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No âmbito da Análise de Discurso, essas questões exigem que formulemos e mobilizemos conceitos como “sujeito”, “interdiscurso”, “intradiscurso”, “efeitos de sentido”, “silêncios”, “memória discursiva” e “formação discursiva”. Assim sendo, desenvolvi esta análise tomando como foco de minhas preocupações os discursos dos (as) professores (as) do Ensino Fundamental, utilizando recortes das suas entrevistas. Esses sujeitos são portadores de discursos, em que se articulam os processos ideológicos e os fenômenos linguísticos, posto que “todo discurso é atravessado por uma ideologia, a qual se materializa através dos textos” (BRANDÃO, 2004, p. 12).

5.1 OS SUJEITOS DA PESQUISA E AS CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DOS DISCURSOS

As condições de produção do discurso em que os sujeitos da pesquisa estão envolvidos, em sentido amplo, compreendem o contexto sócio-histórico e o ideológico e, em sentido estrito, os sujeitos (professores) e a situação (contexto). O “contexto imediato” são as escolas pesquisadas, os (as) professores (as), as circunstâncias da enunciação, e o “contexto amplo” é o que traz para a consideração dos efeitos de sentidos elementos que derivam da formação de nossa sociedade, com suas instituições de ensino - entre elas, a escola - o modo como elege seus gestores, “como organiza o poder, distribuindo posições de mando” (ORLANDI, 1999, p. 21), disciplina e “obediência”. Também fazem parte desse contexto “a história, a produção de acontecimentos [...]”.

Inicialmente, interessou-me, nesta análise, caracterizar os sujeitos dos discursos, levando em conta os seguintes aspectos: Formação acadêmica/Instituição formadora/Ano de conclusão; Idade; Etnia; Gênero; Tempo de atuação/Relação de trabalho com a instituição; Área de atuação e a Escola onde atuam. Dentro dessa caracterização, foi possível identificar cinco sujeitos do discurso, que passam a ser identificados pela seguinte legenda: Sujeito discursivo 1, Sujeito discursivo 2 .... (SD1, SD2, SD3, SD4, SD5).

Sujeito discursivo 1 (SD1)

32 anos, parda, feminina. Cursou Ensino Médio (1995), Graduação (1995), Especialização em Educação Ambiental (2003). É prestadora de serviço há oito anos. Atua como professora de História do Ensino Fundamental I, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Durmeval Trigueiros Mendes.

Sujeito discursivo 2 (SD2)

40 anos, parda, sexo feminino, oito anos de docência. Concluiu o Ensino Médio (1990), a Graduação (1995) e a Especialização em Mídia da Educação (em curso). Concursada há 16 anos, atua como professora de História do Ensino Fundamental I, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Rui Carneiro.

Sujeito discursivo 3 (SD3)

30 anos, pardo, sexo masculino. Concluiu: Ensino Médio (1999), Graduação (2003), Especialização em Metodologia do Ensino (2010). Não declarou seu pertencimento racial por considerar que tem vários componentes raciais. É prestador de serviço há oito anos. Atua como professor de História do Ensino Fundamental I, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Durmeval Trigueiro Mendes.

Sujeito discursivo 4 (SD4)

40 anos, parda, sexo feminino, 16 anos atuando na docência. Concluiu: Ensino Médio (1998), Graduação (2003), Especialização em Metodologia do Ensino (2010). É professora de História do Ensino Fundamental I na Escola Municipal de Ensino Fundamental Hugo Moura.

Sujeito discursivo 5 (SD5)

40 anos, branca, sexo feminino. Concluiu: Graduação (1990), Ensino Médio (1985), Especialização em Educação Infantil (2000). Concursada. Trabalha como professora nessa escola há 17 anos. É professora de História do Ensino Fundamental I na Escola Municipal de Ensino Fundamental Durmeval Trigueiros Mendes.

Essa caracterização dos sujeitos do discurso poderá assinalar algumas similitudes e diferenças que possam existir entre os pesquisados. Dessa forma, temos um grupo diversificado de sujeitos em relação à idade, que varia de 30 a 40 anos. O mesmo acontece em relação ao tempo de serviço na educação - três professoras atuam no ensino há mais de 15 anos, são concursadas, isto é, com estabilidade funcional, e dois sujeitos - um professor e uma professora -, com apenas oito anos de sala de aula, mas sem estabilidade, assumem um contrato de serviço que se renova a cada ano letivo. Isso posto, indica que o discurso engendrado pelos (as) professores (as) está marcado por um determinado lugar e espaço, com suas heterogeneidades, em meio ao jogo das relações sociais e das divergências ideológicas, produzindo efeitos de sentido diversos, visto que esses não estão fixados nas palavras, mas, devido a sua inserção na história, derivam de formações discursivas e de relações interdiscursivas.

Quanto à formação acadêmica do grupo, a maioria concluiu a educação básica no final da década de 1980, e a graduação, no início dos anos de 1990, período de contradições, quando havia um discurso em defesa de um paradigma que pautava as políticas educacionais

na “Pedagogia da Qualidade Total”, através do reforço da uniformização dos conteúdos, da avaliação e das competências. Tudo isso em vista da manutenção da ordem vigente, mas também era possível encontrar outro discurso, que defendia que tais políticas estariam direcionadas à descentralização da educação, o que era questionado, uma vez que elas estavam sendo definidas pelos organismos internacionais.

Tal período também foi marcado pela redemocratização do Brasil, quando políticas de resistência e de contra-hegemonia surgiam no meio educacional e na Academia, provocadas pelo pensamento de Paulo Freire, que defendia a concepção de Educação Popular através de experiências alternativas de educação, nos espaços formais e não formais, e de teóricos influenciados por referências marxistas e gramiscianas. Nesse embate, outro discurso estava sendo construído, no sentido de romper com as forças dominantes, já que o país não detinha a autonomia para definir com clareza suas políticas educacionais.

Em relação ao discurso produzido pelas ingerências exteriores à educação e à luz da Análise de Discurso, é possível trazer para a cena a memória como ‘interdiscurso’, compreendido como “aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente” (ORLANDI, 1999, p. 31). Essa memória discursiva é a presença dos órgãos internacionais na descentralização da educação. Como refere Orlandi (1999, p. 31), trata-se do “saber discursivo, que torna possível todo o dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já- dito que está na base do dizível.”

É também na década de 1990 que se instituem os Parâmetros Curriculares Nacionais e o fortalecimento da formação docente, com foco na qualidade total, a partir da política de avaliação dos sistemas educacionais, fomentada pelo Banco Mundial, transferindo a responsabilidade do sucesso da escola aos (às) gestores (às) e aos (às) professores (as). O problema se instalou, porque, embora reconheçamos o avanço no campo do discurso jurídico9, capitaneado externamente pelas conferências internacionais promovidas pela UNESCO10 e, internamente, pelas bandeiras dos novos movimentos sociais, nesse período, não se efetivaram, tais como a resolução que institui diretrizes operacionais para o atendimento educacional especializado na educação básica, modalidade educação especial e a implantação da educação infantil pelos municípios.

Essa discussão remete novamente à memória discursiva, que é o interdiscurso, pois este mostra “as condições nas quais um acontecimento histórico (elemento histórico

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LDB, PNE 10

descontínuo e exterior) é suscetível de vir a inscrever-se na continuidade interna, no espaço potencial de coerência próprio a uma memória” (ORLANDI, 1999, p. 33).

Em relação à área de atuação, todos (as) os (as) entrevistados (as) são da área de História, o que indica, a princípio, que deveriam se apropriar da temática etnicorracial e pautar seus planejamentos e atividades com vistas a atender ao que preconizam os Parâmetros Curriculares Nacionais de História, ao definirem os objetivos gerais a serem alcançados pelos estudantes do 6º ao 9º Ano do Ensino Fundamental.

Assim, os PCNs de História orientam, entre outros objetivos, que os estudantes inseridos nesse segmento sejam capazes de: a) Conhecer e respeitar o modo de vida de diferentes grupos, em diversos tempos e espaços, em suas manifestações culturais, econômicas, políticas e sociais, e reconhecer semelhanças e diferenças entre eles, continuidades e descontinuidades, conflitos e contradições sociais; b) Valorizar o patrimônio sociocultural e respeitar a diversidade social, considerando critérios éticos; c) Valorizar o direito de cidadania dos indivíduos, dos grupos e dos povos, como condição de efetivo fortalecimento da democracia, mantendo-se o respeito às diferenças e a luta contra as desigualdades (BRASIL, 1997, p. 43).

Os elementos aqui expostos sobre a caracterização dos sujeitos pesquisados reafirmam que a materialização das vozes discursivas desses (dessas) professores (as) vão se constituir em discursos permeados de dispersões e de descontinuidades, revelando que o sujeito pode assumir estatutos diferenciados quando fala, pois é marcado pela heterogeneidade, por diversos atravessamentos e entrecruzamentos, o que indica que o discurso não é autônomo. O analista entende que há vários processos possíveis em análise de discurso ou várias maneiras de se praticar essa análise (ORLANDI, 1988).

5.2 CONHECIMENTO DA LEI 10.639/03 E SUA INSERÇÃO NO CONTEXTO