• Sonuç bulunamadı

Ponderando esses elementos analisados, ou seja, a necessidade de o juiz administrador buscar uma prestação jurisdicional mais célere diante de um volume de trabalho crescente, cumpre destacar um aspecto muitas vezes olvidado quando esse tema é discutido, e sobre o qual também recai o objeto dessa pesquisa: a prestação jurisdicional é resultado apenas do trabalho do Juiz? A resposta a essa indagação se entremostra relevante quando se pretende encontrar caminhos para uma prestação jurisdicional mais rápida.

A tendência sempre foi responsabilizar o magistrado de uma determinada unidade jurisdicional pela morosidade. A justificativa mais fácil para aqueles não habituados com a rotina forense sempre apontou para a ineficiência do juiz no exercício da sua atividade fim como a causa da demora da prestação jurisdicional de sua unidade. E a todos os juízes como responsáveis pela morosidade da Justiça. Sem adentrar em todas as causas dessa demora, o certo é que a prestação jurisdicional não decorre apenas da atuação do magistrado.

A prestação jurisdicional, em sua essência, é resultado de um trabalho de equipe. Equipe essa composta pelo juiz e por todos os servidores da sua unidade jurisdicional. Trata-se de uma típica equipe funcional, assim conceituada por Anne Donnellon: “Um grupo organizado que se reporta a um único chefe e pode ou não ser obrigado a trabalhar em conjunto, para atingir os objetivos do grupo”

(DONNELLON, 2006, p. 05).

Em uma unidade jurisdicional as atividades desempenhadas pelo Juiz e pelos servidores de sua serventia estão interligadas como se fossem elos. Em havendo um problema em um desses elos o resultado final será a demora na prestação jurisdicional. Exemplificando, um pedido de alvará judicial em que a parte requer ao

Judiciário, autorização para a liberação de um determinado valor retido pode ser apreciado e deferido no dia seguinte ao seu protocolamento. No entanto, se a serventia demorar noventa (90) dias para confeccionar o documento e obter a assinatura do magistrado, a demora estará evidenciada, mesmo em um caso simples e sem litígio como esse.

De nada adianta o juiz, pretendendo resolver rapidamente uma ação, designar para um curto espaço de tempo a audiência que definirá o seu julgamento, ou o seu cartório cumprir com a mesma agilidade as determinações necessárias para a realização do ato. Contudo, se o Oficial de Justiça deixar de intimar (comunicar) a tempo os destinatários do ato aprazado, prejudicará o andamento processual. Assim como desimporta se os servidores são extremamente rápidos no cumprimento das decisões do juiz se este, por sua vez, demorar para analisar os processos que lhe são conclusos.

Esses são apenas alguns exemplos que servem para ilustrar que a prestação jurisdicional é resultado de um trabalho de equipe da respectiva unidade jurisdicional. Em todos eles uma certeza: a de que ao cidadão não importará se a demora foi do juiz ou do servidor. Quando há demora na resposta judicial, o cidadão compreende como ineficiência da Justiça. Para ele o Judiciário não deu a resposta rápida esperada. E a impressão negativa será a mesma, mesmo que o juiz tenha sido extremamente ágil na apreciação do pedido a ele formulado, ou que os servidores assim tenham se portado no cumprimento das suas respectivas atribuições. Daí por que a celeridade da prestação jurisdicional dependerá de ajustes de todos os elos a ela relacionados.

A experiência por mim partilhada jurisdicionando uma unidade da Justiça Estadual Gaúcha corrobora com dados estatísticos essa conclusão. O trabalho foi realizado entre os anos 2000 e 2001 na então 2ª Vara Judicial, hoje 2ª Vara Cível da Comarca de Santiago-RS.

Na época o resíduo de feitos conclusos para despacho e para sentença não mais existia. Em outras palavras, os processos eram despachados no dia ou no máximo em dois dias, e julgados dentro do prazo legal de dez (10) dias. Aparentemente poder-se-ia afirmar se estar diante de uma unidade jurisdicional de excelência.

Entretanto, percebia-se certa insatisfação pontual com a velocidade da prestação jurisdicional, certo ruído levemente perceptível a ouvidos mais atentos,

porquanto no interior o respeito ao Judiciário é tanto que praticamente obsta reclamações. Na época o cartório era organizado por uma divisão de trabalho chamada mini-cartórios. Havia um servidor responsável pelo cumprimento das determinações judiciais referentes a processos criminais, outro para processos de família e inventário, outro para execuções cíveis, outro para os feitos da Justiça da Infância e da Juventude e um outro para o restante (diversos).

De modo que se a demora não estava na atuação do juiz, considerando o curto espaço de tempo entre a conclusão dos processos e sua análise, poderia estar no tempo de cumprimento das suas determinações. Para que essa dúvida fosse superada havia a necessidade de uma pesquisa que revelasse, por meio de dados estatísticos, a real situação. Esse trabalho foi elaborado com respaldo na Metodologia da Qualidade, de vez que a referida Comarca havia aderido ao Plano de Gestão pela Qualidade do Judiciário do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Usou-se, para tanto, da ferramenta conhecida por MASP (Metodologia de Análise e Solução de Problemas).

Assim, foram pesquisados os tempos para o cumprimento dos despachos e decisões judiciais por cada mini-cartório. Foram pesquisados cem (100) feitos de cada um daqueles mini-cartórios, com os seguintes resultados:

QUANTIFICAÇÃO DOS EFEITOS DO PROBLEMA 2

Folha de Verificação

PESQUIS A POR AMOS TRAGEM: 2ª Vara Judicial (100 processos)

Minicartórios Tempo para cumprimento dos despachos e decisões

Execução Cível 38 dias

Família 36 dias

Crime 01 dia

Infância e Juventude 04 dias

Diversos 01 dia

Colheu-se dos resultados quantificados na folha de verificação supra que efetivamente havia um descompasso entre o tempo de cumprimento dos despachos e decisões judiciais em dois mini-cartórios. De modo que se um pedido formulado ao Juízo fosse apreciado em um ou dois dias da data do seu protocolamento, a parte somente receberia a tutela jurisdicional efetiva, seja com deferimento ou não, decorridos mais trinta (36) ou trinta dias (38), em média. Esse resultado comprova que a prestação jurisdicional decorre do trabalho de toda a equipe de determinada unidade jurisdicional. Aquela Vara Judicial somente obteria êxito em relação à morosidade se ajustasse todos os elos da equipe a ponto de um pedido ser analisado em tempo razoável, e o resultado dessa análise (despacho ou decisão judicial), se concretizasse também em um prazo razoável. E isso somente seria alcançado em havendo correta gestão da unidade jurisdicional.