No Judiciário há ainda fatores a serem considerados que dificultam a realização de um bom trabalho em equipe, malgrado não o impossibilite. A começar pelas condições de trabalho dos serventuários do judiciário Gaúcho que não são as ideais. O principal problema é a falta de um plano de carreira que estimule o servidor. Na Justiça Estadual Gaúcha existem quatro cargos para os servidores que atuam no cartório e que juntamente com o juiz formarão a equipe de determinada unidade jurisdicional. O escrivão judicial, que equivale ao chefe de secretaria, exerce funções de chefia no âmbito cartorário. O oficial ajudante, substituto imediato do escrivão, realiza todas as atividades cartorárias; os oficiais escreventes são aqueles que realizam a maior parte das atividades cartorárias; e o auxiliar de serviços gerais, executa atividades de expediente e de atendimento.
Para cada cargo um concurso específico, havendo exigência de curso superior em Direito apenas para o escrivão. Inexiste possibilidade alguma de um servidor galgar algum degrau na carreira. Ele trabalha até a aposentadoria no mesmo cargo. Como se trata de serviço público impossível qualquer gratificação por desempenho.
Ademais, como característica intrínseca da Instituição, não há o hábito de se cultivar elogios no Judiciário. Embora a possibilidade do voto de louvor, na prática ele é poucas vezes concedido. O que mais comumente se observa é o servidor realizar com correção praticamente todas as atividades sob sua responsabilidade, mas ser lembrado apenas quando se equivoca, sendo passível de censura.
Após a aprovação no estágio probatório, o serventuário da justiça adquire, como qualquer servidor público, a estabilidade, o que reduz as possibilidades de ele perder o cargo por desempenho de baixo nível. Sem esquecer que dificilmente se verificam casos de servidores não lograrem aprovação no estágio probatório. É da cultura do brasileiro a compaixão e a falta de determinação em reprovar o servidor concursado no período do estágio probatório. Em regra sempre é dada uma segunda oportunidade e se faz de tudo para que ele adquira a estabilidade, como recompensa pela aprovação em um concorrido concurso. As exceções decorrem apenas de casos extremamente graves, mas dificilmente por falta de capacidade de alguém em exercer essa função pública, na conhecida e equivocada crença de que com o tempo o servidor aprenderá o seu ofício. No entanto, o que de fato ocorre é ele passar toda a sua carreira de um lado para outro na instituição, ninguém querendo ele na sua equipe, em face da sua incompetência.
Merece destaque, também, a circunstância de muitas vezes o escrivão não ter perfil para ocupar um cargo de chefia, porquanto seu ingresso na carreira se dá por meio de concurso público que não avalia esse atributo. Nesses casos, malgrado o seu conhecimento técnico ele não se impõe perante os demais servidores, ocasionando muitas vezes indisciplina e falta de empenho destes.
Insta acentuar, igualmente, a inexistência de recursos destinados a propiciar qualidade de vida no ambiente de trabalho. A jornada de trabalho do servidor da Justiça Estadual Gaúcha que atua na primeira instância se desenvolve em dois turnos, manhã e tarde, de todos os dias úteis. Inicia às 8h30min e se estende até às 11h30min, reiniciando às 13h30min e se encerrando às 18h30min.
Isso conduz à conclusão de que esse servidor da justiça passa as melhores horas, dos melhores dias, dos melhores anos da sua vida no ambiente de trabalho com seus colegas. Toda a sua juventude, num ritmo de trabalho cada vez mais exigente, é empregada em contato com as mazelas sociais, a qual muitas vezes é tratado com desrespeito ou falta de educação. Como se trata, em regra, de um profissional probo e consciente da sua responsabilidade é inevitável a frustração
quando está lotado em uma unidade de trabalho na qual o serviço é invencível. O investimento na qualidade de vida no trabalho seria a única forma de se manter a saúde dessas pessoas, e evitar que elas levassem para casa essa carga negativa, em franco prejuízo às suas vidas pessoais.
E não há como olvidar que esse serventuário da justiça, como todo funcionário público estadual, não é remunerado adequadamente para fazer frente às despesas cada vez maiores de um custo de vida alto.
De sorte que disso sobressai a falta de comprometimento e motivação que cresce ano a ano como conseqüência de sua desvalorização interna e externa; da falta de perspectiva de progredir na carreira que escolheu; e de sua remuneração insuficiente embora a estabilidade que detém. E diferentemente da iniciativa privada, em que as empresas formam suas equipes, no Judiciário elas se formam ao acaso em razão da forma de ingresso. E ao Juiz restará, diante de uma equipe sem qualquer possibilidade de substituição ou escolha, que tenha afinidade funcional.
Todavia, como mencionado, todos esses fatores podem ser contornados e formada uma boa equipe de trabalho. Mais uma vez José Renato Nalini aborda com perfeição o assunto
Pense-se, por exemplo, na irracionalidade de um regime jurídico único de trabalho, calcado em horário inflexível. Não se estimula o funcionário a inovar, pois ele deverá estar à disposição da chefia durante aquelas horas diárias. Quando ele produziria muito mais, se incentivado a criar e a vencer tarefas sem rigidez horária. As organizações inteligentes têm sabido explorar adequadamente os talentos de seu pessoal. Velhos preceitos se mostram insuficientes para a estrutura cooperativa que surte mais salutares efeitos no trabalho em grupo. Reconhecer que o servidor é um ser humano suscetível a toda a requisição da vida moderna, não mais um autômato desprovido de vontade, o fará atuar satisfeito. Mais ainda: ele será capaz de focalizar toda a sua dedicação ao êxito da empresa, esquecendo o desalento e a remuneração insuficiente. É hora de fazer justiça interna nos Tribunais. Os funcionários do Judiciário estão desmotivados. Ressentem-se da inexistência de um plano de carreira. De perspectivas de acesso e de realização plena em sua função. Desanimam com as soluções subjetivas e derivadas de inadmissível favoritismo. Há de se conferir estímulo a esse pessoal. É uma falácia afirmar que há pouco pessoal no Judiciário. O que existe é pessoal mal aproveitado. A potencialidade produtiva dos quadros funcionais precisa ser otimizada. (NALINI, 2006, p. 172-3).
A mudança desse quadro depende do próprio Poder Judiciário, mediante uma gestão de pessoas eficiente, que tenha presente a importância de estruturar as carreiras dos servidores de forma atraente e motivadora, em condições de permitir o desenvolvimento de equipes de alto desempenho. E enquanto isso não é viabilizado
institucionalmente, caberá ao juiz, na sua unidade, buscar isso com os instrumentos que estão ao seu alcance.