Grafik 2.18 Enflasyon Oranı (TÜFE)
2.1.8.1. Döviz Kuru Hedefler
O primeiro ponto a destacar em Thirlwall (1979) é sua filiação ao pensamento keynesiano, no sentido de que seu modelo é conduzido pela demanda; logo, rejeita o pressuposto neoclássico de que a economia opera ao nível de produto potencial no longo prazo. Assume, portanto, a validade do Princípio da Demanda Efetiva (PDE).
Mas, dentre os possíveis obstáculos ao crescimento, o modelo desenvolvido por esse autor pode ser considerado o pioneiro e também o mais conhecido dentre aqueles que identificam na restrição externa o principal fator limitante à expansão econômica (CARVALHO e LIMA, 2009). Não por acaso, essa abordagem tem sido recorrente em vários trabalhos que procuram verificar a validade dessa hipótese na análise das trajetórias de crescimento dos países. (BÉRTOLA33 et al., 2002; JAYME Jr34, 2003; SANTOS, LIMA e
CARVALHO35, 2005; VIEIRA e HOLLAND36, 2008 apud CARVALHO e LIMA, 2009) Como observam Lourenço et al. (2011), a restrição externa aparece em Thirlwall (1979) como uma restrição do saldo comercial. O pressuposto é que o balanço de pagamentos é dominado, no longo prazo, pelo comportamento das exportações líquidas. Assim, exige-se que a taxa de crescimento das exportações deva ser, no mínimo, equivalente à taxa de crescimento das importações. Caso contrário, o crescimento do passivo externo líquido se tornaria insustentável.
Nakabashi (2003, p. 9) sugere algumas razões para o papel central das exportações e importações no modelo. Afirma que o financiamento dos déficits em transações correntes através da conta capital, elevaria o risco de desvalorizações cambiais. Estas, posteriormente, teriam impacto negativo sobre novas entrada de capitais, o que forçaria a adoção de medidas de ajuste recessivas (inclusive levando o país a praticar taxas de juros mais elevadas), restringindo o crescimento. Em resumo, pode-se afirmar que as tentativas de crescimento além do limite permitido pelo saldo em transações correntes (STC) devem levar ao acúmulo
33 BÉRTOLA, L.; HIGASHI, H. e PORCILE, P. Balance-of-payments-constrained growth in Brazil: a test of
Thirlwall’s
Law, 1890-1973. Journal of Post Keynesian Economics, v. 25, n. 1, Fall 2002.
34 JAYME JR., F. G. Balance-of-payments-constrained economic growth in Brazil. Revista de Economia Política, v. 23, jan./mar. 2003.
35 SANTOS, A. T. L.; LIMA, G. T. e CARVALHO, V. R. A restrição externa como fator limitante do
crescimento econômico brasileiro: um teste empírico. In: XXXIII Encontro Nacional de Economia – ANPEC, 2005, Natal. Anais...Natal, 2005.
36 VIEIRA, F. A. C. e HOLLAND, M. Crescimento econômico secular no Brasil, modelo de Thirlwall e termos
continuado de passivo externo líquido e, eventualmente, a perdas de reservas internacionais e crises cambiais recorrentes, com consequências inflacionárias.
Considerando que a exposição matemática do modelo de Thirlwall encontra-se amplamente disseminada na literatura econômica, se abstém de fazer essa apresentação formal, privilegiando suas implicações37.
O modelo apontará para a existência de uma taxa máxima de crescimento do produto real compatível com o equilíbrio do balanço de pagamentos. Considerando a maior relevância no saldo do balanço de pagamentos atribuído às exportações líquidas, é importante destacar os componentes que determinam as taxas de crescimento das contas do saldo comercial e de serviços. As exportações são função direta da taxa de crescimento do produto real do resto do mundo e da taxa de variação da taxa real de câmbio. Quanto às importações, a taxa de crescimento é função direta da taxa de crescimento da produção real doméstica e inversa da taxa de variação da taxa real de câmbio (LOURENÇO el al., 2010).
Deve-se observar ainda que na validade da condição de Marshall-Lerner, o aumento da inflação doméstica em relação à externa irá diminuir a taxa de crescimento sustentável, quese torna função direta da taxa de variação da taxa de câmbio real. Porém, mesmo nesse caso seriam necessárias contínuas desvalorizações reais da moeda local, pois uma única variação representaria apenas uma mudança de nível das exportações e importações (LOURENÇO el al., 2010; NAKABASHI, 2003). Por fim, cabe considerar o efeito das elasticidades-renda da demanda por exportações e importações na taxa de crescimento consistente com a restrição do balanço de pagamentos: um aumento da elasticidade renda da demanda por importações a diminuiria, enquanto que uma elevação da elasticidade-renda das exportações elevaria a mesma. Adicionalmente, é preciso discutir o significado da aceitação ou não da condição de Marshall-Lerner e da hipótese de Paridade do Poder de Compra (PPC) no modelo.
A primeira tende a ser mais observada nas economias que apresentem altas elasticidades-preço da demanda por exportações e importações. Na tradição ortodoxa aceita- se a violação da condição de Marshall-Lerner no curto prazo, portanto, desvalorizações poderiam piorar o saldo da balança comercial; no entanto, no longo prazo, com a obediência dessa condição, a reação à desvalorização “normaliza-se”μ as exportações aumentam, as importações diminuem e portanto o saldo comercial e de serviços passa a melhorar. Por outro lado, em parte da abordagem heterodoxa afirma-se que países mais atrasados tecnologicamente tenderiam a apresentar elasticidades-preço baixas mesmo para períodos
37 Neste trabalho utiliza-se, basicamente, Lourenço et al. (2010), mas pode-se acrescentar outros textos que
mais longos de tempo. Portanto, a violação de Marshall-Lerner implicaria que a gbp seria uma
função inversa da taxa de variação da taxa de câmbio real. Em qualquer hipótese, seja da validade, seja da negação dessa condição no modelo de Thirlwall, a variação na taxa máxima de crescimento com equilíbrio de pagamentos exige contínuas valorizações ou desvalorizações reais do câmbio.
Lourenço et al. (2010) consideram que a adoção da hipótese da PPC no modelo de Thirlwall (1979) se baseia em hipóteses frágeis, quais sejam: rigidez nos preços relativos verificada empiricamente; e menção a modelos teóricos, seja de concorrência perfeita, seja sob condições de oligopólio, que gerariam tal resultado. Os autores observam ainda a contradição entre a adesão de Thirwall à PPC e a crítica do autor à lei do preço único, fundamentação microeconômica da PPC. De qualquer modo, a adoção da PPC acaba implicando que as variações da taxa de câmbio são completa e exatamente compensadas por variações nos níveis de preços. Portanto, os efeitos de ganhos e perdas de competitividade decorrentes de valorizações e desvalorizações da taxa de câmbio são meramente temporários. No longo prazo, a taxa real de câmbio tende a permanecer constante.
A taxa de crescimento com restrição no BP passa a ser determinada pelas elasticidades-renda da demanda das exportações e importações, dada a taxa de crescimento da produção real do resto do mundo. Nesse sentido, na interpretação de Thirlwall38 (1997, p. 383) apud Gouvêa e Lima (2010, p. 1) “as diferenças de elasticidades-renda da demanda por importações e exportações entre países – os parâmetros que, em última instância, definem a intensidade da restrição – refletem as características de competitividade não preço dos bens e, portanto, a estrutura produtiva”.
Adicionalmente, o modelo pressupõe que as elasticidades-renda da demanda seguem a hipótese da lei de Engel, de modo que a taxa de crescimento da demanda dos produtos básicos é inferior à da renda, o inverso sucedendo para o caso de produtos mais sofisticados. Portanto, a única maneira consistente de elevar a taxa de crescimento compatível com o equilíbrio externo de um país é a mudança estrutural, no sentido de elevar sua elasticidade-renda da demanda por exportações e reduzir sua elasticidade-renda da demanda por importações (THIRLWALL, 2005 apud GOUVÊA e LIMA, 2010, p.1).
Na concorrência interestatal essas considerações irão implicar num jogo assimétrico entre países ricos e pobres, dadas as diferenças entre as suas estruturas produtivas e as elasticidades-renda de suas exportações e importações. Partindo da tradição do pensamento
38 THIRLWALL, A. Reflections on the concept of balance-of-payments-constrained growth. Journal of Post Keynesian Economics, v. 19, n. 3, 1997.
cepalino, Lourenço et al. (2010, p. 10) apontam a vigência nos países pobres de vantagens comparativas na produção de bens agrícolas ou industriais de baixo valor agregado. Nesses países, a elasticidade das exportações tende a ser baixa mas, por outro lado, possuem elevada elasticidade de importações quanto aos bens produzidos nos países ricos, basicamente manufaturados de alto valor agregado. O que os permite concluir que o livre jogo das forças de mercado tende a ampliar a desigualdade da renda per capita entre os distintos países, “significando que o movimento tendencial das relações entre distintos recortes espaciais é a polarização e não a convergência”.