1. BÖLÜM
1.1. DÜġÜNSEL SÜREÇ
1.1.2. Duyumların Algılanması
O método que Sócrates utilizava para questionar seus interlocutores consistia em examinar uma tese, fazendo à pessoa que a defende uma série de perguntas com o objetivo de explicitar as premissas, inicialmente ocultas, que ou sustentam ou são implicadas pela tese. Quando isso é realizado a contento, Sócrates passa a mostrar que uma, algumas ou até mesmo todas estas premissas entram em contradição com a tese defendida inicialmente (cf. Robinson, 1996, p. 9).
O diálogo Teeteto nos fornece um bom exemplo do procedimento socrático. O interlocutor de Sócrates chamado Teeteto define conhecimento como percepção. Platão identifica essa teoria com a tese de Protágoras que “o homem é a medida de todas as coisas” e mostra que ela, por sua vez, tem seu fundamento ontológico na doutrina, atribuída a Heráclito, do fluxo perpétuo de todas as coisas. Esta doutrina, por sua vez, implica as seguintes premissas: (a) nada passa de maior a menor, seja em número, seja em volume, enquanto permanecer idêntico a si mesmo; (b) se não se retira ou se acrescenta algo a alguma coisa, essa não crescerá nem diminuirá: será sempre igual a si mesma; (c) o que antes não era não pode ter chegado a ser, se não passou a ser (155a-b).
Porém, tendo Teeteto aceito a teoria do fluxo, Sócrates lhe pede que considere o seguinte exemplo: quando comparamos uma certa quantidade A com uma quantidade B menor que ela e, a seguir, com uma quantidade C maior que A, a quantidade inicial A, maior em relação a B, passou a ser menor (“decresceu”), quando comparada com a terceira quantidade C. Por exemplo, Sócrates, que é baixo (comparado a Teeteto), “transforma-se” em alto, ao ser comparado com Teodoro, que é mais baixo do que Sócrates, sem que, em si, tenha-se alterado. Ou seja: Sócrates parece ter-se transformado sem movimento, mantendo-se igual a si mesmo. Teeteto observa corretamente que esse exemplo entra em conflito com as premissas da doutrina do fluxo universal: se nada existe por si, mas unicamente como resultado do movimento, deve-se admitir que não existe outra forma de algo crescer ou diminuir a não ser através do movimento. No entanto, o exemplo apresentado por Sócrates mostra um caso em que algo sofreu uma alteração em um de seus aspectos, sem ter sofrido qualquer tipo de movimento.
Com essa constatação, Teeteto fica, no sentido pleno da palavra, em aporia: ele sente- se sem recursos para resolver o problema colocado por Sócrates e não vislumbra qualquer saída para o conflito entre argumentos as teses da doutrina do fluxo e o exemplo de Sócrates
porquanto Sócrates, dentro da sua típica maneira de proceder, demonstrou a insuficiência das hipóteses iniciais, sem as substituir por outras. Se Teeteto pudesse, nesse momento, decidir- se, seja pela falsidade de uma das três premissas da doutrina do fluxo e pela veracidade das outras, seja pela falsidade de todas, o diálogo poderia encerrar-se neste ponto. O problema é que todas as premissas parecem plausíveis e, justamente por isso, Teeteto não consegue decidir-se por uma ou nenhuma delas. 35
Portanto, a aporia de Teeteto é causada pelo estado no qual se encontra a discussão: de um lado, temos uma série de teses plausíveis, capazes de explicar de forma conveniente certos fatos; de outro, temos um fato que não só não é explicado por elas, mas inclusive as contradiz.
O elenchus socrático consiste justamente em colocar seu interlocutor em aporia, mostrando, através de uma série de perguntas, que a tese P defendida por ele implica outras teses q e r, mas P, q e r juntas são inconsistentes.36 As premissas que inicialmente pareciam aceitáveis levam, no entanto, a uma conclusão inaceitável, ou constata-se que duas teses que são contraditórias são ambas plausíveis, sem que se possa rejeitar alguma das premissas ou das teses. O resultado é que ficamos com argumentos que, conforme Platão afirma na
35É nesse contexto que Sócrates faz a famosa observação sobre a admiração como sendo a origem da filosofia.
O que causa a admiração de Teeteto é justamente o estado de aporia a que chegou a discussão. A origem da filosofia seria, portanto, o estado de perplexidade causado pela hesitação entre diferentes teses sobre determinado assunto, teses que individualmente são plausíveis mas revelam-se inconsistentes quando colocadas juntas.
36 Alguns comentaristas afirmam que Sócrates, pela figura lógica da redução ao absurdo, estaria justificado em
afirmar que P é falsa, rejeitá-la e aceitar não-P como verdadeira, de modo que o diálogo deveria terminar com a conclusão positiva de que não-P é verdadeira (cf. Vlastos, 1996, p. 40; Kraut, 1992, p. 52). Em nosso exemplo, deveríamos concluir que a tese do fluxo deve ser rejeitada. No entanto, essa não é uma conclusão positiva, pois ainda ficamos sem saber em que consiste o conhecimento, por exemplo, que é o objetivo principal do Teeteto. Outros comentaristas, ao contrário, afirmam que Sócrates não está justificado em deduzir não-P, pois ele apenas mostrou que a conjunção de q, r e P leva a uma contradição, sem que se possa saber qual das premissas é a causa da falsidade P (cf. Benson, 1996, p. 99). De fato, o que Sócrates faz é convencer seu interlocutor, não da falsidade de P, mas que P é membro de um conjunto inconsistente de premissas: uma tese plausível, P, implica q e r, teses igualmente plausíveis, mas P, q e r em conjunto geram uma contradição. Ou P ou q ou r são falsas. Mas exatamente qual delas é a falsa? As teses examinadas geram uma contradição mas o problema central é que todas são consideradas plausíveis, e por isso não podem ser simplesmente descartadas. Portanto, a conclusão a que se pode chegar, no máximo, é que as teses são insuficientes para explicar o que queríamos explicar - o que não é a mesma coisa que dizer que elas são falsas.Vlastos chama o elenchus no qual Sócrates estaria justificado em afirmar que p é falsa de “elenchus standard”, e o elenchus em que Sócrates apenas mostraria a existência de uma inconsistência de p com as outras premissas de “elenchus indireto” (Vlastos, 1996,35).
República (532e), “parecem difíceis de aceitar [porque são contraditórios e não podem ser aceitos como estão] mas também parecem difíceis de rejeitar”.
Em suma: a arte do elenchus consiste em encontrar a(s) premissa(s) que o respondente aceita e implica(m) o contrário da sua tese (cf. Robinson, 1996, p. 16). Ora, como comenta Kerferd (2003, p. 114), “isso é claramente uma aplicação da antilógica”.
Portanto, a confusão de Sócrates (e Platão) com os sofistas não é apenas um caso de falta de precisão terminológica, mas é motivado também pelo fato de todos, sofistas, retóricos, erísicos, Sócrates e Platão, usarem o mesmo método de argumentação: a antilógica. “A antilógica não é um método de argumentação mais distinto da dialética do que a erística” (cf. Nehamas, 1999, p. 114).