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2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE VE ĠLGĠLĠ ARAġTIRMALAR

2.8. BURSA ĠLĠNDE AYAKKABI SEKTÖRÜ

O conflito entre as preferências pela mistura e pela triagem desemboca em uma oposição entre os dois regimes de sentido da semiótica tensiva: acontecimento e rotina. A social-democracia nasce, como se sabe, de um busca de continuada universalização dos bens sociais gerados no sistema capitalista, o que pressupõe, em termos de operações da sintaxe extensiva, reiteradas misturas, processos ligados à atonia e à difusão, que pressupõem o andamento lento e a lógica implicativa da ordem da rotina. A proposta de redenção observada nas Teses vai em sentido contrário, manifestando a preferência pela triagem, que se volta para o impacto e a concentração, dialogando com a ordem do acontecimento.

Isso está no cerne da crítica de Benjamin à social-democracia, que estabelecia uma duração indefinida na consecução da plenitude. Isso fica mais evidente numa tese

que não consta na versão que utilizamos aqui, mas que integra uma versão do texto descoberta mais recentemente. Vamos recorrer a essa tese, considerando que, de acordo com Löwy (2005, p. 38), há indícios de que Benjamin pretendia incluí-la na versão final do documento.

Na tese XVIIa, nega-se o modo de concretização da plenitude na ordem da rotina, o que se vê explicitamente na seguinte crítica: “uma vez definida a sociedade sem classes como uma tarefa infinita [ideal a ser perseguido], o tempo homogêneo e vazio transformava-se, por assim dizer, em uma antessala, em que se podia esperar com

mais ou menos serenidade a chegada da situação revolucionária” (BENJAMIN apud

LÖWY, 2005, p. 134). Diferentemente disso, a proposta das Teses é a de uma intervenção que interrompe o curso da história, de modo geral como nos demais textos analisados (algo embutido nas ideias de Dia do Senhor; o Império do Cristo na Terra; a ressurreição/volta do Encoberto).

Por isso, o tempo valorizado é o breve: no passado, as rupturas pontuais que os oprimidos infligiram ao contínuo da opressão; no futuro, a ruptura do tempo histórico pela revolução/redenção. Essa revolução está sempre relacionada ao aspecto pontual, expresso em diferentes momentos pela figura da explosão – “[Robespierre] ele fez

explodir do continuum da história” (BENJAMIN, 1987, p. 229-230); “fazer saltar pelos ares o continuum da história” (BENJAMIN, 1987, p. 231) – ou do salto – “o mesmo

salto, sob o livre céu da história, é o salto dialético da Revolução” (BENJAMIN, 1987, p. 230).

O discurso messiânico das Teses, portanto, rejeita o modo de realização da plenitude ligado à ideologia do progresso, ligada a uma lógica implicativa, a um andamento lento e a uma duração longa. Rejeita, em suma, a utopia, como o estabelecimento da plenitude na ordem da rotina, como algo a ser gradualmente conquistado pela humanidade. O seu modo de realização deve dar-se, pelo contrário, sob a forma de uma ruptura da história, ou seja, na lógica concessiva do acontecimento.

3.5. Sistematização dos dados das análises individuais

A análise da dimensão narrativa do corpus nos revela traços importantes que parecem configurar o discurso messiânico. Todos os textos analisados se esteiam sobre um simulacro de contrato, que dá sentido ao percurso do sujeito e em nome do qual o

outro é sancionado negativamente. Além disso, os textos expressam operações de triagem: a que distingue o grupo em relação ao outro (a ideia de eleição) e a esperada eliminação definitiva do outro (ou sua assimilação ao grupo).

O simulacro de contrato emerge nos textos, notadamente, graças a uma sanção negativa. Com efeito, essa sanção explícita reafirma os valores de um contrato com um destinador transcendente, ao mesmo tempo em que revela aqueles que lhes são opostos. Isso se dá na medida em que ocorre o reconhecimento de um contraprograma por um antissujeito, ligado aos valores de um antidestinador.

Em Isaías, o antissujeito é figurativizado como classe infiel, que se desvia do pacto de santidade com o destinador divino; na História do futuro, do Padre Vieira, tendo em vista o duplo messianismo do texto, trata-se, de um lado, do turco/islã, quando relacionado aos valores cristãos, e da Espanha, quando ligado aos valores do nacionalismo português; em Mensagem, de Fernando Pessoa, o antissujeito é um outro (os Colombos) que, não participando do contrato com a instância divina, é reconhecido como falso, sanção cognitiva figurativizada pela auréola formada por uma luz emprestada; enfim, nas Teses, de Walter Benjamin, são os políticos da social- democracia e o historicista, cujos programas não se voltam para a necessária revolução/redenção, atendendo antes aos interesses do antidestinador: a classe dominante.

A manipulação também ocorre, mas na forma de reafirmação dos valores do destinador e do contrato. Ela direciona o sujeito para dois tipos de programas narrativos, que podemos ligar aqui a duas formas de messianismo.

O primeiro caso é o do PN que podemos compreender como cognitivo: crer, sendo a redenção uma sanção pragmática que decorre do reconhecimento desse engajamento pelo sujeito, sujeito esse modalizado/manipulado por um dever num messianismo de espera. Esse tipo tem lugar no texto de Isaías, no de Pessoa e, em parte, no de Vieira.

O segundo caso, mais complexo, envolve um PN que torne real a ordem messiânica num messianismo pragmático. O simulacro de contrato dá sentido ao percurso do sujeito, que assume um querer como dever (missão) em relação a um confronto com o antissujeito. Na História de Vieira, caberia aos príncipes católicos eliminar o turco/islamismo para estabelecer o reino universal do Cristo na Terra. Em Benjamin, a reparação dos vencidos de gerações do passado estaria a cargo da classe oprimida do presente.

Quanto aos elementos da abordagem tensiva, observamos operações de triagem. Uma ocorre pela noção de eleição (contrato com um destinador divino, transcendente), que distingue, separa um nós de um eles/outros. A outra se dá pelo que se toma como redenção: uma triagem que elimina definitivamente o outro, seja pela exclusão, seja pela assimilação, produzindo uma unicidade, um grupo puro.

Em Isaías, a redenção messiânica implica a eliminação dos infiéis no interior de um grupo tido como corrompido. Uma ordem mundial renovada se fundaria, então, a partir do grupo remanescente (a santa semente), que promoveria uma assimilação dos estrangeiros numa conversão global à religião dos hebreus. Em Viera, algo similar ocorre, na medida em que o Império do Cristo na Terra se liga a uma eliminação dos turcos/do Islamismo e uma posterior assimilação dos demais povos, numa conversão universal à fé católica. Em Pessoa, a redenção é uma triagem da mistura, que devolve ao grupo sua proeminência no cenário mundial, distinguindo, novamente, um nós/Portugal de um outros. Já em Benjamin, a redenção/revolução é uma triagem que elimina igualmente o outro: a classe dominante.

Em todos esses casos, vê-se que o futuro de plenitude está voltado para valores de um nós que se opõe aos de um eles/outros. Há, assim, uma condição idealizada que se opõe à utopia, representada por Zilberberg (2011a, p. 69) como realização que implica uma soma de impacto e de difusão. A plenitude messiânica está voltada, graças às operações de triagem, para valores do exclusivo, valores marcados pelo impacto, quanto à tonicidade, e pela concentração, quanto à distribuição.

Considerando a mencionada representação de Zilberberg para a utopia e as nossas considerações a respeito da plenitude messiânica, podemos representar a oposição entre essas metas, respectivamente dos discursos utópico-progressistas e do discurso messiânico, da seguinte forma:

Esquema 12

Plenitude messiânica versus utopia

Em relação às considerações anteriores, constatamos que o modo de concretização da plenitude também distingue, como foi observado especialmente nas Teses, a utopia-progressista e o messianismo. Na primeira, ela deve dar-se de forma implicativa e lenta na ordem da rotina, ao passo que, no segundo, ela deve ocorrer na forma mítica e concessiva do acontecimento, num andamento rápido e num tempo breve.

Esses dois regimes de sentido, como vimos no Capítulo 2, são ligados por Zilberberg (2007b) a dois grandes direcionamentos discursivos: 1) o da história, ligado à rotina pelo uso da lógica implicativa, que confere duração aos processos históricos compreendidos como uma sucessão concatenada de fatos77; 2) e o do mito, orientado por uma lógica concessiva, que abrevia o processo e transmite o acontecimento.

Se considerarmos as propostas debatidas nas Teses como duas formas de narrar o futuro, em oposição ao mito e à história, voltados ambos para o passado, podemos tomar essas duas perspectivas, a retrospecção e a prospecção, e propor uma descrição que desdobre as duas orientações discursivas indicadas por Zilberberg (2007b)78.

77

Para Zilberberg (2007b, p. 16), o fato pode ser compreendido como resultado do “enfraquecimento das valências paroxísticas de andamento e de tonicidade”, que constituem marcas do acontecimento. Se, quanto à intensidade, o fato é menos intenso que o acontecimento, quanto à extensidade, ele se revela numeroso, sendo a sua carga tímica dividida, enquanto o acontecimento caracteriza-se pela sua raridade e pela carga tímica concentrada.

78

Lembramos que Zilberberg explica que o regime do acontecimento compreende um sentido construído retrospectivamente, ao passo que o regime da rotina implica um sentido produzido prospectivamente. Nós

área da utopia área da plenitude messiânica impactante concentrado difuso tênue

Assim, num mesmo eixo, que denominaremos eixo do logos, podemos ligar a história e a utopia-progressista, reservando para o que chamaremos de eixo do mythos o mito e o messianismo, o que resultaria no seguinte quadro:

Quadro 11

Orientações discursivas do Mythos e do logos Perspectivas

Eixos Mythos Logos

Retrospecção Mito História

Prospecção Messianismo Utopia-progressista

Perspectivas

Regimes de

sentido Acontecimento Rotina Fonte: Elaboração própria

Isso ajuda a demonstrar que, além do que foi explicado no Capítulo 1 sobre a forma mítica de compreender a história, o discurso messiânico apresenta um caráter mítico pelo valor que atribui ao acontecimento, compreendido como o modo de concretização de uma plenitude esperada.

Trata-se, no entanto, como vimos, de um acontecimento desejado (e mesmo aguardado) em benefício de um dado grupo. Por isso, cabe ressaltar que, se o discurso messiânico se volta para uma aparente busca de igualdade e justiça social (notadamente em Isaías e Benjamin), no mais das vezes ele está ligado a uma ampla rejeição do outro, rejeição atribuída à instância redentora. Ele se funda sobre um projeto social que envolve uma forte triagem, como vimos, e uma sanção do outro, ambas baseadas num ideal de pureza e unidade em torno dos valores do nós, valores do exclusivo.

Contemporaneamente, a mobilização de elementos como esses pode servir para dar azo ou sustentação a projetos de sociedade baseados na intolerância e no fundamentalismo, conceitos que emergiram mais recentemente e que estão ligados a uma problematização das noções de pureza e dos seus riscos. Lembramos aqui a pesquisa de Barros (2015, p. 70), para a qual “a intolerância e o preconceito decorrem de operações de triagem e buscam os valores do absoluto, ou seja, de unicidade e pureza”. Elementos do discurso messiânico podem, a nosso ver, combinar-se com os de discursos intolerantes, numa sacralização de ações intolerantes e de seu projeto de sociedade.

nos apoiamos aqui, porém, especificamente sobre a oposição relativa às orientações discursivas, a do mito e a da história, duas maneiras de reconstruir o passado, isto é, duas formas de retrospecção. Por essa razão acrescentamos aí duas orientações concernentes ao futuro (a prospecção).

CAPÍTULO 4: ESTRUTURAS DISCURSIVAS E A RETÓRICA DO DISCURSO