110.
O Partido Operário capixaba seguia a orientação de sua matriz no Distrito Federal
e visava “estabelecer um tribunal composto de membros da classe operária e das
fábricas para julgar as questões trabalhistas, evitando, assim, greves ou outros distúrbios que, além de serem sistema bárbaro para obter justiça, são altamente dispendiosos e servem somente para esbanjar os recursos econômicos, que são
o sangue e a vida das comunhões industriais”95.
Também em fins do século XIX, sob a direção de Eduardo Reinauld, Manoel Antunes de Andrada Gomes e Theophilo Álvares de Souza Coutinho, surgiu o seminário intitulado: O Pharol (Órgão do Partido Operário Espírito Santense). Este apresentava aos trabalhadores um programa de aproximação entre a classe operária e o governo, sob o incentivo da Diretoria do Centro Operário da Capital Federal, a qual seria a mediadora do processo, conforme as palavras do próprio órgão: “Solicitamos, pois, do governo, toda facilidade possível, para com tais medidas, educando nossos filhos no caminho da luz e do progresso, tornando-os
cidadãos tão dignos de si, como da pátria que os viu nascer”96 – Saúde e
Fraternidade - Theopesio de Oliveira, ourives – Vitória, 2 de agosto de 1890.
O jornal, O Norte do Espírito Santo, veiculava fervorosas críticas não somente à política de descaso da República em relação à região, mas também ao regime eleitoral articulado pelas oligarquias. Em suas páginas é possível verificar uma grande insatisfação com relação à vida política durante a Primeira República.
Nelas estão registradas as seguintes palavras: “o regimento eleitoral é uma
afronta, um plano indecoroso armado com o fim de abafar as vozes da maioria; por moralidade nossa, em bem progresso municipal, devemos lançar mãos de todos os meios para conseguir a manifestação da nossa vontade, frustrando a
manobra inqualificável do governo”97.
A Opinião (Seminário Independente) da cidade de Muqui, também se apresentava como o porta-voz das críticas ao governo republicano. Em algumas passagens
95
Ibid., p. 112.
96
O Pharol; (Órgão do Partido Operário Espírito Santense). Victória. 1890. Redactor Ansbert Guarany. Editor: Urbano F. de Paula Xavier. Ano de 1890. Ano I - nº 2 (4 de agosto).
97
O Norte do Espírito Santo. (Órgão dedicado aos interesses da comarca de São Mateus). Ano I, S. Mateus, 27 de Setembro de 1891.
pode-se verificar que “[...] a República formou-se em meio a um ambiente deplorável e adaptou-se de tal maneira entre nós, que, pouco a pouco reduziu- nos a opinião e encarcerou-nos o pensamento. Já ninguém duvida que não foi a República atual aquela que sonhamos nas vibrações patrióticas do nosso entusiasmo cívico dos dias de propaganda, mas raros são os que ousariam protestar contra isso. Não é República essa em que a política fez do direito do voto a mais triste das ficções”98.
Na verdade, houve outros partidos, que através de panfletos, manifestos e jornais protestavam contra o modelo político-econômico em vigência na Primeira República. Para conseguir angariar adeptos à sua causa, esses grupos dissidentes apoiavam-se em setores da sociedade que, de certa forma, estavam desvinculados das oligarquias. Por isso, os grupos que aspiravam ao poder, e que eram animados por interesses diversos aos dos agro-exportadores buscavam conquistar o apoio dos segmentos sociais que eram desassistidos pela política dos cafeicultores. Assim, intensificaram-se os debates acerca da moralização da administração pública e da justiça eleitoral, dos direitos políticos e sociais e a reformulação do Aparelho de Estado, entre outros.
Essas propostas foram bem recebidas pelas camadas urbanas, como, por exemplo, profissionais liberais, artesãos, pequenos comerciantes, trabalhadores das ferrovias e das fábricas etc. No entanto, mesmo conseguindo angariar um razoável número de simpatizantes, essas falas ganhavam a adesão da maioria da população, pois se defrontavam com o rígido sistema de articulação perpetrado pelas oligarquias para controlar toda a vida política.
As fontes supracitadas revelam o clima de insatisfação crescente que animava amplos setores da sociedade, sobretudo, aqueles que se ocupavam de atividades urbanas e que viam nas estratégias políticas levadas a cabo pelas oligarquias a nítida impossibilidade de fazer valer seus interesses. Após a Revolução de 1930, surgiram movimentos políticos como a Ação Integralista Brasileira e a Aliança
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Nacional Libertadora que centralizaram em seus discursos essas demandas a fim de arregimentar o maior número possível de adeptos.