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“A pior forma de desigualdade é tentar fazer duas coisas desiguais.” Aristóteles

Em vários países discute-se o relativismo cultural e a necessidade de revisarmos posturas educacionais no ensino, valores globais e locais, as especificidades devem ser consideradas tanto quanto os conhecimentos culturais universalmente reconhecidos e amplamente aceitos pela sociedade, por serem divulgados e aceitos ao longo dos tempos por uma elite dominante. É importante salientar que por meio das interações entre escola, família

e comunidade podemos ampliar as possibilidades de percepção sobre a multiplicidade que compõe a sociedade em que estamos inseridos, facilitando a articulação de uma aprendizagem que possa promover a interculturalidade.

Pensar no ensino da arte na escola, buscando a compreensão de que a arte, como comportamento e como área do conhecimento, inclui e engloba todas as manifestações artísticas dos seres humanos, nas suas mais variadas formas, nas suas mais diversas manifestações culturais. É preciso pensar que a arte é uma necessidade primeira do ser humano, e como tal presente desde sempre na humanidade, expressa por uma infinidade de manifestações, mas sempre presente. Ela não está distante das pessoas, somente isolada em museus ou locais inacessíveis, mas está presente no cotidiano de cada ser humano, justamente por sua condição de ser humano. Mesmo a arte dos museus foi um dia arte do cotidiano, e embora sendo necessário preservar essas obras, elas precisam fazer parte da vida das pessoas, como elemento enriquecedor do seu viver. (RICHTER, 2003, p.122)

Para Richter (2003, p. 197), trabalhar de forma aberta, abrangente, enfrentando a realidade tão cotidiana e por vezes tão estranha significa mergulhar no cotidiano das crianças, da escola e das famílias. A descoberta e a construção-reconstrução de si mesmo fazem parte do processo.

Caracterizar uma comunidade é evidenciar seus aspectos a partir das vozes de seus moradores. A configuração que inter-relaciona, arte, escola e comunidade, exige do educador visão própria e iniciativa, nesta prática educativa de arte/educação baseada na comunidade, estes, necessitam adotar uma postura de investigadores com autonomia e visão ampla dos diferentes aspectos que podem ser abordados dentro de atividades específicas. Visa maior discernimento sobre os aspectos relevantes a serem estudados nas escolas. A cultura local e a arte produzida tornam-se partes inerentes do currículo, sempre considerando as especificidades de cada local.

Assim, percebemos no relato do trabalho realizado por Bastos (2005), no qual discorre sobre seu trabalho com três professoras de Indiana (USA), considerando a diversidade da prática aplicada, bem como suas opiniões. A pesquisa baseou-se numa combinação de cinco abordagens ao multiculturaismo conforme a proposta de Sleeter and Grant, as quais incluem: 1) excepcionalidade e diferença cultural; 2) relações humanas; 3) estudos de grupos distintos; 4) educação multicultural; 5) reconstrução social. Aliado a estas

abordagens, uniram-se as orientações de Therese Marché21 sobre arte/educação baseada na comunidade; Extrair, Investigar e Interagir (com a comunidade). Particularmente eu acrescentaria às orientações de Marché, num primeiro momento, perceber o contexto. Temos que analisar, as informações necessárias sobre o que percebemos, para então investigarmos, extrairmos, refletirmos e interagirmos num movimento cíclico. Esta pesquisa nos mostra a importância da arte, de considerar o contexto como elemento extremamente significativo e dos aspectos multiculturais que devem ser valorizados. Acredito que inúmeras possibilidades potencializadoras de uma prática mais eficiente se pode articular a partir da abordagem transdisciplinar.

Para Bastos (2005, p. 235), “em arte/educação, o multiculturalismo influenciou maior respeito às tradições dos estudantes, criando um ambiente igualitário, em que diferentes culturas são valorizadas.” Esta inter-relação configura um modo próprio de busca por compreender a diferenças existentes num mesmo contexto. Este processo torna-se uma forma de ressignificar as inter-relações entre escola, comunidade e mundo por meio da arte. Percebo, em muita das falas de Bastos, nos relatos das educadoras que participaram desta investigação, um pouco da minha experiência, em Itapuã, refletida. Impregnadas pelo desejo de inspirarem novas possibilidades aos seus estudantes por meio da arte, quando pensam em utilizar recursos disponíveis no local. Bastos (p. 241) justifica esta compreensão sendo oriunda da formação da arte/educadora Leah Morgan, “seu conhecimento e experiência em arte, bem como a sua educação continuada, expandiram sua visão de arte e, consequentemente, influenciaram sua prática pedagógica.”

Ao contextualizar experiências pessoais e profissionais, combinando os aspectos teóricos, artísticos e práticos por meio de projetos, enriquecemos as relações. Aproximamos as vivências, expandindo as fronteiras culturais e resignificamos conceitos excludentes, ainda preservados pelo pensamento elitista e conservador existente em escolas, museus, universidades e até mesmo dentro das comunidades, quando se sentem inferiorizadas diante dos conhecimentos eruditos e especializados. Ampliar o conceito de arte/educação numa perspectiva aberta capaz de incluir não somente as artes populares e a arte folclórica e o artesanato, mas também as novas tecnologias, tais como o vídeo e os computadores, atribuindo a devida importância para a estética do cotidiano, um jardim bem cuidado, uma

21 Therese Marché autora das três orientações sobre arte/educação baseada na comunidade no qual ilustra

roupa produzida artesanalmente, uma colcha pintada, entre outras coisas, são formas de desenvolver nas pessoas a consciência de suas potencialidades, sua herança cultural e artística que fazem parte do contexto em que estão inseridas.

Bastos evidencia os preconceitos existentes com relação às regiões rurais economicamente menos desenvolvidas, quando relata que, “investigar estas questões possibilitaria aos alunos discutir esses preconceitos e motivar formas mais críticas de ação.” Entretanto, percebemos as dificuldades existentes e a resistência de muitos educadores em discutir criticamente os aspectos sociais e estruturais que configuram as comunidades, até por que muitos desconhecem o contexto em que estão e o quanto este contexto influencia na aprendizagem dos estudantes no qual o conhecimento pode ser aproveitado em benefício da comunidade e dos próprios moradores. Creio que nossas ações em Itapuã, por meio do projeto “O Pensamento Crítico Através na Arte na Escola Pública Rural”, possui pontos em comum com a arte/educação baseada na comunidade dos autores estudados, dentro da dinâmica reflexiva sobre os problemas sociais tanto em nível macro (mundo), quanto no micro (comunidade). Procurando uma compreensão, por meio da arte das possibilidades e ações possíveis para mudar, buscar sugestões e soluções adequadas aos problemas que afligem a comunidade. Uma prática de cunho artístico, social e político.

[...] um passo essencial à caminhada da educação comprometida com a mudança social. Valorizar a arte produzida na comunidade é importante, pois ela carrega as sementes e as tradições da comunidade, criando e refletindo tradições e conflitos existentes e aludindo constantemente à mudança e à renovação. (BASTOS, 2005, p.242)

Percebemos que nos estudos de Bastos, a partir da prática em arte/educação de Leah, mostra o quanto podemos enriquecer um currículo com base na cultura e na arte local. Compreendo este fazer local, esta estética local, como elemento significativo de inter-relações entre escola e comunidade, que possibilita aos estudantes ressignificarem sua cultura por meio do estudo amplo de suas origens e identidades. Bastos deseja inspirar iniciativas da mesma natureza em outros arte/educadores. Acredito, mesmo antes de ter conhecimento deste trabalho, que temos realizado algumas atividades que estão dentro desta concepção de uma arte/educação baseada na comunidade, na qual a prática pretende transgredir conceitos pré- estabelecidos, ampliando o entendimento de compromisso com a justiça social.

Devemos, enquanto arte/educadores, estar mais atentos na relação estabelecida entre arte e cultura, buscando entender melhor os objetos estéticos dentro de sistemas simbólicos culturais mais amplos. A arte/educação, numa perspectiva crítica, emancipatória e inclusiva, apresenta-se como um dos caminhos de estimulo ao desenvolvimento da consciência cultural do indivíduo, começando pelo reconhecimento da cultura local.

Como um desafio, a diversidade, a interculturalidade, as questões de gênero, etnia e biodiversidade entre outras referências dos acontecimentos que pautam nosso mundo de hoje, devendo estar presentes nas escolas como possibilidades de questionamentos e reivindicações, na medida em que são questões sociais que atravessam nosso cotidiano. Conflitos e contradições que devem ter seus espaços garantidos na busca de alternativas que minimizassem as forças desiguais que assolam nossa sociedade. Para Richter (2003, p. 135), “o contexto cultural das crianças não é homogêneo, sofrendo múltiplas influências de culturas presentes em qualquer espaço social, sejam elas de classe, de etnia, de religião, de gênero, ou tantas outras variáveis presentes no universo escolar.”

Todas estas variáveis não homogêneas também configuram o cotidiano de nossos estudantes, influenciando em suas ações e postura diante da vida. Acredito que discutir as múltiplas questões sociais poderá estar suscitando novos conflitos e situações de estranhamentos e descobertas. Embora tenhamos uma cultura do medo e do velamento de alguns assuntos relevantes, devemos enquanto educadores e formadores reconhecer a real necessidade de trazer à superfície estas questões, como forma de ampliar a consciência na busca de soluções.