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É na posteridade nocional de desejo que o indivíduo determina o uso do futuro do pretérito no discurso para caracterizar sua vontade, segundo Travaglia (1991). Assim sendo, em nossos dados, assinalamos que quando o falante usa o futuro do pretérito, arrola-se a modalidade epistêmica, pois a utilização desse tempo verbal influencia nas noções de desejo possível de ser realizado. Vejamos, a seguir, os resultados estatísticos referentes a essa função.

Tabela 26: Atuação da Modalidade na função nocional de desejo codificada pelo futuro do pretérito

Fatores Aplicação/Total Percentual

Irrealis 1 7/60 11.7%

Irrealis 2 0/140 0.0%

Irrealis 3 0/83 0.0%

Somente o fator irrealis 1 foi significativo, pois apresentou uma porcentagem de 11.7% . Para os outros fatores em questão, não há dados. Abaixo, citamos exemplo para ilustrar a análise da atuação da Modalidade na função nocional de desejo:

89. “... não sabia como, mas gostaria de ver a Villa Real de Sobral livre daquelles que não a mereciam habitar nessa Comarca.” (Registros Da Memoria na Villa Real de Sobral, 1872)

Observamos que à função nocional de desejo, o fator irrealis 1 (volição) surgiu em detrimento dos demais fatores em virtude do caráter volitivo que o futuro do pretérito impõe no enunciado, o que reafirma nossa hipótese, a qual supunha que o usuário elege o futuro do pretérito quando quer expressar uma noção de caráter volitivo, ao mesmo tempo que destaca um distanciamento entre os interlocutores. Isso é validado pelo acordo dos traços [+pretérito] [+futuro], que significa um ponto de referência independente do momento da fala pelas duas influências temporais acima citadas (HAVERKATE, 1994, p. 143). Essas duas influências temporais faz com que exista a impressão de um distanciamento referente às intenções do indivíduo que a profere e o ouvinte, o que reforça a ideia de que quanto mais os interlocutores não se conhecem, mais se evidencia uma distância social que é vista como um fator importante para selecionar a estratégia50 de atenuação na formulação das vontades já que, nas interações comunicativas, os falantes tendem a abrandar certos atos de fala. O emprego dessa tática discursiva surge quando os interlocutores são distantes e estão distantes no discurso, mantendo, assim, o princípio do respeito comunicativo.

Tabela 27: Atuação da Estrutura Temporal na função nocional de desejo codificada pelo futuro do pretérito

Fatores Aplicação/Total Percentual

Anterioridade 4/38 10.5%

Simultaneidade 1/53 1.9%

Posterioridade 2/245 0.8%

50 Estratégia, aqui, é vista como um processo cognitivo que engloba uma hipótese. Na perspectiva givoniana

Como podemos observar, o fator que mais influenciou a estrutura temporal no que se refere à função nocional de desejo codificada pelo o futuro do pretérito foi o de

anterioridade, com 10.5%, seguido dos fatores simultaneidade, com 1.9% e posteridade, com

0.8% dos resultados alcançados. Esse resultado confirma nossa hipótese inicial, pois defendíamos que o indivíduo opta pelo futuro do pretérito quando sua intenção é demonstrar sua vontade anteriormente ao momento da ocorrência por ele narrada, com vemos no exemplo 90:

90. “... não sabia como, mas gostaria de ver a Villa Real de Sobral livre daquelles que não a mereciam habitar nessa Comarca.” (Registros Da Memoria na Villa Real de Sobral, 1872)

Desse modo, percebemos que há um desejo de ver a cidade de Sobral sem aqueles que não se interessam por ela (o desejo é anterior à situação em que é habitada por pessoas que não deveriam nesta cidade morar, segundo o autor da frase). Esse fato, que é o que é narrado no momento da fala do indivíduo, é sucedido pela vontade anteriormente explicitada pelo usuário.

Tabela 28: Atuação do Tipo de Verbo na função nocional de desejo codificada pelo futuro do pretérito

Fatores Aplicação/Total Percentual

Accomplishment 0/9 0.0%

Estado 4/89 4.5%

Achievement 1/104 1.0%

Atividade 2/134 1.5%

A partir da leitura acima, observamos que o tipo de verbo que mais influencia na escolha do futuro do pretérito é o que denota estado, com 4.5% dos resultados obtidos. Em seguida, temos os verbos que indicam atividade, com 1.5%, e por último, os verbos indicativos de achievement, com 1.0%, resultado esse que confirma nossa hipótese, pois o indivíduo, quando expõe uma vontade, elege o futuro do pretérito com verbos que indiquem

estado, já que as vontades são faculdades que o sujeito tem de querer, de praticar ou não

91. “Seria defeito de temperamento?” (Memórias do Pe. Vicente José Pereira – 2ª parte, 1823)

Tabela 29: Atuação do fator Século na função nocional de desejo codificada pelo futuro do pretérito

Séculos Aplicação/Total Percentual

XVIII 1/71 1.4%

XIX 6/212 2.8%

XX 0/53 0.0%

Percebemos que é no século XIX que a função nocional de desejo é codificada pelo futuro do pretérito com 2.8%, seguido do XVIII, com 1.4%. O século XX não nos foi significativo. Esses resultados, assim, confirmam, em parte, nossa hipótese, pois segundo a mesma, o fator tempo influencia no uso da forma verbal em questão.

Coletamos poucos dados da função nocional de desejo pelo fato do material a ser pesquisado não ter apresentado um número significativo para análise. Como trabalhamos com dados da escrita e que se dividem em documentos oficiais, discursos políticos e cartas, cremos que esse corpus não ofereceu situações suficientes para que se utilizasse a forma verbal em questão especialmente em se tratando de valores funcionais de volição.

Tabela 30: Atuação do fator Gênero Textual na função nocional de desejo codificada pelo futuro do pretérito

Gêneros Aplicação/Total Percentual

Documentos oficiais 6/293 2.0%

Cartas 0/4 0.0%

Discursos políticos 1/39 2.6%

É no gênero textual discurso político que o futuro do pretérito aparece para codificar a função nocional de desejo, com 2.6% dos resultados, seguido do gênero

documentos oficiais, com 2.0%. Vimos que o gênero carta não foi significativo para nossa pesquisa. Em face da pequena quantidade dos dados considerados para os gêneros textuais acima, bem como a pouca ocorrência nos gêneros supracitados, com relação aos percentuais, não foram significativos para que pudéssemos obter uma análise a contento.

Ao tratarmos dos resultados estatísticos aqui abordados, podemos deduzir contextos prototípicos de uso do futuro do pretérito: função/funções que apresentou/apresentaram mais dados; o que se destacou com relação às motivações em análise; o porquê de certos fatores apresentarem percentuais muito altos e outros fatores, percentuais muito baixos. Eis o que faremos na seção 7.4, após tecermos algumas considerações sobre variação e mudança em 7.3.