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Com John Rawls o cenário retornará aos ideais de liberalismo político propriamente ditos. Herdeiro da tradição liberal de Locke, a teoria de Rawls questiona:
Como conciliar direitos iguais numa sociedade desigual? Como compatibilizar as ambições dos mais talentosos com as necessidades dos menos favorecidos a fim de se construir uma sociedade mais justa e igualitária? (SOUZA, 2007, p. 90).
Ao questionar isso, Rawls estava tentando conciliar os princípios meritocráticos norte americanos com a ideia cara da igualdade do liberalismo. Para o autor, era necessário que se problematizasse a ideia de justiça: como conquista-la no seio da sociedade e como mantê- la? Uma de suas respostas era trabalhar com a justiça distributiva e com a equidade, visando garantir direitos à toda a sociedade, no entanto sendo compatível com os direitos de liberdade do outro.
62 John Rawls é um filósofo e jurista que teve forte influência do pensamento liberalista no século XX, a partir de
Locke e de Stuart Mill. Sua filosofia é considerada liberal (PINHEIRO, 2003). Norberto Bobbio defendia a liberdade, a tolerância e a unidade dos homens acima de tudo (DI CASTRO, 2012). Michael Walzer critica o contratualismo de Rawls, abrindo uma reflexão sobre a diferença como uma base do pluralismo (SOUZA, 2007)
63 O contratualismo é um movimento na filosofia política que coloca a noção do contrato como categoria central
na justificação de ordem política e social. O primeiro grande teórico é Hobbes. Locke, Rosseau e Kant tiveram premissas diferentes, porém tem pontos em comum. No século XX, o contratualismo foi renovado por John Rawls. Em geral, as teorias contratualistas têm três dimensões: a situação inicial; o contrato; o resultado do contrato. Todas as normas que pretendem justificar as ações humanas e das instituições a partir da celebração de um contrato podem ser designadas de contratualistas. Existe duas correntes do contratualismo: a política e a moral, sendo que a primeira está preocupada com as questões interligadas à justiça, estabelecendo a estrutura básica da sociedade, os direitos e deveres da população e o exercício do poder político; e a segunda mais ligada as questões morais, sendo as normas morais estabelecidas a partir de argumento contratualista. O contratualismo político foi objeto de estudo de Hobbes, Locke, Rosseau, Kant e Rawls (MARTINS, 2001).
Para garantir essa justiça equitativa, ele afirma que é necessário estabelecer um acordo em que os princípios estabelecidos não tenham como base compreensões particulares, pois a posição que cada um ocupa na sociedade, talentos, dons, qualidades, poderá perturbar esse processo. É preciso que os elementos de cunho particular sejam colocados sob o véu da ignorância, impedindo que estes influenciem na teoria da justiça:
Despojado de todos os factores que podem perturbar uma escolha puramente equitativa dos princípios determinantes da estrutura básica da sociedade, ou seja, dos princípios da justiça, o sujeito alcança uma posição original pelo qual tais princípios poderão ser descobertos e, como tal, escolhidos (SÁ, 2008, p. 11).
Para discutir a justiça sob o véu da ignorância e trabalhar questões como a equidade, Rawls coloca dois elementos como categorias básicas: a liberdade e a igualdade. A filosofia, a moral, ou a religião não podem ter formas institucionais apropriadas à liberdade e à igualdade. Dado às diferenças e convicções políticas de cada setor, é necessário que haja um acordo político para que as diferenças entre as visões passem a ser moderadas, estimulando a cooperação social e o respeito mútuo (SILVA, 1998).
As ideias de justiça distributiva e equidade chegam na contemporaneidade reforçadas pelas ações afirmativas64, como as cotas para negros, pobres, dentre outras. Para Rawls, todos devem ter direito as liberdades básicas, mesmo que haja desigualdades econômicas e sociais. Caso aconteça a desigualdade, é preciso começar a distribuir a renda para gerar benefícios aos menos favorecidos, trazendo a igualdade equitativa das oportunidades. No entanto, como resolvemos a problemática da desigualdade? Através das ações afirmativas. Para
tanto, “as ações afirmativas e a inclusão social são uma consequência do aprofundamento do conceito de equidade” (PINHEIRO, 2013, p. 105).
Dentro da escola pesquisada, as ações afirmativas chegam como um consolo, como diz a professora Joana quando conversamos sobre o ingresso dos alunos nas universidades:
“A gente trabalha como dá para trabalhar, e fica até consolado porque sabe que tem cota para aluno de escola pública. Isso é muito importante para a inclusão dos alunos pobres nas universidades. Mas mesmo assim são poucos os que entram”.
64 Importante ressaltar que, as ações afirmativas foram frutos de um momento norte-americano na década de 60
em que houvemuitas reinvindicações democráticas internas que pregavam maiores direitos civis, principalmente para os negros (vale lembrar a marcha que Martin Luther King liderou sobre a ponte Selma reivindicando igualdade de direitos para a população negra). O principal objetivo desse movimento era estender a igualdade de oportunidades a todos os cidadãos. Para tanto, as ideias de Rawls foram essenciais para fortalecer o movimento e começar a surgir, dentro das políticas públicas americanas, leis que corroborassem com a melhoria das condições das populações pobres e negras (PINHEIRO, 2013).
A professora chama atenção para o fato de que são poucos alunos que ingressam na universidade, mesmo com políticas afirmativas. Foi, portanto, a partir das ideias de Rawls que foi possível começar a pensar em uma igualdade de oportunidades mesmo em uma sociedade que havia desigualdades (PINHEIRO, 2013).
Para chegar a justiça equitativa e igualitária, Rawls confirma que é preciso que seja estabelecido alguns princípios tolerantes. Assim, Souza (2007) assinala cinco diferentes considerações sobre a tolerância na obra de Rawls que confirmam o liberalismo político:
(1) tolerância como resultado de uma justa e igualitária liberdade de consciência e de expressão; (2) tolerância como o mais adequado método de confronto entre diferentes doutrinas compreensivas de bem numa sociedade pluralista; (3) tolerância enquanto recurso político de defesa das liberdades individuais contra um Estado intolerante ou contra grupos intolerantes dentro de uma sociedade liberal; (4) tolerância como virtude democrática dos cidadãos no uso da razão pública e na apresentação de argumentos no fórum político e (5) tolerância enquanto abstenção dos povos liberais de impor à força os princípios liberais aos povos não liberais (SOUZA, 2007, p. 94)
No primeiro caso, a tolerância está mais relacionada a ideia da liberdade de pensamento e expressão; no segundo, como um método que almeja o bem da sociedade; no terceiro como um dispositivo político que defende liberdades individuais contra os Estados totalitários; no quarto, como uma atitude e virtude que favorece o uso da razão; no quinto, como um princípio de liberdade de governo. Em todos os casos, como podemos observar, o que está em jogo é a liberdade, reforçando o paradigma liberalista que Rawls restaura. Como observaremos no subtópico 4.3.5, as ideias de Rawls influenciaram a tolerância com base em uma igualdade e liberdade, principalmente se observarmos do ponto de vista dos Direitos Humanos e da ONU.