CONCLUSÕES
Tentou-se discutir ao longo desse trabalho quais as razões levaram os moradores “Por detrás da Serra” de Parelhas a decidirem pelas duas atividades, a agrícola e a mineral, interpretando as suas decisões não apenas pelo aspecto econômico, mas também sobre outras estruturas que condicionavam suas decisões dentro do contexto a qual viviam.
Tal fato foi praticado por gerações passadas, recordado aos seus descendentes, que já encontraram uma teia de estruturas bem norteadas, navegadas e conhecidas, interiorizadas ainda que inconscientemente de uma forma comum: por meio da circunscrição social a qual esses indivíduos fazem parte. De maneira que repetir as ações dos antepassados e também do grupo social a qual estão inseridos é manifestar comportamentos comuns a todos, ainda que exista a individualidade de cada um, refletindo disposições duráveis de um campo de acordo com as estruturas e instituições que o sustentam, contando trajetórias comuns, ainda que caminhadas individualmente.
Os níveis de escolaridade geral e dos entrevistados, valores mensais de renda, condição de exploração da terra em que vivem e os ascendentes familiares na mineração não são apenas dados que coincidiram entre as respostas dos entrevistados, são condições e valores herdados pelas famílias e pelo entorno social a qual estão. Habitus que orientaram para a vida social que reproduzem, que existem, são, duram e dão vida a esse campo, tangendo o processo de tomada de decisões das famílias.
Eles são agromineradores porque se enquadram na categoria agricultores part-time quando chove, fazendo também a mineração para acrescentar rendas às famílias. São principalmente, e também, pluriativos em suas unidades familiares, já que as rendas que a compõem são de atividades que não estão enquadradas dentro de uma atividade agrícola e, ainda que a agricultura ocupe um lugar de destaque no imaginário dessas famílias, aspiração apagada pelas condições edafoclimáticas do lugar que são desfavoráveis para tal atividade, outras influências, fragilidades e necessidades são reveladas por essa razão e a garimpagem acaba por se apresentar como
estratégia utilizada por esses agentes em busca de manutenção e melhorias de suas condições de vida, talvez a única tática herdada e repassada a essa grupo.
Conforme tratado no capítulo II, a insistência na atividade agrícola e na manutenção da atividade mineral sob as mesmas condições em que ela é realizada na atualidade é uma prática reafirmada pelos habitus, dentro desse campo determinado, carregado de histórias e aspectos singulares que endossam essas práticas estruturadas e mediadas entre o individual e o social, padronizadas e aceitas com consistência, ditando os padrões de comportamento e constrangendo as formas de pensar, agir e sentir dos agromineradores. Por isso que a aceitação da situação que estão vivendo é feita de bom grado, sem contestações, assentida e reproduzida tal e qual pelos parentes, amigos e filhos. Institucionalizou-se que a agricultura deve ser feita e a mineração também, sendo essa última em condições que nem de longe se equiparam as que são ofertadas pelo Estado para a agricultura.
Entender as instituições nos auxilia no entendimento sobre possíveis melhorias que podem ser oferecidas a um determinado grupo. Se não fosse a mineração, como atividade existente em Parelhas e que auxiliasse na fixação desses agromineradores, com certeza a fuga do rural estaria mais uma vez abarrotando os centros urbanos, com pessoas fugindo da seca, buscando suas manutenções, quiçá sobrevivências. Por que então o Estado não promove e desenvolve políticas de apoio a tal atividade? Por que essas pessoas seguem como um grupo de invisíveis sociais?
Incentivar a manutenção desses agentes na condição de agricultores, papel feito pelo STTR, auxilia no imaginário dessas pessoas de que eles de fato o são e ainda retira do Estado a responsabilidade sobre essas pessoas. Afinal, manter as estruturas tais como se apresentam hoje sustenta o modus
operandi das grandes empresas mineradoras, que compram dos
agromineradores a preços ditados por elas e está isenta de responsabilidades para com suas seguranças na extração dos minérios; mantém a situação do dono da mina, também agricultor, e que contrata a mão de obra local que necessita do trabalho pagando a diárias, garantindo também que sua extração
seja realizada diariamente; mantém as famílias dos agromineradores e seus interesses em sustentarem-se como agricultores, amparados pelo sindicato, garantindo a aposentadoria rural e acesso a políticas públicas que só essa categoria permite; mantém o STTR em funcionamento, que segue trabalhando em longos períodos de estiagem.
A cultura, estrutura e rotina desses agromineradores moldam o espaço em que vivem, o campo, e tecem o trajeto deles e de suas famílias no que diz respeito à sua manutenção ou não. Afinal, a homogeneização dos dados e respostas obtidas nos questionários e observações extraídas são reflexos do contexto social a qual fazem parte. Desde a idade; nível educacional geral e dos entrevistados; condição de exploração da terra; dados sobre a ocupação principal e a secundária e o sentimento que carregam sobre essas ocupações, individual e coletivamente; sobre a trajetória coletiva dessas pessoas em trabalhar com a agricultura e a mineração, como atividades que complementam suas rendas; sujeições e histórias familiares em comum naturalizam as práticas “Por detrás da Serra”, porque nos mostram similitudes pessoais que foram desenhadas por semelhanças coletivas. Enfim, o campo o qual estavam sujeitos possuía uma série de arranjos esquadrinhados, dominantes e repressivos, que inculcou em seus agentes, de acordo com as condições individuais que cada um possuía, a reprodução dessas práticas e condutas. É a força das instituições de um campo tentando se reproduzir.
Nada nesse campo é destoante e tudo é institucionalizado. A história de um é praticamente a história de todos. Os agromineradores são, em seus imaginários, agricultores, condição também institucionalizada pelo apoio que o sindicato oferta a eles. Carregam em si o desejo de se fazerem trabalhadores da terra. Assim se intitulam e o são, legalmente. Pagam o STTR e sabem da importância e necessidade de fazê-lo na condição em que vivem. Mas quando inseridos na realidade e estruturas a qual vivem são mineradores, pois suas histórias pretéritas são convergentes: existe a seca e o Estado que apoia o agricultor e existe a mineração o ano todo e o dinheiro dela que os mantém.
A reprodução dessa estrutura é a reprodução das necessidades do lugar, também institucionalizadas e que levou esse grupo a conjunção da
atividade agrícola com a atividade mineral. E as instâncias de dominação e poder desse entorno ainda não trabalha em favor deles. O poder, rotinizado, por exemplo, na condição da terra em que vivem essas pessoas é justificado pela seca e reafirmado pela ausência do Estado, que não enxerga na mineração um potencial fator de desenvolvimento local. E assim os códigos do campo são ditados através dos comportamentos coletivos e eles mesmos explicam o arranjo social institucionalizado.