No que se refere à noção de posteridade nocional de possibilidade, cujo valor é assinalado pela bagagem cultural do falante, inferido no evento comunicativo e sua condição posterior é determinada pelo cotexto, o futuro do pretérito é determinado por marcas discursivas que sugerem uma possibilidade real ou hipotética, acompanhadas ou não do verbo modalizador poder, com advérbios de modo ou que indiquem dúvida ou com frases interrogativas, com o intuito de formar conclusões pertinentes inseridas em um contexto histórico, o que promove a concordância com o discurso exposto, conforme exemplo 82. Em
seguida, na tabela 16, analisaremos os resultados da atuação da modalidade na função nocional de possibilidade, codificada pelo futuro do pretérito.
82. “Insuficientes, por tanto, são as causas puramente geographicas. Ter-se-hia modificado a posição da Terra?” (Expedições Históricas, 1861)
Tabela 16: Atuação da Modalidade na função nocional de possibilidade codificada pelo futuro do pretérito
Fatores Aplicação/Total Percentual
Irrealis 1 13/60 21.7%
Irrealis 2 0/140 0.0%
Irrealis 3 3/83 3.6%
Irrealis 4 51/53 96.2%
De acordo com os dados acima, verificamos que, com relação à modalidade, o futuro do pretérito é escolhido, predominantemente, quando se refere ao fator irrealis 4, resultado esse que vai ao encontro das nossas hipóteses, ao afirmarmos que o futuro do pretérito é eleito quando se quer expressar um fato possível de ser realizado. Percebemos, também, que logo após aparece o uso do futuro do pretérito relacionado ao fator irrealis 1, com 21.7%; seguido do irrealis 3, com 3.6%. O fator irrealis 2 não foi significativo para nossa análise, como podemos ver na tabela acima. Acompanhemos o exemplo 83:
83. “...teria fugido talvez de seu país...” (A Vida de Antônio Rodrigues Ferreira, 1876)
Nesse exemplo, podemos observar que o usuário passa ao seu receptor uma
incerteza da fuga de uma pessoa, o que caracteriza, também, um afastamento do
comprometimento com o que o emissor profere, embora o fato seja possível de realizar-se, o falante não toma partido da certeza da ação, que no caso, é fugir.
Tabela 17: Atuação da Estrutura Temporal na função nocional de possibilidade codificada pelo futuro do pretérito
Fatores Aplicação/Total Percentual
Anterioridade 13/38 34.2%
Simultaneidade 12/53 22.6%
Posterioridade 42/245 17.1%
Aqui, percebemos que o futuro do pretérito é eleito quando a estrutura temporal for anterior ao momento de referência, cujo percentual é de 34.2%. Em segundo lugar, temos o fator simultaneidade, aparecendo com 22. 6%; por último, temos o fator posteridade, com 17.1%. Interessante notar que, como afirma Travaglia (1991), o futuro do pretérito assume um valor de anterioridade quando essa forma verbal estiver no tempo composto formado pelo verbo auxiliar ter /haver + particípio do verbo principal na frase, sobretudo se o “trecho for narrativo” (p. 162). Vale ainda ressaltar que para o autor, a noção de anterioridade expressa pelo futuro do pretérito é concebida nesses casos, em relação ao momento do evento, em que essa forma verbal aparece composta. Esses resultados não condizem com a nossa hipótese, que indicava a noção de possibilidade, codificada pelo futuro do pretérito, como sendo
posterior ao momento de referência, até mesmo por se tratar de textos de cunho narrativo,
cuja ideia de realização da ação é possível de ser efetivada. Observemos, então, um exemplo que marca a anterioridade expressa pelo futuro do pretérito:
84. “Elles haveriam de ter sido eleitos para occuparem o cargo de primazia da Commarca de São Benedito, e o caos espalhou-se por toda a redondeza que apoiava o governo...” (A Vida de Antônio Rodrigues Ferreira, 1876)
No exemplo acima, o que se observa é que como os “candidatos não foram eleitos” (evento anterior à situação da “instalação do caos”), o caos espalhou-se na localidade que recebia apoio do governo.
Tabela 18: Atuação do Tipo de Verbo na função nocional de possibilidade codificada pelo futuro do pretérito
Fatores Aplicação/Total Percentual
Accomplishment 0/9 0.0%
Estado 22/89 24.7%
Achievement 15/104 14.4%
Atividade 30/134 22.4%
Fazendo referência à tipologia verbal, a escolha do futuro do pretérito na função de possibilidade, consoante os resultados, mostrou que quando o verbo indica estado, há um percentual de 24.7%, o que nos faz remeter à nossa hipótese que menciona o fato de o sujeito eleger o futuro do pretérito quando a função codificada indicar possibilidade, pois estado, não sendo ação nem atitude refere-se a um momento, a um modo o qual o usuário mostra em seu enunciado. O futuro do pretérito possui um viés modal quando diz respeito às funções nocionais (dúvida, hipótese, suposição, probabilidade), como também às formas de polidez e desejo de acordo com Travaglia (1999).
Ainda com relação a esse fato, o futuro do pretérito, que é chamado de condicional, quando usado nos casos acima, isto é, nas funções nocionais (que não exprimem tempo), não faz referência aos “mundos possíveis” (característica das funções temporais); ao contrário, traz em sua essência um “vir-a-ser carregado de incertezas, com numerosos empregos modais” (idem). Assim, quando o verbo estiver no futuro do pretérito e esse verbo indicar estado, ou seja, um modo do qual o usuário se utiliza para dizer ao seu emissor como se desenvolve a situação, o que determina esse uso é a noção de mundo e o conhecimento prévio que o indivíduo traz consigo, para que haja interpretação e aceitação da frase. É o que vemos no exemplo abaixo:
85. “Seria, porem, compatível essa maneira de ver as cousas com as suas vistas, com os seus intuitos, com a sua consciência?” (A Vida de Antonio Rodrigues Ferreira, 1876)
Tabela 19: Atuação do fator Século na função nocional de possibilidade codificada pelo futuro do pretérito
Séculos Aplicação/Total Percentual
XVIII 4/71 5.6%
XIX 43/212 20.3%
XX 20/53 37.7%
Conforme o exposto, é no século XX que notamos um destaque maior do uso do futuro do pretérito na função nocional de possibilidade, com 37.7%, seguido do século XIX, com 20.3%, e do século XVIII, com 5.6%. Isso pode nos revelar que outra forma verbal assumia a noção de possibilidade, e que, ao passar do tempo, o futuro do pretérito incorporou essa função.
Tabela 20: Atuação do fator Gênero Textual na função nocional de possibilidade codificada pelo futuro do pretérito
Gêneros Aplicação/Total Percentual
Documentos oficiais 55/293 18.8%
Cartas 1/4 25.0%
Discursos políticos 11/39 28.2%
Com relação ao gênero textual, a função nocional de possibilidade codificada pelo futuro do pretérito é mais evidenciada nos discursos políticos, com 28.2%, seguido do gênero
carta, com 25.0%, e dos documentos oficiais, com 18.8%. Esses resultados confirmam nossa
hipótese, que cogitava que o uso do futuro do pretérito, atrelado à noção de possibilidade, era mais evidente nos discursos políticos, pois nesse gênero ficam mais evidentes as características de situações prováveis de acontecerem.