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2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE VE ĠLGĠLĠ ARAġTIRMALAR

2.1. BURSA ĠLĠ HAKKINDA GENEL BĠLGĠLER

O contrato iluminado pela sanção aplicada pelo profeta pode ser relacionado às operações da sintaxe extensiva: a triagem e a mistura, de que falamos brevemente no Capítulo 1. Essas operações têm a ver com a tensão concentrado versus difuso (ZILBERBERG, 2007a, p. 23), processando retiradas (triagem) e acréscimos (mistura) em relação ao número de que trata o eixo da extensidade. Além disso, como objeto, elas podem ser consideradas concessivas ou implicativas, respectivamente se tidas como chocantes, paradoxais ou em conformidade com a doxa (ZILBERBERG, 2007a, p. 23- 24). Por isso, as duas operações desdobram-se em quatro possibilidades:

Quadro 10

Operações da sintaxe extensiva

Junção

Operação

Concessão Implicação

Triagem Evicção Purificação

Mistura Intrusão União

Fonte: Zilberberg (2007a, p. 24; tradução nossa)

A noção de eleição por uma divindade expõe a ideia de uma triagem social, em que o grupo busca a pureza num fechamento em si mesmo. As práticas determinadas pelo pacto de santidade, que determinam o fazer do sujeito, correspondem, assim, de acordo com as possibilidades apontadas no quadro 10, a uma triagem implicativa, isto é, conforme a doxa, visando à purificação. A sanção, no entanto, acusa uma mistura tida como concessiva, na medida em que se dá a intrusão de comportamentos sociais e políticos tidos como inadequados, de práticas religiosas estrangeiras e assim por diante.

Essa mistura concessiva é explorada, por exemplo, em metáforas e analogias que, apontando para o desvio moral e religioso, indicam um acréscimo de elementos negativos. Nos fragmentos abaixo, esses elementos são determinantes para o fim da pureza inicial, sendo ainda, não raro, excessivos: múltiplas doenças; múltiplos parceiros

sexuais (“fez-se prostituta”); resíduos de elementos sem valor (“A tua prata tornou-se

em escória”); a água que contamina o vinho; as uvas bravas em uma vinha cultivada,

cuidada:

5 [...]Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco.

6 Desde a planta do pé até a cabeça não há nele coisa sã; há só feridas, contusões e chagas vivas [...]

21 Como se fez prostituta a cidade fiel! ela que estava cheia de retidão! A justiça habitava nela, mas agora homicidas [...].

22 A tua prata tornou-se em escória, o teu vinho se misturou com água. (ISAÍAS 1: 5, 6 e 21) [...]

1 Ora, seja-me permitido cantar para o meu bem amado uma canção de amor a respeito da sua vinha. O meu amado possuía uma vinha num outeiro fertilíssimo.

2 E, revolvendo-a com enxada e limpando-a das pedras, plantou-a de excelentes vides, e edificou no meio dela uma torre, e também construiu nela um lagar; e esperava que desse uvas, mas deu uvas bravas. (ISAÍAS, 5: 1 e 2)

Se a sanção cognitiva acusa a mistura concessiva, a sanção pragmática configura-se como uma forma de triagem da mistura, processo capaz de devolver pureza ao grupo. Isso fica claro no já analisado relato de chamamento do profeta, quando este é orientado a pregar até que venha o castigo que resultaria na “semente santa”, no toco que restaria do abate prometido, na metáfora vegetal. Nesse sentido, a espera messiânica configura a expectativa dessa triagem pela eliminação do acréscimo indesejado, o que resultaria numa volta a uma condição tida como pura (“o renovo”, “o resto”), como se vê em73:

25 Voltarei contra ti a minha mão, e purificarei como com potassa a tua escória; e tirar-te-ei toda impureza;

26 e te restituirei os teus juízes, como eram dantes, e os teus conselheiros, como no princípio, então serás chamada cidade de justiça, cidade fiel. 27 Sião será resgatada pela justiça, e os seus convertidos, pela retidão. 28 Mas os transgressores e os pecadores serão juntamente destruídos; e os que deixarem o Senhor serão consumidos (ISAÍAS, 1:25-28) [...]

2 Naquele dia o renovo do Senhor será cheio de beleza e de glória, e o fruto da terra excelente e formoso para os que escaparem de Israel. (ISAÍAS , 4: 2) [...]

73

De forma mais reduzida, a condição negativa que resulta na sanção se apresenta, em Isaías, como fruto de uma triagem concessiva (a evicção), pela retirada de elementos ligados ao estado de pureza, como é o caso, no excerto destacado, dos juízes e conselheiros de antes, dos quais o grupo fica privado. Daí a ideia de restituição, o que implicaria uma mistura da triagem. De modo geral, porém, prevalece a mistura como origem do estado negativo, na medida em que os elementos retirados são substituídos por outros tidos como negativos, resultando na contaminação do grupo.

20 E acontecerá naquele dia que o resto de Israel, e os que tiverem escapado da casa de Jacó, nunca mais se estribarão sobre aquele que os feriu; antes se estribarão lealmente sobre o Senhor, o Santo de Israel.

21 Um resto voltará; sim, o resto de Jacó voltará para o Deus forte. 22 Porque ainda que o teu povo, ó Israel, seja como a areia do mar, só um resto dele voltará. Uma destruição está determinada, trasbordando de justiça (ISAÍAS , 10:20-22)

A essa triagem no interior do grupo, que exclui os incluídos, soma-se outra que leva ao estado tido como de plenitude no messianismo, com pretensão de universalidade. Essa universalidade, como fica claro na descrição da abordagem tensiva, é contrária à direção do processo de triagem, que se volta para o exclusivo, para o absoluto, na medida em que compreende um alto impacto e uma concentração.

Em Isaías, a esperança messiânica, como já foi dito no Capítulo 2, aponta para uma aguardada condição paradisíaca global, obtida por meio de uma triagem religiosa, que leva à eliminação de indivíduos descumpridores do contrato no interior do grupo, mas também por uma assimilação do estrangeiro, numa espécie de purificação global pela voluntária conversão de todos à fé dos hebreus, como se vê a seguir:

1 A visão que teve Isaías, filho de Amoz, a respeito de Judá e de Jerusalém. 2 Acontecerá nos últimos dias que se firmará o monte da casa do Senhor, será estabelecido como o mais alto dos montes e se elevará por cima dos outeiros; e concorrerão a ele todas as nações.

3 Irão muitos povos, e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos nas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e de Jerusalém a palavra do Senhor. 4 E ele julgará entre as nações, e repreenderá a muitos povos; e estes converterão as suas espadas em relhas de arado, e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra (ISAÍAS, 2:1-4).

Isso nos remete à reflexão de Landowski (2002, p. 10), para quem a

“assimilação e exclusão não passam, em definitivo, das duas faces de uma única e

mesma resposta à demanda de reconhecimento do dessemelhante: 'Tal como se apresenta, você não tem lugar entre nós'”. (p. 10). Barros (2015, p. 62), explorando a reflexão de Landowski, explica que os discursos de assimilação baseiam-se numa crença na superioridade de nosso modo de ser, de nossa visão de mundo, tendo por objetivo, por isso, fazer do outro um nós. É isso o que observamos no fragmento anterior, uma previsão de assimilação do outro, do estrangeiro, o que significa, em última análise, uma triagem cuja recursividade iria ao extremo, gerando um único grupo, uma única fé, um único modo de ser. Como veremos nas demais análises deste

capítulo e ainda em algumas considerações do capítulo 4, essa é uma das marcas do discurso messiânico.

3.2 História do futuro: contrato e valores do nacionalismo cristão de