Nas horas que antecedem a estreia há sempre pessoas ocupadas com os últimos preparativos, dentre eles aqueles relacionados à organização interna do circo para, principalmente, evitar que qualquer signo deponha contra a sua qualidade. Assim, “deve-se manter tudo organizado e sempre retirar as roupas do varal” [Diário de campo, 04 de julho de 2015]. Deve-se também manter as portas das moradias fechadas evitando-se, assim, deixar alguma possível desorganização a vista. No momento que antecede o início do espetáculo também é intenso o trabalho das mulheres na praça de alimentação. “Elas preparavam pururucas, churros, algodão doce, pipoca e tudo o mais que necessitasse de um preparo antes de ser vendido” [Diário de campo, 09 de janeiro de 2015].
Por outro lado, quase não se vê pessoas ensaiando números ou fazendo qualquer tipo de treinamento. Aliás, foram poucas as vezes que vi algum circense ensaiando, pois como me relatou um sujeito de pesquisa: “[74] ensaio geralmente quando vai fazer alguma coisa
diferente. Como o espetáculo já é o básico, isso aí mesmo, tem muito tempo que faz essas
apresentações, a gente quase não ensaia não” [R01]. Em sua fala R01 afirma ensaiar somente quando fará “alguma coisa diferente”, ou seja, quando será incorporado ao espetáculo algum número novo ou quando incorporará alguma evolução a algum número já realizado. Caso contrário, os ensaios, segundo ele, não fazem parte de sua rotina.
A falta de treinamento, como descrita no fragmento discursivo anterior, é compensada pelas apresentações durante os espetáculos, mas isso não impede o cometimento de falhas. Em números que exigem perícia e onde os erros são mais facilmente detectados, alguns circenses dos circos pesquisados mostraram que em suas apresentações que o treinamento lhes fez falta. Em alguns casos os erros foram percebidos e nas vezes em que isso aconteceu a plateia compartilhou com o artista sua frustração. Essa situação, de falta de treinamento, parece ser algo próprio do circo pequeno, pois neles os artistas além de se apresentarem também desempenham outras atividades, que por sua vez lhes toma o tempo que poderia ser destinado aos ensaios.
A realização de ensaios, onde haveria o treinamento de números, é algo muito ligado também à expectativa da plateia em relação aos espetáculos. Para um dos sujeitos de pesquisa, integrante de família proprietária, “[75] [...] um espetáculo circense é caracterizado pelo improviso, que em conjunto com outras dificuldades o faz ser considerado como um espetáculo de circo ‘mambembe’” [Diário de campo, 21 de março de 2015]. Essa consideração feita durante as observações retrata o circo como relacionado ao improviso, porém creio que o sujeito de pesquisa tenha dito isso para legitimar as falhas e todos os tipos de arranjos circunstanciais para atender a um fim emergencial, conforme observado em seu circo.
Com a chegada da noite se aproxima o horário para o início do espetáculo. Enquanto os espectadores não chegam o som é ligado para chamar a atenção das pessoas da redondeza e, com isso, anunciar a proximidade da realização do evento. Aos poucos os espectadores se aglomeram diante da bilheteria, todos eles, quando é dia de estreia, com bônus para pagar o valor promocional, que varia de R$ 5,00 a R$ 10,00. Nos outros dias, o valor varia de R$ 10,00 a R$ 15,00. Curiosamente, sempre há mais adultos que crianças nos espetáculos dos circos pesquisados. Em uma das estreias “[...] aproximadamente 300 pessoas estiveram no circo. Em sua composição, 60% eram adultos e 40% eram crianças” [Diário de campo, 13 de
março de 2015]. Dado o número maior de adultos, costumeiramente é cobrado deles valores mais elevados com o propósito de aumentar a receita com a venda dos bilhetes.
Em algumas “praças” onde os circos pesquisados estiveram armados seus donos estabeleceram preços mais elevados em comparação a outras. O motivo para tal é inspirado em experiências próprias ou de outros circos, pois em algumas cidades preços baixos em vez de atrair o público pode ter efeito contrário. Assim, “para fazer a ‘praça’ de Pedra Azul [por exemplo] é ‘colocar preço’, ou seja, anunciar o espetáculo a um valor superior ao praticado em outras praças” [Diário de campo, 06 de maio de 2015]. Essa recomendação foi passada de um dono de circo a outro e mostra como a empresa circense pode se valer da precificação para atrair o público.
Outros artifícios também podem ser usados. Assim, em se tratando da proximidade do final de temporada em determinada “praça”, são lançadas promoções para atrair o público. Uma delas é a “noite da carona”, onde um bilhete dá direito a duas pessoas entrarem. Também é comum anunciar a gratuidade da entrada de crianças acompanhadas por maiores. Subjaz a essas promoções a intenção, além da de atrair o público, de não “queimar” a “praça”, pois ao abaixar o preço, por exemplo, de R$ 10,00 para R$ 5,00, os circenses acreditam que isso possa depreciar o espetáculo circense. Alguns citadinos, no entanto, estão acostumados com essa prática e já esperam a chegada da última semana para levarem seus filhos, fadando os espetáculos da primeira semana à baixa frequência de espectadores nas “praças” em que essa prática já tenha sido adotada.
Por isso é comum, logo na primeira semana, anunciar astutamente o fim da estadia do circo na cidade onde se encontra armado, pois assim algumas pessoas que estavam esperando a aproximação da partida do circo irão assistir ao espetáculo, acreditando se tratar realmente da última oportunidade. No entanto, essa prática está presente em todos os circos pesquisados e neles ela, não necessariamente, condizia com os planos do secretário do circo tratando-se, portanto, de um “blefe”. Após o anúncio da partida, alguns circos ainda permaneceram mais duas semanas no mesmo local, até que a receita diária diminuísse consideravelmente.
Para saber até quando devem ficar em uma determinada “praça” os donos dos circos pesquisados fazem controles financeiros. O principal ponto a ser observado para esse tipo de controle é a venda de bilhetes. Por isso, os donos dos circos são sempre os encarregados pela
venda dos bilhetes e, em hipótese alguma, ela é confiada a um funcionário, pois, “[76] o carro chefe do circo é a bilheteria” [C02]. Com a venda de bilhetes pode-se atingir o faturamento de R$ 1.200,00 em dias normais, ou seja, sem que haja uma programação especial, conforme a figura abaixo.
FIGURA 20 - Controle financeiro de um dos circos pesquisados Fonte: Arquivos de pesquisa.
Essa figura é resultado de uma fotografia feita do livro-caixa de um dos circos pesquisados. Nela, em sua margem esquerda, estão anotadas as datas em que houve espetáculos e, imediatamente diante destas, as contas “lanchonete” e “bilheteria”, com os seus respectivos montantes. Observa-se também na figura anotações sobre contingências em alguns dias, como nos dias 30/05, 08/05 e 09/05, quando houve “chuva”, quando “não teve espetáculo” e quando houve o show “Frozen”, respectivamente.
Pelo fato de a bilheteria representar a maior lucratividade do circo, geralmente o dobro da arrecadação da lanchonete, há um controle rígido sobre a venda dos bilhetes e também do recolhimento deles durante a entrada dos espectadores. Assim, durante as observações vários adultos foram flagrados tentando entrar com ingressos de criança, alguns por descuido e outros por astúcia, ou seja, querendo pagar menos para assistir aos espetáculos. Há também controle em relação à idade das crianças, pois elas só pagam a partir de três anos, sendo impedidas de entrar gratuitamente aquelas com idade superior.
Chegada a hora do espetáculo de estreia, quase sempre marcado para as 20h30min, começa-se a se formar fila do lado de fora para comprar ingressos ou para entrar no circo após tê-los adquirido.
[77] A fila da entrada é enorme. Eu abro ela [a portaria] por último. Agora a bilheteria não tem fila. Você comprou o ingresso você quer entrar, mas você pode esperar. Por quê? Se a pessoa passa na frente do meu circo e vê um movimento de gente, o circo é bom. “O circo é bom, deu gente é porque é bom”. Então é interessante você ter a fila [C01].
O enunciador C01 demonstra em sua fala um artifício controlado por ele para que as pessoas façam suposições positivas sobre o circo. Segundo ele, a abertura da portaria que dá acesso ao circo é de acordo com o volume de pessoas diante dele. Em todos os circos pesquisados o espetáculo sempre começou com, pelo menos, 30 minutos de atraso. Com isso, algumas pessoas se mostraram impacientes. Sendo assim, quem passasse diante dos circos podia ver um grande número de pessoas. Nesse caso, o indicativo usado pelo enunciador quanto à qualidade do circo, especificamente do seu espetáculo, pode ser encontrado na reprodução que ele faz de um possível julgamento: “o circo é bom, deu gente é porque é bom”.
FIGURA 21 - Pessoas na fila para comprar ingresso Fonte: Arquivos de pesquisa.
A FIG. 21 ilustra o volume de pessoas em um dia de estreia de um dos circos pesquisados, onde muitas pessoas se aglomeram diante do circo. Essa situação muitas das vezes não ocorre nos outros dias, sendo, em alguns casos, indispensável o cancelamento do espetáculo. Não há um número mínimo exato de pessoas para que o espetáculo seja oferecido, porém, observei ser esse número próximo a 20. No entanto, nos últimos dias na “praça” e dependendo da necessidade financeira dos circenses, o espetáculo acontece até com a presença de um número menor que esse.
Até hoje o espetáculo não foi cancelado por falta de público e por isso concordo que estão realizando um verdadeiro “cata-cata” [expressão usada pelo dono de um dos circos]. Independentemente do número de pessoas presentes o espetáculo seria
realizado. Afinal, o que vale mais: ficar conversando ou ganhando dinheiro, mesmo que seja pouco? Creio que prefiram a segunda opção [Diário de campo, 20 de março de 2015].
Pois nem sempre os espetáculos circenses contam com tantas pessoas interessadas em assisti- los. Inclusive, esse é o principal argumento dos circenses para reforçar a ideia de decadência da atividade circense, tendo em vista outras possibilidades de entretenimento. Para um deles: “[78] hoje a concorrência de circo tá muito difícil, né? É muita coisa hoje, qualquer coisinha é primeiro lugar, aqui no circo, aqui é depois” [R01]. Quando o enunciador fala em “concorrência” ele está se referindo a outras formas de entretenimento surgidas nos dias atuais em comparação a um tempo anterior, de quando ele ainda guarda lembranças. Isso tem tornado, segundo o enunciador, “difícil” o desenvolvimento da atividade empresarial circense, muito embora o avanço tecnológico dos meios de comunicação, próprios dos dias atuais, tenha proporcionado implementações aos espetáculos, como se pode dizer dos personagens de desenhos e filmes infantis encenados no palco dos circos.
Ao se referir às formas de entretenimento disponíveis nos meios de comunicação R01 tenta rebaixar algumas delas ao apontá-las como “qualquer coisinha”, ou seja, como formas de entretenimento de menor qualidade se comparadas com o espetáculo circense e que, portanto, não deveriam ter o prestígio que é conferido a elas por aqueles que deixam de ir aos circos. Dessa comparação estabelecida entre os espetáculos circenses e outras formas de entretenimento depreende-se a intenção de R01 de defender o espetáculo circense e posicioná- lo em um patamar de prestígio superior ao que lhe é atribuído por uma parcela da população de uma “praça”.