É nos escritos conhecidos como “históricos” que Kant utiliza-se de conceitos que serão de suma importância para sua terceira e última crítica, que se constitui numa peça importante do seu sistema filosófico. Ela legitima a apreciação teleológica de certos particulares – os organismos –, operando uma extensão da razão até a reflexão da natureza em si, ajudando, assim, na tarefa do naturalista quando da conexão entre as formas da natureza e a ideia de um todo orgânico
Desde 17635, Kant analisa os limites da teologia física, cuja principal característica é conceber uma regularidade, uma perfeição, conforme uma contingência que lhe corresponda, mostrando a forma artística que se apresenta na junção de todas as suas formas, para concluir que há uma sábia boa vontade por essa perfeição. “Conceber a perfeição e a regularidade segundo sua contingência é, pois, um primeiro momento desse método, momento que, pelos visto, se torna necessário para que se possa seguidamente mostrar a ordem artística (final) que domina no mundo” (MARQUES, 1987, p. 306).
A teologia física considera que toda a perfeição e toda a harmonia da natureza são uma disposição da natureza causada pela sabedoria divina. O problema, para Kant, consiste em considerar a contingência da natureza precisamente para demonstrar a importância da figura do criador. A contingência aparece na teologia física como uma falta de legislação
5 O texto referido é KANT, Immanuel. Investigação sobre a clareza dos princípios de teologia natural e da moral: anúncio do programa de lições para o semestre de inverno de 1765-1766.
correspondente às leis da natureza que definiriam o que é necessário a ela, como Newton já aludira anteriormente.
O método autêntico da metafísica é, no fundo, semelhante àquele que Newton introduziu nas ciências da natureza e que foi de tão úteis consequências. Deve-se, diz ele, por meio de experiências seguras, sobretudo com a ajuda da geometria, procurar as regras de acordo com as quais decorrem certos fenômenos da natureza. Embora não se vejam nos corpos os primeiros fundamentos disso, é, não obstante, certo que eles agem segundo estas leis, e explicam-se os acontecimentos naturais mais complicados quando se mostra com clareza como elas estão contidas nestas regras bem demonstradas (KANT, 2006, p. 69).
Contra a teologia física, Kant defende a manutenção das leis da mecânica e da matemática de Newton, procurando incluir a contingência a partir delas. Mesmo reconhecendo que a beleza natural possa revelar a predisposição de um sábio criador, ele afirma que não se pode abandonar as leis mecânicas necessárias à explicação da natureza. Para conhecê-la, é preciso identificar o grau de determinismo que as leis gerais exercem sobre a própria natureza. Essa convicção newtoniana de Kant, de certa forma, permanecerá até a última crítica.
Os seguidores da teologia física rejeitam, pois, qualquer explicação revelando das leis físicas, no que vêem uma mera causalidade cega e a máxima arbitrariedade. Preferem afastar todo o determinismo natural para fazer sobressair a contingência (MARQUES, 1987, p. 307).
Mas o intuito kantiano não é negar por completo a teologia física, mas incorporar em sua contingência absoluta o determinismo das leis necessárias, admitindo a ação de um criador, mesmo que relegada a segundo plano. Kant está confiante na aplicação das leis gerais da natureza na experiência sensível, mas falta ainda a ele conceber as formas a priori da sensibilidade para localizá-las no tempo e no espaço.
Foi Johann Gottfried von Herder (1744-1803) quem melhor representou o método da física teológica, em sua famosa obra Ideias para Filosofia da História da Humanidade, de 1784. Herder procurou na história humana uma linha de orientação do seu desenvolvimento contínuo e intencional, promovido pela providência, considerando a totalidade dos seres orgânicos ou parte dela. “É como se o todo do mundo pudesse ser dado in concreto, ao qual
correspondessem partes determinadas, isto é, partes integrantes de uma composição integralmente realizada” (MARQUES, 1987, p. 310).
A teleologia de Herder envolve uma finalidade externa, já que a causa final de cada ser particular reside fora dele. A série dos seres no tempo é concebida como uma
gradação em direção a uma perfeição progressiva, formando uma composição harmônica do todo. Todavia, encontra-se em Herder uma crítica à ideia de progresso, na qual as culturas poderiam ser pensadas em si mesmas, e não em comparação com outras, seguindo as suas mesmas gradações (SANCHES; SERRÃO, 2002).
Em Herder, o todo é concreto porque é permitido ao sujeito estar de posse do conhecimento das suas partes e do processo de sua composição, diferentemente de Kant, em que o conhecimento do todo nunca é possível de ser alcançado. Herder afirma a possibilidade de conhecer não só uma força em cada organismo, assim como a série desses organismos como série de fenômenos. Os germens, por exemplo, são imagens em que há uma força orgânica agindo em seu interior. O mundo das forças orgânicas é a soma das imagens possíveis de cada ser. Cada ser tem, portanto, sua imagem, uma pré-formação individual, particular, e não genérica, como na teoria da epigênese, de Kant (MARQUES, 1987).
A série de Herder acaba no homem, que para ele é um todo orgânico perfeito e harmônico. Porém, a série de Herder, iniciada por seres mais simples, as plantas, somente foi possível devido às formações escolhidas pela providência. Kant, apesar de reconhecer a providência divina, jamais aceitou que a natureza fosse contingente, com a sua ordem própria preestabelecida.
A maior das variedades na maior das unidades articula-se com a ideia de que tudo está em tudo. Tal é o princípio de toda organização. Num mundo fechado e perfeito, composto numa escala contínua do inferior para o superior, é compreensível que uma forma organizada ‘exprima’ as formas que a antecedem (MARQUES, 1987, p. 314).
A série dos seres fundamentada por Herder tem em seu ser mais complexo, evoluído, o homem, a chave para a compreensão do mais simples. Todo organismo passa a ser explicável a partir da conveniência ou da utilidade dela para o todo da série. São esses princípios – conveniência e utilidade – que compõem a série dos seres.
A teleologia de Herder, fundamentada numa finalidade externa, o sujeito não acrescenta nada a ela. “Na verdade, a articulação teleológica externa apresenta-se ao sujeito como uma relação natural efetiva que esse mesmo sujeito aprecia realisticamente” (MARQUES, 1987, p. 316). Para Marques, em Kant a única forma em que se admite uma finalidade objetiva é na esfera do organismo particular. Mas, no caso, a finalidade é interna ao organismo, e não externa.
Em Herder, há uma dupla concepção do homem: uma como fim último da natureza; e outra como um ser criado por Deus. É uma mistura de ciência e teologia.
Nas Ideias para a filosofia da história da humanidade, Herder oferece da natureza uma configuração nitidamente metafísica, elevando-a a um estatuto providencialista, quase divino, na grandiosa síntese especulativa de uma grande “cadeia do ser”, toda ela tecida de homologias. Desde o mais simples aos mais complexos graus de desenvolvimento, encontra-se presente a mesma visão de uma correlação harmoniosa entre a força viva interior e os fatores externos (SANCHES; SERRÃO, 2002, p. 19).
Na Crítica da Razão Pura, Kant trabalhou com um fundamento superior das coisas do mundo por meio de uma antinomia: ou o ser criador está presente na cadeia dos seres organizados ou está fora da série, e, então, não há nenhuma ligação que a razão possa estabelecer entre o criador e a série mundana dos seres. Mesmo que observe um fim para a natureza, ela não pode ser representada a partir da experiência, pois não está presente na intuição sensível do espaço e do tempo. Na Crítica da Razão Pura, há uma considerável distância entre a ordem das leis gerais do entendimento e a particularidade das leis específicas oriundas da experiência na natureza (MARQUES, 1987).
Para Kant não é possível o conhecimento do todo do mundo. Mas, na terceira crítica, como será visto mais à frente, ele analisa a possibilidade de um princípio organizador da multiplicidade do particular. A analogia será a forma escolhida por ele para encontrar uma causa para esse princípio organizador diferente da físico-mecânica.
O analógico corresponderá já, pois, a uma filosofia do como se e, embora ainda não esteja formulada neste momento a modalidade do juízo reflectinte, é fácil de perceber que é já este que está presente na mediação exercida sobre o particular. As operações analógicas servem para definir outro regime de causalidade e também, decerto, para ir desvelando a arquitetônica escondida da natureza ou de um mundo que é pensado analogicamente a uma natura naturans (MARQUES, 1987, p. 321).
A analogia não serve para articular as leis a priori do entendimento e a multiplicidade do particular, pois não é possível o conhecimento das partes in concretum, mas serve para a formulação da ideia de um artefato cujas partes existentes são subsumidas no todo. Em Herder, ao contrário de Kant, todos os objetos da razão podem se tornar sensíveis: “trata-se, praticamente, de uma razão que intui, que compreende na percepção as expressões mais fidedignas do invisível” (MARQUES, 1987, p. 323).
Kant mostra que a natureza e o homem são seres diferentes, mesmo reconhecendo a epigênese, ou seja, a história da natureza até o homem. Ele, ao contrário de Herder, não
aceita a ideia de uma “evolução na perfeição”. “A analogia em Kant não permite concluir sobre a continuidade de uma série progressivamente superior de seres, e ainda menos conhecer qual o princípio que dirige essa evolução contínua do domínio do mundo orgânico” (MARQUES, 1987, p. 326-327).
Na teologia física de Herder, em função da conveniência e da utilidade, há a necessidade de se pensar que a série inferior supõe a série superior, e vice-versa. E é a forma superior do homem que melhor se adequa ao ser racional. Ele estudou a ligação entre o orgânico e o racional e os tipos de relações físicas que dariam suporte ao ser racional. Mas o grande obstáculo para ele é a sua concepção de contingência da natureza, que impossibilita o conhecimento da superação da estrutura orgânica do homem pela sua racionalidade. Sua maior preocupação é compreender a organização específica de cada parte em função do todo. O conceito de necessidade, portanto, não é fundamentado por uma categoria do entendimento, mas se relaciona com as características formais da experiência, como em Hume (MARQUES, 1987).
Outra crítica importante que Kant fez a Herder é a valorização da espécie em relação ao indivíduo, apesar de este último considerar que os indivíduos, os seres humanos, possuem uma autonomia importante, mas, também, são o objetivo final da natureza. Kant, nesse momento, valorizará a espécie enquanto substância ontológica, porque ela possui sua história e se desenvolve por meio de uma lei particular.
Ora se a espécie fosse um fim da natureza teriam de existir ainda fins ou objetivos puramente ideais fora dela mesma, espécie, em direção aos quais a própria espécie se deveria orientar. Tornar, quer o indivíduo, quer a espécie, fins da natureza representaria imiscuir elementos empíricos e físico-naturais naquilo que se deve definir precisamente como supra-sensível e puramente ideal (MARQUES, 1987, p. 332).
Segundo Marques, a análise do texto de Herder feita por Kant está dominada pelo juízo teleológico determinante, como se fosse uma categoria do entendimento que precedesse o particular. A filosofia de Herder possui ingredientes necessários para o juízo teleológico: a análise do orgânico, as analogias e o fim natural, “pois a natureza é em toda parte um todo vivo que há que seguir e corrigir gradualmente, ao invés de dominar pela violência” (HERDER, 2002, p. 313).
Kant permite supor uma causalidade inteligente como arquiteto do mundo que aceita o uso de juízos teleológicos para a explicação do ente natural particular, mas não admite que se possa conhecê-la concretamente. “A crítica à teologia física demonstra então que a nossa apreciação teleológica de certos seres como fins naturais, não permite passar a considerá-los fins da natureza” (MARQUES, 1987, p. 335).
No pensamento kantiano, a teleologia, sendo incapaz de fornecer conceitos para o entendimento, poderá se manifestar incapaz de determinar um fim natural. Tem-se mais uma antinomia. Se, de um lado, a teologia física permite a reflexão teleológica a partir de um princípio da razão prática, de outro, o sujeito transcendental fica impossibilitado de utilizar este princípio. Em Herder, isso não é problema, pois o homem é a realização do fim último da natureza, confirmando e contendo todas as suas séries hierárquicas anteriores (MARQUES, 1987).
Será na terceira crítica, A Crítica do Juízo, que Kant reaproximará os dois campos até então distintos da metafísica: o teórico e o prático. Embora permanecendo a divisão, o contato entre eles irá reconfigurar o conceito de natureza, alterando a metafísica estabelecida anteriormente. Abre-se, então, a possibilidade de se colocar a teoria do organismo no lugar central de sua análise, servindo de passagem da razão teórica para a prática. Kant refere-se à descoberta de uma passagem (Übergang) entre as duas razões na primeira introdução à
Crítica do Juízo, o que se estabelece por meio da faculdade de julgar, com base em um
princípio que lhe é próprio, conectando o campo sensível da filosofia teórica com o campo inteligível da filosofia prática. É a faculdade do juízo reflexiva a responsável por esta passagem e pela configuração da natureza como organismo em Kant.