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Ġslami YaĢantının Sosyal Hayata Etkileri (Zekat, Namaz, Oruç, Sadaka)

3.5. Ġslam Algısına Yönelik Bulgular

3.5.5. Ġslami YaĢantının Sosyal Hayata Etkileri (Zekat, Namaz, Oruç, Sadaka)

de 1847.

Lamennais, de quem já falamos aqui a respeito do jornal L’Avenir, é uma figura bastante interessante, pois sua obra pode ser classificada em um primeiro momento definido como intransigente e um segundo momento em que ele se insere entre os católicos liberais (MARTINA, 1996), o que fazia com que tanto os autores mais tradicionais quanto os mais liberais se inspirassem nele, tendo assim exercido uma grande influência na França. Lamennais, segundo alguns autores, pode ser considerado como um dos precursores do espiritualismo.

De acordo com Reale e Antiseri (1991), Marie-Pierre Maine de Biran (1776 – 1824) atraiu a atenção de sua época para uma filosofia direcionada para o mundo interior do homem. O espiritualismo de Maine de Biran tem como pressuposto a distinção entre sensação e consciência, sendo consciência definida como “sentimento de existência individual” ou do eu (REALE;ANTISERI, 1991, p. 256). Para os filósofos espiritualistas, assim como para a Selecta Catholica, como veremos mais adiante, a vontade é o principal motor da alma humana (REALE; ANTISERI, 1991)

A obra Essai sur l’indifférence en matière de religion é de 1817, da primeira fase de sua obra. Alguns pontos da proposta de Lamennais em Essais são as que aparecem na

Selecta Catholica: a negação de que o homem possa chegar à verdade sem o auxílio da

revelação, o que constitui uma reação ao racionalismo, e a função social da Igreja, ou seja, a afirmação do papel primordial da hierarquia eclesiástica, da Igreja como cabeça da sociedade, como expressão da revelação divina.

Sem dúvida nenhuma, o espírito da Selecta Catholica publicada em Mariana era o de combate a idéias específicas que circulavam no país e que contradiziam as propostas de Lamennais e dos redatores da Selecta. Nesse sentido, a intenção do periódico era a de educar as pessoas e esclarecê-las sobre o engano de algumas filosofias modernas. Na

Notícia sobre a Selecta Catholica D. Viçoso afirma:

Sendo o Brasil e outros estados sulamericanos, aquelles em que a impiedade ou o indifferentismo religioso do século 18, entrou ultimamente, não tem tido ainda tempo de conhecer a falsidade, e insubsistencia das theorias encyclopedistas, nem a gravidade dos males por ellas produzidos, não só em relação ao fim último do homem, mas tambem para a sua felicidade na vida presente, para a ordem, e prosperidade das grandes sociedades humanas. [ ... ] E se são estes os effeitos em

todos os paizes ainda mesmo naquelles que estão bem organizados, e as populações homogeneas e concentradas, que será no Brasil, aonde os elementos populares são tão diversos; aonde a escravidão perverte toda a direcção moral; aonde as immensas distâncias, o isolamento das familias e dos individuos enfraquecem singularmente a acção das leis, e da autoridade publica, e a (?) dos meios de civilização? Não obstante esta evidente e urgentissima necessidade, quando nas nações do antigo hemispherio se patentea huma salutar reacção a favor do dogma e culto catholico por numerosos orgaos na imprensa, no Brasil reina ainda a maior indifferença a este respeito. Para pôr termo á esta fatal omissão, e abrir o exemplo para outros escritos, emprehendeo-se em 1836 a publicação da Selecta Catholica [ ... ] mas todo o tempo subsequente (nove annos)não tem apparecido producção alguma que a substitua. (Viçoso, Notícia

sobre a Selecta Catholica,1846, s.d.)

É evidente neste trecho, o caráter combativo e educativo do periódico. A Notícia

sobre a Selecta Catholica revela que a motivação para se publicar o periódico era a

inexistência desse gênero no Brasil, o que parecia imperdoável ao bispo lazarista, já que o jornal vinha sendo reconhecido, desde o século anterior, como um precioso instrumento de propagação das idéias e educação da população. Além disso, a imprensa católica já contava com jornais publicados em diversos países como uma das estratégias utilizadas a favor dos ideais católicos, como é o caso do L′′′′Avenir de Lamennais, enquanto que no Brasil a Igreja se mostrava indiferente a esse movimento.

Na realidade, um jornalismo católico com objetivo de reforma dos costumes já havia sido realizado em 1832, no Recife, pelo Padre Lopes da Gama:

Quando Lopes Gama lançou seu periódico em 1832, anunciou que desviaria a imprensa brasileira da rota seguida desde sua criação em 1808, ou seja, da devoção às notícias inúteis e insípidas provenientes do exterior ou à divulgação de visões fanáticas e partidárias dentro do Brasil. Ao contrário, ele prometia defender em seu periódico um projeto de ilustração, educando os leitores por meio da imprensa e liderando uma campanha para a tão necessária reforma dos costumes. (PALLARES-BURKE, 1996, p. 130)

O religioso publicou o Carapuceiro (1832), cujo objetivo era ser um jornal que educasse moralmente as pessoas. Diferente do grupo de religiosos ligados a D. Viçoso, o espírito que Lopes da Gama deu ao seu periódico era iluminista, resenhando e imitando muitos textos publicados no Spectator. Também, o Carapuceiro tinha como mentalidade lutar contra a futilidade da vida cotidiana, não tendo como finalidade a disputa com teorias filosóficas iluministas (PALLARES-BURKE, 1996).

Provavelmente, se D. Viçoso fosse bispo da Diocese de Lopes da Gama, este último poderia ser reeprendido por utilizar um periódico pertencente à lista das obras proibidas,

cujas idéias eram reconhecidamente iluministas, ao invés de autores próprios da tradição cristã como fonte para o seu jornal. Além disso, o padre pernambucano, além de religioso, educador e jornalista, era também envolvido com a política de sua província, o que era bem contraditório com a vida de religioso de acordo com os padres reformistas que se inspiravam no Concílio de Trento e em S. Carlos Borromeu.

Na Notícia, o bispo lazarista deixa bem claro que a Selecta Catholica se opunha ao indiferentismo religioso iniciado no século XVIII e às teorias enciclopdistas, que D. Viçoso acreditava vivas no Brasil. O bispo se referia às lutas que a Igreja estava tendo que realizar, desde o século XVIII, com os diversos movimentos anticlericais, antipapistas e com os Estados de diversas nações que tentavam criar Igrejas nacionais, submetidas ao poder estatal, bem como tomar para si prerrogativas no seio da Igreja que até então tinham pertencido a Roma.

As correntes que foram alvos das críticas da Selecta Catholica foram o panteísmo, o materialismo, o racionalismo e a indiferença religiosa, como mostra um dos fragmentos da

Selecta Catholica de 15 de julho de 1846, extraído de Bergier:

Observo que estão divididos a respeito da Divindade. Huns seguindo a Demócrito, Epicuro, Lucrecio e Espinosa, prentendem que tudo seja matéria, e por huma conseqüência natural, que Deos seja o mesmo Universo. Outros pela doutrina de que a matéria he incapaz de pensar, confessao hum Deos espiritual; mas em quanto aos seos attributos, não concordam entre si. [ ... ] Noto, que elles não estão de acordo sobre sua própria natureza. Vejo huns pensando não haver outra differença entre o homem e o bruto, que a figura e mais ou menos intelligencia; porque tem os mesmos órgãos que o homem: o homem acaba com a morte, como o bruto, dizem aquelles. (Selecta Catholica, 15 de julho de 1846, p. 8)

Vemos que os redatores da Selecta compartilhavam das mesmas opiniões que as revistas européias católicas do século XIX vão ter a respeito de algumas teorias modernas. Martina (1996) comenta que o jesuíta Pe. Cornoldi escreveu em 1872 na Civiltà Cattolica, que a história da filosofia moderna poderia ser denominada de “patologia da razão humana”, pois se resumia em aberrações intelectuais de homens solitários e abandonados ao seu próprio orgulho.

A afirmação de Cornoldi se assemelha às idéias da Selecta de que a crença excessiva na razão era a patologia dos últimos tempos. Essa enfermidade, segundo D. Viçoso e João Antônio dos Santos, vinha das teorias indiferentes à Religião que afirmavam a autonomia

do homem em relação a Deus, podendo chegar ao conhecimento apenas por meio dos sentidos ou da razão. Essas teorias reforçavam a educação voltada apenas para o aprimoramento da inteligência e colaboravam com a idéia da necessidade de ruptura entre Deus e sociedade, trazendo graves conseqüências às estruturas sociais e políticas do país.

Para o bispo lazarista, os graves males de uma sociedade guiada por idéias materialistas, racionalistas e panteístas são que os homens não sabiam mais sua utilidade, perdendo a noção do seu fim último. Crendo-se igual aos animais que terminam com a morte, os seres humanos não veriam sentido na vida e não teriam motivo para praticar o bem ou viver adequadamente em sociedade, já que não seriam mais capazes de entender a utilidade de praticar o bem quando isso contrariasse os seus instintos mais imediatos. Para os redatores da Selecta, semelhante atitude equivalia à perda da felicidade na vida presente e provoca um desastre para a prosperidade da sociedade, pois culmina no desaparecimento da benevolência entre os homens e dos fundamentos da moral pública. Assim, a ordem pública perde seu elemento principal que é estar fundamentada no infinito.

Para Dom Viçoso, o perigo da desordem da sociedade parecia iminente no Brasil, principalmente porque o país permitia a escravidão, uma prática que na concepção do bispo era desumanizante. Além disso, o país era formado por raças de elementos e tradições muito diversos entre si, o que facilitava a concorrência dos mais diversos costumes. Vendo diante de si a perspectiva de uma sociedade desordenada, o bispo acreditava na urgência de promover a fé de modo que a sociedade se tornasse verdadeiramente cristã.

Desse modo, era imperioso que as idéias católicas começassem a se espalhar e para isso, o bispo e seus colaboradores começaram a formar uma verdadeira rede de distribuição das obras e impressos produzidos na Tipografia Episcopal.