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BÖLÜM IV. ANALİZ

4.4. Erkeklik Kardeşliği

Na pesquisa sobre a produção de literatura sobre a AIB no Espírito Santo, foi possível encontrar um Relatório de Pesquisa presente na área de coleções especiais da Biblioteca Central da UFES. Intitulado Formação de Lideranças Locais

no Espírito Santo16, tal documento trata das organizações partidárias entre 1934 e

1937, o texto relata que existiram 4 partidos políticos: o Partido Social Democrático, Partido da Lavoura, Aliança Nacional Libertadora e Ação Integralista Brasileira, e somente os dois primeiros possuíam legalidade institucional e caráter estadual.

16 SILVA, Marta Zorzal e; ROCHA, Yara Regina Candelaria da. Formação de liderancas locais no

Tal informação, segundo os dados levantados durante minha a pesquisa, indicam que tal “Relatório”, especialmente sobre o movimento Integralista, estava equivocado. No que se refere ao Integralismo, o movimento possuía reconhecimento institucional, tanto que participou das eleições de 1935 com vários candidatos eleitos. É óbvio que no momento que o referido trabalho foi escrito, os estudos sobre o Integralismo no estado eram raríssimos.

Segundo Lazzaro (1992), estávamos entre os estados brasileiros, nos quais o Integralismo foi mais vigoroso – prova disso são os nomes de Archilau Vivacqua e José Cola, integrantes da Câmara dos Quatrocentos, um dos órgãos superiores da administração da AIB. A Câmara do Quatrocentos foi criada em julho de 1937 e seus membros foram escolhidos pelo Chefe Nacional. É um dos órgãos Integralistas que nos permitem caracterizar a evolução do movimento para uma organização pré- estatal. A decomposição do Conselho Nacional17 foi responsável pela origem da Câmara dos Quatrocentos (poderia se transformar na câmara corporativa do período transitório para o novo Estado, seus membros eram escolhidos entre os militantes das diversas ‘províncias integralistas), Câmara dos Quarenta (seria o futuro senado) e Conselho Supremo (dirigido pelo Chefe Nacional) (TRINDADE, 1979).

O primeiro núcleo Integralista no Espírito Santo foi fundado no dia 8 de agosto de 1933, na capital do estado. O movimento estava sob a chefia de Arnaldo Magalhães, tomando parte na mesa diretora Theophilo Costa, Adhemar Santo Neves, Arlindo Sodré, o diretor da Faculdade de Odontologia e Farmácia, professor Elpidio Pimentel e o cônsul da Itália dr Politti (AÇÃO Integralista no Espírito Santo. Diário da Manhã. Vitória, n. 3278, p.4, 10 ago. 1933). A AIB na cidade de Vitória estava inserida em meio à intelectualidade da capital, recebendo homenagens de organizações como o Instituto Histórico e Geográfico e Grêmio Literário Rui Barbosa, bem como de influentes figuras da sociedade local, como veremos adiante.

O primeiro Chefe local da AIB, Arnaldo Magalhães, era farmacêutico e, com proximidade à política estadual, em 1931 foi escolhido por João Punaro Bley para fazer parte do Conselho Consultivo do Estado ( CONSELHO Consultivo do Estado.

Diário da Manhã. Vitória, n. 2762, p.1, 17 Nov. 1931). Ele era sócio da firma “G.

17 O Conselho Nacional fazia parte da estrutura organizacional da AIB, estabelecida em 1934, no

Congresso Integralista de Vitória, tinha uma função consultiva, mas, sem autonomia, por ser na verdade um órgão que assessorava o Chefe Nacional (TRINDADE, 1979).

Roubach & Cia”, desde 1919, sócio do Clube de Regatas Saldanha da Gama, importante instituição esportiva local, e também era membro da comissão responsável em angariar fundos para a construção da Catedral de Vitória.

João Linhares foi o segundo chefe local da Província Integralista Capixaba. Era engenheiro da Estrada de Ferro Vitória a Minas, com destaque na sociedade de Vitória. Primeiramente com o cargo de Secretário de Organização Política da AIB, recebeu de Arnaldo Magalhães a Chefia Provincial em março de 1935, durante o II Congresso Integralista ocorrido na cidade de Petrópolis. O primeiro Chefe Provincial pediu dispensa por motivos de saúde, mas continuava vinculado ao Integralismo, visto que havia sido promovido ao posto de membro efetivo do Conselho Nacional da AIB (CONSELHO Consultivo do Estado. Diário da Manhã. Vitória, n. 2762, p.1, 17 Nov. 1931).

No sul do estado, mais especificamente na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, o núcleo da AIB foi fundado somente em 15 de maio de 1935 (BR ES APEES, DES. O. IAPC 2, p 4), comparecendo na cerimônia de inauguração o novo chefe província, José Linhares, os secretários provinciais Jair Etienne Dessaune e Otaviano Santos, além de representantes dos núcleos integralistas de Alegre, Muquy, Castelo e do núcleo distrital de Florestra18 (atual Burarama). Este último representa um caso singular, visto que Floresta, sendo distrito de Cachoeiro do Itapemirim teve seu núcleo da AIB fundado antes da sede do município. (FAGUNDES, 2011, p 201) No município de Cachoeiro do Itapemirim, os militantes da AIB eram, principalmente, pequenos agricultores, funcionários públicos e profissionais liberais. Esse grupo encontrou no Integralismo uma alternativa, frente às frustrações com o regime iniciado com a Revolução de 1930. Estavam economicamente prejudicados com crise do café iniciada em 1929, visto que a administração de João Punaro Bley garantiu auxílio somente aos grandes fazendeiros. Na política, seu desejo de participação efetiva foi suprimido frente aos interesses oligárquicos rearticulados no Partido Social Democrático e no Partido da Lavoura (OLIVEIRA, 2013, p.5-6).

18 O Integralismo no distrito de Floresta foi tão marcante que se tornou tema de um romance histórico

chamado ‘Anauê’, no qual é relatado os impactos sociais e políticos dentro do lugarejo com a chegada da Doutrina do Sigma. GRILLO, José Marcelo. Anauê!: a apaixonante saga integralista numa colônia de imigrantes italianos. Cachoeiro de Itapemirim, ES: [s.n.], [200-].

Mesmo diante de forte oposição de políticos tradicionais, os camisas-verdes conquistaram um grande número de adeptos. O relatório integralista de 1936 estabelece 23.518 adeptos do movimento em todo o estado, no qual os municípios de Santa Tereza, Castelo e Colatina contavam com maior número de adeptos, com 5480, 3.449 e 3.150 integrantes, respectivamente. Itapemirim possuía o menor número de filiados, com apenas 30 e, junto com João Pessôa, Rio Pardo e Calçado, constituíam o grupo de cidades com menos de 100 inscritos em cada uma.

Outro setor capixaba que teve uma relativa aproximação com a AIB foram os descendentes de imigrantes europeus, sobretudo a comunidade ítalo-capixaba. No estudo de Trindade (1979, p. 150), ao se explicitar os motivos individuais de adesão ao Integralismo, em primeiro lugar está o anticomunismo, enquanto a simpatia pelo fascismo europeu aparece na segunda posição, sendo seguida pelo nacionalismo (menos da metade dos entrevistados pelo autor) e, em quarto lugar, a oposição ao sistema vigente.

Para Lazzaro, Coutinho e Franceschetto (1992, p. 26), uma das motivações de italianos e descendentes na localidade de Venda Nova aderirem ao Integralismo foi a simpatia ao fascismo. Vieira (2004, p. 695) acrescenta que a participação em um movimento de caráter fascista, como era a AIB, aproximava-os da pátria de origem de seus antepassados.

No Brasil, houve uma atuação do governo fascista para divulgar nas comunidades ítalo-brasileiras os ideais fascistas. Ao analisar a relação entre a Embaixada italiana e os órgãos da colônia italiana em São Paulo, João Fábio Bertonha (2001) verificou a existência de apoio institucional, além de influência intelectual e política entre fascistas italianos e a AIB, e essa cooperação foi muito importante para a difusão das ideias de extrema direita no país, bem como orientar a definição do caráter do movimento Integralista.

As boas relações entre a AIB e o governo fascista italiano não se limitaram, porém, ao fornecimento de fundos por parte dos italianos. Elas foram muito mais complexas e intrincadas do que parecem à primeira vista e, como veículo para esse íntimo relacionamento, foram fundamentais as coletividades italianas presentes no Brasil e a estrutura de catequese montada pelo governo fascista para atingi-las (BERTONHA, 2001).

Acerca da relação da adesão ao Integralismo no Espírito Santo com questões étnicas, podemos afirmar que a documentação analisada não permitiu chegar a conclusões sobre tal tema, pois o fator preponderante para a filiação era o convite de pessoas influentes das comunidades que essas pessoas viviam, seguido pelo catolicismo e medo de perder suas terras, devido à ameaça comunista.

Lazzaro, Coutinho e Franceschetto (1992, p. 27) afirmam que em Venda Nova, o sucesso da AIB se devia a Antonio Roberto Feitoza – grande número de antigos camisas-verdes confirmou que havia entrado para o movimento através de seu convite. Detalhe que a região de Venda Nova tem forte presença italiana, mas Roberto Feitoza não possuía tal ascendência, mas foi influente junto às comunidades de imigrantes no município de Castelo e eleito vereador naquela região.

Quanto ao catolicismo como motivo de filiação ao Integralismo, para Silvia Regina Ackerman (2009, p. 72), o mesmo deve ser incluído como fator preponderante para tal fato. A Igreja Católica no estado possuía forte ligação ao Integralismo, havia um grande número de religiosos filiados ou simpatizantes da AIB. O mais destacado foi o Padre Ponciano Stenzel, eleito vereador de Vitória como Integralista (ACHIAMÉ, 2010, p. 186). Ainda é importante mencionar que importantes integrantes da AIB-ES eram católicos fervorosos, como Jair Dessaune e Arnaldo Magalhães (ACHIAMÉ, 2010, p. 190).

Entre os motivos analisados anteriormente, o temor de perder suas pequenas propriedades com a possibilidade de instalação de um governo comunista foi um dos mais importantes motivos para que os indivíduos dessas comunidades de descendentes de imigrantes aderissem ao Integralismo.

Esclarecidos esses aspectos referentes à AIB no Espírito Santo, passemos a análise dos aspectos institucionais do movimento.