3. ŞAMANİZMDE TANRILAR
3.1. Gökyüzüne Mensup İlahlar ve Ruhlar
Já em O silêncio da chuva (1996)75, Espinosa foi apresentado como um detetive bastante excêntrico em relação ao ambiente da polícia.Ele “não incorporara o linguajar típico
dos colegas” (GARCÉA-ROZA, 2005, p. 15), tinha um olhar que “não parecia policial, mas estético” (p. 36) e pensa consigo mesmo que “era policial como poderia ser professor numa escola secundária” (p. 132). A rotina da delegacia o aborrece. O narrador chega a falar em sua “condição de estrangeiro”, na página 220, de tal forma que a figura do detetive é construída
74 Outra prova de que, a essa altura, a evidência da reverberação de Cidade de Deus no sistema cultural brasileiro já está bastante amadurecida é a publicação do texto de João Cezar de Castro Rocha sobre a dialética da marginalidade, em 2006.
desde o primeiro livro como a de um policial incomum (mas, fique claro, não incomum como os de Elite da tropa, que se dizem incomuns para reivindicar uma voz particular do BOPE – o policial que é mais que o policial –, e sim, como se verá, incomum por pertencer, em sua intimidade e história pessoal, a um ambiente e classe social bastante distintos, tendo uma individualidade identificada com outro lugar social – assim, o policial que é menos que o policial).
O drama de Espinosa em relação à polícia chega a tal ponto de crise que, em Uma
janela em Copacabana (2001)76, o detetive (agora promovido a delegado77) começa a sonhar com a possibilidade de ganhar a vida abrindo um sebo e vendendo livros. A paixão de Espinosa por livros, aliás, é uma de suas características mais recorrentes. Mas, aqui, o letramento não é evocado como munição para atacar o leitor e defender-se dos preconceitos. Na verdade, muito pelo contrário: a paixão de Espinosa por livros é um ponto operado justamente no sentido demarcar sua estrangeiridade em relação ao mundo policial (reforçando, portanto, o estereótipo que o narrador de Elite da tropa pretende desfazer) e sua aproximação com o universo de uma elite letrada composta por professores universitários, psicanalistas, herdeiros de fortunas, artistas visuais, arquitetos e outros tipos sociais relacionados, que pipocam em suas investigações78. Observe-se o trecho a seguir:
Novamente na rua, olhou para o céu. Azul-matisse, pensou. E pensou no que havia pensado. Nenhum delegado de polícia sai para entrevistar uma testemunha e antes entra na melhor livraria do bairro e sai com três livros dentro da sacola – Faulkner, Coetzee e PatriciaHighsmith -, faz a entrevista mas fica embevecido com a beleza e a elegância da testemunha, e quando está novamente na rua olha para o céu e pensa “azul-matisse”. Algo está errado. A fala não combina com o personagem... Ou o roteiro é ruim ou o diretor é incompetente. (GARCÍA-ROZA, 2006, p. 80)
Há que se mencionar que, em O silêncio da chuva, a sensação de descompasso não se restringe apenas à relação de Espinosa com a polícia, mas a quase todos os códigos sociais de que deve ou deseja participar. É fácil perceber, através de momentos diversos, que Espinosa sente-se intimidado por mulheres “sofisticadas” e de ascendência proeminente da sociedade carioca, julgando-se incompatível com elas – seja por sua profissão de policial, seja
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A edição utilizada como referência para este estudo foi a 2ª, em sua 3ª reimpressão, 2009.
77 A promoção de Espinosa a delegado deu-se, segundo afirmou García-Roza em entrevista a OGlobo, por
motivos financeiros: “com o salário de inspetor ou de detetive, Espinosa não poderia ter o tipo de vida que tinha, ele precisava de um salário um pouco melhor”. (COM ESPINOSA, 2015. Disponível em http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,com-espinosa-no-peixoto,115752)
78 Cabe ressaltar que Espinosa possui uma relação de relativo distanciamento e desconfiança quanto a essas pessoas (das classes altas) no livro de estreia, mas, em Espinosa sem saída (2006), já se sente bastante à vontade entre elas, e trava relações inclusive íntimas nesse núcleo – como é o caso de sua namorada, Irene, uma designer gráfica com passagem pelo MoMA, de Nova York.
pela disparidade de bens. É o caso,por exemplo, de seu interesse bastante saliente por Bia Vasconcelos, artista, herdeira e dona de galeria de arte no Leblon:
Numa fração de segundo, imaginei a situação inversa. Como seria se eu fosse um designer internacionalmente conhecido, rico, herdeiro de uma fortuna respeitável, e uma policial da delegacia da praça Mauá começasse a me telefonar e a aparecer na minha casa? Será que eu seria todo simpatia e a convidaria para vir a minha casa a fim de nos tornarmos amigos? (GARCÍA-ROZA, 2005, p. 196)79
O policial, na percepção de Espinosa em O silêncio da chuva, é um sujeito cuja presença causa intimidação e desconforto e por isso tende a encontrar dificuldades em estabelecer relações íntimas. Mas esse tipo de problema de sociabilidade que Espinosa atribui à figura do policial tende, no entanto, a diminuir significativamente nos livros seguintes, quando, além da promoção profissional,recebe também a promoção ao charme de homem misterioso, deixando de lado a insegurança e transitando (ainda que timidamente) como um sedutor pelo universo feminino da elite carioca. Em Uma Janela em Copacabana (2001), por exemplo, tem um breve caso com uma testemunha (Serena), que além disso é casada com um economista do alto escalão do governo. Seus dramas em relação a esse universo feminino específico tornam-se cada vez menos importantes, até chegarem ao ponto de quase desaparecem em Espinosa sem Saída (2006), quando parece estar com a vida amorosa relativamente bem resolvida. Sua relação com Irene, a artista com passagem pelo MaM, parece satisfazê-lo, e não gasta mais seus pensamentos sentindo-se intimidado por essas
mulheres “sofisticadas”. Resumindo: Espinosa deixa de ser um homem inseguro e percebe
que é capaz de transitar muito bem nesse universo que julgava alheio e inacessível.
Entretanto, a sensação de deslocamento em relação à polícia permanece: “continuou andando
e pensando no tipo estranho que ele era. Não propriamente estranho. Excêntrico é um termo melhor... ou descentrado. Excêntrico ou descentrado em relação à instituição policial(GARCÍA-ROZA, 2006, p. 81).
Tudo isso funciona no sentido de atribuir a Espinosa um caráter que se distancie o
mais possível da figura “esperada” (?) de um policial, aproximando-o, em contrapartida, ao
universo da Zona Sul. A própria espacialidade dos romances é, como se discutirá mais adiante, bastante restrita, sendo que o detetive/delegado cresceu em Copacabana (onde ainda vive) e, volta e meia, suas jornadas investigativas no bairro evocam memórias de infância. Espinosa faz algumas incursões comparativas em sua memória sobre a Zona Sul de menino e
79 Neste trecho, quem fala é o próprio Espinosa, como deve ter ficado claro, na condição de narrador. O silêncio da chuva reveza narradores em terceira e primeira pessoa.
a Zona Sul atual, marcando claramente aquele lugar (aquela paisagem social) como seu espaço de subjetivação e de enunciação.