Adélia de França e Silva76 nasceu em 04 de julho de 1904, na cidade de Aliança/PE. Era filha de José Francisco de Moura e Silva (comerciante) e Severina de França e Silva (lavadeira). Quando ainda jovem, veio estudar na Capital paraibana e concluiu o curso na Escola Normal de João Pessoa. Seu diploma foi registrado sob o n° 24677. Aos 22 anos, tornou-se docente da rede pública de ensino no Estado da Parahyba do Norte. Porém não se sabe ao certo em que circunstâncias familiares ela veio à Capital paraibana para firmar residência, o que se sabe é que, desde então, dedicou-se à educação das filhas e dos filhos dessa terra. Em 1941, a professora Adélia tem o seu registro de identificação pessoal e profissional efetivado no órgão legal do governo do Estado, conforme consta na figura a seguir.
76 Assim registrada até o seu casamento, quando passou a usar o nome de Adélia de França Carneiro, conforme documento de Registro Civil da Capital, datado no ano de 1950, já mencionado no segundo capítulo desta pesquisa.
77
Figura 7: Carteira de Identidade da professora Adélia de França (1941) Fonte: Arquivo pessoal Cátia de França
A professora exerceu sua prática docente em cinquenta anos ininterruptos de atividade no Magistério, desde meados da segunda década do século XX, até os últimos dias da sua vida78, quando ainda estava à frente da “Escola Moura e Silva” na Capital paraibana. Esclarecemos, mais uma vez, que o recorte temporal de atuação profissional da professora Adélia de França – 1926 a 1976 – seguiu a acessibilidade dos documentos advindos da nossa pesquisa bibliográfica e documental, bem como da produção de fontes com as entrevistas que realizamos.
Refletimos sobre a questão da identidade dessa professora, na seguinte perspectiva: apesar de ter nascido no estado vizinho de Pernambuco, sua formação e atuação profissional no exercício do Magistério foram na Paraíba; casou (em 1950) com um paraibano de nome Sebastião Higino Carneiro (que exerceu a profissão de motorista, como funcionário público do Estado), e sua única filha – Catarina Maria de França Carneiro (Cátia de França), aqui também nasceu. Assim, entendemos que seus expressivos referenciais estão diretamente vinculados a esse Estado. A professora desenvolveu suas atividades com afinco, compromisso e dinamismo.
Sobre sua prática docente, ressaltamos segundo os relatos orais de sua filha79, a professora Adélia de França recorria a recursos didáticos para ensinar matemática (jogos de encaixe para formar as figuras geométricas, como hexágono, triângulo, trapézio, entre outros), que auxiliavam no processo ensino-aprendizagem e no estudo da Geometria. Ela investia na aquisição do próprio material didático-pedagógico para facilitar a compreensão dos seus alunos e de suas alunas, que eram atendidos, principalmente, nas aulas de reforço, e em atividades aplicativas assentadas no Método Intuitivo – baseado na relação saber-fazer-
fazendo (o exercício da observação a partir de um modus faciendi) que pudessem dialogar
diretamente com a relação teoria e prática. Assim, entendemos que sua intenção era de dinamizar suas aulas de matemática e fazer-se de todo modo inteligível.
Carvalho (2010, p. 226) afirma que, desde as primeiras décadas do século XX, esse método representava a “peça central na instituicionalização do sistema de educação pública modelar”, pensado e executado, inicialmente, no Estado de São Paulo, com a Reforma de Instrução Pública e que logo foi adotado como modelo educacional em outros estados da federação, como por exemplo, na Parahyba do Norte, bastante utilizado como prática pedagógica do professorado paraibano (MACHADO, 2009; 2011; PINHEIRO, 2002).
Chegou uns encaixes, uns jogos pra ela ensinar geometria. Geometria é um negócio ruim de entrar na cabeça, então ela tinha assim vários formatos de coisas: hexágono, triângulo, tudo ligado à geometria. (Cátia de França, entrevista em 04/07/2010).
79
Catarina Maria de França Carneiro (Cátia de França) – entrevista concedida em 04 de julho de 2010 para composição dessa pesquisa.
Nas aulas de Língua Portuguesa, utilizava-se de práticas de escrita (ditados e atividades dissertativas) para preparar os alunos(as) para concursos e exames admissionais. Esses exames eram realizados para ingresso dos alunos e alunas no Colégio Liceu Paraibano, na Escola Normal, na Academia de Comércio, entre outras (consideradas instituições de relevância no cenário local) e para ingressar nas forças armadas – Exército, Marinha e Aeronáutica, particularmente, para a Academia Militar das Agulhas Negras.
Seguindo ainda os relatos da sua filha, osmétodos de ensino utilizados pela professora resultavam no ingresso dessa clientela nos diversos cursos de atuação profissional. Adidática aplicada por ela “revelava” considerável desempenho dos seus alunos e alunas que, porventura, estivessem pleiteando alguma vaga nessas instituições, muito disputadas na época, pois nem todas as pessoas podiam ingressar nesses estabelecimentos de ensino, já que o acesso à escolarização tinha restrições, e “os grupos escolares, os ginásios, os cursos de científico e Escola Normal públicos eram estabelecimentos de ensino considerados de excelência, cujas vagas eram disputadas por exames de seleção por pessoas oriundas das classes médias e alta” (VEIGA, 2008, p. 502). Para isso, exigiam testes preliminares.
A professora também não fazia distinção, quando solicitada a prestar seus serviços educacionais, pois “era restrito o número de pessoas das classes pobres que tinham acesso e/ou permaneciam nas escolas públicas” (idem).
Somente essa coisa de exame de admissão era muito preparar para a Academia de Comércio, ali nas Trincheiras. Era uma procura generalizada, ela com as portas abertas para todas as camadas sociais. Ser preparado por ela era certeza de que seria admitido em qualquer coisa, era uma vitória certa. Ela ensinava de um jeito as matérias, então, ela tinha isso trazia o ensinamento de uma maneira que não causava conflitos, nem dava trauma na pessoa. Ela tinha uma didática, uma mecânica pra ensinar que fascinava o povo. Era a razão do sucesso dela na época. (Cátia de França, entrevista em 04/07/2010)
Em outro fragmento da entrevista, reflete sobre a postura da professora e gestora escolar Adélia de França, que pode ser considerada “politizada”, pois, quando atendia a uma clientela que não tinha condições de pagar suas aulas, revertia o pagamento em atividades que pudessem contribuir com a manutenção da escola.
Mamãe tinha umas tendências de esquerda, ela ensinava granfino e também abraçava pessoas que não tinha como pagar. Poderia até ajudar ela dentro da escola, porque era uma escola, a casa do meio era a escola, de um lado era uma casa residência pra filhos de fazendeiros do interior. Me lembro que ela recebia de igual para igual. Mamãe ensinava e, quando não podia pagar ela
dava um jeito. Ela revertia em ajuda dentro da escola porque era muita coisa pra fazer, por isso, muitas vezes ficavam agregados pessoas que estudavam a noite, ela não tratava como serviçais, eram secretários dela, tanto homens quanto mulheres. (Cátia de França, entrevista em 04/07/2010)
Esse relato demonstra que a professora Adélia de França, entendia a dinâmica social e econômica do contexto em que estava inserida, no entanto, não se curvava diante daquela realidade que apresentava sua vasta e diversificada clientela, quando se colocava à disposição para atender tanto aos filhos e às filhas dos fazendeiros que vinham do interior (pessoas abastadas, com boas condições econômicas), quanto aos desprovidos de recursos financeiros (os pobres da sociedade paraibana), uma vez que atuava na perspectiva da construção do
saber como conhecimento constituído. Assim, “triunfou, pois o saber é chave que abre todas
as portas. Logo ficou conhecida. Educando rico, pobre e barão” (CÁTIA DE FRANÇA, s/d). Procuramos trazer à tona aspectos da vida de uma pessoa cuja trajetória docente indica traços da personalidade de uma mulher aguerrida e que, provavelmente, andava na contraordem dos padrões normatizadores daquela época e que não se limitava às fronteiras sociais e culturais construídas e estabelecidas para si como mulher, principalmente, como
mulher negra. Indícios desse seu aspecto de insubordinações ao poder instituído apresentam-
se no que parece ter sido uma postura “politizada” de sua prática profissional, dialogando de perto com sua simpatia em relação às ideias consideradas comunistas: “[...] ela tinha tendências esquerdistas. Ela tinha na parede de casa pôster, retratos imensos de D. Helder, Che Guevara. Ela vivia falando de Josuê de Castro80– Geografia da fome” (Cátia de França, entrevista em 04/07/2010).
É por isto que este trabalho também se inscreve na recusa às metanarrativas totalizantes no modo de se pensar, produzir e reproduzir o funcionamento do universo através dos sujeitos e de suas práticas sociais, mas não universais. Assim, podemos refletir que, provavelmente, Adélia de França (mulher, negra e professora, que tomamos como sujeito central da pesquisa) tenha se “alimentado”, de alguma forma, da crítica marxista (mesmo não sendo esta a única possibilidade de interpretação, mas uma das teorias possíveis) para
80
Dom Helder Câmara, bispo católico, perseguido por sua atuação social e política, foi acusado de comunista pelo regime militar na década de 1960. Enersto Che Guevara, um dos personagens central do movimento revolucionário no final da década de 1950, tornou-se guirrilheiro e líder militar da Revolução Cubana deflagada em 1959. Josué de Castro, formado em Medicina em Recife, na década de 1932, atuou como professor de Geografia Humana e de outras cátedras e ganhou notoriedade pela elaboração de inquéritos e relatórios nacionais e internacionais sobre as condições de vida e alimentação das classes populares em vários países da América Latina e nos Estados Unidos. O livro Geografia da fome: o dilema brasileiro: pão ou aço, publicado em 1946, foi um dos seus trabalhos que teve considerável repercusão no âmbito dos estudos das ciências sociais no Brasil.
desenvolver sua atividade como educadora81, o que nos leva a pensar na possibilidade de que a teoria marxista tenha lhe impulsionado a uma postura considerada “politizada”, uma vez que, embora não tenha frequentando efetivamente espaços que congregavam grupos sociais organizados na época, essa postura, muitas vezes, refletia em suas práticas sociais e no cotidiano da sua prática profissional, como veremos mais adiante no decorrer deste estudo.
Paralelamente a sua postura “subversiva”, a professora Adélia de França conseguia, mesmo depois de 1964, não ser incomodada pelos órgãos disciplinadores do Regime Militar82. Essa afirmativa ressoa com veemência nos relatos orais da sua filha, quando ressalta: “[...] cada vez mais eu encontrava a casa efervescente à época 62... 64 foi o golpe [golpe militar] lá em casa sempre fervendo. Ela conseguia driblar as coisas” (Cátia de França, em entrevista em 04/07/2010). Assim, a pesquisa foi direcionada no sentido de constituir as tessituras de uma trama histórica que desse visibilidade às experiências de vida dessa mulher “extraordinária”83.