A categorização por protótipos diagnostica o grau de relacionamento de uma categoria a partir das características de um componente mais principal desta categoria (TAYLOR, 1989). Conforme o autor, os indivíduos que compartilham o uso de uma língua materna formalizam categorizações de elementos linguísticos com o mesmo caráter como constituem classificações de objetos naturais e/ou culturais. Assim, é presumível diferenciar termos de nível básico, ou seja, exemplares mais exatos, mais típicos de uma categoria que representam um padrão dentro dessa mesma categoria. O autor atenta para o fato de que o grau de relação que uma categoria possui não depende da periodicidade de ocorrência de componentes prototípicos. Em outros termos, a elevada constância de ocorrência desses componentes prototípicos é tão somente indício de prototipicidade, e não a sua causa.
De acordo com Givón (2001), a forma prototípica aparece como um meio-termo baseado na experiência linguística. Os atributos categoriais fundamentados em protótipos geram uma adaptação necessária das exigências no desenvolvimento da informação, que é a de acionar com rapidez categorias frequentes e com menos rapidez as que são menos frequentes. Os componentes mais prototípicos de uma categoria estão propensos a serem processados instintivamente, pois já estão sedimentados nos esquemas linguísticos dos usuários da língua. (GIVÓN, 2001, p. 33-34).
Em Neves (2006), é a partir da analogia entre conhecimento e gramática que se ajusta a prototipia, ou seja, a classificação dos componentes de uma categoria de acordo com as relações de afinidade entre os mesmos. Assim, partindo do princípio de que protótipo é o
inserção de um componente em uma categoria seria feita em virtude da semelhança com os
modelos mais perfeitos da tal categoria. Para tanto, destacamos o posicionamento de Bybee et
al. (1991) quando diz que o papelprototípico de formas gramaticais de futuro é de marcarum prenúncio sobre o que está sendo feito ou o que poderia ser feito. Além do mais, como os
prenúncios são espécies de afirmações categóricas, contextos em que aparece o futuro do pretérito, seu uso é motivado pelo domínio semântico-discursivo. Por sua vez, essas motivações, influenciariam a gramaticalização dessa forma verbal no português, pois na língua latina não havia futuro do pretérito, e sim a noção de condicional atrelada ao uso do imperfeito mais o auxiliar habere no presente do indicativo, formando, assim, uma perífrase verbal. Conforme Fleischmann (1982, p. 137), das línguas surgidas a partir do Latim, a nomenclatura futuro do pretérito somente aparece na língua portuguesa. A função do futuro do pretérito, como foi dito antes, era exercida pela locução verbal imperfeito + auxiliar no presente do indicativo, pondo em relevo a relação entre as categorias de tempo e modo, que perfazem o campo funcional da modalidade irrealis, na expressão dos contextos de uso do futuro do pretérito, como os marcadores de possibilidade e probabilidade, marcadores de intenção, desejo e volição.
O domínio abrangente da expressão de tempo passado refere-se aos meios linguísticos para as situações que ocorreram/poderiam ocorrer em momento anterior/posterior como mostra Côroa (2005), que, abalizada em Reichenbach (1947), define-o em função da articulação do MR – ME – MF, em que o MR é anterior ao MF, que é anterior ao ME, noção de tempo prototipicamente ligada ao passado condicional (futuro do pretérito). As marcas temporais possuem em comum o fato de se aludirem a circunstâncias que aconteceram (ou poderiam ter acontecido) no passado; isto é, as formas prototípicas agregadas a cada uma dessas marcas relacionadas ao futuro do pretérito podem ser encaradas como equivalentes se levarmos em consideração a função semântico-discursiva tempo passado.
Na acepção das marcas de passado condicional, por exemplo, o momento do evento é anterior ao momento de referencia e o fato é visto como futuro a partir de um ponto de vista passado; como essa possibilidade é considerada a partir de uma referência que se põe antes do fato, o momento de referência é anterior ao momento do evento. Interessante notar que o imperfeito do indicativo interpõe-se nesse mesmo campo funcional, nascendo, daí, a variação linguística entre essas duas formas, nos contextos condicionais, quando se trata da oralidade.
Já no que diz respeito ao passado cronológico, o futuro do pretérito anuncia um tempo dentro de fatos narrados e que se situa em uma linha temporal cujo momento do evento e o momento de referência encontram-se no passado, atuando neles uma outra ação que
poderia ter sido efetuada por completo ou não, e o momento da fala é o atual.
Ao observarmos o valor temporal do futuro do pretérito no exemplo 99, considera-se algo antes da enunciação que antecede o momento da fala (pretérito) e o momento do evento como posterior (futuridade).
101. “(...) quando a humanidade surgia do berço, uma via de communicações se apagou e nunca mais se-reabriria sem os recursos da sciencia.” (Origem americanas, imigrações prehistoricas, 1778)
Ainda com relação ao futuro do pretérito, objeto de estudo desta Tese, os contextos prototípicos estão assim configurados:
1. Função temporal cronológica: o futuro do pretérito aparece em destaque quando o fato é irrealis 2, a estrutura temporal é posterior ao momento de referência e o tipo de verbo é accomplishment;
2. Função temporal polifônica: o futuro do pretérito aparece em destaque quando o fato é irrealis 1, a estrutura temporal é simultânea ao momento de referência e o tipo de verbo é de estado.
3. Função nocional de condição: o futuro do pretérito ocorre mais frequentemente quando o fato é irrealis 3, a estrutura temporal é posterior ao momento de referencia e o tipo de verbo é achievement.
4. Função nocional de possibilidade: evidencia-se o uso do futuro do pretérito quando o fato exprimir irrealis 4, a estrutura temporal é anterior ao momento de referência e o tipo de verbo é de estado.
expressa irrealis 2, a estrutura temporal é posterior ao momento da referência e o tipo de verbo é de estado.
6. Função nocional de desejo: o futuro do pretérito é mais frequente quando o fato exprime irrealis 1, a estrutura temporal é anterior ao momento de referência e o tipo de verbo é de estado.