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2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE VE ĠLGĠLĠ ARAġTIRMALAR

2.2.5. Ayakkabı Üretiminde Deri

Como se vê, o contrato entre Portugal e Deus se mistura, no texto de Vieira, a um nacionalismo português. São inclusive os valores ligados a esse contato o que leva, no texto, à sanção da Espanha, que tentava dominar Portugal. Vejam-se os excertos a seguir:

Lerão aqui nossos vizinhos e confinantes (que muito a pesar meu sou forçado alguma vez a lhes chamar inimigos, havendo tantas razões, ainda da mesma natureza, para o não serem) lerão aqui com boa conjectura as promessas e decretos divinos, provada a verdade dos futuros com a experiência dos passados: e verão, se quiserem abrir os olhos, um manifesto desengano de sua

profecia, conhecendo que na guerra que continuam contra Portugal, pelejam contra as disposições do supremo poder e combatem contra a firmeza de sua palavra. (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 29; grifos nossos)

[...] se, com os olhos limpos de toda a paixão e afeto, quisesse [Espanha] ler esta História do Futuro, e com tanto zelo e desejo de acertar com os

caminhos de seu maior bem [...] (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 30; grifos nossos)

Veja e saiba Castela o que Deus tem prometido a Portugal, e logo advertirá a

vaidade do que suas esperanças lhe prometem. (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 37;

grifos nossos).

Considere Castela contra quem peleja, e conhecerá quão impossível é a empresa a que aspira; acabe de entender que não peleja contra Portugal,

senão contra a firmeza da palavra e promessas divinas. (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 44; grifos nossos)

Observamos, nesses fragmentos, uma sanção cognitiva negativa contra a Espanha, julgada por um fazer próprio do antissujeito, já que contra os valores do destinador divino. No que diz respeito a suas investidas contra Portugal, seus “vizinhos e confinantes [...] combatem contra a firmeza de sua palavra [a de Deus]”, “pelejam

contra a firmeza da palavra e promessas divinas”. Essa sanção contra a Espanha, do

ponto de vista das modalidades veridictórias, que entram em jogo quando há um fazer interpretativo (nas etapas da manipulação e da sanção), ganha contornos de desvelamento de uma ilusão, estado que conjuga parecer e não ser. No nível do parecer, a Espanha, por seu poderio e conquistas, é uma nação eleita por Deus, mas no nível do ser essa eleição não ocorre, já que isso é atributo de Portugal. A eleição da Espanha é reconhecida, finalmente, nessa sanção cognitiva como sendo uma falsidade, que conjuga não parecer e não ser.

A falsidade da crença da Espanha se revela, nos trechos citados, pelos

segmentos: “um manifesto desengano de sua profecia” e “a vaidade do que suas esperanças lhe prometem”. A referência a “profecias” e “esperanças” sugere que a

Espanha, do mesmo modo que Portugal, atribui para si uma messianidade na Terra, o que a etapa da sanção, conforme vimos, expõe como falsidade.

Em outro trecho do texto, isso é reforçado por uma refutação explícita do narrador a uma interpretação de profecia por um bispo espanhol, interpretação segundo

a qual, em texto do profeta Zacarias, a figura de fortíssimos cavalos que desbravam o mundo faria referência às conquistas da Espanha:

Mas [...] diz que aqueles robustíssimos [cavalos] de que fala o Anjo são os Espanhóis, verdadeiramente valentíssimos, audacíssimos e fortíssimos, pois conquistaram estas regiões novas e incógnitas [América e as Índias] [...] Contudo, porque esta glória que Sanchez dá aos Espanhóis toca pela maior e melhor parte aos Portugueses, pelas vitórias do Oriente a que o mesmo Cornélio chama ad miraculum usque illustres, por não deixar perder a nossa, nação um título tão honrado como serem chamados por boca de um anjo os mais fortes de todos os Romanos, digo que os Portugueses e todos os Espanhóis se podem e devem entender debaixo do nome de Romanos, no sentido desta profecia, porque Espanha e Portugal foram colônias dos Romanos, e parte não só do Império, senão do povo romano, e verdadeiros cidadãos romanos.[...]

Estes [os cavalos fortíssimos da profecia] foram os Espanhóis, e entre os Espanhóis muito particularmente os Portugueses; porque a conquista dos mares e terras do Oriente, pela distancia remotíssima das terras, pela dificuldade de navegações, pela diferença dos climas, pelo valor e potência das nações que se conquistaram, foi empresa de muito maior valor, resolução e esforço que a dos Castelhanos. Assim que, considerando todo o corpo do Império Romano e todas suas empresas, os fortes dos Romanos foram os Cipiões, os Pompeus, os Césares, os Augustos; os fortíssimos foram os Espanhóis, e entre esses Espanhóis os fortíssimos dos fortíssimos foram os Portugueses. (VIEIRA, s.d., vol. II, p. 15-17)

A sanção contra a Espanha toma-a como antissujeito, responsável por um contraprograma, isto é, por um programa narrativo contrário aos valores do destinador divino. Seu fazer é avaliado negativamente pelo destinador-julgador-delegado (o narrador, enquanto porta-voz da instância divina), que o considera falso em relação aos valores que representa. Ao mesmo tempo, a sanção da Espanha converte-se em manipulação, que busca levar a um dever fazer: “acertar com os caminhos”, como diz o narrador em fragmento apresentado anteriormente.

Trata-se de uma tentativa de dissuadir a Espanha de lutar contra Portugal, aceitando, com base em valores do catolicismo, mas também com base em valores do nacionalismo português (ligado à crença numa eleição), a messianidade dessa nação. Isso é o que explicita o narrador no seguinte fragmento, que remete a um fatalismo:

Reparem os famosos capitães de Castela e considerem seus prudentíssimos e experimentados conselheiros, apartando os olhos por um pouco de Portugal, se acham seus exércitos com forças e poder bastante para conquistar Europa, para sujeitar todas as quatro partes do Mundo e ainda para escalar, como filhos do Sol, o Céu, e tirar dele a Júpiter pois saibam que mais fácil será conquistar Europa, o Mundo e o mesmo Céu empíreo, do que vencer e sujeitar Portugal, defendido e armado como está com as promessas divinas: [...]

Porque puderam romper os Portugueses os claustros impenetráveis do Oceano, e conquistaram nas outras três partes do Mundo, sendo um Reino tão

pequeno, tantas, tão novas e tão poderosas nações, senão porque estava

escrito?. (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 45; grifos nossos)

Essa manipulação culmina num longo trecho de apelo ao rei da Espanha, apelo no qual se reafirma a falsidade da interpretação que leva a Espanha a lutar contra Portugal (“as interpretações podem ser da lisonja”) e se propõe o fim das ações hostis daquela para com este. Reproduzimos, a seguir, parte desse pedido ao rei da Espanha:

Ó poderosíssimo monarca Filipe IV, o Grande! Dai licença para que tenham entrada a vossos ouvidos os ecos destas últimas cláusulas, não de meu discurso, senão de meu desejo. [...] Ouvi, Senhor, a voz de um estrangeiro, desinteressado vassalo que foi já vosso por sujeição, e hoje é também vosso (posto que não vassalo) por afeto.

[...] Merecestes na vida o título de Grande; maior sereis no fim dela se ao de Grande acrescentardes o de Justo. Não se pode pagar a Deus o que é de Deus, sem dar a César o que é de César. E seria grande desgraça perder o Reino eterno por um temporal já perdido.

Não duvido, Senhor, que tereis conselheiros de grandes letras, que segurem e justifiquem as causas e tão dilatada e cruel guerra; mas [...] os textos são da justiça, as interpretações podem ser da lisonja. Com um texto santo mal interpretado quis o Demônio despenhar a Cristo, e depois deste texto e desta interpretação, lhe ofereceu o reino que lhe não podia dar.

[...] O tratado de uma boa e justa paz podia ser uma bula de composição geral, com que se levassem purgados todos estes encargos [...].

[...] firmai o título de rei com o de católico, pois sempre prezastes mais o de católico que o rei; seja parte do sacrifício a repartição das vestiduras e leve embora a túnica aquele a quem coube em sorte; e faça-se tudo diante de vossos olhos antes que os fecheis. Se vos parece amargoso este trago, gostai o fel e não o passeis da boca. Com esta obra tão consumada, podeis entregar a alma segura nas mãos do Padre, que é rei e Senhor, o que só importa. Com uma inclinação da cabeça podeis deixar pacificado o Mundo. Deixai a paz por herança a vossa esposa. Esta será a maior prenda do vosso amor, este o troféu maior de vossas vitórias (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 50; grifos nossos).

São, assim, os valores implicados no simulacro de contrato entre o sujeito Portugal e o destinador divino que levam o narrador a sancionar negativamente a Espanha e tentar modificar seu percurso narrativo. Ela é reconhecida como antissujeito, cuja atuação vai contra os interesses do destinador divino, que, no texto em questão, elege Portugal como seu representante na Terra e o mantém firme contra os inimigos.