O processo de industrialização do setor agrícola não ocorreu de maneira homogênea, nem tampouco foi um processo rápido. De acordo com Müller (1986), este processo foi constituído de três momentos distintos, a saber:
(i) entre 1930 e 1950, com destaque para a industrialização substitutiva horizontal, em têxteis, alimentos e mecânica, sobretudo;
(ii) entre 1950 e 1964, com a integração vertical, sendo que, além da substituição de importações, ocorreu a criação de vários segmentos da indústria de base e de bens de consumo durável;
(iii) entre 1964 e 1984 (ano em que o autor finaliza sua análise), momento em que ocorreu a industrialização expandida, com forte diversificação das exportações e “substituição localizada de importações mediante a instalação de pólos petroquímicos e aceleração da prospecção de petróleo” (MULLER, 1986, p.352).
No final da década de 1960, teve início a mudança na base técnica da agricultura brasileira e o surgimento do Complexo Agroindustrial (CAI), além de acelerado processo de urbanização e crescimento do emprego não-agrícola (DELGADO, 1985). Segundo Müller (1986, p.349), o CAI se distingue de outros complexos porque se vincula “com a indústria de máquinas e de insumos que tem na agricultura seu mercado e com a indústria processadora de matérias-primas de origem agrícola”.
Delgado (1985, p.21-22) destaca elementos que passaram a constituir o novo padrão de desenvolvimento rural (modernização conservadora), a saber: rápido crescimento da urbanização e das exportações; modernização agropecuária e ampliação do CAI; novo sistema de financiamento (SNCR); relações sociais e econômicas do setor rural reguladas pelo Estado em um novo padrão.
Neste sentido, Müller (1986, p.348) acrescenta que “a agricultura brasileira transitou do predomínio do modo tradicional de produzir para o predomínio do modo ‘moderno’, que combina insumos e serviços industriais com terra e trabalho”, sendo que “a industrialização da agricultura designa a incorporação das
atividades agrárias ao modo industrial de produzir e ao estilo empresarial de gerir a unidade econômica agrária” (MULLER, 1988, p.55). Da mesma forma, Tartaglia e Oliveira (1988, p.69) ressaltam que
O processo de produção agrícola, ao se industrializar, foi-se tornando menos dependente das condições naturais do solo, clima, etc. e se vinculou cada vez mais aos processos de produção urbano- industriais. Nesse sentido, a agricultura tornou-se um mercado importantíssimo e seu crescimento estimulou e sustentou o crescimento e desenvolvimento de setores industriais urbanos chamados de indústrias para a agricultura.
No final da década de 1960, a exportação agrícola representava 80% do total das exportações brasileiras (DELGADO, 1985). Nesse período, a política de ampliação das exportações brasileiras baseou-se na criação de linhas de crédito especiais e na concessão de isenções tributárias, atreladas a créditos-prêmios às exportações (SEADE, 1989).
A modernização foi a combinação do incentivo à instalação, expansão ou modernização da agroindústria, de um lado, com a criação de demanda para seus produtos e oferta de insumos a preços ‘compatíveis’, de outro, viabilizados por fartos incentivos e subsídios fornecidos pelo governo (SEADE, 1989, p.05).
A partir da década de 1970, novos produtos agrícolas começaram a integrar a pauta de exportações e a agricultura passou a importar uma gama diversificada de bens, sendo que, de acordo com Müller (1986), a agricultura passou a não depender apenas do crescimento da agroindústria, da expansão do mercado interno e/ou do aumento das exportações, mas também da indústria produtora de insumos para o setor, posto que ocorreram “mudanças significativas na composição e na procedência dos meios de produção para a agricultura advindas da transformação na base técnica rural” (MAZZALI, 2000, p.19).
Com relação à criação do Sistema Nacional de Crédito Rural (SNCR), em meados da década de 1960, modelo de financiamento destacado por Delgado (1985) como um dos elementos de constituição da modernização conservadora, tal como mencionado anteriormente, Mazzali (2000, p.23) salienta que o SNCR e a intervenção do Estado na esfera tecnológica fizeram parte dessa estratégia modernizante, baseada na divisão bastante específica entre os setores público e privado para a geração de novas tecnologias, cabendo ao setor público a geração de inovações biológicas, como o melhoramento genético na pecuária, em cultivares
e no controle de pragas, por exemplo, além da prestação de assistência técnica e extensão rural, enquanto o setor privado, como mostrado por Delgado (1985), ficou responsável pelas inovações mecânicas e físico-químicas.
Assim, a aplicação dos recursos do SNCR se voltou à oferta de crédito de investimento (adoção de novas tecnologias), de custeio (aquisição de insumos) e comercialização (logística, PGPM).
Segundo Delgado (1985), até 1973 o coeficiente de importações sobre exportações era relativamente pequeno, sendo que a partir de então este coeficiente aumentou, atingindo 50% de importação para cada dólar exportado entre os anos de 1978 e 1980. O referido autor destaca que, paralelamente à importação de insumos industriais (defensivos, fertilizantes, combustíveis), ocorria a importação de produtos agrícolas de massa, como trigo, arroz, carne, leite e milho.
Para Delgado (1985, p.33), “a transformação da base técnica da agricultura e a constituição do CAI são processos distintos e historicamente separados”, sendo o primeiro caracterizado pela elevação nos índices de tratorização, estimulada pelo governo, na década de 1950, seguida de um momento em que ocorreu a industrialização dos processos de produção rural, tendo como marco inicial a implantação das primeiras indústrias de tratores, no final da década de 1970.
Posteriormente ocorreu a integração dos capitais dos setores agrícola e industrial, e, no final dos anos 1960, ocorreu a efetiva constituição do CAI, caracterizado pela implantação “de um setor industrial produtor de bens de produção para a agricultura” (DELGADO, 1985, p.34), ao mesmo tempo em que se desenvolveu o mercado para produtos agropecuários industrializados, originando a formação de um “sistema de agroindústrias”.
O autor destaca que com a consolidação do CAI
Conforma-se um novo bloco de interesses rurais em que sobressaem a participação do grande capital industrial, do Estado e dos grandes e médios proprietários rurais. A soldagem desse pacto modernizador é feita pela política econômica, com primazia dos aparatos financeiros do Estado (DELGADO, 1985, p.41).
Da mesma forma, Mazzali (2000) salienta que deste processo surgiu uma nova categoria de agregação, com interesses da própria agricultura e dos setores industriais produtores de insumos e equipamentos destinados a ela, o que não significa que este processo tenha homogeneizado a agricultura brasileira no que se
refere a seus aspectos social e tecnológico, mas sim acentuou a heterogeneidade estrutural. De acordo com o autor,
O lado moderno manifestou-se, de modo geral, por meio da crescente demanda por parte de um conjunto de atividades agrárias, de insumos industriais e de bens de capital e, de modo particular, na configuração de sistemas agroindustriais caracterizados pela forte articulação em torno de uma cadeia produtiva assentada em produtos agrícolas específicos, criados ou fortalecidos nos anos 70 (MAZZALI, 2000, p.21).
Delgado (1985, p.42) ressalta a concentração do projeto modernizante nos estados do Centro-Sul brasileiro, e destaca o lado conservador deste projeto de modernização agrícola, que seria nas regiões não atingidas por ele onde prevalece “uma estrutura agrária dominada pela grande propriedade. A valorização do capital no setor agrícola não se dá aí, de forma necessária, por intermédio do CAI, mas pelo controle da propriedade fundiária”.
Nesse sentido, Brandão (2007, p.129) salienta que a industrialização da agricultura promovida pelo SNCR aprofundou a modernização conservadora e ocasionou expulsões da zona rural constituindo “uma sociedade urbano-industrial de massas”.
Delgado (1985) ainda salienta que as fontes de autofinanciamento na produção rural ganharam nova importância, já que a política monetária no início da década de 1980 contava com crescente elevação das taxas nominais de juros, mas que as novas formas de financiamento via bancos acontecia de maneira bastante seletiva, e acrescenta:
há ainda que destacar a própria integração direta dos grandes bancos e grandes grupos econômicos com interesse em aplicações na produção agrícola e no mercado de terras expandindo o negócio bancário para além do crédito (DELGADO, 1985, p.125).
Assim, o autor define o capital financeiro como “uma relação social abstrata e geral, sob comando das instituições controladoras da liquidez e dos meios de financiamento como um todo, que envolve crescente organização monopolista dos mercados” (DELGADO, 1985, p.130), mercados com os quais o complexo agroindustrial passou a exercer fortes relações.
2.3.2. Expansão do setor industrial brasileiro e dinâmica espacial da