A perspectiva cultural sobre identidade postula que à primeira vista parece ser fácil definir identidade, como se somente a compreensão do ser lhe fosse suficiente. Woodward (2003), denota que existe uma base para as principais questões e discussões que tornam o conceito de identidade mais compreensivo, cujas definições constituem uma perspectiva essencialista e outra não-essencialista. Segundo a autora, uma definição essencialista da identidade sugere que existe um conjunto cristalino e autêntico de características partilhadas, que não se alteram ao longo do tempo. Já a definição não-essencialista focaliza as diferenças, bem como as características comuns ou partilhadas, e atenta às formas pelas quais os significantes mudam ao longo do tempo.
Silva (2003, p. 96) fornece uma síntese importante sobre a compreensão de identidade, por meio da qual entendo a ruptura com as perspectivas filosóficas e psicológicas, bem como uma emolduração pela abordagem sociocultural.
Primeiramente, a identidade não é uma essência; não é um dado ou um fato – seja da natureza, seja da cultura. A identidade não é fixa, estável, coerente, unificada, permanente. A identidade tampouco é homogênea, definitiva, acabada, idêntica, transcendental. Por outro lado, podemos dizer que a identidade é uma construção, um efeito, um processo de produção, uma relação, um ato performativo. A identidade é instável, contraditória, fragmentada, inconsistente, inacabada. A identidade está
ligada a estruturas discursivas e narrativas. A identidade está ligada a sistema de representação. A identidade tem estreitas conexões com relações de poder.
Apreendo desse conceito uma orientação que expressa a identidade pelo prisma da fluidez (CARRIERI; PAULA; DAVEL, 2008), a qual discorro um pouco mais do que até então já descrevi sobre a crença em uma identidade fragmentada.
A identidade fluida é marcada pela crença na fugacidade de uma visão pós-moderna, na qual os sujeitos são identitariamente instáveis e coletivamente transitórios. Nessa perspectiva o essencialismo identitário é questionado frente às constantes mudanças, ajustes e reconstruções dos sistemas sociais. A identidade, assim, pode ser percebida como um resultado pontual, parcial, contextual e temporário. De acordo com os autores, esse prisma sugere uma tolerância à diversidade, da qual se vislumbra uma falsa chance de opções identitárias e alternativas de identificação, uma vez que os referenciais são sempre voláteis e orientam-se de acordo com os ditames hegemônicos. História, família, relações sociais, políticas e culturais são elementos reificados ao ponto de serem negados pelo discurso dominante.
Mesmo interpondo essa noção de sujeito, percebi que a definição de identidade afirmada por Silva (2003) expressa alguns aspectos importantes de serem destacados para consideração conceitual num espectro psicossociológico. O primeiro deles refere-se à noção da formação das identidades em constantes processos de construção e reconstrução. Para Maheirie (2002), a constituição da identidade enquanto conceito deve respeitar a compreensão de uma construção inacabada, aberta e mutável, realizada em constantes movimentos individual, social e coletivo, em maior ou em menor medida. Essa compreensão remete ao caráter temporal da identidade, o qual, segundo Woodward (2003), emerge em momentos históricos particulares.
Para Ciampa (1993), a identidade pode se restringir a uma ocasião originária, quando se assimila determinada representação identitária. Nesse sentido, o autor explica que a identidade recebida também tem o caráter de posição e é posta e reposta objetivamente a cada momento. Nisso estaria o entendimento de que a identidade em um momento é dada, como se lhe esgotasse a produção ou a continuidade do processo de construção nos demais momentos. Entretanto, a identidade pressupõe um contínuo processo de desenvolvimento, em que se reatualiza os aspectos identitários por meio de rituais sociais que preconizam historicidade e não são atemporais. A identidade, portanto, é tanto dinâmica como constituída por representações sociais.
As representações compreendem o segundo ponto de destaque expresso a partir do que Silva (2003) denota acerca da identidade. Para Woodward (2003), a representação inclui as práticas de significação e os sistemas simbólicos por meio dos quais os significados são produzidos.
Segundo o autor, “é por meio dos significados produzidos pelas representações que damos
sentido à nossa experiência e aquilo que somos. Podemos inclusive sugerir que esses sistemas
simbólicos tornam possível aquilo que somos e aquilo no qual podemos nos tornar”
(WOODWARD, 2003, p. 17). De acordo com Geertz (1989, p. 58), as representações sociais relacionam-se à cultura e devem ser vistas “não como complexos de padrões concretos de comportamento – costumes, usos, tradições, feixes de hábitos –, mas como um conjunto de mecanismos de controle – planos, receitas, regras, instruções [...] – para governar o comportamento.
Schultz (1995), por sua vez, denota que não há uma reflexão ou proposição sobre os processos de representação das identidades, uma vez que todos os indivíduos nascem dentro de um contexto natural, histórico, social e cultural já existente. É como se, antes mesmo do nascimento, cada sujeito possuísse uma dada situação biográfica, passível de ser alterada ao longo da vida por meio de vivências cotidianas, das quais se obtêm conhecimentos utilizados para interpretação do mundo, resolução de problemas e relacionamentos interpessoais (BAUER, 2004). Segundo Berger e Luckmann (2002), o conjunto de conhecimentos adquiridos pelos sujeitos decorrem de tipificações aceitas pelo meio social, pelas quais os indivíduos tendem a basear suas interações cotidianas.
Acerca das tipificações, Schultz (1995) defende que por elas tem-se a representação parcial dos indivíduos, enquanto Berger e Luckmann (2002) as intitula como determinações e instituições sociais. Woodward (2003) afirma, por meio da perspectiva de campos sociais de Bourdieu, que existem inúmeras instituições nas quais os indivíduos vivem e manifestam identidades. Assim, as famílias, os grupos de amizades, as instituições educacionais, os conselhos profissionais, os partidos políticos, entre outros, são instituições, pelas quais as pessoas exercem escolhas e autonomia dentro de um contexto histórico, social e material, inseridas em espaços repletos de conjuntos de recursos simbólicos.
Ciampa (1994) alerta quanto ao fato de tratarmos a identidade como um produto dado, ou uma representação preexistente, em detrimento de uma abordagem que nos leva à apreensão dos sentidos que revelam seu desenvolvimento. Talvez, em um primeiro momento somos levados
a tratar a identidade como um traço estático que define o ser. No entanto, essas formas compreendem as representações e carecem de análise acerca da constituição identitária, que também envolve processos de identificação e diferenciação. Nesse sentido, as representações podem ser simbolicamente compreendidas como aspectos ou elementos identitários (NKOMO; COX JUNIOR, 1999), ou ainda, um ponto de partida para compreensão da constituição identitária (WOODWARD, 2003).
Embora possamos nos ver, seguindo o senso comum, como sendo a ‘mesma pessoa’
em todos os nossos diferentes encontros e interações, não é difícil perceber que somos diferentemente posicionados, em diferentes momentos e em diferentes lugares, de acordo com os diferentes papeis sociais que estamos exercendo (WOODWARD, 2003, p. 30).
Nesse sentido, diferentes aspectos identitários são evocados em diferentes ocasiões e diferentes contextos sociais remetem a diferentes representações sociais. Um mesmo indivíduo pode se posicionar de acordo com as diferentes expectativas e os variados contextos e restrições sociais. Nas mais diversas situações as pessoas se representam para os outros, de acordo com os sistemas simbólicos predominantes naquele contexto (GOFFMAN, 1975; CIAMPA, 1994). Essa rede de representações, embora passível de ser investigada por uma abordagem funcionalista, pode ser demonstrada pelo aspecto relacional das identidades. Sobre esse aspecto se constata as noções de igualdade e diferença, e delas uma conexão às relações de poder (SILVA, 2003).
O entendimento de Silva (2003) acerca da identidade e sua conexão às relações de poder refere- se ao último ponto que destaco do conceito de identidade pelo prisma da fluidez. Para sua compreensão faz-se necessária a explicação do processo dialético de identificação e diferenciação, expresso nas relações sociais e orientado pelos sistemas de classificação que operam as representações sociais, dentre os quais evidencio os sistemas, tais como o econômico, cultural, étnico, político, educacional, estético.
Pratt (1998) denota que a identificação com o outro – não sendo o outro, necessariamente, uma pessoa – está diretamente ligada às crenças e valores semelhantes entre si, pelos quais se sustenta uma dinâmica de relação por afinidade ou emulação, que, respectivamente, compreendem o reconhecimento e a incorporação dos referenciais de identidade. A identificação também tem o respaldo da abordagem psicanalítica (PAGÉS, 1976), que a entende
como um movimento de transformação na direção do outro em virtude de fatores emocionais, seja de afinidade ou aversão, que respaldaria também uma desidentificação.
Woodward (2003, p. 18) define a identificação como “processo pelo qual nos identificamos
com os outros, seja pela ausência de uma consciência da diferença ou da separação, seja como
resultado de supostas similaridades” (WOODWARD, 2003, p. 18). Para (HALL, 2003), o
conceito de identificação permite designar a identidade de uma maneira relacional e como um
processo constante, “nunca singulares, mas multiplamente construídas ao longo dos discursos, práticas e posições que podem se cruzar ou ser antagônicos”. Assim, a diferenciação também
se destaca como processo de desenvolvimento das identidades, ao passo que a identidade, além das semelhanças, porta o traço das diferenças (SILVA, 2003).
Os estudos culturais sobre identidade evidenciam a diferenciação pela negação da igualdade. Para Woodward (2003, p. 14), “[...] a diferença é estabelecida por uma marcação simbólica relativamente a outras identidades. [...] algumas diferenças são marcadas, mas nesse processo
algumas diferenças podem ser obscurecidas”. Nesse sentido é que Woodward (2003) e Silva
(2003) denotam que a marcação da diferença é que constitui as identidades, a qual “ocorre tanto por meio de sistemas simbólicos de representação quanto por meio de formas de exclusão
social” (WOODWARD, 2003, p. 39). Assim, os autores denotam que a identidade depende da diferença, que não é simplesmente o seu oposto ou sua referência. “A identidade e a diferença
estão estreitamente relacionadas às formas pelas quais a sociedade produz e utiliza
classificações” (SILVA, 2003, p. 82).
As formas de diferenças simbólicas e sociais são estabelecidas, geralmente, por sistemas classificatórios. No caso da identidade, o sistema classificatório aplicado propõe um princípio de diferença que se estabelece na dialética entre dois grupos – nós/eles; eu/outro. Sobre essa classificação, é que Silva (2003, p. 82) dirá que identidade e diferença se encontram em estreita relação de poder, hierarquia e imposição.
Onde existe diferenciação – ou seja, identidade e diferença – aí está presente o poder
[...] de incluir/excluir (“estes pertencem aqueles não”; demarcar fronteiras (“nós e eles”); classificar (“bons e maus”; “puros e impuros”; “desenvolvidos e primitivos”; “racionais e irracionais”); normalizar (“nós somos normais; eles são anormais”).
Essa separação e distinção produzem e afirmam as relações de poder, muitas vezes provenientes do sistema sócio econômico dominante. Elas impõem aos sujeitos sua posição hierárquica na sociedade, classificam e ordenam o mundo social em grupos ou classes, por onde o poder também tende a ser reproduzido. De outro modo, a capacidade do sujeito de subversão aos sistemas de classificação compreende uma forma de resistência à lógica hegemônica, globalmente constituída pelo sistema capitalista, pela sociedade de classes e por políticas de governo elitistas. Desse modo, as identidades, ao mesmo tempo que podem refletir ou reproduzir a estrutura social, também podem agir e reagir às suas produções.
No que concerne às produções sociais, também discutidas como representações, construções sociais, ou tipificações, entendo-as como elementos identitários de socialização, passíveis de serem institucionalizados, para exercício de controle e dominação entre os indivíduos, ou subvertidos, como meio de resistência ao poder hegemônico. Entendo, também, que são conhecimentos que corroboram os diferentes posicionamentos identitários, passíveis de serem alterados, a fim de que a subjetividade sobressaia e seja possível resistir aos sistemas construídos. A ideia de sujeição às representações sociais não significa necessariamente um modo de reprodução social se considerado o contexto histórico e social. Talvez, ela se faça temporária até que o indivíduo ou o grupo de indivíduos alcance uma forma de reposicionamento identitário, dado que sempre há um apelo ou uma busca pelo posicionamento subjetivo.
Percebo, especificamente, a reação de subversão às representações, como um mecanismo gerador de novas construções sociais, que, todavia, se faz sob uma égide contra cultural, pela qual são criados outros sistemas e lógicas de pensamento. Nesse impasse entre controle e resistência, ordem e contra ordem, não percebo um horizonte cuja perspectiva permita aos indivíduos interações pacíficas. O conflito, assim, precisa ser reaprendido como possibilidade de novas visões que permitam extrair das representações as noções de igualdade e diferença não somente como marcação das relações de poder. No contexto de formação identitária, o prisma da autonomia pressupõe essa possibilidade.