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A Hipóteses Emergentes são fruto da exposição das análises quantitativas ao Grupo Foco, que abriu a discussão para um panorama mais qualitativo dos resultados.

A análise fatorial do Questionário de Sustentabilidade possibilitou a identificação de dois fatores que explicam aproximadamente 73% da variância total encontrada. O primeiro fator, relacionado à gestão de processos típicos do campo organizacional da ONG, foi

denominado “Campo Organizacional” e explica aproximadamente 56% e o segundo fator, relacionado à interação com o meio ambiente, foi denominado “Campo Ambiental” e explica aproximadamente 17% da variância total encontrada. Foi possível verificar que o instrumento tem uma estrutura fatorial consistente e revelou dimensões bem definidas, que, embora compostas de elementos que a literatura apontou como essenciais para a definição do constructo “Sustentabilidade” (governança, inovação, resultados, gestão e impacto

econômico-financeiro, gestão social e gestão, educação e impacto ambiental), deu a conhecer

aspectos novos da questão.

O Grupo Focal teve o papel de debruçar-se sobre essa discussão, salientando seus pontos fortes e frágeis, bem como apontando as novidades que surgiam do estudo. Desse espelhamento surgiram ainda outras idéias, que não teriam surgido se dependesse apenas da percepção do pesquisador.

Das análises decorreramHipóteses Emergentes que têm a finalidade de expandir o entendimento e, ao mesmo tempo, abrir novas questões, “provocando” para pesquisas futuras. Colocam em cheque, afinal, qual é o modelo de Sustentabilidade que prevalece quando se aborda a diversidade das organizações do Terceiro Setor.

Também é importante lembrar que o argumento desta Pesquisa seguiu assim: propôs que as teorias de sistemas abertos foram ponto de partida para uma seqüência de acontecimentos na pesquisa científica, nos negócios privados, nas ações de governos e nas iniciativas de ONGs, culminando na definição do conceito de “desenvolvimento sustentável” como ‘raiz genética’ do termo “Sustentabilidade”, como é compreendido hoje pela sociedade. As hipóteses que emergem são, portanto, um reflexo dessa opção de lógica histórica.

Seguem quatro Hipóteses Emergentes. As duas primeiras serão discutidas em conjunto e a terceira e a quarta em separado.

Hipótese Primeira. O componente ambiental está dissociado da prática das

ONGs, que não atribuem a ele a mesma importância que aos outros componentes do constructo da Sustentabilidade.

Hipótese Segunda. As ONGs estão com seus olhares voltados para a gestão

interna em maior proporção do que para a interação com o meio.

Os resultados exibiram um padrão onde os indicadores mais significativos nas cargas fatoriais são os relacionados à gestão de assuntos internos e os mais fracos são os de posicionamento articulado com a sociedade e o meio externo. Especificamente na dimensão ambiental, os resultados mostraram que há uma dissociação entre o constructo teórico da

Sustentabilidade e a prática das ONGs. Isto pode ser observado no Fator “Gestão Ambiental”,

que surgiu isolado, fraco, pouco significativo. Tem-se aí um paradoxo entre a prática e o próprio conceito, cuja raiz está na questão ambiental (Capítulo 1).

Esta hipótese tem duas implicações: 1. A responsabilidade das ONGs quanto à ecologia do meio; 2. A consciência das ONGs sobre o que é gestão e que tipo de gestão elas escolhem fazer.

1. A responsabilidade das ONGs quanto à ecologia do meio:a responsabilidade ecológica traduzida em economia de recursos, educação ambiental e impacto que a ONGs podem provocar.

Com advento da teoria dos sistemas abertos, extremamente difundida nos anos 60, a importância dos fatores ambientais na forma e conteúdo das organizações se tornou maior; a importância do ambiente como fonte de recursos e de significados para a vida organizacional foi evidenciada e passou a ser fundamental (SCOTT, 1991). Mas, a questão é: até onde as ONGs identificam-se como sistemas abertos? Será que não vêem o meio ambiente como uma fonte de informação e energia que pode alimentar o seu funcionamento?

O tripple bottom line (ELKINGTON, 1994) surge nos resultados como uma idéia fragmentada e o componente meio ambiente como fator explicativo fraco.

Trabalhos clássicos sobre a teoria dos sistemas abertos, como os de Katz & Kahn (1966), podem ajudar a compreender o paradoxo ambiental que surge nas ONGs pesquisadas. Basta lembrar que elas, como organizações sociais, são sistemas abertos que definem suas próprias fronteiras, conforme sua codificação seletiva, bloqueando ou permitindo a entrada de informação e energia (inputs) e sua transformação em resultados (outputs). Racional ou irracionalmente construídas (SCOTT, 1991), as fronteiras em relação ao ambiente mostram que, nitidamente, as ONGsnão reconhecem o meio ambiente como fonte de input. Ao não

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reconhecê-lo, não dedicam a ele nenhuma energia de transformação, não o incluem em nenhuma cadeia de eventos e conseqüentemente não produzem nenhum resultado relacionado a ele. Trata-se de uma dissociação seletiva, onde a questão ambiental parece representar um risco de perturbação da ordem interna de funcionamento, conforme uma das nove

características básicas de todo sistema aberto, a homeostase dinâmica, ou seja, a manutenção

de um estado firme no caráter dos ciclos de eventos.

Habituadas em proteger-se incansavelmente contra perturbações externas, as ONGs não mudam facilmente seus processos e trabalham para manter um intercâmbio energético que as conservem como são, com as operações de praxe, relacionadas às suas identidades (sua missão, seu público, seus serviços). Este é o movimento típico dos sistemas abertos, com seus subsistemas técnicos de produção voltados para a manutenção e

permanência do mesmo estado e balanço energético no tempo.

O paradoxo ambiental nas ONGs é também compreensível pelo lado moral, pois são organizações criadas para buscar o bem estar de pessoas - não poluem com sua produção, não geram lixo tóxico, não distribuem produtos nocivos a ser recolhidos após o uso, não desorganizam o meio físico, etc. – e por isto se vêem com certa suficiência na

responsabilidade que lhes compete; elas naturalmente não vêem sua interação ambiental com profundidade, a ponto de mudar sua prática.

Esse tipo de atitude talvez fosse esperado apenas nas ONGs ambientalistas... A pesquisa mostra que não. As ONGs de meio ambiente também apresentaram pontuação fraca no Fator Ambiental. Isto se deve ao fato de que as treze questões relacionadas ao tema versavam mais sobre atitudes organizacionais independentes da área de atuação (como consumo e captação conscientes, integração e extensão comunitária e articulação com a rede pública) e foram as questões mais ignoradas (missing values) pelos respondentes.

A expectativa da sociedade sobre as ONGs em relação ao meio ambiente foi manifesta pela Agenda XXI: é de que elas, paulatinamente, incorporem em seu

funcionamento princípios de responsabilidade pelo componente ambiental (assim como também é esperado das empresas e dos governos), agindo de forma articulada com o meio a que pertencem. Ora, para que isto ocorra, a ONG, à luz da teoria dos sistemas abertos, têm que importar energia adicional até que configure em si esta nova atividade que, no início aparenta desvinculação de sua função principal e, portanto, ausente de seus ciclos de eventos internos.

O processo de compensação do esforço adaptativo é trabalho que usa energia. Mas, a evolução histórica força a organização a fazer ajustes como esses, já que a demanda é concretamente apresentada pelo mundo contemporâneo, está institucionalizada; se a ONG ficar alheia a ela isto pode significar um não cumprimento de seu papel organizacional. Adaptar-se é armazenar energia, é adquirir entropia negativa, é conseguir manter-se – por isso é uma dimensão da sustentabilidade para a organização.

Para realizar a expectativa de que as ONGs se apropriem ou, melhor dizendo, internalizem esse componente ambiental, será preciso que, analogamente aos sistemas abertos da biologia, entrem em homeostase dinâmica, que as impelirá a um novo equilíbrio sistêmico após a inclusão de novo ciclo na sua cadeia produtiva.

Ora, a natureza de tais ajustes dinâmicos da homeostase organizacional para preservar seu sistema é a de impactar em outros sistemas - em nível menor, criando subsistemas especializados dentro de sua estrutura ou em nível maior, afetando o supra- sistema social. Este efeito é o que precisamente está se esperando delas: ONGs que

possam disseminar novas formas de abordagem ambiental, que afetem desde os funcionários e a maneira como se organizam e se especializam (subsistemas) até a rede pública e privada, que investem no Terceiro Setor (supra-sistema). Este é o embrião de

uma cadeia de eventos que potencialmente pode revitalizar o percurso do tema ambiental nas responsabilidades organizacionais nos três setores: afetando os critérios de financiamento, controle e avaliação de resultados.

Lembrando Durkheim (1977/1960)- a motivação para manter o tecido social vem

da consciência coletiva de valores institucionalizados -, a dissociação com o meio ambiente

detectada pela pesquisa “soa” um tanto desanimadora, pois mostra que esse processo esperado não está em curso. Para realçar esta conclusão, pode-se recorrer novamente às questões

perguntadas no bloco ambiental: apenas as três primeiras, que são relativas ao ambiente físico interno à organização, foram respondidas a contento e não evitadas.

O papel das ONGs na Agenda XXI exigiria um pouco mais de atenção ao componente ambiental de modo geral, já que as ONGs têm a qualidade de mediação (FISCHER, 2006).

2. A consciência das ONGs sobre o que é gestão e que tipo de gestão elas escolhem fazer.

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Questões sobre transparência para o público externo, articulação e mobilização de interessados, realização de parcerias, arranjos cooperativos e impactos na economia local vieram em segundo plano, conforme os resultados analisados.

Novamente a teoria dos sistemas abertos aplicada às ciências sociais pode ajudar a compreender o fenômeno. Laços psicológicos, dentro da organização, mantêm sua qualidade de planejar-se numa estrutura de eventos que exige, por sua vez, mecanismos de controle para conservar juntas as partes que funcionam. Ora, funcionar contra a entropia é o desafio das

organizações. Mas, ao internalizar-se, não estaria a ONG no sentido contrário, o de reduzir a

transação com o meio?

Katz e Kahn (1966) destacam a importância do grau de liberdade na tomada de decisão íntegra que justifique a existência da organização como um sistema em si. A sua autonomia é escolher quais as fontes de inputs que aceita, sem ficar à mercê das fontes prescritas pelo supra-sistema; quais os receptores que quer para os outputs que produz (população alvo de seus produtos e serviços); quais os mecanismos de regulação interna de que precisa; quais os valores que assume; qual a sua codificação para decifrar a retro

informação do meio. Todas essas escolhas ajudam na integralidade do sistema e o fortalecem contra influências que o meio exerce.

Entretanto, a abertura, a codificação e as fronteiras da ONG estão subordinadas primeiramente à sua função social, mais do que à sua simples manutenção ou permanência. Não é só uma questão de existir na operacionalidade pré-existente, mas, de manter-se

funcional e servir ao meio. Há aí uma polaridade emergente: de um lado, a ONG tem a função de ser agente do desenvolvimento social e da busca pelo bem estar das pessoas, que exige uma grande troca com o meio e, de outro, barreiras que bloqueiam as trocas.

Há ainda um argumento que reforça essa idéia e que está presente nas teorias de redes sociais: a força dos laços fracos (GRANOVETTER, 1973). A organização olhar para

fora significa investir em relacionamentos e assim criar uma “rede” de difusão para novas práticas de gestão. Olhar para dentro significa observar e aperfeiçoar seus campos de gestão nos eixos da eficácia de resultados e na eficiência dos recursos. Optar pelo estilo de gestão pode facilitar ou bloquear o desenvolvimento e a institucionalização da idéia de

sustentabilidade e, mesmo dentro das organizações, num micro ambiente, pode interferir na escolha do movimento estratégico.

Hipótese Terceira. Há uma “Síndrome da Sustentabilidade” nas ONGs, que

organizacional - operacional e financeira – e assim serem competitivas na economia de mercado.

Os investimentos sociais privados e governamentais levaram o Terceiro Setor a participar da economia de mercado, utilizando-o como fonte de recursos de modo geral. Para serem mais competitivas na captação, as ONGs têm mostrado a tendência de adotar um repertório de atitudes de gestão que seja facilitador do diálogo com seus financiadores, repertório que lhes abre possibilidades, mas, também cria uma dubiedade: a

“Sustentabilidade” passa a ser um recurso retórico, que não necessariamente reflete o próprio conceito, mas, ainda assim é largamente utilizado nas comunicações e debates por atores de todos os setores.

A expressão “síndrome” para esta hipótese traz a idéia de que o conceito, na prática, não passa de um conjunto de sintomas, um conjunto de coisas concorrentes que, ao final, não leva ao que o Constructo sugere, mas, à sensação de ter estabilidade, longevidade ou eficácia, independente do meio onde se insere. A partir daí é possível compreender porque as ONGs de porte maior mostraram ter maior pontuação nos Critérios Governança, Gestão e

Impacto Econômico Financeiro e Resultados, todos com cargas significativas nas questões de

monitoramento do desempenho interno. Provavelmente porque existe a crença de que, ao se tornar maior, a sofisticação e os cuidados com o desempenho gerencial aumentam também e, quanto mais monitoramento, estará a organização melhor sustentada. Mas esta crença

corresponde a apenas parte da verdade.

Há um senso comum de que as ONGs devem ser responsáveis pela geração de resultados que superem a dicotomia entre o público e o privado e ainda pela prestação de contas aos investidores sociais. Mas, simultaneamente, há uma lacuna no senso comum sobre

o quê a ONG deve fazer para alcançar esse patamar de responsividade em termos de

resultados e de contas. Ao tentar transformar o capital financeiro em capital social ou ambiental, a ONG, afinal, tem de interpretar aquilo que os investidores habitualmente usam como indicadores de confiabilidade e esses indicadores acabam muitas vezes por não conseguir refletir a real intenção ou resultado que ocorreu como conseqüência das intervenções.

Conforme discutido na teoria dos sistemas abertos, os efeitos que uma

organização causa a sistemas subjacentes a ela são funcionais dentro da sociedade e podem compreendidos como “a pegada” de desenvolvimento sócio ambiental que cada organização deixa atrás de si – o que depende muito da capacidade de interpretação dos observadores. Neste caso, ao assumir indicadores de eficiência e eficácia que vêm importados de outros

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setores sociais, as ONGs perdem a oportunidade de capturar dimensões típicas do trabalho social e ambiental. Assim é que, nesse processo interpretativo, surgem as distorções do

conceito original da sustentabilidade, que é, por si, repleto de sutilezas não gerenciais, mas, de caráter sociológico e psicológico (as organizações como sistemas interpretativos foram

discutidas no Capítulo 2).

Para ilustrar, observe-se o que ocorre com os indicadores relacionados à governança e economia inclusos no tripple bottom line (TBL); parece haver uma

incompreensão generalizada destes indicadores. Muitos dizem que eles traduzem a eficiência interna, a qualidade do monitoramento e do resultado financeiro da empresa. Ora, o conceito descrito no TBL sugere mais do que isso; a governança, vista pela “lente” da Sustentabilidade, está na fronteira entre a organização e o mundo externo, buscando o significado e impacto daquilo que é feito ao nível interno dentro de um contexto maior - local, regional ou até mesmo global. Do mesmo modo, o componente econômico financeiro: mais do que a valoração das transações de mercado contidas num demonstrativo ou balanço, é o meio pelo qual se pode usar dos recursos para melhorar o bem estar de pessoas, ou seja, vai para fora da organização, atingindo, por exemplo, as pessoas que podem ser incluídas na cadeia de valor das atividades produtivas e assim aumentar possibilidades de geração de renda no ambiente. Mas, o que se vê é que esses indicadores foram reduzidos ao âmbito interno organizacional.

A Sustentabilidade institucionalizou-se? Os resultados mostram que ainda não, ao menos no universo de ONGs pesquisado. De certo ponto de vista, as organizações ainda usam essa palavra apenas para buscar legitimação, transformando muito pouco seus sistemas operacionais em autênticos mecanismos de inclusão social e respeito ambiental.

No diálogo inter setorial “investidores sociais - ONGs” os investimentos são feitos ainda nos moldes conservadores que apóiam o que é amplamente difundido como a boa

prática - a que todos reconhecem e estão habituados a fazer.21

...Parece haver uma oscilação entre o padrão da ‘vítima’ e o da’ vitrine’. Ou a ONG se comporta como culpada por não obter os recursos de que necessita (como se não produzisse resultados importantes e por isso não estivesse legitimada pela sociedade como merecedora do investimento de terceiros) ou vai para o pólo oposto, a de se sentir objeto de atenção e desejo, n um comportamento exibicionista que não condiz com a realidade de seus resultados

GRUPO FOCAL

De outra perspectiva, o próprio campo “sustentabilidade” está buscando

abordagens mais legítimas em si. No ímpeto de ter uma teoria aplicada, os conceitos foram difundidos e utilizados em profusão, antes mesmo serem compreendidos: base da pirâmide, tecnologia limpa, logística reversa, competitividade, tripple bottom line, sistema de

gerenciamento ambiental, balanço social, conversão de interessados, “esverdeamento” do consumo, etc.. Os termos e idéias vão se reproduzindo até que se condensem em um campo específico, mas, enquanto isso, os atores desse processo, que são os consultores, acadêmicos e lideranças, agem cada um conforme seu próprio entendimento e difundem formas

simplificadas, mais fáceis de serem apreendidas pelos receptores.

O momento atual está refletido nas ONGs, que vivem em simbiose com o meio público e privado e recebem a oferta de muitas práticas recursivas orientadas para maximizar a utilidade e a legitimação organizacional. O agravante é que essa legitimação está baseada no

sucesso econômico e as ONGs ficam tentando ser funcionais dentro dessa lógica.

Além disso, as relações de poder são mais fortes do mundo dos investidores para o mundo dos captadores, o que faz prevalecer a visão capitalista de conversão, na qual o bem estar e a conservação ambiental, por serem menos tangíveis, não encontram expressão. Dentro do campo da sustentabilidade, empresas, ONGs e Governo procuram converter os capitais e assim legitimar o próprio campo. Afinal, como indicam as teorias de campo, os campos não existem isolados, só existem em relação a outros campos e a conversão de um tipo de capital em outro é fundamental para o processo de legitimação (DIMAGGIO E POWELL, 1991).

Há ainda mais um fator nessa “síndrome”. Sabendo que equilíbrio é necessário na manutenção de relações, a rede social formada entre setores busca um equilíbrio homeostático através da permeabilidade (Marques, 1999) – um trânsito de profissionais, uma dinâmica de contratações – que dá mobilidade nos níveis de poder de influência e alcança uma dimensão nova, atingindo graus de compreensão e interpretação diferentes daqueles que os atores possuíam em suas organizações de origem. Este fenômeno em si ajuda na diversidade interpretativa do conceito de sustentabilidade e alimenta a confusão entre sustentabilidade e

sustentação organizacional.

Hipótese Quarta. O surgimento de um campo profissional no Terceiro Setor –

que orienta de maneira normativa e mimética os processos organizacionais - provoca similaridades entre as ONGs (isomorfismo).

As Moda e Mediana (7 e 6) dos valores globais da pesquisa indicam um padrão de respostas de pontuação alta, ou seja, a maior parte das ONGs pesquisadas responderam nesses

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valores. Por quê? O que explicaria uma semelhança entre elas, oriundas de diferentes áreas de atuação, porte, idade, cultura?

Uma explicação plausível seria a onda de profissionalização que vem crescendo no Setor e que facilita a difusão de valores com padrão isomórfico (DIMAGGIO &

POWELL, 1991).

Mas, antes é preciso considerar se o processo de profissionalização existe de fato e não é apenas uma impressão e nem apenas um acontecimento localizado. A pesquisa da Johns Hopkins University, conduzida pelo pesquisador Lester Salamon (1999), com a colaboração de seus parceiros brasileiros, mostrava que em 1995, o tamanho do Terceiro Setor no Brasil correspondia a um universo de 195 mil organizações (excluídas as religiosas), movimentando recursos da ordem de 10 bilhões de dólares (1,5% do PIB Brasileiro) e

empregando aproximadamente 1.200.000 pessoas. Em 2002 estes números sofreram uma majoração: existiriam 300 mil organizações, movimentando 5% do PIB Brasileiro e

empregando aproximadamente 3.000.000 (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2004). Os números delineiam um crescimento de campo profissional.

Outra evidência da profissionalização do Terceiro Setor no Brasil pode ser o uso do espaço eletrônico como meio institucional. No estudo exploratório sobre o e-social brasileiro (o social que está presente na Internet brasileira), Iizuca e Sano (2001) se utilizaram de buscadores (sites na Internet, especializados em encontrar assuntos, organizações, pessoas, etc.) – www.google.com, www.uol.com.br/miner, www.yahoo.com.br; www.cade.com.br;

Gráfico 6. Evolução dos registros das ".org" na Internet.

www.imais.com.br; www.todobr.com.br; www.radix.com.br - e portais (que congregam vários links em um único assunto de maneira horizontal, por exemplo: meio ambiente,