7. MÜZĠKAL FORMASYONLAR ÜZERĠNE ANALĠTĠK KARġILAġTIRMA
7.3 Duvaz Ġmam
Como já dito, desde o capítulo anterior, há uma fronteira entre religião e cultura no pensamento de Tillich. Obviamente, por estar na condição de teólogo, e não de um teórico da cultura, Tillich tem consciência de que se aproxima da cultura por meio da religião, mais especificamente, o seu conceito. Ele luta para que sua definição do que é religião inclua de modo intrínseco a cultura. Sabemos, como já mostrado antes, que há, no entender de Tillich, um possível “problema técnico” em uma abordagem sobre o tema, porque de um lado ficaria a filosofia da religião e de outro a filosofia da cultura. Tillich resolve isso ao se situar entre uma e outra, não, é claro, sem recorrer ao mote de que religião diz respeito a tudo aquilo que faz sentido na vida, não apenas os assuntos de templo e coisas sobrenaturais:
A lacuna entre religião e cultura está preenchida: a religião é mais que um sistema de símbolos, ritos e emoções especiais, direcionadas a um ser supremo; a religião é uma preocupação última; é o estado de ser tomado por algo in-condicional, santo, absoluto. Como tal isso dá sentido, seriedade, e profundidade a toda cultura e cria fora do material cultural uma cultura religiosa de si própria. O contraste entre religião e cultura é reduzido à dualidade da cultura religiosa e da cultura secular com inumeráveis transições entre elas. (Tillich, 1990a: 201)
Tal dualidade reside na noção de que a cultura é religiosa assim como a religião é cultural. É uma questão de forma e substância, que leva, na análise tillichiana, a considerar dois outros conceitos como cruciais para entender a relação entre religião e cultura.
Tillich explica isto melhor lá atrás na formação de sua teologia da cultura, em um discurso que foi “a primeira apresentação pública de seu pensamento”, (Taylor, 1987: 35) proferido na condição de professor adjunto de teologia na Universidade de Berlim, perante a Sociedade Kantiana62 na capital alemã, durante o período pós- Segunda Guerra Mundial. Ali, naquela palestra que seria intitulada como “Sobre a ideia de uma teologia da cultura” (“Über die Idee einer Theologie der Kultur”)63,
62 Trata-se de um “importante núcleo da intelectualidade berlinense e alemã”, como informa Mueller (2005: 21).
63 Acessamos este texto por meio de sua tradução inglesa, que é da lavra de William Baille Green, presente na publicação What is religion?. (cf. Tillich, 1973: 155-181)
Tillich deixa claro os seus pressupostos para uma relação entre religião e cultura, e, por conseguinte, entre forma e substância, entre autonomia e teonomia:
Gostaria de propor a hipótese de que a autonomia das funções culturais está fundamentada em sua forma, nas leis que conduzem sua aplicação, enquanto que a teonomia está fundamentada em sua substância (“substance”) ou importância (“import”), isto é, na realidade que mediante estas leis recebe expressão ou realização. Pode-se formular a seguinte lei: Quanto maior a forma, maior a autonomia; quanto maior a substância ou importância, maior a teonomia. Mas uma não pode existir sem a outra; uma forma que nada forma é tão incompreensível como a substância sem forma. Tentar captar a importância livre da forma constituiria um relapso do pior tipo de heteronomia; uma nova forma surgiria, agora opondo-se à forma autônoma e limitando-a em sua autonomia. A relação entre a importância e a forma deve ser tomada como semelhante a uma linha, onde um dos polos representa a pura forma e o outro a pura importância. Ao longo da linha, no entanto, os dois estão sempre em unidade. A revelação de uma importância predominante consiste no fato de que a forma se torna cada vez mais inadequada, de modo que a realidade, em sua abundância transbordante, dilacera (“shatters”) a forma que deveria contê-la; e mesmo este transbordamento e dilaceramento ainda é forma.64 (Tillich, 1973: 164)
A tarefa da teologia da cultura seria entender este processo, esta relação entre todas as “esferas e criações da cultura”, dando-lhe expressão. Tillich parte, portanto, do conteúdo substancial da cultura, porque sua tarefa enquanto teólogo da cultura tinha como objetivo produzir uma “análise religiosa geral de todas as criações culturais”, oferecer uma “classificação histórico-filosófica e tipológica das grandes criações culturais de acordo com a substância religiosa realizada nelas”, bem como produzir “um esquema ideal de uma cultura penetrada pela religião” a partir de um determinado ponto de vista religioso. (ibidem: 165)
64 Aqui fiz a tradução do texto do inglês para o português, mas a versão inglesa já é uma tradução do original em alemão. Para efeito de comparação, considero importante mencionar uma tradução francesa desse texto: “Dans les derniers exposés, nous avons parlé à diverses reprises de l’autonomie
et de la théonomie des valeurs culturelles. Il nous faut poursuivre dans cette ligne et, effectivement, je voudrais proposer la thèse l’autonomie des fonctions de la culture est fondée das leur contenu (Gehalt), dans la réalité qui, à travers ces lois, vient à l’expression ou à la réalisation. On peut maintenant formuler la loi suivante: plus la forme sera prédominante, plus l’autonomie sera grande; plus le contenu prévaudra, plus la culture sera théonome. Mais l’um ne peut pas exister sans l’autre; une forme qui ne forme rien est aussi inconcevable qu’um contenu qui ne tient pas dans une forme. Ce serait une rechute dans la pire hétéronomie si l’on voulait tenter de saisir le contenu détaché de la forme; une nouvelle forme se créerait immédiatement, qui s’opposerait alors à la forme autonome et la limiterait dans son autonomie. Nous devons concevoir la relation entre le contenu et la forme comme une lingne dont une extrémité serait la forme pure et l’autre le contenu pur. Sur cette ligne elle-même cependant, les deux forment toujours une unité. La révélation du contenu prépondérant consiste alors en ceci, que la forme devient toujours plus insuffisante, que la réalité, dans sa plénitude déborante, fait éclater la forme qui doit la retenir; et pourtant ce débordement et cet éclatement sont eux-mêmes encore une forme.” (Tillich, 1990d: 36s)
Para que as categorias tillichianas sejam adequadamente expostas, mesmo que de modo resumido, é preciso dizer que substância ou importância se diferencia de conteúdo, que significa “algo objetivo em sua simples existência, que pela forma é elevado à esfera intelectual-cultural”. Já a substância diz respeito ao sentido (“meaning”), “a substancialidade espiritual, que sozinha concede importância (“significance”) à forma”. Portanto, “a substância ou importância se capta por meio de uma forma e se expressa em um conteúdo”. Enquanto que o conteúdo é “acidental” e a substância é “essencial”, a forma é “o elemento intermediário” (“mediating element”). A forma “deve ser apropriada ao conteúdo”, pois “o dilaceramento da forma através da substância é idêntico à perda de sentido do conteúdo”. A forma pode acabar perdendo a relação necessária com o conteúdo, quando houver preponderância da substância, que ocasiona um desaparecimento do conteúdo. Com isso, “a forma adquire uma qualidade de desprendimento, como de algo flutuando livremente no espaço; fica diretamente relacionada à substância; perde a relação natural e necessária com o conteúdo; e se torna forma em um sentido paradoxal”. Tudo isso acontece se a forma permitir que a sua qualidade natural seja dilacerada (“shattered”) pela substância. É exatamente na substância que a realidade religiosa aparece. (Tillich, 1973: 165s)
Em outro momento de sua vida, quatro décadas depois, Tillich mostra, no terceiro volume de sua Teologia Sistemática, que a relação entre religião e cultura ainda apresenta alguns princípios, que ele delineia em três, à luz do tema Presença Espiritual. É evidente que estes princípios revelam uma simpática interpretação teológica desse pensador para com o problema da secularização, de modo muito diferente da característica hostilidade com que as igrejas tendem a lidar com este assunto.
O primeiro princípio é o “princípio da consagração do secular”, o que significa que o secular “está aberto ao impacto do Espírito e não necessita da mediação das igrejas”. Trata-se de uma “emancipação do secular” que corrige o “erro”65 de que o Espírito só pode atuar na cultura através da religião. Este princípio se aplica “aos movimentos, grupos e indivíduos que não apenas estão no polo secular
65 Tillich chega a dizer que “este ‘erro’ é a identificação demoníaca das igrejas com a Comunidade Espiritual e constitui a tentativa de limitar a liberdade do Espírito pela reivindicação absoluta de um grupo religioso”. (Tillich, 2005: 689)
das ambiguidades da religião, mas são abertamente hostis às igrejas e, além disso, à própria religião em todas as suas formas, incluindo o cristianismo”. A atuação do Espírito nestes grupos pode ocorrer, por exemplo, “ao despertar sua consciência social, ou ao conferir ao ser humano uma autocompreensão mais profunda, ou ao romper as amarras de superstições eclesiasticamente fomentadas”. A Presença Espiritual transforma assim, por meios antireligiosos, não só a cultura secular, mas também as igrejas. (Tillich, 2005: 689)
O segundo princípio teológico que Tillich entende como importante na relação entre religião e cultura é o “princípio da convergência do sagrado e do secular”. Aqui o secular é entendido como “uma resistência contra a efetivação da autotranscendência vertical”. Resistência essa que é ambígua, porque ao mesmo tempo em que o secular “impede que o finito desapareça no infinito”, desempenhando a função de “corretivo necessário do sagrado”, este próprio secular, no entanto, “conduz ao sagrado”, não podendo “resistir indefinidamente à função de autotranscendência, que está presente em toda forma de vida, por mais secular que seja”. A resistência à função de autotranscendência produz o vazio e a falta de sentido, característicos da separação entre finito e infinito, ocasionando “uma vida que se exaure e se rejeita e é impelida à pergunta por uma vida inesgotável para além de si mesma e, assim, à autotranscendência”. Tillich chama a união entre o secular e sagrado de “reunião”, porque entende que “o sagrado e o secular pertencem um ao outro”. Por isso, todo ato por parte do sagrado para se isolar do secular, mesmo que em nome da preocupação última, tende a cair em “autocontradições” ou se torna vazio de uma maneira oposta ao secular. Isto porque toda tentativa de dispensar o secular utiliza-se da cultura em todas as suas formas seculares. Além disso, o secular reivindica sua autonomia mediante à reivindicação que o sagrado faz de integrar o secular à vida da preocupação última em nome da Presença Espiritual. Portanto, apesar das suas oposições, sagrado e secular se convergem, pois, no olhar de Tillich, o secular se aproxima do sagrado, por estar “sujeito à regra que rege toda vida”, regra que ele chama de “função autotranscendente, transcendendo a si mesmo na direção vertical”. (ibidem: 690)
O terceiro princípio, no qual Tillich entende que os outros dois estão enraizados, é o da “pertença essencial mútua de religião e cultura”. Este princípio já está expresso na afirmação de que “a religião é a substância da cultura e a cultura é a
forma da religião”. Afinal, aqui Tillich reafirma a tese de que “a religião não consegue se expressar sequer num silêncio significativo sem a cultura, pois todas as formas de expressão significativas provêm da cultura”. E ele ainda reitera “que a cultura perde sua profundidade e inexauribilidade sem a ultimidade do incondicional”. (Tillich, 2005: 690s)
Esses princípios, juntamente com as outras categorias proposta por Tillich em sua teologia da cultura, descrevem, de maneira sucinta, a relação entre religião e cultura no pensamento tillichiano. A fronteira66 entre uma e outra se observa na luta por uma ampliação do conceito de religião empreendida por Tillich, que oferece uma abertura para considerar a cultura com o mesmo sentido, seriedade e profundidade da religião. O ponto de contato entre ambas é a preocupação última, que permite enxergar a religião como “o estado de ser tomado por algo incondicional”.
Dito isso, apresentamos a seguir exemplos de como a teologia tillichiana articularia este conceito amplo de religião. Para tanto, o próximo tópico pretende expor o modo segundo o qual Tillich lida, na prática, com esta aproximação entre religião e cultura em seu pensamento; escolhemos, em especial, temas relacionados ao último período de sua vida.