5. BULGULAR VE YORUMLAR
5.3. Doktor Grubunun Eğitimine İlişkin Bulgular
Desde 1988, a Constituição Federal estabelece no artigo 20, parágrafo 1º, que o ensino religioso é facultativo nas disciplinas das escolas públicas de ensino fundamental (BRASIL, 2000). Na escola pesquisada, existe uma disciplina de Sociologia e Religião no Ensino Fundamental.
Para Gomes (1998) existe uma tentativa de reestabelecimento do Estado Cristão ou Protestante a partir do ensino religioso obrigatório. Em suma, a maior parte das religiões
“aceitas” na sociedade e também na escola são a católica e a evangélica. Para tanto, a questão
do preconceito em relação a religião foi colocada pelo professor de Sociologia Gabriel54 no curta-documentário “Viver em mundo sem preconceito”:
“Por exemplo, o preconceito religioso é muito presente quando a gente aborda temáticas de diferentes religiões que não são as mais comuns e mais aceitas pela comunidade. Sempre há uma resistência e uma criminalização de outras religiões, como por exemplo matrizes afrodescendentes, como candomblé, ubanda, espiritismo”
No curta-documentário “Viver em um mundo sem preconceito” um aluno comentou que já sofreu várias discriminações por conta da religião, como diz: “já sofri vários.
Um é a questão da religião. Ah é padre, ah é não sei o que, é muito babão, é muito da igreja”.
Ainda assim, essa questão não foi abordada nas oficinas, com exceção das circunstâncias em que uma aluna comentou das resistências à homossexualidade devido a questões religiosas.
Ainda no curta-documentário “Viver em mundo sem preconceito”, observamos que uma parte dos alunos evocaram os preceitos da bíblia para defender um mundo sem preconceito, como por exemplo:
“Eu sou uma pessoa que gosto muito de ler a bíblia. Eu costumo falar para as pessoas que o mais importante é o conceito de Deus. La em Athos 10:34 Deus não é parcial. Então eu tento falar para pessoa que é uma pessoa boa e Deus gosta dela. Então eu digo a essas pessoas que se concentrem na opinião de Deus e nas pessoas que gostam dela, nas pessoas que cercam ela para o bem, não pras que falam mal. Porque todo mundo tem alguém que fala mal, alguém não, vários alguéns”
Existe lugar para a religião na escola? O professor Gabriel comenta que sim, porém, que religião? Ele diz: “Quando vamos conversar sobre a bíblia a maioria das pessoas é a favor,
mas se já passamos pro candomblé tem aquele pensamento que é macumba e às vezes a
discussão fica até complicada”. Dessa forma, essas religiões são rechaçadas.
Em 2014, um aluno foi impedido de frequentar uma escola no Rio de Janeiro por usar colares de candomblé55. Após o acontecido, ele mudou de escola. O que acontece, segundo o depoimento da professora Stela Guedes Caputo na reportagem56, é que o ensino religioso dentro das escolas funciona algumas vezes como um catequizador que só aceita e corrobora as religiões cristãs. Além disso, a professora aponta para diversos movimentos na bancada fundamentalista do Congresso Nacional que busca a institucionalização da religião cristã em detrimento das outras (MAZZI, 2014).
Em suma, o preconceito religioso não foi muito discutido durante a pesquisa, porém se apresentou como um elemento que é bastante discutido na sociedade de distintas formas.
3.3.8) A práticas de preconceito e a relação professor-aluno
“Por ser jovem eu não tenho credibilidade olhando agora para sua
cara que eu estou me ligando em toda verdade. Você me julgou pelo meu estilo, meus panos, minhas tatuagens” (Rappin Hood feat Planta e Raiz – Jovem)
“Dizem que eu não sei nada, dizem que eu não tenho opinião, me
compram, me vendem, me estragam, e é tudo mentira, me deixam na mão, não me deixam fazer nada, e a culpa é sempre minha, oh yeah!” (Legião Urbana – Aloha)
“Eu vejo na TV o que eles falam sobre o jovem não é sério
O jovem no Brasil nunca é levado a sério” (Charlie Brown Jr – Não é sério)
Em alguns momentos em que permeamos a escola, veio à tona uma discussão muito importante que por vezes é esquecida quando trabalhamos as práticas de preconceito: o professor em relação ao aluno, e o aluno em relação ao professor. Na visão do professor, o jovem deve ter determinadas características; na visão do aluno, o professor deve ter outras. Por vezes essa relação se estremece e explode em conflitos. No entanto, não são raras as vezes em
55 Os colares de candomblé são adereços utilizados pelos adeptos da religião candomblé. O calor é feito de
miçangas coloridas, sendo que cada cor significa o orixá ou vodum.
56 Ver reportagem: http://educacao.uol.com.br/noticias/2014/09/03/rj-aluno-e-impedido-de-frequentar-escola-
que o professor é colocado como o detentor da verdade e como a autoridade máxima que sabe o que deve ser melhor ao aluno.
Primeiramente, nos deteremos nessa visão de juventude construída socialmente. A juventude tem sido objeto de inúmeros estudos de diferentes perspectivas a partir das abordagens sociológicas, psicológicas, pedagógicas e antropológicas. A maioria destes estudos evocam problemas da juventude, como abuso de drogas, agressividade, violência, gravidez, dentre outras. Para tanto, circula uma juventude que está relacionada à crise, irresponsabilidade, imaturidade (SOUZA, 2004).
O termo juventude apareceu ao longo da história, porém, ganhou diversos significados de acordo com distintos contextos sócio históricos. Sposito (1997) comenta que no período pré-industrial essa noção de transição não existia como é entendida hoje, sendo assim, o mundo da criança não estava separado do adulto. É somente a partir de humanistas e de religiosos que, no século XV, surgiram estudos que separam os três estágios: infância, juventude e vida adulta (ARIÈS, 1981).
Por vezes, o conceito de juventude é confundido com o de adolescente, que foi um termo surgido na obra de Emílio, de Rosseau, e se definiu como um segundo nascimento, uma época conturbada que deve ser necessariamente controlada e vigiada. Ao longo do tempo, o conceito de adolescência foi utilizado para demarcar as diferenças biológicas, sociais e psicológicas dos sujeitos entre 14 a 19 anos, enquanto a juventude adquiriu uma conotação mais crítica e mais atrelada às diversas mudanças sócio históricas (SOUZA, 2004).
Independente do que esteja se produzindo sobre o jovem, torna-se necessário discutir que os estudos sobre a juventude geralmente trazem uma produção do ponto de vista do adulto. Essa exacerbação de conhecimentos da verdade sobre a juventude aumentou quando, atualmente, assistimos diversos especialistas e profusões discursivas sobre esse período. Dessa forma, nos interrogamos: por que se faz tão presente falar sobre o jovem; de que forma ele tem sido visto como problema, transtorno, violência, descaminho, desrespeito? Ele é visto como um sujeito sem fala, sem opinião, sem participação política, esvaziado, perdido, agressivo? (OZELLA, 2002). Não é levado a sério, não tem credibilidade, é comprado, vendido, usado, julgado?
É nesse momento que aparece o professor, muitas vezes carregado com o estereótipo de autoridade e com toda a possibilidade de transmitir para esse jovem o que precisa saber e como deve agir. Alguns professores podem usar essa vestimenta, enquanto outros não. Na restituição, a professora Judith discutiu o quanto os jovens hoje estão agressivos na sala de aula, como não obedecem, como são agressivos e como ninguém consegue lidar com todas
essas peculiaridades que essa transição coloca: “Eu acho que sei isso que você está sentindo. Eu acho que essa transição da criança para o adolescente. Essa autoafirmação perpassa pela
agressividade”.
Judith disse não saber lidar com essa agressividade, sendo muitas vezes vista na sala de aula como signo de indisciplina, que hoje se configura como um dos problemas mais estressantes da escola. Alguns questionamentos podem ser feitos em relação à indisciplina, como, por exemplo, a concepção de uma infância e juventude únicas, com determinadas características preconcebidas como normais, sendo os que desviam tido como anormais, bagunceiros, complicados; a indisciplina colocada como um problema individual, sendo portanto psicologizada; a visão assistencial do projeto educacional público que vê o jovem como marginalizado, fragilizado, inserido nos âmbitos de violência e de riscos; a ação de diversos atores para compreender as faltas dos alunos e estabelecer novas contenções, constrições, vigilância; e, por fim, a noção de que é preciso acabar com o conflito que é inerente as relações entre professor e aluno, o que acaba por não colocar a posição ambígua que o professor adquire (ROCHA, 2012). Para tanto, essa discussão da indisciplina surgiu na fala da Ana Beatriz durante a restituição:
“ O que eu percebo muitas vezes é que numa situação de bullying o espaço de conflito
é criado um conflito maior quando o aluno é colocado para fora de sala por
indisciplina. Então assim, xingou o outro... coordenação. Então assim em nenhum momento na própria sala de aula esse conflito essa problematização foi levantada,
a questão do ver o outro, não é fácil, não é fácil para gente, imagina para o adolescente. Quantas vezes em sala de aula eu consigo gerenciar esse conflito? Quantas vezes em sala de aula em vez de eu colocar o menino... ah chamou o colega de doidinho, os dois pega as coisas vão tudo simbora, os dois, sai, vai para o coordenador disciplinar que ele resolve. Mas a verdade foram duas pessoas que tavam dentro de um contexto que talvez a sala toda passe por isso ai a sala toda vai
sair por indisciplina? [...] e aí a gente tem que se apropriar do ser educador...que eu acho que nós não estamos preparados nunca. Eu tenho um tantinho de ano, mas assim eu ainda me vejo em situações que eu ainda paro e poxa eu não devia ter levado esse aluno para fora. Eu poderia ter resolvido esse problema na minha sala. Eu poderia ter tomado de conta e até gerenciado esse problema de uma maneira muito mais
rica não só praquele agressor e agredido, mas para sala todinha que está convivendo com aquele problema”
Nessa fala, Ana Beatriz implica a escola a pensar a indisciplina como um analisador das próprias relações entre alunos e entre aluno-professor. Quando não se problematiza essa indisciplina dentro da sala, se perde a potência que pode provocar uma reflexão. Assim, o gerenciamento desse analisador pode ser feito de uma maneira muito mais rica para a sala toda que convive com o problema. Então, ela coloca: e aí, a sala toda vai sair por indisciplina? Essa fala foi colocada após termos problematizado que às vezes é necessário que a escola abra
espaços para problematização e conflito, ao contrário de apaziguamento e de diversos formas de combater e solucionar os ditos problemas.
No entanto, a visão do jovem como aquele perdido, fragilizado, problemático ainda impera na visão de alguns professores, como por exemplo nessa fala:
“Judith: Então às vezes eles estão muito perdidos. Quem é diretor de turma que está conversando com esses jovens sabe? Às vezes eles não tem idade para saber o que é
e o que não é. Imagina com quem não tem definição ainda, se são homossexuais ou são heterossexuais isso não chegou ainda”.
A partir dessa discussão sobre a juventude, surgiu um questionamento do professor Gabriel, quando ele comentou que é importante falar sobre o preconceito sexual, o racismo, dentre outros, mas também falar sobre o preconceito contra os jovens, como diz:
“O preconceito dos professores e da sociedade contra a decisão dos jovens. Na decisão que ele toma e o que vai influenciar na sociedade. A sociedade vem meio que marginalizando o jovem. Inclusive foi citado aquela música do Charlie Brown Jr. “não é sério”. Eu vejo na TV o que eles falam sobre o jovem não é sério, o jovem no Brasil nunca é levado a sério. Essa questão do preconceito é um leque... apesar de ter visto do racial, sexual, mas tem essa questão também contra os jovens, e hoje como educador a gente lida com a juventude desde o 7º até o 3º ano. Isso é algo que é muito importante para gente”
Nesta cena, o professor problematiza sobre os saberes que se tem produzido sobre esse jovem, a marginalização que muitas vezes não é dele, mas produzida por distintos dispositivos na nossa sociedade e na própria escola. Por saber que esse saber sobre o jovem vem atrelado aos poderes que se regularizam sobre a vida, e, consequentemente, que nossos discursos não podem ser ditos em qualquer hora nem em qualquer lugar, no final da restituição o professor veio conversar a respeito deste tema, depois que todos os outros professores foram embora:
“[...] Por exemplo essa escola tem muito potencial para ser levado para frente. Mas do mesmo jeito que tem muitos alunos que pensam diferente, tem muitos professores
que pensam diferente. Vamos trabalhar, vamos. Eu vejo que a gente tem que de alguma maneira estuda r como abordar, para não fazer contra serviço e sair
reproduzindo estereótipos, preconceitos. Sobre o Pacto, é um programa do governo federal para fazer formação com professores, e é sobre juventude. Que mostra justamente o seguinte: professor você já parou para pensar quem é o seu estudante? Qual a realidade dele? Qual a orientação sexual?”
Quem é o seu estudante? Muitas vezes ele é apenas o garoto de calça rasgada, como diz o aluno Maicon no curta-documentário “Viver em mundo sem preconceito”:
“Uma vez em que eu estava andando de skate na quadra meio que três professores me chamaram atenção por causa da minha calça porque ela estava um pouco rasgada.
Qual o problema da minha calça rasgada? Por acaso quer dizer que sou pilantra só por causa disso?”
A fala do aluno Maicon se cruza com o que o professor indaga: quem é o seu estudante, você já parou para pensar nisso, parou para cuidar disso? Às vezes ele é só o garoto da calça rasgada. Uma marca - o rasgo - e uma identidade cristalizada: o pilantra. Quantas vezes não chamaram a atenção de Maicon? Quantas vezes não pediram para ele comprar uma calça nova, vai mais uma vaquinha para ele?
Interessante o quanto na escola existe esses embates e o quanto às vezes essa relação professor-aluno deve ser problematiza dentro do cotidiano, porém muitas vezes não é. Neste ínterim, importante redimensionar essa relação, no sentido em que o professor não precisa ser um tutor, uma autoridade, que o adulto não precisa saber aquilo que o jovem necessita. Diferente da tutela, a ética do cuidado coloca o espaço da fala, da expressão das opiniões e dos desejos do jovem. A partir disso, podemos produzir uma relação mais horizontal e mais politizada do professor-aluno (MATTOS et.al, 2013).