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3.5. Ġslam Algısına Yönelik Bulgular

3.5.7. Günümüzde Ġslam Birliği

Darnton (1986), em um artigo sobre a leitura das obras de Rousseau no século XVIII, fala sobre o Principes de la lecture de Viard, uma obra de 1763, destinada a ensinar os primeiros princípios de leitura e escrita, utilizando-se de seletas de textos. Segundo Darnton (1986), essa obra caracterizava-se pelo catolicismo ultra-ortodoxo que dava o tom das leituras escolhidas para formar a seleta.

É interessante entendermos qual a função que os textos de leitura tinham no

Principes de la lecture. Darnton (1986) comenta que para Viard a leitura deveria ser

aprendida oralmente e a escrita poderia ser adquirida depois. O método era o seguinte:

O próprio Viard começa com as menores unidades de som. Mostra como estão relacionadas as letras, sílabas e palavras, progredindo do simples para o complexo e evitando todas as irregularidades, para permitir que as conexões entre os sons e os símbolos tipográficos se fixem solidamente na mente do estudante. (DARNTON, 1986, p. 289)

Da combinação de sons, letras e sílabas nascia um processo ativo de entendimento da leitura. Para Viard, ler não era algo passivo, que apenas se recebia, mas um processo em que o aluno começava soletrando e terminava por entender o que estava escrito. Nesse processo, a memória tinha um papel significativo porque era a responsável pela retenção do que era lido sistematicamente, proporcionando o primeiro passo para a elaboração ativa do intelecto (DARNTON, 1986).

Assim, as leituras escolhidas para comporem a seleta de textos serviam para ensinar a leitura e a escrita e culminavam na assimilação e compreensão do que era lido.

É importante essa relação entre as palavras, a assimilação e a elaboração ativa do intelecto sobre o material lido porque nos ajuda a entender porque para D. Viçoso a leitura era tão importante como formadora da pessoa: o que era lido partia dos sentidos e agia sobre o intelecto.

Da mesma maneira que Darnton (1986) discute a respeito do Compendio de Viard afirmando que da leitura das letras e sílabas nascia uma operação ativa do intelecto que compreendia o significado do que estava sendo lido, também para os autores da Selecta a leitura agia sobre o intelecto e os sentidos.

A leitura, partindo dos sentidos, só tinha eficácia se deixasse uma impressão duradoura no espírito do leitor. Isso fica claro no Prefácio escrito por Déspreaux nas

Leçons de la nature, quando o autor explica porque escreveu sua obra partindo de um livro

de Sturm, não realizando uma tradução, mas escrevendo uma nova obra. Despreaux coloca que apesar de a obra de Sturm ter um bom conteúdo, ela possuia defeitos, o mais grave deles é ela não produzir uma impressão eficaz na alma do leitor:

Mais il a des défauts essentiels: c’est de cette variété qu’il a cherché à répandre, qu’ils découlent em grande partie. Em méditant sur les objets de la nature, tels qu’ils se présentent à nous chaque jour, on ne la saisit que d’une manière découse, et peu propre à faire des impressions utiles et durables. C’est l’ordre qui lie, enchaîne les idées, et fait que l’une rappelle l’autre. Quand on étudie chaque objet isolé, et sans aucun rapport avec ceux auxquels il devroit naturellement tenir, il s’efface aisément de la mémoire, et souvent il arrive, qu’après une lecture continuée, il ne reste dans l'ésprit rien de ce qui l’a occupé. L’enchainement des objets ajoute des charmes à la méditation; il fait désirer l’objet qui suit, par la liaison avec ceux qui le précèdent, et il rend l’étude utile em même temps qu’agréable. (DESPREAUX, 1829, p. IV)

Despréaux acreditava que a leitura precisa seguir uma ordem que obedeça ao encadeamento de idéias, fazendo com que o leitor estabeleça nexos entre as diversas idéias colocadas no texto. Sem essa ordem, a leitura não chega a se fixar na memória do leitor, durando apenas um instante e depois se evaporando e não causando nenhuma impressão mais profunda ou modificação na alma. Para Despreaux a memória é a instância na qual fica impresso o que foi recebido pelos sentidos. Se a impressão é forte, a memória a retém de modo que aquela idéia se mantém no espírito, modificando-o.

Todavia, embora o papel da memória seja essencial, a instância responsável pela crítica, ou seja, pelo juízo dado em relação a uma experiência é a razão, que algumas vezes pode ser entendida na Selecta Catholica como raciocínio.

O conhecimento, segundo um trecho da Selecta Catholica de 1 de outubro de 1846, pode se dar por meio do raciocínio e do sentimento ou de uma revelação e da autoridade:

Qual serà este meio geral para discernir com certeza, entre as diferentes religiões; a verdadeira? Este meio está em nós, ou fora de nós. Os únicos meios de conhecer, que temos em nós mesmos, são o sentimento, e o raciocínio; fora de nós, a autoridade. Os homens pois devem chegar ao conhecimento da verdadeira Religião pelo sentimento ou revelação immediata, ou pelo raciocínio, ou em fim, pela autoridade. (Selecta Catholica, 1 de outubro de 1846, p. 196)

O conhecimento da verdade e da realidade tal como ela é chega até nós por meio do

sentimento, aqui entendido como revelação imediata, pelo raciocínio ou pela autoridade.

Para a tradição agostiniana, o conhecimento se dá por meio dessas mesmas vias: da razão e da memória, da alma dos sentidos, da revelação e da autoridade.

Assim, a crença no jornal e nos impressos como reformadores explica-se pelo fato de que a linguagem oral ou escrita, chegando à alma humana pelos sentidos age sobre o

intelecto, causando efeitos eficazes sobre aquele que a lê.

A leitura dos livros de Religião moveria os sentidos e o coração para o bem de modo que a inteligência ficasse voltada para Deus. Por outro lado, os livros de Religião são portadores da autoridade da Igreja e da tradição, como demonstra a própria Escritura. Assim, os bons livros têm uma dupla influência no homem: a de se deixar ensinar pela autoridade da Igreja e a de manter seu pensamento e sentimento voltados para o infinito. Ora, os discursos que traziam elementos contra a boa educação e maus costumes alimentavam os maus pensamentos, ao contrário, os bons discursos incrementavam as virtudes.

Em diversas correspondências e documentos escritos por D. Viçoso aparece a valorização atribuída aos livros como instrumentos a serem utilizados no caminho da ascese humana. Em uma carta escrita a um afilhado, quando ainda era diretor do Seminário em Jacuecanga, aparecem os seguintes conselhos:

Agora porem como missionário e padrinho que sou seo, não será fora de proposito fazer-lhe algumas advertencias, que o ajudem a aperfeiçoar-se no seo estado. Não deve passar dia algum em que não medite algumas das verdades eternas de nossa Religião, e em que não leia por algum bom livro, ou sejão os que nomeei, ou alguma vida de Santos, em que não estude algum pedaço de Moral. A vida de um ecclesiastico, meo Padre Domingos, deve-se occupar toda na sua propria santificação, e não do proximo. (VIÇOSO, 1823 apud PIMENTA, 1920, p. 40)

O lazarista continua a correspondência mostrando para o afilhado a importância da leitura como um exercício diário essencial para o aperfeiçoamento do estado eclesiástico.

Também na Introdução à Selecta Catholica de 1836 -1837, encontramos informações sobre a importância que D. Viçoso dava à leitura e aos livros:

Tanto cuidado merece a tanta copia de escriptores a felicidade temporal, e quase ninguem se lembra da felicidade, ou desgraça de huma vida futura em que tão depressa havemos de entrar. Multipliquem-se pois os livros da Religião: occupem-se os nossos pensamentos com o cuidado da eternidade, com o culto devido a Deos, com o que mais promove o desempenho de nossos deveres para com o proximo, e com os exemplos e maximas dos Heroes do Christianismo. Em huma palavra consideremos a Deos como Auctor da Graça e como Auctor da Natureza. (VIÇOSO, Introdução à Selecta Catholica, 1836, s.p)

Para o bem de sua salvação ou felicidade de uma vida futura, o homem deveria voltar o seu pensamento para a eternidade e não para os bens temporais. Desse modo devem-se multiplicar os livros de Religião, pois pelas boas leituras é possível manter o pensamento voltado para Deus. Assim, a imprensa é utilizada como estratégia de multiplicação de idéias e saberes, cujo objetivo é fazer com que o homem mantenha seu coração e seu pensamento voltados para Deus.

Para Hebrard (1995), a convicção na eficácia da escrita e da leitura de impressos para a modificação do homem, convertendo-o ou levando-o ao erro, tem raízes nos vários séculos de educação e trabalho pastoral da Igreja.

De fato, a tradição ensinava que entre os diversos prazeres existentes no mundo, o homem deveria escolher aqueles por meio dos quais seu pensamento ficasse ocupado da eternidade:

Os prazeres que mais estima o christão são sempre os menos ruidosos, os mais duráveis: aquelles que sem levar o espírito á huma alegria excessiva, lhe procurão hum gozo puro e tranqüilo. [ ... ] Por que a bondade de Deos me offerece tantos gozos neste mundo, não escolherei os prazeres mais nobres, mais puros e duráveis? Estando collocado na cadeia dos seres entre o Anjo e bruto; sendo-me permittido optar entre as fruicções d′hum e outro, por que não preferirei os prazeres das intelligencias superiores, os mais puros, radiosos, perfeitos, semelhantes à Divindade? He esta alegria que deve enobrecer a alma do christão. (Selecta Catholica, 1 de dezembro de 1846, p. 344)

Na mesma correspondência, vista anteriormente, na qual o bispo repreendia um vigário por causa de sua pouca disponibilidade para a distribuição das leituras e arrecadação do dinheiro que mantinha a Tipografia e os pios estabelecimentos, D. Viçoso o aconselha a se portar como verdadeiro padre e nunca deixar de lado suas leituras de moral:

Nosso Senhor lhe dê muito da sua graça, para se portar sempre como hum Pastor verdadeiramente catholico. Olhe que nada conseguirá, se se não entregar de todo a Deos, com seos bocados de oração, e lição espiritual, e nos intervallos não largue os seos livros de moral (VIÇOSO, 31 de maio de 1852)

A leitura dos livros de moral, a oração e as lições espirituais são os meios que o padre desencaminhado poderia utilizar para começar a se comportar como um verdadeiro eclesiástico. Além disso, é claro, D. Viçoso se fiava na Graça. Afinal, para a tradição católica, a fidelidade de Deus é perfeita, já a dos homens tem lá os seus defeitos.

De qualquer modo, a leitura dos livros de moral era um dos aspectos que contribuia para a mudança de costumes, transformando um padre um pouco relapso em um padre que se comportasse verdadeiramente como membro da Igreja.

Nesse sentido, a Selecta Catholica era produzida por esse grupo de religiosos de uma maneira muito cuidadosa para que efetivamente fosse um instrumento educativo capaz de modificar os costumes. A modificação dos costumes se dá especialmente pela vontade, instância da alma intelectiva responsável pela adesão ao bem:

Que cousa há impossível aos homens, se elles a tentão com huma bem determinada vontade, com hum zelo, e com huma inalterável constância? Esta vontade, este zelo, esta Constancia tem patenteado aos philosophos grande numero de recônditas verdades, tem subjeitado ao severo rigor do calculo as operações da terra, os movimentos do mar, e o curso dos astros; tem elevado a penna do escriptor, o pincel do artista, a espada do guerreiro, a audácia do navegante a huma altura, a que parecia que a humana fraqueza não podia nunca chegar. (Selecta Catholica, 1 de junho de 1847, p. 326)

Assim, a vontade voltada para Deus eleva a pena do escritor. Por isso os livros adequados para a leitura eram aqueles escritos sob essa vontade, porque assim elevaria também o pensamento do leitor.

Desse modo, a maneira como o periódico é organizado é investido dessa capacidade de educação e conversão. Um dos aspectos da intenção educacional e de mudança de costumes são os preceitos relacionados à medicina da alma, ou seja, a prevenção e cura dos males sofridos pelas almas humanas. Veremos este tópico no próximo capítulo.