2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE VE ĠLGĠLĠ ARAġTIRMALAR
2.2.4. Deri ÇeĢitleri ve Özellikleri
Além do que foi explicitado na seção anterior, o texto analisado aponta para uma espécie de retribuição, premiação a Portugal numa já observada mistura de messianismo cristão e nacionalismo português. Veja-se, por exemplo, que, no fragmento a seguir, indica-se um futuro de glória e proeminência para os portugueses, que seriam
reconhecidos como “instrumentos prodigiosos” das transformações que levariam ao
reino do Cristo na Terra.
[...] a melhor parte dos venturosos futuros que se esperam, e a mais gloriosa
deles, será não só própria da Nação portuguesa, senão única e singularmente sua. Portugal será o assunto, Portugal o centro, Portugal o teatro, Portugal o
princípio e fim destas maravilhas; e os instrumentos prodigiosos delas os Portugueses (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 8; grifos nossos).
Isso implica um simulacro de contrato entre o destinador divindade e o sujeito Portugal, cuja performance esperada é a promoção do reino universal do Cristo. Esse PN (daí a referência a instrumentos prodigiosos) é o que garantiria ao sujeito uma sanção positiva no futuro. Trata-se de um contrato de messianidade a que se faz
constantemente apelo por meio da referência a diferentes momentos da história de Portugal.
De fato, a história é compreendida no texto como palco de uma triagem em que a divindade toma Portugal como seu instrumento no mundo, uma triagem social transcendente que destaca a nação portuguesa em relação a outros grupos. A triagem futura é, inclusive, homóloga (embora mais ampla) àquela ocorrida no passado das navegações, quando Portugal liderava a expansão ultramarina. O fragmento a seguir expõe o que apontamos, na medida em que, de acordo com o narrador, a história de Portugal no tocante às navegações silenciava as outras histórias:
Portentosas foram antigamente aquelas façanhas, ó Portugueses, com que descobristes novos mares e novas terras, e destes a conhecer o Mundo ao mesmo Mundo. [...] Em nada é segundo e menor este meu descobrimento, senão maior em tudo. Maior cabo, maior esperança, maior império.
Naqueles ditosos tempos (mas menos ditosos que os futuros) nenhuma cousa
se lia no Mundo senão as navegações e conquistas de Portugueses. Esta história era o silêncio de todas as historias. Os inimigos liam nela suas
ruínas, os êmulos suas invejas e só Portugal suas glórias. Tal é a História, Portugueses, que vos presento, e por isso na língua vossa. (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 8 e 9; grifos nossos)
Essa triagem/contrato de eleição implica ser inclusive alvo de profecias (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 13 e 14), por meio das quais Deus antecipa os rumos da nação. Os diferentes excertos a seguir fazem referência, por exemplo, ao chamado “milagre de
Ourique” (vide nota 51), espécie de mito fundador do reino português:
Antes do nascimento de Portugal, apareceu o mesmo Cristo a El-Rei (que ainda o não era) D. Afonso Henriques, e lhe revelou como era servido de o fazei (sic) rei, e a Portugal reino; a vitória que lhe havia de dar em batalha tão duvidosa e as armas de tanta glória com que o queria singularizar entre todos
os reinos do Mundo (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 14; grifos nossos). [...]
No juramento autentico de El-Rei D. Afonso Henriques, em que se conta o miraculoso aparecimento de Cristo, quando por sua própria pessoa quis
fundar o Reino de Portugal [...] (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 38; grifos nossos)
Bem sabe Castela (sinal é que o sabe bem, pois chega a o confessar, e no mesmo ano em que Portugal se havia de levantar, o estamparam assim seus escritos) bem sabe Castela (digo) que Portugal com singularidade única entre
todos os reinos do Mundo foi reino dado, feito e levantado por Deus,
naqueles mesmos campos e naquela mesma província onde todos os anos trabalham e batalham os homens pelo derribar, pelo desfazer e pelo tirar a quem foi dado. Se Deus o deu, como o podem os homens tirar? Se Deus o
fez, como o podem os homens desfazer? Se Deus o levantou, como o podem os homens derribar? (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 46; grifos nossos)
Naquela noite em que Cristo por sua própria Pessoa fundou o Reino de
Portugal, aparecendo e falando ao seu primeiro rei, disse: “Eu sou o
descendentes fundar um império para mim, pelo qual o meu nome seja levado às nações estrangeiras” (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 47; grifos nossos) Nos fragmentos citados, podemos observar a explicitação de um simulacro de contrato entre a instância divina e Portugal, contrato que implica, como dissemos, uma triagem operada pela própria instância divina, que singulariza Portugal ao fundá-lo, destacá-lo entre os reinos do mundo e transformá-lo em seu instrumento na Terra (“e quero em ti e em teus descendentes um império para mim, pelo qual o meu nome seja levado às nações estrangeiras”). Essa triagem que dá origem ao contrato implica, assim, da parte do sujeito Portugal agir pelo dever fazer: promover o nome de Deus junto a estrangeiros, num encontro entre o discurso messiânico e o discurso colonialista.
Ao mesmo tempo, esse destinador é responsável pela própria continuidade de Portugal, pela sua proteção e elevação em relação a inimigos. Isso fica mais evidente na série de perguntas retóricas que o narrador dirige à Espanha (“Se Deus o deu, como o podem os homens tirar? Se Deus o fez, como o podem os homens desfazer? Se Deus o levantou, como o podem os homens derribar?”), que expressam confiança nos valores do destinador.
Em outros trechos, a resistência de Portugal contra a Espanha é relacionada à ação divina, o que acusa novamente o simulacro de contrato que explicitamos:
Espanha, voltando os olhos ao passado, pela experiência, que Deus é o que
desuniu de sua sujeição a Portugal, e Deus o que o sustenta desunido e o conserva vitorioso (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 30; grifos nossos)
Não é nem pode ser nossa intenção diminuir as forças de Espanha, nem escurecer a grandeza de sua potência, tão conhecida do Mundo todo e tão temida e reverenciada de seus inimigos e invejada de seus êmulos. Mas é força que ela e nós confessemos que são maiores os poderes de Deus, e que,
assistida deles, a desigualdade de Portugal pode resistir e prevalecer contra Espanha, como lhe tem resistido e prevalecido em tantos anos. (VIEIRA,
s.d., vol. I, p. 45; grifos nossos)