III. TÜRKİYE’DEKİ KURUMSAL DÖNÜŞÜM ÖRNEKLERİNİN ANALİZİ
III. 1. Devlet Mekanizmasına (Merkezi İdare) İlişkin Değişim ve Dönüşümler
III.1.4. Kamu Mali Sistemindeki Yeniden Yapılanma Çalışmaları
III.1.4.2. Denetim Sistemine İlişkin Değişim ve Dönüşüm
As irmandades de negros, no geral, foram relativamente bem aceitas pela população local quando comparadas com outros cultos religiosos da população afro- brasileira. Do seu período de surgimento até começos do século XIX, desempenhavam um papel assistencialista, de lazer e religiosidade. Na região do Seridó, elas foram controvertidas: se por um lado ameaçavam o discurso da invizibilidade do negro no Seridó, por outro, foram utilizadas como prova de uma sociedade racialmente igualitária, já que era permitido aos negros expressar sua religiosidade nas ruas da cidade, contando ainda com o apoio da Igreja Católica.
Dos anos 194097 para cá, através da presença dos folcloristas, a irmandade
começa a ser apropriada de um ponto de vista “simbólico”. Ou seja, a “valorização” por parte da elite da festa passou a se dar através do aumento das ocasiões de apresentações dos negros do Rosário. Na verdade, os folcloristas dos anos 1930 não foram os responsáveis diretos por esse processo, eles apenas inauguram a perspectiva de perceber a cultura popular como passível de ser descontextualizada. Através de trabalhos que classificavam essas manifestações culturais, os folcloristas transformaram os negros do Rosário em folclore. Abriu-se, então, um novo espaço de visibilidade para o grupo associado à ideia de tradição. Espaço que será a porta de entrada para a tendência de “espetacularizar” a irmandade. Hoje, percebemos que esse processo se intensifica através do uso de termos como patrimônio, e, também, outros conceitos remanescentes, tais como folclore e tradição.
A principal crítica feita à postura de descontextualização da irmandade, gerada pela disseminação dos espaços de performance do grupo, acontece através de redes de relações de poder assimétricas. Ou seja, geralmente os negros do Rosário não podem escolher os espaços de apresentação e nem estão em posição de rejeitar os convites feitos, aceitando, então, muitas das formatações impostas pelos limites de cada contexto de apresentação. E mesmo quando nos deslocamos para o campo religioso, apesar de a festa ser marcada por formas devocionais apresentadas através da música e da dança, as representações que a Igreja faz dessas performances não lhes confere uma legitimidade
97A primeira notícia que tenho sobre o “contato” de algum folclorista com a irmandade é Câmara Cascudo no ano de 1943.
143 religiosa. Por outro lado, quando os intelectuais analisam a dança como devoção, eles se limitam a buscar explicações em pensadores de renome nacional como Roger Bastide, restringindo a religiosidade do grupo a uma forma de resistência/permanência cultural primitiva e deixando as representações do grupo de lado. Ou seja, no cenário religioso, os negros do Rosário não possuem autoridade nem autonomia para que suas formas de devoção sejam aceitas pela Igreja e, portanto, representadas por eles mesmos.
Contudo, quis demonstrar que apesar desse processo obstruir o acesso dos negros do Rosário à representação − naqueles dois sentidos proposto por Spivak,
apresentados no começo deste trabalho −, eles ainda formulam suas próprias narrativas
sobre a irmandade. No âmbito da construção histórica da irmandade, eles a veem como algo que veio da escravidão e que marca a conquista da liberdade. Mostrei que, separadas, essas vozes se assemelham a um silêncio, mas quando dispostas juntas, figuram um rico imaginário e exercício de construção da história. Porém, as falas mais
frequentes do grupo se voltam para os “tempos antigos” da irmandade, mais do que para
sua origem. Essas narrativas tratam principalmente da experiência de construção da irmandade, mais do que as festas em si, apresentando aquele tempo sobre um viés positivo.
As características dos discursos mostram, primeiramente, que essas narrativas estão centradas mais na maneira como a festa é construída do que na sua realização. Em segundo lugar, o passado é sempre valorizado em detrimento do presente. Sugeri, assim, que os discursos podem ser vistos como uma crítica do presente, do funcionamento da irmandade, e da posição que os negros nela ocupam. A crítica esboçada pelos negros do Rosário através da memória rediscute, também, a própria noção de tradição, uma vez que o que está sendo criticado aqui não é a mudança em si, mas a maneira como esta mudança acontece; isto é, através de um processo unilateral e assimétrico. Assim, o
apelo à preservação da tradição não é uma injunção à permanência da “cultura” em um
estado atávico, e sim um desejo do grupo de poder decidir e tomar frente do seu destino. Por fim, busquei na experiência da festa do Rosário na comunidade da Boa Vista um exemplo de como a autonomia dos negros do Rosário poderia acontecer, sem que isso implicasse no fim da participação da população local na festa.
Essa reflexão não é um apelo saudosista nem uma proposta de retorno ao passado. Como argumenta José Jorge de Carvalho (2010), é inevitável, hoje, a influência da indústria do entretenimento e da política na cultura popular. A solução está
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através de uma constante descontextualização dessas práticas – as quais, apesar de ricas
esteticamente, respeitam um calendário religioso preciso. Assim, para o autor, estabelecer limites para esta influência, é, também, discutir um campo do que não pode ser negociado (Carvalho, 2010, p. 59-60).
O problema maior da “valorização” da irmandade é que esta acontece através de
uma relação desigual entre seus membros e as autoridades públicas (políticos, párocos, intelectuais etc.). Os negros estão quase sempre sujeitos às elites: criticar a falta de autonomia do grupo na própria irmandade é também um apelo ao estabelecimento de limites, diálogos e negociações.
Esse processo, todavia, não é vivido de maneira apática, são elaboradas estratégias visando minimizar a “espetacularização” e a “profanação” de suas apresentações. Vimos que o reinado é visto como a parte mais sagrada da irmandade e que não pode ser “folclorizado” como ocorre com a dança do espontão. Entretanto, ainda assim, a corte se apresenta em algumas ocasiões especiais. Nesses casos, a estratégia adotada pelo grupo é a de substituir as pessoas que compõem os cargos rituais
nos dias de festa por outras que irão ocupá-los apenas de modo “representativo”.
Várias formas de negociação têm sido implementadas nos contextos das irmandades negras com vista a legislar e controlar esse processo. Por exemplo, a comunidade de Arturos de Contagem, em Minas Gerais, famosa pela congada, adotou a prática de treinar dois grupos, um para as apresentações religiosas, e outro grupo mais
jovem apenas para as apresentações “folclóricas” (mostradas fora do calendário
religioso), colocando limites aos elementos passíveis de serem expostos ou não ao público (Carvalho, 2010, p. 63).
Em outro exemplo, Patrícia Brandão Couto, mostra como em Bom Despacho, através de uma decisão unilateral, o padre autorizou as mulheres a dançarem na congada, o que foi motivo de diversas reações, contra e a favor. Contudo, essa imposição tornou possível que elas, em 1998, formassem um terno apenas de mulheres (Couto, 2003, p. 52). Nesse caso citado, as mulheres negociaram seu espaço fazendo proveito da própria decisão arbitrária do padre.
Os exemplos poderiam se desdobrar em outros, mas o que deve ser assinalado é que apesar dos negros do Rosário do Brasil encontrarem-se muitas vezes numa posição subalterna em relação às suas manifestações culturais, eles negociam as imposições e
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demandas de um público cada vez maior − mesmo que muitas vezes estejam em posição
de desvantagem e sem autonomia para negociar essas mudanças.
Assim, não se trata de condenar ou celebrar a relação entre os grupos de cultura popular e as autoridades públicas, mas sim de vislumbrar estratégias para construir tal relação de forma mais igualitária e menos hierárquica. Creio que os negros do Rosário têm encontrado, em alguns casos, saídas interessantes, como vimos acima a respeito do reinado. Resta a nós, intelectuais, produzir trabalhos críticos sobre essas relações, e aos grupos encontrarem nas frestas do poder espaços e estratégias para lidar com esse
processo. Como diria Seu Amaral, “nego veio” é um sofrer.
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