Segundo o censo do IBGE de 2010, boa parte da população brasileira ganha de ½ a um salário mínimo (24,8%), e de um a dois salários mínimos (33%). Estudos de Rosenberg (1991, 1995, 1998) vão mais além e atrelam as desigualdades sociais às questões de raça. As regiões mais pobres do Brasil – nordeste e norte – predominam a cor parda e negra; enquanto as regiões mais ricas – sul e sudeste – predominam a cor branca. Pretos e pardos, em geral, recebem, em média, menos da metade do que os brancos. A taxa de mortalidade infantil é mais elevada entre pretos e pardos; a expectativa de vida ao nascer é significativamente inferior para pretos e pardos do que para brancos (IBGE, 2010).
A escola pesquisada se situa em Fortaleza, tendo sido considerada a quinta cidade mais desigual do mundo. A escola está localizada em um bairro bastante vulnerável com renda média de 681 reais. Além disso, Fortaleza é a cidade mais densamente povoada do Brasil (IPECE, 2012).
Ao discutir a questão do racismo com os alunos, eles comentaram que não incomodava, já que a maioria era negra ou parda. Quando conversamos sobre as desigualdades sociais, eles disseram que nunca haviam percebido preconceito nem situações que incomodaram dentro da escola, já que a maioria também era pobre. Um deles foi mais além e disse que não se importava, contanto que tivesse um celular que conectasse à internet.
No tribunal do júri, ao discutirmos o curta “A Peste de Janice” que trata da
discriminação de uma aluna por conta de sua classe social – filha da zeladora da escola –, os alunos defenderam as colegas que estavam discriminando porque:
“Márcio: Pessoas desse tipo não podem se misturar com a gente, são pessoas
totalmente inferiores, não tem a mesma capacidade que a gente”
“Sabrina: A gente é rico. A gente não tem nada que ficar perto deles. Eles ficam no
O discurso deles foi de que os ricos não poderiam nem deveriam se misturar aos pobres. Parecia muito mais confortável a segregação e a diferenciação dos espaços do que propriamente a mistura entre eles. Essa separação diz respeito também a atitude deles de não saírem do próprio espaço em que vivem, e, por conta disso, ao não entrarem em contato com os ricos, não ocorre embate, luta, e, portanto, também não ocorre práticas de discriminação e de preconceito para além dos muros da escola. Ricos e pobres, cada um em seu lugar.
Segundo Perez e Castro (2011), essa separação aumenta devido ao medo de que a vida na cidade tem proporcionado violência. Para tanto, para se proteger, alguns espaços são programados e construídos para oferecer bem-estar e segurança. Esse espaço controlado seleciona os seus frequentadores, como por exemplo, clubes, shoppings, complexos de lazer. Esses enclaves fortificados enfatizam o valor do que é privado e desvaloriza os espaços públicos e abertos na cidade. As pessoas que participam desses espaços geralmente valorizam o mesmo
grupo social e homogêneo, e evitam as interações indesejadas de “perigo” e “imprevisibilidade”
que caracteriza a experiência urbana. Assim, essas pessoas se unem para buscar uma convivência sem inconveniência.
A classe média e rica convive entre si e se distancia das interações indesejadas com a classe pobre. Esses espaços privados, em geral, empobrecem a experiência da cidade e o contato com o outro. Para tanto, segrega mais ainda os espaços do rico e do pobre, como diz Gabriela: “Aqui, a gente vai de casa pra escola e da escola pra casa. A gente mal tem saído de casa, e quando sai é mais pelo nosso bairro, então a gente não se mistura”.
Assim como os alunos não se misturam, os ricos também não devem se misturar com base no que eles falaram. Quando o júri foi decidir quem tinha os melhores argumentos, Sabrina disse:
“Eu gostei do argumento deles [falando pro grupo que acusa a Janice] o que uma
menina de classe baixa quer entre um monte de gente de classe alta? Sabendo que
vai sofrer preconceito, sabendo que vai ficar na sarjeta? Então eu acho que o argumento deles é melhor”
Com esse argumento, a aluna corrobora com a visão de que é preciso espacializar o lugar do outro. É preciso que o outro localizado entre os ricos volte a ser mesmidade entre os pobres. Para cada nome, um lugar.
Depois da atividade do Júri, questionei aos alunos se eles realmente achavam que era necessária uma separação entre os ricos e os pobres, e Sabrina disse:
“Eu acho assim que é errado a gente fazer isso, tipo assim, é uma pessoa simples,
mas é uma pessoa normal como todos nós, é uma pessoa que não merece sofrer aquele bullying aquele sofrimento, que ela leva dos amigos dela. Por ela ser pobre,
por ser faxineira, eu acho que não tem nada a ver. Eu acho porque ela é calada, só porque ela é na dela, os alunos implicam com ela por ela ser assim a filha da
faxineira do colégio. Afinal, quem quer viver daquele jeito? Só no canto, sem
amigos, não ter ninguém para conversar, todo mundo contra você. ”
Nessa cena, analisamos que primeiramente ela se coloca no lugar das colegas que
discriminam no trecho “é errado a gente fazer isso...”, apontando que é uma atitude que não
aprova; por outro, ela se coloca no lugar de Janice, quando questiona: “Afinal quem quer viver daquele jeito? Todo mundo contra você”. Ainda assim, alguns alunos acreditam na separação dos espaços, como podemos ver nesse trecho:
“Pesquisadora: Nesse grupo, vocês falaram que os ricos não devem se misturar aos pobres. O que vocês pensam sobre isso?
Marcila: Isso é uma besteira porque ser pobre não tem diferença de rico. Pesquisadora: vocês acham que existe uma separação ou não?
Márcio: existe
Sabrina: eu acho que existe essa divisão sim porque quando uma pessoa é rica a gente já não espera que ela seja humilde [característica dos pobres] ai a gente fala, poxa, como aquela pessoa é humilde, pé no chão”
Sobre isto, Skliar comenta das espacialidades do outro e da mesmidade:
É a espacialidade do sujeito também uma espacialidade linear – o outro, o outro que volta, ocupando o mesmo território que lhe designamos sempre? Um espaço sempre homogêneo, unicamente colonial? Ou será o espaço um espaço simultâneo onde o outro ocupa um espaço outro, mas conhecido ou por conhecer; um outro espaço, mas que se imagina aprazivelmente vinculado, pretensamente comunicativo com a mesmidade? Um espaço multi-homogêneo, um espaço multicultural? Ou será
que se trata de uma espacialidade radicalmente distinta do espaço da mesmidade? Um espaço que irrompe, um espaço de acontecimento, um espaço de
olhares, gestos, silêncios e palavras irreconhecíveis, inclassificáveis, irredutíveis? (SKLIAR, 2013, p. 97, grifos nossos).
Dizer que os ricos devem estar separados dos pobres é definir um território, uma espacialidade, que é radicalmente distinta da mesmidade. A mesmidade vigia, controla, castiga o outro e o conduz para a periferia, ao passo que também insiste sobre a perfeição de sua centralidade. Neste caso, fica claro um centro e uma periferia.
De uma forma ou de outra, Skliar (2003, p.101) nos questiona: “existem lugares
não-modulados, de não-controle, de não-exclusão? [...] Existe, por acaso, um tipo de terceiro espaço, um espaço sem nome, um entrelugar?”. Fica a pergunta.