As análises desenvolvidas nos capítulos 5.2 e 5.3 demonstraram como, apesar de partirem de um referencial comum (o universo policial), Elite da tropa e as narrativas do detetive Espinosa correspondem a projetos bastante distintos, que parecem ilustrar posições de classe também bastante distintas. Farei agora uma breve comparação entre ambos, de modo a mostrar os principais pontos onde convergem e divergem antes de me encaminhar para a reflexão final que constitui a conclusão deste estudo.
O detetive Espinosa foi criado antes do boom da literatura de periferia e é protagonista de romances policiais dentro da tradição internacional do romance policial, focados na investigação de um crime (geralmente assassinato), adicionando-se o interesse pela vida pessoal do detetive. Assim, a matéria narrada não é a violência cotidiana ou o dia-a- diadas delegacias, mas o relato de um processo dedutivo e, também, a vida íntima do protagonista. Já Elite da tropa, que surge num momento em que a literatura de periferia tornava-se volumosa e expressiva,manifestafoco completo no drama da violência diária vivida pela polícia e nos aspectos mais difíceis de seu cotidiano, como as intrigas políticas e a corrupção.O olhar narrativo está voltado para o submundo, figurado através da perspectiva da categoria profissional, e com poucas alusões à vida fora da farda.
Para Espinosa, o mundo policial é acessório, e a investigação se dá como atividade pessoal e quase solitária. O detetive possui poucas relações com outros policiais e ambientes da polícia, além de ficar geralmente restrito à Zona Sul da cidade; não se mete com o tráfico: se há menção à corrupção e ao tráfico, são apenas menções. A polícia, ao menos em termos de uma formação de sua identidade, é secundária: sua profissão não parece influenciar significativamente, a não ser enquanto um elemento de crise. A perspectiva de classe que assoma parece ser mais a perspectiva da classe que habita a “Zona Sul do Rio” – excetuando- se as favelas dessa região –, ou seja, as classes médias e altas. É esse o universo em que Espinosa e o narrador transitam e com o qual se identificam.
A tentativa, por parte do narrador de Elite da tropa, de atacar o leitor, e a vontade de desmentir o estereótipo sobre o policial são, por sua vez, estratégias que compõem o discurso classista de resgate da imagem das instituições policiais. No discurso em primeira pessoa, dirigindo-se diretamente ao leitor e, consequentemente, à população (ao menos à população leitora), o narrador, além de afirmar seu pertencimento a uma categoria, também
acusa um “estrangeiro” genérico de não estar devidamente consciente do que significa ser
BOPE, é um policial “incomum”) também reivindica sua “normalidade” (é um cidadão como qualquer outro, que pode obter formação e desenvolver sua cultura e sua inteligência). Em García-Roza, por outro lado, a equação se reverte: a exclusividade passa a ser sua cultura e sensibilidade em comparação aos colegas (o que o torna um policial incomum), enquanto a normalidade está no fato de que ser policial é visto, pelo próprio Espinosa, como qualquer outra profissão, apesar da visão que a sociedade faz da polícia:
Não me via diferente dos demais. Era policial como poderia ser professor numa escola secundária. Mas uma coisa era o que eu pensava de mim e de minha profissão, outra coisa era a representação que o social fazia do tira, e Bia Vasconcelos não parecia fugir à regra. Policial só frequenta a sociedade para fazer sindicância. (GARCÍA-ROZA, 2005, p. 132)
Ainda, diferentemente de García-Roza, em Elite da tropa o policial é tido como uma barreira, uma barra de contenção entre o mundo e o submundo, e o narrador assinala para essa percepção quando faz ver a travessia realizada pelo policial entre “a cidade” e “sua
sombra”. Em García-Roza, por outro lado, a polícia não é vista nesse sentido. É uma polícia
investigadora101, e a contenção parece ficar a cargo do próprio olhar seletivo que “escolhe” a matéria a ser investigada. Nesse sentido, a própria geografiacontribui, cercando a Zona Sul em paredões de pedra que isolam o detetive e suas atividades. Ou melhor: traça-se em torno dela um “cordão de isolamento”, cuja principal função não é separar a cidade de sua sombra para que se mantenha a primeira protegida da segunda, mas demarcar a própria área de garantia dos direitos civis – o que, sob um certo ângulo, não deixa de ser o sentido do cordão de isolamento policial na cena de um crime: é ele que assegura a integridade da investigação e do corpo ao impedir a manipulação externa dos dados que figuram aos olhos do policial e das instituições públicas como indícios; que garante visibilidade, ao invés de esquecimento. Não há cordão de isolamento nas favelas para as vítimas da guerra da corrupção e do tráfico.
Entre investigação e repressão, a morte pode ser a causa da atividade policial (García-Roza) ou sua consequência (Elite da tropa), o que marca outra diferença essencial entre as narrativas. Até mesmo no único ponto em que parecem se aproximar o fazem de maneiras distintas:pois ambas de certa forma funcionam no sentido de resgatar e/ou contribuir
para a melhora de uma determinada“imagem agredida” – mas o que acontece, porém, é que
Elite da tropa trabalha em prol do policial, e García-Roza em prol da cidade desacreditada. Os
101 Em Espinosa sem saída há uma comparação interessante. Após ser interrogado pelos policiais, Aldo Bruno
desabafa com sua esposa: “respondi ao que me perguntaram. A questão é que eles fazem as perguntas mas deixam sempre uma sugestão velada de que você é culpado de alguma coisa” (GARCÍA-ROZA, 2006, p. 51). Camila responde: “(...) Sob esse aspecto, eles não diferem muito dos psicanalistas e dos padres” (2006, p. 51, grifos meus).
narradores de Elite da tropa apontam para isso quando, no prefácio, assumem um discurso de classe (da classe policial) e afirmam que “este livro foi escrito com o propósito de enriquecer
o processo de reflexão dos policiais e da opinião pública” (2006, p. 10), visando “promover o aperfeiçoamento” das instituições e valorizá-las, pois “não há democracia sem polícia” (p. 10-
11); e, apesar das denúncias que faz à degradação do ambiente policial, o livro, através de um narrador que é policial “honesto e incorruptível”, que realiza a “vingança” da população contra a bandidagem, tenta construir uma imagem diferente e boa do policial, afetivamente recebido, nesse jogo de vinganças, como um herói – como aquele que faz justiça. Assim, talvez não atue no sentido de resgatar a imagem pública da polícia enquanto instituição – degradada, conforme afirmam os autores, por casos sucessivos de corrupção e brutalidade (2006, p. 10) – mas é certamente um resgate da imagem do policial do BOPE enquanto homem e profissional, que subsiste em condições de risco e apesar das instituições. García- Roza, por outro lado, acaba produzindo (e não estou dizendo que esta era sua vontade) uma espécie de “resgate” da imagem da cidade ao retratá-la através de um olhar bastante seletivo de seu narrador e seu protagonista, ignorando coisas e saturando outras, conforme já discutido, e ao explorar com grande interesse a subjetividade de personagens de classe alta– produzindo, nessa combinação, uma representação de modernidade e sofisticação, em contraste com a barbárie e desordem de outros livros do mesmo período(chega-se mesmo, em García-Roza, a uma negação da violência através da forma).
Assim, em resumo, os principais pontos de contraste entre as obras ficam bem expressos na tabela a seguir:
Espinosa BOPE
Civil Militares
Raciocínio dedutivo Raciocínio antecipador (tático); corporal
e brutal
Sem embate físico Guerra violenta
Zona Sul Favela
Crimes sofisticados Crimes violentos
Investigação Policiamento repressivo
Dramas pessoais do indivíduo (sentimentos, memórias etc)
Cotidiano violento do policial/corrupção
Morte como causa da atividade policial Morte como consequência
Resgate da imagem da cidade Resgate da imagem do policial