2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE VE ĠLGĠLĠ ARAġTIRMALAR
2.4. AYAKKABI YAPIMINDA KULLANILAN ARAÇ-GEREÇLER
O PN de manipulação é também observado em relação a Portugal, a quem cabe, em função do contrato com o destinador divindade, dois tipos de fazer: um que podemos considerar cognitivo, que é o crer, e outro que pode ser entendido como
propriamente pragmático, que é tornar real o reino. No primeiro caso, o messianismo se dá como espera, ao passo que no segundo ele se volta para uma intervenção na realidade.
Essa manipulação evoca o simulacro de contrato de que falamos: aquele entre Portugal e o destinador divino. Por meio dela, os portugueses, de modo geral, são lembrados do contrato e orientados a crer no futuro de proeminência de Portugal sob o reino universal do Cristo na Terra. Esse é o caso do trecho a seguir, que relaciona a eleição divina da história dos hebreus à dos portugueses:
Já Deus, Portugueses, nos livrou do cativeiro, já por mercê de Deus triunfamos de Faraó e do poder de seus exércitos; já os vimos, não uma, mas muitas vezes, afogados no Mar Vermelho de seu próprio sangue. Imos caminhando pelo deserto para a Terra da Promissão, e pode ser que estejamos já muito perto dela, e do último cumprimento das prometidas felicidades. Se há algum tão invejoso dos bens da Pátria e tão inimigo de si mesmo, que queira retardar o curso de tão próspera e feliz jornada e acabar infelizmente, ainda antes de ver o fim desejado dela, negue a Deus o que é de Deus e
atribua à liberdade as vitórias e o cumprimento das primeiras promessas que
temos visto, ou a Moisés ou ao ídolo. (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 15; grifos nossos)
Esse fragmento sucede a descrição da trajetória dos hebreus em direção à terra prometida. Diz a narrativa que eles foram libertados do Egito, viram o milagre do Mar Vermelho, mas, mesmo assim, a caminho da terra prometida, atribuíram a Moisés e a um ídolo a sua libertação, chegando ainda a cogitar um retorno ao Egito ao conhecerem o local prometido. No trecho reproduzido, cria-se uma analogia entre a trajetória dos hebreus e a dos portugueses, a quem, de acordo com a narrativa, destina-se igualmente uma promessa divina.
Como dissemos anteriormente, o simulacro de contrato entre os sujeitos indicados implica que a história seja o palco da manifestação da eleição divina. Daí a referência à intervenção divina na história em proveito de Portugal: o triunfo sobre
“Faraó” e “seus exércitos”, na analogia com a trajetória dos hebreus. É preciso, assim,
diferentemente dos hebreus, não negar o destinador, o que envolve crer na sua intervenção na história e no contrato com os Portugueses, como explica posteriormente o narrador:
Os que pela experiência do que têm visto crêem o que está prometido, vê-lo- ão, porque são dignos de o verem; os que não crêem, ou não querem crer, a sua mesma incredulidade será a sua sentenc: (sic) (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 16; grifos nossos)
Quem quiser saber (segundo o estilo ordinário da justiça e providência divina) se há-de chegar a ver as felicidades que debaixo de sua palavra aqui lhe prometemos, examine o seu coração e consulte a sua fé; do nosso próprio coração nos conta Deus a sentença e de nossas próprias palavras a forma: (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 17; grifos nossos)
Há, pois, uma manipulação pelo dever: aqui um engajamento cognitivo pela fé no cumprimento do que se promete, incidindo a sanção, nesse caso, sobre o fazer do sujeito. Essa manipulação específica está ligada, como se pode notar, a um contrato tido como já existente entre o destinador (Deus) e esse sujeito (os portugueses), contrato segundo o qual este age como representante divino na Terra, ao passo que aquele o protege, o mantém, como já foi explicado.
Algo similar se dá com o outro tipo de performance exigida: tornar real o prometido reino do Cristo na Terra. Aqui, porém, os valores em jogo parecem ser ora exclusivamente cristãos/católicos, ora relacionados ao nacionalismo (cristão) português74. Observa-se, assim, uma manipulação que busca levar os governantes católicos à realização de uma performance que pode ser compreendida como uma guerra santa. Veja-se o fragmento a seguir:
Finalmente (e é a terceira e não menor utilidade desta História), lendo os
príncipes da Cristandade, e mais particularmente aqueles que foram ou estão
já escolhidas (sic) por Deus para instrumentos gloriosos de tão singulares maravilhas e maravilhosas felicidades, lendo, digo, no discurso da História do Futuro, as vitórias, os triunfos, as conquistas, os reinos, as coroas e o
domínio e sujeição de nações tantas e tão dilatadas, que lhes estão
prometidas, na fé e confiança das mesmas promessas se atreverão
animosamente a empreendê-las [...].as promessas e as disposições divinas,
antecedentemente conhecidas na previsão do futuro, tudo facilitam e a tudo animam (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 21 e 22; grifos nossos).
Assim, a implementação do reino do Cristo na Terra deve decorrer da performance dos “príncipes católicos”, que, conhecendo as promessas divinas (sobre a unificação política e religiosa do mundo sob o Quinto Império), “se atreverão animosamente a empreendê-las”. Se a manipulação anterior, a dos portugueses de modo geral, se dá por intimidação, que busca levar a um dever fazer em virtude de uma possível sanção negativa, aqui ela ocorre por sedução, buscando levar a um querer fazer. Isso pode ser observado na referência aos “príncipes da Cristandade” como
74
Essa manipulação, que apela, de um lado, a valores de um messianismo cristão português e, de outro, a valores do cristianismo de modo geral, revela uma tensão na construção do texto em exame, que deve legitimar-se como exegese legítima junto à Igreja e aos cristãos de modo geral, ao mesmo tempo em que defende ideias ligadas à crença na eleição de Portugal. Retomaremos essa questão quando nos dedicarmos ao nível discursivo e à dimensão argumentativa do discurso messiânico de Vieira.
“aqueles que foram ou estão já escolhidas (sic) por Deus para instrumentos gloriosos de tão singulares maravilhas e maravilhosas felicidades”. Essa sedução visa a fazer o sujeito, em realidade, assumir um querer como dever, ou seja, assumir uma missão.
Faz parte da manipulação ainda uma espécie de doação mágica por meio do relato do futuro. Aqui a revelação do sentido das profecias, o saber ser, configura valores modais que se convertem em poder fazer. Nos fragmentos que seguem, isso ocorre, respectivamente, pela referência bíblica a uma batalha vencida pelos Israelitas contra Filisteus e a conquistas de Alexandre, o Grande. Em ambos os casos, o saber ser ligado ao futuro é também poder fazer, isto é, as disposições necessárias para a performance, como se pode ver a seguir:
Neste estado de horror e miséria sai de noite o príncipe Jónatas, filho de el-rei Saul, trata de consultar a Deus por um modo de oráculo ou sorte [...] e na fé e
confiança desta profecia, tendo por sem dúvida que havia de vencer, avança animosamente às tendas dos Filisteus, começa ele e o companheiro a matar
nos inimigos, toca-se arma, cresce a confusão, perturbam-se os arraiais, trava-se uma brava peleja dos mesmos Filisteus uns contra os outros, cuidando que eram os soldados de Saul. Fogem, atropelam-se, matam-se. Saem das covas os Israelitas, seguem os Filisteus fugitivos, e voltam carregados de despojos. Conhecem-se enfim com imortal glória de Jónatas os autores de tão estupenda façanha, bastando só dois homens armados da
confiança de uma profecia, para porem em fugida o mais poderoso exército e
alcançarem a mais desigual e prodigiosa vitória. (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 22; grifos nossos)
[...] o que mais admira nas conquistas e vitórias de Alexandre, é a desigualdade do poder e o limitado aparato de guerra com que entrou em tão imensa empresa [...].
Mas como Alexandre, antes de obrar todas estas maravilhas, com que mereceu o nome e se fez verdadeiramente magno, se tivesse visto a si mesmo melhor retratado nas profecias de Daniel, do que depois se viu nas estátuas de Lisipo nem nas pinturas de Apeles, não é muito que, animado e soprado do
espírito das mesmas profecias e cheio da majestade delas, se atrevesse a tão
árduas e dificultosas empresas, das quais justamente se duvida (como pôs em questão Justino) se foi maior façanha o intentá-las, ou vencê-las. (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 25; grifos nossos)
Os exemplos ligados a Portugal – “exemplos domésticos”, como diz o narrador – também enfatizam esse saber ser que é poder fazer. Nos excertos que seguem o saber ser é, respectivamente, 1) a profecia sobre a fundação de Portugal por Afonso
Henriques, que o leva a vencer os “mouros” em batalha e ainda a proclamar-se rei de
Portugal (o já citado Milagre de Ourique); 2) a profecia que teria previsto (e promovido) o sucesso da navegação portuguesa e a expansão dos domínios do impérios:
[...] socorrido o animoso capitão e fortalecido o pequeno exército com esta
promessa do Céu, sem reparar em que era tão desigual o partido, que para cada lança cristã havia no campo cem mouros, resolveu intrepidamente dar a
batalha.
Na manhã, pois, da mesma noite em que tinha recebido a profecia, acomete de fronte a fronte ao inimigo, sustenta quatro vezes o peso imenso de todo seu poder, rompe os esquadrões, desbarata o exército, mata, cativa, rende, despoja, triunfa; e alcançada na mesma hora a vitória, e libertada a Pátria, pisa glorioso as cinco coroas mauritanas e põe na cabeça, já rei, a portuguesa. [...]
Mas não obraram todas estas proezas aqueles portugueses famosos por benefício só de seu valor, senão pela confiança e seguro de suas profecias. Sabiam que tinha Cristo prometido a seu primeiro rei que os escolhera para argonautas apostólicos de seu Evangelho e para levarem seu nome e fundarem seu império entre gentes remotas e não conhecidas; e esta fé os animava nos trabalhos; esta confiança os sustentava nos perigos; esta luz do futuro era o norte que os guiava; e esta esperança a âncora e amarra firme, que nas mais desfeitas tempestades os tinha seguros (VIERA, s.d., vol. I, p. 25-26; grifos nossos).
No primeiro caso, a doação mágica do poder fazer é justamente o objeto modal saber ser, figurativizado como profecia (“tinha recebido a profecia”; “promessa do Céu”). Essa doação habilita o sujeito para uma performance que envolve uma disputa desigual com o antissujeito (“tão desigual o partido”; “para cada lança cristã havia no campo cem mouros”; “acomete de fronte a fronte ao inimigo, sustenta quatro vezes o peso imenso de todo seu poder, rompe os esquadrões, desbarata o exército”). O trecho em questão faz referência à Batalha de Ourique, o que mostra uma manipulação que leva em conta valores do imaginário português. No outro caso, o das conquistas da navegação portuguesa, a performance se dá graças às disposições do espírito (“animava”; “sustentava nos perigos”; “guiava”; “tinha seguros” ) propiciadas pelas profecias (“não obraram todas estas proezas [...] senão pela confiança e seguro de suas profecias”).
Trata-se de uma competência do sujeito, razão pela qual em vários momentos esse saber ser que é poder fazer ganha uma figurativização ligada à isotopia da guerra sob a forma de escudo, como se vê nos excertos a seguir:
Ao conhecimento antecedente dos futuros chamou discretamente S. Gregório
escudo fortíssimo da presciência [...].
Armados com este escudo [o conhecimento sobre o advento do Quinto
Império], que trabalhos, que perigos nos pode oferecer o mar, a terra e o Mundo, e que golpes nos pode atirar com todas as forças de seu poder, que não sustentemos nele com animosa constância? Quem haverá que debaixo deste escudo não empreenda as mais dificultosas conquistas, nem aceite as mais arriscadas batalhas, e não vença e triunfe dos mais poderosos inimigos, se as empresas no mesmo escudo vão já resolutas, as batalhas vão já vencidas e os inimigos já triunfados?
[...] e este mesmo escudo, não fabuloso, senão verdadeiro, e não fingidos depois de experimentados os sucessos, senão escritos antes de sucederem, é propriamente, e sem ficção, o que nesta História do Futuro ofereço, Portugueses, ao nosso rei (VIEIRA, s.d., vol. I, p. 28 e 29; grifos nossos).
Em suma: o simulacro de contrato, explicitado ao longo das linhas anteriores, não apenas leva à sanção da Espanha, tida como antissujeito na sua pressão sobre Portugal, mas também implica uma manipulação do povo português. Em uma mistura de valores do nacionalismo cristão português e valores do cristianismo/catolicismo, observamos uma manipulação que conduz a dois tipos de performance: 1) uma cognitiva, que implica um engajamento no reino do Cristo na Terra por meio do crer; 2) uma pragmática, que implica, para os governantes cristãos, tornar real esse reino.
Os valores que movem esse contrato, em suma, estão orientados para uma ação por parte daqueles que se tomam como representantes divinos na Terra, ação tida como voltada para um bem universal: paz e unidade globais. Isso, porém, como já foi explicado, implica uma eliminação de outros grupos, na triagem que o estado de redenção messiânica parece implicar.