4- Araştırmanın Kaynakları
1.1. Speros Vriyonis
1.2.2. Eserdeki Konu Başlıkları
Esta pesquisa permitiu analisar as diferenças entre a percepção e a conceituação de patrimônio entre os órgãos que são responsáveis pela decisão de tombar bens materiais e imateriais.
O CONDEPHAAT, que realizou tombamento arquitetônico em São Luiz do Paraitinga, na década de 1980, defende o tombamento a partir de parecer técnico, argumentando que, se a população for consultada, será contrária ao tombamento, porque vai interpretá-lo como uma interferência sobre o direito de propriedade e por parte de um órgão fiscalizador.
Olha, se o Condephaat fosse fazer essa consulta sempre, acho que na maioria dos casos não iam querer, porque limita o direito de propriedade. [...] você não é soberano em relação ao seu patrimônio, você tem que sempre se submeter ao Condephaat. As coisas que você está querendo fazer, alterar e tudo mais, ele não pode fazer [...]. Normalmente o Condephaat não deixa fazer muita coisa, assim, em relação a fachadas. Normalmente em centro histórico quando o imóvel é de importância para preservação, tem que manter as características, as fachadas do jeito que ela está ou se já foi alterada tenta fazer com que ele resgate aquilo que era antes. Não é livre o proprietário, por isso muitas vezes ele não quer que o imóvel seja tombado. Quando o CONDEPHAAT ou qualquer outro imóvel, qualquer outro bem que o CONDEPHAAT resolveu tombar, nunca ele pergunta se o proprietário aceitaria, nunca existe isso, e eu acho que não devia, acho que deveria continuar como está, porque ele ia ter mais problemas do tombamento, quer dizer, não ia se conseguir tombar muita coisa, o que seria uma pena. Porque hoje em dia mesmo tendo sido demolidos alguns bens tombados, são muitos poucos, mas caíram alguns — acho que por falta de preservação —, o que se mantém preservado é muito em função do tombamento, então quando se tomba é mais fácil você conseguir fazer com que o bem se mantenha do que quando não é tombado (funcionário técnico do CONDEPHAAT, entrevista concedida em 22 jan. 15, grifo nosso).
O IPHAN, que realizou em 2010, o tombamento arquitetônico, paisagístico e urbanístico de São Luiz do Paraitinga, defende o diálogo: “A gente não pode fazer o tombamento sem ter um diálogo, sem mostrar o que está acontecendo” (funcionário técnico do IPHAN, entrevista concedida em 26 dez 2014). Argumenta que o convencimento, nas audiências públicas, contribui para
conscientizar sobre a importância do tombamento, ao mesmo tempo em que alerta para os deveres da comunidade em relação ao patrimônio.
Esse é um segredo que a gente (os órgãos de preservação) tem que incorporar [...] quando a gente faz esse tombamento, a gente faz de forma participativa, tendo que fazer essas audiências. [...]. É importante ter, junto desse momento de definição do tombamento, também que se tenha um plano de manutenção... “Ah! Vocês aceitam que tombem a cidade... Tá... Então como é que vocês vão manter essa cidade?” Um compromisso para o futuro, o compromisso do futuro não pode ser dado só pelo órgão de preservação se não cai outra vez na mesma situação de sermos os fiscais, os chatos, os carrascos, os que limitam. Na hora de tombamento está bonitinho o papel: “oba! que legal!” Mas na hora do vamos (ver), do dia a dia é diferente! Então eu acho também que esse é o segundo ponto que me preocupa... é essa continuidade das ações de preservação, que nunca terminam, jamais terminam no ato de tombamento ou de registro (funcionário técnico do IPHAN, entrevista concedida em 26 dez 2014).
Há, porém, um avanço importante nesse sentido de estabelecer o
diálogo com a comunidade e entre os órgãos do patrimônio nas duas esferas, federal e estadual. São Luiz do Paraitinga serviu de laboratório para essa prática. Em reconstruções específicas feitas na cidade, após a enchente de 2010, os dois órgãos tiveram que decidir juntos, aprovar projetos juntos, estabelecer o diálogo entre si e, por sua vez, ouvir a população.
A gente teve que aprovar os projetos deles e eles tiveram que aprovar os nossos, porque já tinham tombado, provisoriamente, então pra gente já cabia uma série de obrigações nossas em relação a eles, por causa do tombamento deles (funcionário técnico do CONDEPHAAT, entrevista concedida em 22 jan. 2015).
O caso mais emblemático — quer seja pelo simbolismo da reconstrução, quer seja pela nova técnica adotada —, que contraria cartas de reconstrução de patrimônio histórico inclusive, foi a Igreja Matriz. A reconstrução contou com a atuação do IPHAN e do CONDEPHAAT juntos — com algumas tensões — e com a realização de várias audiências públicas muito participativas, em que os luizenses conheciam a posição dos órgãos do patrimônio e deliberavam sobre a reconstrução da Matriz.
O próprio IPHAN reconhece que, a partir da experiência em São Luiz do Paraitinga, os dois órgãos amadureceram o diálogo e buscaram uma linguagem mais articulada para as questões do patrimônio.
A gente está dialogando, pelo menos na instância técnica está sendo dialogado mesmo, e a atual presidente do CONDEPHAAT e o secretário [...] dão apoio total pra gente fazer a aproximação, o que não acontecia antes... Não aconteceu em tempos atrás (funcionário técnico do IPHAN, entrevista concedida em 26 dez 2014).
A iniciativa de fazer uma espécie de garimpagem durante a limpeza nos escombros da Matriz foi do próprio IPHAN. Técnicos do órgão federal, que haviam atuado em Goiás Velho (GO) durante a enchente que destruiu o centro histórico daquela cidade, vieram a São Luiz para um trabalho que durou quase um ano.
O trabalho cuidadoso permitiu o resgate de várias imagens de madeira, principalmente as usadas nas celebrações da Semana Santa como a de Cristo morto, a de Nossa Senhora das Dores e a de Jesus crucificado — todas em tamanho natural, que, ao serem resgatadas, eram imediatamente submetidas ao trabalho de restauração.
Além dessas imagens, também foi resgatada e restaurada a imagem de São Luís de Tolosa que ficava no altar-mor e que foi apresentada aos fiéis na primeira missa ocorrida nos escombros da Matriz, em dezembro de 2010.
Um trabalho arqueológico indicou a existência de várias ossadas em muitas partes da Igreja Matriz. Algumas conhecidas, como a do padre Francisco José de Calasâncio, que foi pároco de 1861 a 1871 (CAMPOS, 2014) — que ficou popularmente conhecido como padre “Calazans” —, que ficava numa cripta encravada na parede próxima à escada que dava acesso ao coro da Igreja; algumas outras, desconhecidas, no solo, embaixo do altar.
Foi encontrada na parede da antiga sacristia uma caixa de madeira, revestida com cera de abelha (para evitar a umidade), que continha documentos e fotos datados de 1927, quando ocorreu a última grande reforma da Igreja Matriz, antes da queda em 2010.
A cápsula do tempo, como foi chamada, inspirou a Cúria Diocesana de Taubaté a encomendar para um grupo de historiadores de São Luiz do
Paraitinga a seleção de documentos, fotos e outros registros que pudessem ser colocados na nova Igreja Matriz, reproduzindo a experiência da cápsula de 1927. No dia 10 de maio de 2014, em cerimônia privativa (por realizar-se uma semana antes da inauguração e por ter ainda restrições quanto à segurança), foi colocada uma nova cápsula do tempo atrás do altar principal da Matriz de São Luís de Tolosa. O registro da cerimônia foi colocado em ata que agora consta dos arquivos da paróquia, da diocese, e uma cópia foi sepultada dentro da cápsula (anexo A, p. 164). A imagem 25 destaca o momento em que o Pároco, Padre Álvaro Mantovani (padre Tequinho) leva a cápsula para ser sepultada.
Imagem 25. Padre Tequinho sepulta a cápsula do tempo na nova Matriz — 10 de maio de 2014.
Documentos sobre a reconstrução, arquivo digital com a obra do compositor Elpídio dos Santos, fotos de São Luiz do Paraitinga, partituras de músicas sacras, histórico da paróquia, edição do dia 10 de maio de 2014 do Jornal Folha de São Paulo estão entre os documentos selecionados para serem colocados na nova cápsula. Confeccionada em material acrílico, foi colocada no chão, atrás do altar-mor.
Após todo o trabalho do resgate feito na Matriz, era necessário aprovar o projeto de reconstrução, e foram muitos os debates até que essa decisão fosse tomada. Várias iniciativas promovendo debates e audiências foram realizadas para decidir coletivamente. As ideias eram partilhadas e debatidas, mesmo considerando haver discussões entre técnicos e especialistas com pessoas da comunidade que não dominavam os conhecimentos especializados, mas sabiam de seus desejos, de suas memórias e de sua identidade, e que isso também era importante naquela decisão.
As decisões tomadas coletivamente entre os órgãos ou entre os órgãos e a população serviram de aprendizado para a própria gestão do patrimônio. A Prefeitura de São Luiz, por intermédio de seu representante, analisou assim:
E a reconstrução de São Luiz do Paraitinga foi uma reconstrução coletiva, não teve nenhum órgão assim que despontou totalmente, destaco um pouquinho pro Governo do Estado, pela proximidade, mas, assim, todo mundo participou. Antes cada um vinha com seu projeto e quando deparava com São Luiz do Paraitinga, o sistema, entender a cultura, como funciona a organização da cidade, entender a importância de uma audiência pública e vários momentos críticos das audiências públicas (que) decidiram sobre o modelo da igreja, a cidade a se reconstruir no mesmo local, a questão do muro da cidade e outras questões polêmicas que aqui foi bem importante e passaram a estudar o problema de forma geral (funcionário técnico da prefeitura, entrevista concedida em 15 jan. 2015).
Silva, R. (2014) considera que a prática de debater e consultar a população sobre uma reconstrução de patrimônio histórico nem sempre foi a prática do IPHAN. Na cidade de Antônio Prado, no Rio Grande do Sul, o órgão federal decidiu pelo tombamento do centro histórico, por sua característica de
manter casario de madeira, tipicamente italiano, mas gerou conflitos com os moradores pelo caráter de proibição de qualquer intervenção dos proprietários para modernizar as moradias.
Setores políticos do lugar dividiram-se entre a percepção do ato enquanto obstáculo ao desenvolvimento econômico uma vez que impediam a demolição de casario antigo e a reconstrução de áreas urbanas e centros comerciais mais modernos, e proteção das memórias, da cultura e das identidades diante dos povoamentos anteriores, com ênfase nos dois processos de imigração, açoriana e italiana (SILVA, R. 2014, p. 13).
O debate ocorrido em Antônio Prado não ocorreu em São Luiz do Paraitinga considerando a estagnação econômica do município paulista que, em nenhum momento de sua história, precisou analisar a necessidade de demolir seus casarões para uma possível modernização da praça.
O IPHAN reconhece que, a partir da gestão do Ministro Gilberto Gil (2003-2008), se adotou um novo encaminhamento na política de patrimonialização e que trazer a comunidade para o debate era parte desse novo encaminhamento.
Silva, R. (2014) considera que a adoção da educação patrimonial como uma ação do IPHAN é uma forma que o órgão encontrou para diminuir conflitos entre o atraso e a modernidade que aparecem na questão de preservar ou modernizar, lembrar ou esquecer, manter ou intervir no patrimônio, que, em essência, é uma escolha política e com interesses determinados.
Há um conflito de interesses na política patrimonial e os espaços dos agentes nas decisões não acontecem naturalmente, pelo contrário, é resultado da atuação, da participação, da definição de projetos e da possibilidade ou não de intervenções no território definido como patrimônio cultural.
O que se pode abstrair quanto às análises sobre o patrimônio é que as identidades estão relacionadas aos espaços construídos, ligando indivíduos ao local a partir de sua produção artística vinculada à vivência cotidiana da comunidade. Sob essa ótica, pode-se afirmar sua importância como um elemento de integração social. Sendo assim, urge a necessidade de se estabelecer uma discussão entre a conservação e a revitalização, já que para alguns agentes o importante é conservar, e para outros, revitalizar. Eis que dessa forma diversa surge o conflito material (a luta pela construção do espaço) e
simbólico (a luta pela definição do espaço). Apregoa-se que o processo de conservação do patrimônio histórico deve ser assumido por todos, que não cabe apenas ao Estado a obrigação de manter os sítios tombados, casarões antigos, dentre outros (SILVA, L. 2011, p. 22).
Os órgãos do patrimônio em São Luiz do Paraitinga certamente traziam aprendizados de outras ações e tinham diante de si o desafio do desastre natural como referência, talvez inédito na proporção, com impacto sobre um sítio tombado. Os desafios estavam postos.
A atuação dos órgãos do patrimônio no pós-enchente, a necessidade de decidir emergencialmente e os critérios para reconstrução e investimentos fizeram com que os proprietários de casarões e a prefeitura da cidade analisassem como era e como ficou a relação entre moradores e órgãos do patrimônio. Na fala do diretor da prefeitura, há uma consideração a esse respeito:
Hoje você é proprietário de um casarão aqui no centro, muitas vezes é uma herança familiar, vem passando de geração pra geração e tudo mais, e hoje as pessoas reclamam um pouco na questão das reformas, que já vinha esse problema desde antes da enchente e tudo mais que é a morosidade dos órgãos do patrimônio, que eles querem voltar na década de 1850 ainda — período do café —, e uma realidade hoje [...] então [outras] pessoas que decidem a vida de muitos luizenses, ouvi reclamações desse gênero: “estão tomando banho de ofurô, querendo que as pessoas voltem a 1850 tomando banho de canequinha e bacia, não permite fazer um banheiro, uma reforma interna”. Então eu vejo assim, que tem que conviver, preservar — sem dúvida — valorizar, e as pessoas terem algum incentivo, porque se não fica só o ônus pro morador e o bônus pra todo o Brasil (funcionário técnico da prefeitura, entrevista concedida em 15 jan. 2015).
Enquanto a posição do funcionário técnico da prefeitura expressa algumas insatisfações sobre a interferência externa na propriedade particular, o que denotaria um confronto, os proprietários de casarões ouvidos não percebem confrontos entre o uso da propriedade e a atuação dos órgãos; cobram uma definição melhor sobre os usos da propriedade e a ajuda técnica, mas não demonstram existir um embate:
É muito difícil manter esses imóveis, e daí a gente começa a entrar nessa relação com os órgãos, que eu acho que assim: é de fundamental importância a existências dos órgãos [...] É muito importante a gente entender que não vem do nada essa importância cultural que a comunidade de São Luiz tem. São Luiz manteve o seu patrimônio material arquitetônico por mais um século, sem ajuda e sem ser tombado. Essa questão do pertencimento já é muito importante, [...] economicamente não compensa, mas não é isso que está em jogo mesmo, não tem valor maior pra gente que é da comunidade, de se fazer parte do patrimônio, de se sentir fazendo um pertencimento. A entrada do IPHAN pra mim foi muito importante nesse sentido, como se fosse assim um reconhecimento a mais do patrimônio nacional, mas na verdade os órgãos, eles não mantém um casarão, porque eles ajudam a preservar, eles põem os limites que são importantes, porque senão tem pessoas que não têm consciência. Então, pra mim, a importância desses órgãos, ela tem que sair dessa função de fiscalização [...] mas conseguir ajudar os moradores a realmente manter, porque hoje em dia é muito difícil, porque é muito caro pra você manter (proprietário de casarão, codinome CORUJA, entrevista concedida em 30 dez. 2014).
Outro morador refere-se assim à relação com os órgãos do patrimônio e sua atuação, considerando reformas antes e depois da enchente:
O Condephaat não se opôs, [...] ele teve [o casarão] uma mudança de eixo de corredor, o corredor do pavimento, na ala do imóvel do pavimento superior, na área de serviço que seria cozinha e banheiro, o corredor era lateral, o meu avô deslocou esse corredor e colocou ele central pra você ter a maior possibilidade de ter mais quartos com janela e o próprio banheiro com janela, porque o grande problema dessas obras é que muitas vezes os quartos não tem ventilação natural, não tem iluminação natural, você só tem janelas na fachada principal e nos fundos, a circulação de ar, ela é dificultosa por conta disso, [...] porque de qualquer forma eu não vou conseguir remeter com muita propriedade conforme era o imóvel, aí sim eu corro o risco de criar um falso histórico, porque é na questão do patrimônio onde começa a dúvida para o restauro (proprietário de casarão, codinome JOÃO-DE-BARRO, entrevista concedida em 10 fev. 2015).
Outro morador, ainda, observa a preocupação do CONDEPHAAT com a fachada embora, por vontade da família, nunca houvesse a intenção de fazer alteração considerável, mesmo na parte interna, nos traços originais do casarão:
Eu acho que não houve nenhum obstáculo, nenhuma coisa nesse sentido. Até porque na parte superior do casarão foi
mantido exatamente como era antes, não houve nenhuma reforma que desrespeitasse os traços antigos né, anteriores do prédio. Quanto à parte inferior, que é a parte térrea do casarão, eles só — pelo menos o que minha mãe conta — eles só disseram o seguinte: “‘na parte externa a fachada tem que ser mantida, no interior vocês podem fazer as alterações necessárias” (ex-proprietário de casarão, codinome ÁGUIA, entrevista concedida em 23 jan. 2015).
Uma característica marcante é a percepção dos moradores em manter o patrimônio, muito antes do tombamento, porque guardavam relações afetivas muito fortes com a história da família, que adquiriu aquele bem imóvel. Mesmo após o tombamento esses moradores não encontraram nos órgãos responsáveis nenhum conflito sério, até porque, como revelam as falas dos proprietários, a preocupação em preservar já era uma conduta, não precisou ser imposta.
Além das construções dos prédios destruídos houve uma preocupação de órgãos do patrimônio em dar oportunidades para que outros projetos se desenvolvessem na cidade, como uma forma de estimular artistas populares a registrarem também o patrimônio cultural da cidade.
Silva, R. (2012) menciona investimentos do Ministério da Cultura por meio do Programa Cultura Viva, que permitiu a projetos de São Luiz do Paraitinga receberem financiamento — de forma especial, por causa das circunstâncias em que a cidade vivia.
Alguns projetos foram contemplados, mas, antes de serem selecionados, apareceu, entre os possíveis candidatos, uma espécie de disputa velada. Os locais de reunião era uma informação quase privilegiada. Os artistas ou as pessoas que desenvolviam projetos que poderiam receber financiamento ficavam sabendo da possibilidade de inscrição sempre por ouvir dizer que alguém havia dito que haveria uma “tal” reunião (SILVA, 2012).
Os próprios pontos de cultura pareciam clube de amigos ou projetos de família. A necessidade da redação técnica dos projetos, de ligação com alguma entidade com no mínimo dois anos de existência como organização ou ligada a alguma organização, enfim, as exigências burocráticas, fazia uma seleção em si mesma, mas ainda assim, Silva, R. (2012) identifica uma disputa por verbas e projetos, rivalizando pessoas ligadas às práticas culturais do
município, não necessariamente atingindo os grupos populares —, teoricamente os mais indicados a receber os financiamentos.
A institucionalização dos projetos se dá através de dispositivos de racionalização das ações (planos, estratégias, objetivos político-organizacionais) [...]. Porém, estes projetos exigem agenciamentos em um campo de disputas individuais e forças postas no âmbito local, os quais são realizados desde relações pessoais, familiares, profissionais e políticas de seus proponentes. Estas disputas e concorrências reorganizam as “forças plurais” na cidade, personalizando a identificação entre o projeto e seu idealizador (SILVA, R. 2012, p. 133).
Outro aspecto que o autor enfatiza é o de que os projetos aprovados tinham mais uma preocupação midiática e comercial do que necessariamente dar destaque a manifestações da cultura popular na cidade.
A preocupação comercial traz também para o debate e os possíveis conflitos a questão do turismo em São Luiz do Paraitinga. Se já havia conflitos entre as ações do poder público municipal para fomentar o turismo e de alguns pesquisadores — considerando as interferências no espaço urbano e suas representações —, que vinha desde a aprovação do estatuto de Estância Turística do Estado de São Paulo13 para a cidade, esses conflitos aumentaram após a enchente e no processo de reconstrução.
As territorialidades são construídas no processo de evolução socioespacial, onde alguns agentes que perfazem essa dinâmica, ou seja, as práticas sociais, o mercado turístico e as estratégias e discursos políticos, a valorização e a institucionalização patrimonial ganham destaque nas políticas