• Sonuç bulunamadı

3.4. Konya Algısına Yönelik Bulgular

3.4.1. Öğrencilerin Konya Tanımı

A tradição católica sempre valorizara a importância da palavra falada ou escrita como método de conversão. A partir do século XVI, devido à reforma protestante, quando surgiu uma diversidade cultural carregada de novas concepções, idéias heréticas e livros que as reproduziam, a Igreja mostrou-se mais preocupada em transmitir sua mensagem (HEBRARD, 1995), elaborando um vasto programa de divulgação de sua doutrina (ASSIS, 1998) que se baseava sobretudo nos preceitos tridentinos. Os sermões, por exemplo, já vinham sendo utilizados como instrumento de conversão na Idade Média e no Renascimento, mas com a Reforma Protestante, este gênero ganhou um maior impulso devido à necessidade de conquistar novos fiéis ou reconquistar fiéis perdidos, sendo que se tem conhecimento de pelos menos 193 títulos de obras de oratória eclesiástica publicadas entre 1500 e 1700 (VILLARI, 1994).

No bojo dessas iniciativas, a partir do século XVIII delineia-se uma nova pastoral que coloca a paróquia como centro do apostolado, procura afirmar a escola católica e utiliza a imprensa como apoio e sustento para a pregação (MARTINA, 1996). A imprensa, neste caso, atuaria em três linhas: “publicações de obras ascéticas e hagiográficas para grupos mais preparados, coleções de opúsculos populares [ ... ] imprensa periódica quinzenal ou cotidiana” (MARTINA, 1996, p. 127)

Mas já antes do oitocentos, a Igreja vinha destacando a importância da leitura e preocupando-se com os impressos que tanto podiam educar para a vida cristã quanto levar os leitores para caminhos mais sombrios. Assim, Inocêncio VIII, em 1478, proibiu a impressão de livros sem a censura prévia da Igreja. Leão X, o Papa do Renascimento, considerou entre as graves preocupações da época a de “reconduzir os que erram ao caminho da Verdade e ganhá-los para Deus” (MOMBACH, 1981, P. 19), enfatizando os valores e perigos da Imprensa, que segundo ele era “criada para a glória divina, aumento da Fé e propagação das belas artes” (MOMBACH, 1981, p. 19).

Para vermos como a preocupação com a leitura já estava presente desde a época medieval, é interessante a citação de um trecho do Inferno da Divina Comédia, obra de espírito católico escrita no início do século XIV por Dante Alighieri, em que Francesca narra a Dante o momento em que ela e seu amante deixaram-se conduzir pelo pecado:

Líamos um dia nós dois, para recreio, de Lancelote e do amor que o prendeu; éramos sós, e sem qualquer receio. Vezes essa leitura nos ergueu olhar a olhar, no rosto desmaiado, mas um só ponto foi que nos venceu. Ao lermos o sorriso desejado ser beijado por tão perfeito amante, este, que nunca seja-me apartado, tremendo, a boca me beijou no instante. Foi Galeoto o livro, e o seu autor; nesse dia não o lemos mais adiante.

Nessa passagem da Divina Comédia, fica explícito o perigo da leitura e sua influência na alma daqueles que liam, pois é a partir da narração das aventuras amorosas de Lancelote que Francesca, uma mulher casada, e Paolo, seu cunhado, tornam-se amantes, cometendo a transgreção carnal que os levaria ao segundo círculo do Inferno.

Há muito tempo portanto, existia a idéia de que a leitura agia sobre a pessoa, por isso era vista como prática perigosa, caso não fosse feita com certo cuidado:

Ao ler sem tomar certas precauções, os cristãos põem em perigo sua salvação. Entregues ao prazer cultural e social de partilhar o texto impresso, não percebem a estranha força da escrita e acreditam poder escapar às armadilhas da sua argumentação e aos artifícios das suas figuras; pensam poder dissociar o prazer da leitura da influência do texto lido. (HEBRARD, 1995, p. 21)

O Concílio de Trento alertou para a influência dos livros, considerando que a leitura de obras heréticas corrompia os menos instruídos e conduzia os homens cultos a proferir opiniões e cometer erros contra a fé católica (MOMBACH, 1981).

Em 1864, Pio IX elaborou a Encíclica Quanta Cura, em que condenava doutrinas teológicas, filosóficas e sociais contrárias à fé católica, muitas delas transmitidas pelos impressos. Mais tarde, foi redigido o Syllabus Errorum, um resumo dos principais erros da época: panteísmo, naturalismo, racionalismo, indiferença religiosa, socialismo, comunismo, maçonaria e liberalismo (MOMBACH, 1981). A preocupação da Igreja com as novas idéias filosóficas e teológicas culminou num incentivo à imprensa católica, que

deveria expressar seu ponto de vista, como meio de combate aos erros. Leão XIII, já entre o final do século XIX e começo do século XX, diante da espantosa proliferação de periódicos, lançou um apelo:

Estes tempos necessitam de vosso auxílio [ ... ] o costume já universal de editar periódicos converteu-se em uma necessidade. [ .... ] É preciso transformar em medicina da sociedade e na defesa da Igreja o que os inimigos usam para dano de ambos. (Leão XIII, Audiência geral a um grupo de jornalistas profissionais, 1879 apud MOMBACH, 1981, p. 23)

Mesmo que esse apelo de Leão XIII tenha sido feito apenas no final do século XIX, vemos que muitos eclesiásticos já haviam se lançado na empresa de usar a Imprensa com meio de comunicação da doutrina católica. Na Europa, surgiram revistas católicas que obtiveram um relativo sucesso como La Civiltá Cattolica, de 1850, Stimmen aus Maria

Laach, de 1871 e Razon y Fé, de 1905 (MARTINA, 1996).

Como um dos pioneiros desse movimento que pretendia ser uma resposta aos ataques laicos e anticlericais dos anos 1800, temos o periódico L′′′′Avenir, na França:

O século XVIII é a fermentação da Revolução Francesa que eclodiu em 1789, com naturais reflexos pelo século XIX afora. É o século do filosofismo contestado, do enciclopedismo iconoclasta, da luta pelas liberdades civis e políticas, incluindo a liberdade de pensamento e de opinião. São seus corifeus Voltaire, Rousseau, Diderot e outros. A campanha era contra a monarquia tradicional e, pois, contra a Igreja, aliada ao Ancien Régime à qual Voltaire chamava linfâme que era preciso esmagar. Em contrapartida, a Revista L′′′′Avenir, pequena gota no oceano congregava alguns líderes católicos, como

Montalembert, Lacordaire e Lammenais. Viam os líderes católicos a necessidade de se abrirem às novas correntes, e buscar uma conciliação com a civilização moderna e suas liberdades. (MOMBACH, 1981, p. 22)

Lamennais fundou em 1830, na França, junto com Montalembert e Lacordaire, o jornal L′′′′Avenir. Esse periódico é considerado como uma experiência pioneira da imprensa católica, por terem sido seus redatores os primeiros a abandonarem a atitude defensiva ante as novas correntes de pensamento, a imprensa e novos movimentos políticos, buscando uma conciliação com os ideais modernos (DALE, 1973; MOMBACH, 1981).

Lamennais destacou-se pela sua atividade jornalística, posicionando-se diante das medidas tomadas em relação à Igreja a partir da Revolução na França. De acordo com Martina (1996), o periódico fazia propostas claras: aliança do cristianismo com a liberdade, separação entre Igreja e Estado, recuperação da livre nomeação dos bispos por parte da Igreja, reivindicação de todas as liberdades: de culto, de ensino, de imprensa, de associação, mas a maior luta desse autor foi contra o monopólio estatal da escola. Vale lembrar que

uma das tensões entre os padres lazaristas do Caraça e o jornal O Universal tinha como ponto central a reação do periódico à ação da Igreja sobre a educação formal (ANDRADE, 2000).

As idéias de Lamennais expressavam a espera de uma renovação total da sociedade e exerceram grande influência na França, favorecendo o surgimento do ultramontanismo (MARTINA,1996). De acordo com Azzi (1974a, 1974b) e Moreira (1992), o ultramontanismo foi também uma característica da atuação de D. Viçoso no Brasil.

Camello (1986) afirma que o ultramontanismo, na realidade, é um movimento de reforma que pretendia dar continuidade aos preceitos do Concílio de Trento. Desse modo, o espírito ultramontano não seria uma nova posição, quase inventada, de algumas facções da Igreja, mas um movimento que se colocava dentro de uma tradição já bem antiga:

aquilo que, no século XIX, no ardor mesmo do movimento reformador, se acostumou chamar (às vezes não sem alguma intenção malévola) de ultramontanismo e já recentemente de romanização (pela maior aproximação dos bispos reformadores e de suas igrejas com Roma e o Papado) de fato se acopla num processo de mais “longa duração” no seio mesmo da Igreja Católica (CAMELLO, 1986, p. 258)

A fidelidade ao Papa e depois aos preceitos do Concílio de Trento caracterizava a atuação de muitos eclesiásticos dentro da hierarquia da Igreja, como demonstra o próprio exemplo de S. Carlos Borromeu, a quem D. Viçoso procurava imitar.

Como centro da fidelidade ao Papa, um aspecto que aproximava as idéias de Lamennais20 e as atitudes de D. Viçoso era o combate às idéias filosóficas consideradas perigosas para a integridade do homem e da sociedade e a esperança da formação de uma sociedade renovada.

Vemos portanto, que o projeto de reforma do clero e de renovação da sociedade levados a cabo por D. Viçoso adotava como estratégia o mesmo método que vinha sendo utilizado desde o Concílio de Trento. A novidade dessa estratégia parecia ser a difusão das idéias da ortodoxia católica aqui no Brasil por meio da palavra escrita e veiculada na sociedade pela imprensa, que permitia uma maior produção dos textos se comparados aos manuscritos.

20 Podemos dizer que o percurso intelectual de Lamennais possui duas fases: uma primeira fase

tradicional, em que escreve Essai sur l′′′′indifférence en matière de religion (1817) e a época em que se dedica aos ideais proclamados por meio do jornal L′′′′Avenir. Mais tarde, este jornal vai ser proibido pela Santa Sé por sua defesa de liberdade de pensamento.

No jornal Selecta Catholica elaborado em 1836 por D. Antônio Viçoso, encontramos uma introdução em que o lazarista comenta que os católicos emprestaram de outra tradição o método de utilizarem-se de periódicos para a difusão de idéias:

Colligimos neste Periódico os pedaços que nos tem parecido mais a proposito, para confirmação da Fé Catholica que professamos e para promover a Piedade e Religião, extrahidos dos escritores de mais nome. Nações nas quaes não he dominante o culto Catholico, nos dão exemplos do presente methodo, que já começão a ser imitados pelos nossos: pena he que seja tão tarde. (Introdução à Selecta Catholica, 1836, s.p)

Nessa introdução, D. Viçoso diz que a sua atividade jornalística segue o exemplo de uma tradição vinda de países onde a religião católica não era dominante. Como o exemplo de L′′′′Avenir, os católicos começam a imitar o método de criar seletas de leituras que circulavam periódicamente. Nesse sentido, D. Viçoso parece ter sido o precursor do jornalismo católico no Brasil. Alguns autores, como Dale (1973) e Hebrard (1995) afirmam que apenas no final do século XIX a Igreja Católica começa a ter uma visão mais positiva da Imprensa e de seus usos. Todavia, essa atitude de positividade em relação aos bons usos que se poderia fazer da Imprensa e do material por ela produzido era uma característica da ação missionária desse lazarista desde 1836.