Grafik 2.12 Nominal Döviz Kuru Değişimi (TL/ABD Doları %)
1992 Gerçekleşenler
Na interpretação de Cano (2000, p. 13), a adoção de políticas seletivas que levaram países de estrutura produtiva basicamente primária para uma transformação estrutural com maior participação do setor industrial contou com um “excepcional grau de soberania nacional no exercício e manejo da política econômica do “desenvolvimento””. Nessa mesma leitura, as condições que permitiram essas ações já não se encontram presentes. “A crescente internacionalização dos circuitos econômicos, financeiros e tecnológicos do capital mundializado, de um modo geral, debilita os centros nacionais de decisão e comando sobre os destinos de qualquer espaço nacional” (BRANDÃO, 2007b, p.35).
Diniz e Crocco (2006, p.27) também afirmam, no mesmo sentido, que de fato “as transformações contemporâneas vem impactando as escalas territoriais por meio da universalização do capital, especialmente do capital financeiro, estabelecendo uma hiper- escala de circulação do capital, materializada pelo processo de globalização”. Nesse contexto, observam a emergência de teorias localistas baseadas no desenvolvimento endógeno. Ainda assim, não parecem ser tão céticos quanto à capacidade de atuação estatal, na medida em que nesse mesmo ambiente propõem que “uma política de desenvolvimento regional deve ser pensada e articulada em escala nacional”. Tratando especificamente do Brasil, apontam ainda que a incapacidade do governo em sustentar seus investimentos decorre de uma opção do governo em controlar o gasto público e gerar superávit primário.
De qualquer modo, ainda que se façam muitas ressalvas sobre o significado da globalização, dada a massificação que o termo foi assumindo ao longo dos últimos anos, em geral, os autores que adotam a perspectiva apontada assumem que esse movimento explica o processo que “debilita ou mesmo anula as possibilidades de estratégias nacionais” (IANNI, 2004, p.89).
Na perspectiva de Cano (2000, p. 37), a ideia de globalização como um processo de internacionalização de atividades econômicas, sejam elas de caráter financeiro, produtivo ou comercial, não teria um caráter novo, pois “a constituição do comércio internacional em bases
mais amplas” remontaria ao século XVI, enquanto em relação à internacionalização financeira já seria vigente “pelo menos desde o século XIX”.
Portanto, não seria possível atribuir a redução da autonomia dos Estados hoje a processos que são mais longínquos, dado que para o autor mesmo depois que esses movimentos já se encontravam vigentes, os países subdesenvolvidos contaram com “maiores graus de liberdade em termos externos”, como ocorreu, entre 1λ2λ-1979. Dessa forma, é preciso considerar outras razões que levaram à abdicação da “soberania nacional, no desenho, na implementação e no manejo da política econômica” (CANO, 2008, p.27). Nesse sentido, o autor considera a globalização como uma intensificação mundial daquelas atividades (financeiras, produtivas e comerciais), analisando-as individualmente.
A globalização comercial seria “nossa velha conhecida”, se constituindo numa “queda de braço entre um anão (nós) e um gigante (os desenvolvidos)” (CANO, 2000, p.38). Trata-se de revisitar a história do comércio internacional onde se opõem as estruturas produtivas especializadas em bens de capital e eletrônicos àquelas dominadas pela exportação de recursos naturais. Nesse caso, ainda ressalta-se o papel do Estado e o poder discricionário das suas políticas comerciais e instrumentos à sua disposição.
Mas, não parece ser esse o movimento fundamental, pois o autor atribui à diminuição do papel do Estado ao conjunto de políticas denominadas como neoliberais, que se materializaram em reformas institucionais, produtivas, comerciais e financeiras. A questão para o autor é que essas mudanças se deram a fim de atender às questões postas pelas duas outras formas que a globalização viria a assumir (CANO, 2008; 2000).
No caso da globalização produtiva, destaca-se o papel das empresas transnacionais. Uma vez adotado o receituário liberal com a consonância de “muitos governos e elites periféricas” que “aceitaram as novas regras do jogo”, o vácuo deixado pelo Estado é ocupado pelas decisões dessas empresas que passam a substituir as políticas industriais dos países periféricos - “onde, quanto, em que e como investir” (CANO, 2000).
Em relação à globalização financeira, identificada como uma “intensificação da mobilização dos fluxos financeiros internacionais e de suas novas formas de manifestação” ressalta-se a “dependência financeira internacional dos países subdesenvolvidos” (CANO, 2000, p.37) em relação ao domínio do capital. Nesse caso, o autor é bastante explícito ao afirmar “a supremacia do capital financeiro sobre as outras formas de capital, impondo a quebra de soberania nacional de nossos países, para liberar seu movimento internacional na busca incessante da valorização” (CANO, 2008, p.27).
A força de atuação do capital também está presente nas considerações de Brandão (2007b, p.72) ao explorar o conceito de homogeneização. Na visão do autor, sobre tal conceito deveria repousar a ênfase da análise espacial. Refere-se à tendência do capital em homogeneizar as suas condições de reprodução, através da eliminação das principais diferenças espaciais a fim de criar um espaço unificado para a valorização do capital. Trata-se de gerar as condições mais adequadas para a sua reprodução ampliada. Nesse sentido, o capital seria homogeneizador na medida em que abarca os espaços mais remotos a um único domínio, impondo suas “determinações gerais mais imanentes”, buscando valorizar-se sem confinamentos regionais/espaciais e exercendo “seu controle universalizante, invadindo todos os âmbitos possíveis de sociabilidade” (BRANDÃO, 2007b, p. 73).
Observe-se que o autor se propõe a explicitar um movimento típico comandado pelo capital em geral de tal modo que não circunscreve a homogeneização à ideia de globalização. Ainda assim, dado o “próprio caráter progressista do capital” apontado pelo autor, considerando sua análise, não se constituiria numa extrapolação inapropriada afirmar-se que a globalização, nos seus termos mais gerais, aceleraria o processo homogeneizador. Ainda que sem utilizar o mesmo conceito de homogeneização, Corazza (2006) expõe de forma direta a relação entre esse mesmo movimento do capital e a globalização financeira:
[...] o desenvolvimento capitalista é impulsionado a partir do seu interior, pelo caráter expansivo da lei do valor e da valorização do capital, que procura romper todas as fronteiras e obstáculos com que se defronta. O desenvolvimento do capital tende a anular o espaço através da aceleração do tempo. Assim, do ponto de vista histórico, o desenvolvimento das relações financeiras internacionais ou da globalização financeira, não parece ser nem um processo aleatório, nem um processo politicamente determinado” (CORAZZA, 2006, p. 135).
Trata-se de uma abordagem marxista da globalização, como ilustra Medeiros (2001, p.84), “ao longo de O Capital, Marx procura demonstrar o poder da acumulação privada sobre qualquer barreira exógena que se lhe anteponha”. De resto, nessa leitura “a acumulação é um processo essencialmente privado”, que toma “o capitalismo como um sistema em que as redes de poder estão inteiramente inseridas nas redes de acumulação e subordinadas a esta” (ARRIGHI, 1996 apud MEDEIROS, 2001, p.85).
No entanto, Weber (1944) e Braudel (1987), entre outros, já ilustraram que a formação do Estado nacional é condição básica para o avanço do capitalismo. Barbosa de Oliveira (2003), também constata essa relação. Mas, mesmo nas abordagens marxistas, não se descuida que houve entre as relações mercantis e de poder uma aliança necessária à acumulação capitalista porém identifica-se esse momento como transitório.
Embora as economias nacionais tenham sido fundamentais para a consolidação e desenvolvimento do capitalismo (...) a formação do capitalismo...no seu desenvolvimento tende a transcender essas economias (...). O capitalismo é intrinsecamente mundial e seu desenvolvimento pleno significa a “desconstrução” das economias nacionais (...). [O capitalismo] forjou as economias nacionais para se consolidar e se desenvolver, mas seu desenvolvimento pleno significa também a progressiva desintegração das economias nacionais. A economia nacional representa uma fase intermediaria e transitória no desenvolvimento histórico de longo prazo do capitalismo (CORAZZA, 2006, p.142).
Essa leitura marxista também é constatada, embora não corroborada, por Medeiros (2001, p. 83):
Uma vez asseguradas as condições de dominação burguesa (...) o Estado não desempenhava mais, como no período de transição, qualquer função central na análise do desenvolvimento econômico, este movido inteiramente pela acumulação capitalista, impulsionada pelo processo de concorrência.
Mas não parece ser esse o caso. A disputa interestatal nada tem de contingencial. O alcance do poder político dos Estados não se extingue nos limites de suas fronteiras territoriais. Esses dois primeiros pontos foram abordados nas considerações sobre os condicionantes externos do processo de desenvolvimento, discutidos no primeiro capítulo. Observa-se ainda que onde se vê uma aliança circunstancial, cuja expansão dissolve o poder político, considera-se que, conforme Tavares e Belluzzo (2007), Estado e mercado possuem relações orgânicas e constitutivas.
Mas mesmo na abordagem marxista é possível encontrar autores que não ignoram “a luta pelo território econômico”, como é o caso de Hilferding (1λ85). Ao teorizar sobre o movimento de formação dos cartéis e trustes e a fusão entre o capital industrial e o capital bancário constituindo o que denomina como capital financeiro, chama atenção ao fato de que “o poder político era decisivo na luta competitiva de caráter econômico, e que para o capital financeiro, a posição do poder estatal é vital para o seu lucro” Hilferding (1λ85, p.311).
O autor faz referência ao processo de exportação de capital a fim de obter lucros ou juros, mas com recursos que como observa Arrighi (1969, p.169) são resultados da opção das empresas em “manter líquidas ao menos parte de seu capital e deixar que a City, através dos bancos provinciais ou diretamente por seus corretores, cuidasse de investi-lo, sob qualquer local da economia mundial que prometesse os rendimentos mais seguros e mais altos”. Para isso, retomando Hilferding (1985, p. 302):
[...] a exigência de todos os capitalistas interessados em países estrangeiros para que o poder estatal seja forte, cuja autoridade proteja seus interesses também no mais
longínquo rincão do mundo (...) que a bandeira de guerra [seja] vista por toda parte, para que a bandeira do comércio possa ser plantada por toda parte. Mas o capital de exportação sente-se melhor quando o poder estatal do seu país domina completamente a nova região (...). Dessa forma, a exportação de capital atua também em favor de uma política imperialista.
Desse modo, especificamente no caso da Inglaterra, o Estado atua como um vetor de propagação dos interesses desse capital financeiro ou da City. Na visão de Strange18 (1988) apud Fiori (1997, p. 98) essa é a própria configuração do exercício da hegemonia inglesa que se sustentara a partir do “relacionamento privilegiado que se estabeleceu entre o governo inglês e o capital financeiro da City”. Mas o ponto de vista aqui defendido é que não há limites temporais para essas relações entre o poder do capital e o poder político, pelo menos não onde o capitalismo vigore; elas fazem parte de sua constituição.
Braudel (1987) já explicitara que a natureza do capitalismo não prescinde do Estado19 e o faz distinguindo-o do que seria propriamente uma economia de mercado. Enquanto nesta vigora a concorrência, “lei essencial da economia de mercado”, o primeiro se caracteriza por suas trocas desiguais, em que seus participantes procuram “desembaraçar-se das regras do mercado tradicional, frequentemente paralisador em excesso”, tanto o seria que o denomina como “antimercado”. Por serem de naturezas distintas, “não são os mesmos mecanismos nem os mesmos agentes que regem esses dois tipos de atividade” (BRAUDEL, 1λ87, p. 42).
Não por acaso, encontra na Alemanha do século XIV, em Paris no século XIII, nas cidades italianas do XII e mesmo na Índia e no Islã, “um grupo de grandes negociantes [que] se destaca nitidamente da massa dos comerciantes”, identifica-os como capitalistas e conclui questionando-seμ “Será necessário dizer que esses capitalistas, tanto no Islã quanto na cristandade, são os amigos do príncipe, aliados ou exploradores do Estado?” (BRAUDEL, 1987, p. 39). No mesmo sentido, Arrighi (1λλ6, p. 20) aponta que “a fusão entre o Estado e o capital foi o ingrediente vital da emergência de uma camada claramente capitalista por sobre a camada da economia de mercado e em antítese a ela”.
A assimetria que Braudel identifica nas trocas desiguais que vigoram no capitalismo, Fiori (2007a) alinha a competição interestatal, pois os grandes “estados/economias nacionais” e os “grande predadores” possuem o mesmo objetivoμ “a conquista sem fim de novas posições
18 STRANGE, Susan. States and markets. Londres: Pinter, 1988.
19 “Assim, o Estado moderno, que não fez o capitalismo mas o herdou, ora o favorece, ora o desfavorece; ora o
deixa estender-se, ora lhe quebra as molas. O capitalismo só triunfa quando se identifica com o Estado, quando ele é o Estado.” (BRAUDEL, 1λ87, p. 43).
monopólicas e a reprodução contínua de relações desiguais e assimétricas”. Assim, Estado e capital estão unidos a fim de impor barreiras protetoras e por isso “se ajudam mutuamente”.
Desse modo, conclui Fioriμ “É quase impossível imaginar a existência de “territórios econômicos” que tenham sido conquistados sem uma aliança do capital financeiro com o poder político (...) nem que o capital financeiro possa impor seu império mundial (...) sem o apoio do poder político” (FIORI, 2007a, p. 45). Mais uma vez, Arrighi (1λλ6, p. 13) destaca “o que impulsionou a prodigiosa expansão da economia mundial capitalista (...) não foi a concorrência entre Estados como tal, mas essa concorrência aliada a uma concentração cada vez maior do poder capitalista no sistema mundial como um todo”.
Portanto, é nesses termos que a globalização aqui é interpretada. De fato, sua popularização deu margem à construção de diversas análises, cada uma delas enfatizando, ao gosto de quem a interpreta, os aspectos culturais, sociais, políticos ou econômicos; daí, não raro, haver algum tipo de imprecisão conceitual. Pela natureza deste trabalho privilegiam-se as questões econômicas envolvidas nesse termo.
Nesse sentido, de fato, a globalização financeira poderia ser o termo mais adequado para caracterizar esse fenômeno a partir de fins do século XX. Isso porque se a globalização significa “unificação de espaços”, como propõe Carvalho (2008), esse mesmo termo poderia remeter a constituição da “economia mundo” europeia que se dá com a formação dos Estados Nacionais modernos através da articulação do circuito do capital mercantil no “longo século XVI” (Tavares e Belluzzo, 2007).
Privilegiar o aspecto financeiro, nesse momento, significa admitir “um dos fatores que distinguem a rápida integração econômica internacional dos anos 1980 daquela que se deu um século antes é que, no caso presente, é o setor financeiro global que representa a força predominante do processo de globalização” (KREGEL, 2004, p.36).
Para Carvalho (2008, p.14) trata-se de um “processo único, internacional, de formação dos preços dos ativos e, assim das taxas de juros”, enquanto a produção exige capital físico, o que denota alguma imobilidade espacial e temporal, o mercado de capitais global atuaria de forma ininterrupta com capacidade de resposta mais rápida às mudanças conjunturais, daí sua crescente variabilidade. Mas, mais uma vez, reafirma-se que “a maior integração entre mercados financeiros e de produtos teve implicações significativas para a autonomia de políticas nacionais e para os efeitos domésticos e globais de políticas econômicas nacionais” (KREGEL, 2004, p.52).
Portanto, caberia ilustrar a globalização como um movimento politicamente determinado. Dessa forma, representaria muito menos o triunfo dos mercados sobre as
políticas e mais a imposição das políticas de um Estado sobre os demais numa estrutura já previamente hierarquizada (FIORI, 2007a). Não se trata de falar da atuação do capital em geral, mas sim das relações entre os Estados, de tal modo que a perda de autonomia será sempre referente a uma redução do poder relativo. Essas considerações não são feitas a fim de negar o impacto da globalização ou as relações de interdependência que surgem a partir daí, mas pretendem enfatizar o vetor político da globalização.
Parece ser menos crível a possibilidade de desenvolvimento de um imperialismo comandado pelo capital, pois a “expansão e universalização do sistema capitalista” diz muito mais respeito ao processo de competição entre os Estados nacionais a fim de “garantir o controle de “territórios políticos e econômicos” supranacionais mais amplos do que os seus concorrentes” (FIORI, 2007a, p. 46).
Finalmente, voltando ao ponto inicial, caberia resgatar quais razões de ordem política permitiram que num determinado estágio do desenvolvimento capitalista fosse dado aos países uma maior autonomia no comando de suas políticas econômicas e, na sequência, lhes fosse reduzida essa mesma autodeterminação.
Como apontam Tavares e Belluzzo (2007), a chamada globalização financeira consiste numa das transformações provocadas pela “diplomacia do dólar forte” para enfrentar a vulnerabilidade do dólar, reafirmando-a como moeda de reserva e de denominação das transações comerciais e financeiras. No mesmo sentido, Braga e Cintra (2007) utilizam o termo “financeirização” (CHESNAIS, 1996) para caracterizar a supremacia do sistema financeiro americano, constituindo-se numa construção histórica a partir das relações entre o poder do Estado, do capital financeiro e da moeda fiduciária.
A posição americana no pós-guerra era inconteste e foi sob a égide desse poder que se constituiu o padrão monetário internacional (Bretton Woods), o qual, na prática, tornava o dólar moeda-chave do sistema. Mas sua operacionalização se deu de modo que assegurasse o desenvolvimento capitalista tanto na Europa, quanto na Ásia, dada a Guerra Fria. Entre as ações desencadeadas a partir do governo americano a fim de estimular o crescimento dessas economias, destacam-se: mudanças nas paridades cambiais, que consistiam na manutenção do preço do ouro estável em dólar, mas com o apoio americano à promoção de desvalorizações das moedas dos demais países centrais a fim de aumentar sua competitividade externa; promoção de IDE; transferência de tecnologia; gastos militares no exterior; abertura do mercado de importações americano; ajuda externa direta e tolerância em relação às medidas protecionistas adotadas pelos países aliados (SERRANO, 2004).
Razões de ordem geopolítica explicam esse conjunto de ações. O cenário internacional na segunda metade do século XX foi dominado pela Guerra Fria entre EUA e URSS, havia uma ameaça permanente de “batalhas nucleares globais”, em que apenas o medo da “destruição mútua inevitável” impedia “um lado ou outro de dar o sempre pronto sinal para o planejado suicídio da civilização” (HOBSBAWM, 1λλ5, p.224). Para esse mesmo autor, “a Guerra Fria baseava-se numa crença ocidental (...) de que o futuro do capitalismo mundial e da sociedade liberal não estava de modo algum assegurado”. Nesse sentido, afirma que os objetivos do governo americano estavam muito mais destinados a evitar uma nova Grande Depressão do que a impedir a eclosão de uma nova guerra e os motivos para esse raciocínio poderiam ser facilmente encontrados na situação dos países europeus e do Japão no pós- guerra:
[...] os países beligerantes (...) haviam se tornando num campo de ruínas habitado [por] povos famintos, desesperados e provavelmente propensos à radicalização, mais que dispostos a ouvir o apelo da revolução social e de políticas econômicas incompatíveis com o sistema internacional da livre empresa, livre comércio e investimento pelo qual os EUA e o mundo iriam ser salvos (HOBSBAWM, 1995, p.228).
Basicamente, portanto, como afirma Fiori (2007a, p. 88) é a “imposição das prioridades estratégicas da nova Doutrina da Guerra Fria” que explica o Plano Marshall e “todas as demais concessões feitas pelos EUA, com relação ao protecionismo dos europeus, em particular à retomada dos velhos caminhos heterodoxos das economias alemã e japonesa”. O sucesso dessas medidas visando a reconstrução dos países europeus e do Japão pode ser medido por razões objetivas, como a contínua redução do superávit comercial e de conta corrente americanos (SERRANO, 2004), pela aceleração do crescimento econômico (FRIEDEN, 2008) e pelo aumento da produtividade (HOBSBAWM, 1995; SERRANO, 2004) que diminuíram a distância relativa entres os demais países desenvolvidos e os EUA durante os denominados “anos dourados”, que começam no pós-guerra e vão até o início da década de 1970.
Mas há outra maneira de enxergar o êxito dessas políticas, nesse caso, através de movimentos de contestação do poder americano por parte dos países que conseguiram se reconstruir economicamente. O “acúmulo de poder e riqueza” levou essas nações a “competir por mercados e territórios”, numa atitude de ameaça aos interesses americanosμ
[...] acabara-se o espaço e o tempo da parceria virtuosa (...) desejavam retomar seus projetos nacionais de expansão territorial e econômica. Foi quando ocorreu a ruptura e o fim da “era de ouro” do crescimento capitalista, e terminou a “hegemonia mundial” exercida pelos Estados Unidos entre 1λ45 e 1λ73 (FIORI, 2007b, p. λ0).
O que deve ser observado é que “a própria extensão do sucesso da recuperação econômica dos demais países capitalistas e de seu crescimento via exportações não são explicáveis sem a postura francamente favorável da política econômica americana” (SERRANO, 2004, p. 187).
A década de 1970 inicia-se sob o signo da crise econômica, “o crescimento diminuiu, os preços subiram, as recessões se proliferam e o desemprego aumentou” (FRIEDEN, 2008, p. 396). Crise também do sistema monetário internacional, dada a contestação da posição do dólar como moeda de reserva internacional. Mas a década termina com “a decisão do FED de subir unilateralmente as taxas de juros americanas em outubro de 1979 (...) uma resposta à investida de europeus e japoneses, tomada com o propósito de resgatar a supremacia do dólar como moeda de reserva” (TAVARES e BELLUZZO, 2007, p.125). Trata-se de uma mudança de orientação mais ampla destinada a “vencer a guerra fria, enquadrar os países aliados e