1.4. Firma Değerlemesi
1.4.4. Değerleme Hakkındaki Önyargılar
O panorama da crítica de Chrétien de Troyes ao longo do tempo, empreendido por Per Nykrog, não termina nos anos 1970. Num último tópico, significativamente intitulado ―contrapeso‖ (contrepoids), o dinamarquês traz à cena os historiadores da chamada ―nova história‖, cuja importância para os estudos sobre Chrétien, a partir da década de 1980, teria sido capital:
Faisant contrepoids, de l‘extérieur, aux diverses tendances ―libérées‖ dans le grand cirque des lectures post-modernes de Chrétien, un groupe extrêmement important d‘historiens a transformé, depuis une quinzaine d‘années, l‘image que les ―littéraires‖ aussi sont obligés de se faire du contexte social du romancier et de son travail.105
nossas categorias mentais, nossa sensibilidade, nossas convicções, elas nos induzirão a erro a seu respeito. Somente um trabalho longo e paciente, somente uma desconfiança a cada instante em relação a nós mesmos podem nos permitir, pouco a pouco, compreendê-la e retificar nossos erros. Tudo isso é verdadeiro, e, aliás, banal. Mas não podemos nos contentar com isso. É mesmo preciso partir do que nos diz essa literatura, mesmo
se o que ela nos diz é falso no que concerne à hipotética realidade da Idade Média tal qual nós podemos reconstituí-la. Se nos contentarmos com sua falsa aparência, nós a condenaremos e nos condenaremos à pobreza.
Mas, se recusarmos o erro delicioso ao qual ela nos induz, que desejo teremos dela? Que nos importará o que saberemos dela? E como descobriremos o porquê desse erro se nos contentarmos em recusá-lo desdenhosamente sem nos interessarmos por ele? Como pretender, na leitura de um texto, ignorar nossa própria sensibilidade e
dispensar nosso gozo sem enganarmos a nós mesmos ainda mais?
Talvez o historiador possa se contentar com um puro conhecimento. Não estou certo disso. Mas nós, cujo objeto
existe apenas na medida em que nos fala, estamos condenados a esse vaivém sem fim, a essas correções incessantes, a essa comparação permanente entre o que nós sentimos e compreendemos dos textos e a lenta e incerta descoberta do que eles davam talvez, em seu tempo, a sentir e a compreender. Estamos condenados...
Doce condenação! Esse exercício, que é do modo mais essencial, o nosso, nosso campo e nosso tesouro, não nos renderá nunca a descoberta de uma verdade definitiva. Mas ele nos dá, a cada instante, esse prazer próprio das letras, esse prazer estético e intelectual sem ser puramente nem um nem outro, esse prazer laborioso que nos
modela e nos enriquece, enquanto a obra toma forma e sentido sob nosso olhar‖. (grifos meus)
105 NYKROG, P. Chrétien de Troyes: romancier discutable. Genève: Droz, 1996. p. 34: ―Fazendo contrapeso, de
fora, às diversas tendências ‗libertadas‘ no grande circo das leituras pós-modernas de Chrétien, um grupo
extremamente importante de historiadores transformou, há cerca de quinze anos, a imagem que os ‗literatos‘ também são obrigados a fazer do contexto social do romancista e de seu trabalho‖. (grifos meus)
A partir da leitura dessa citação, tem-se a impressão de que as forças de Clio, musa da História, desembarcaram sobre o território dos estudos medievalísticos, dominado pelas forças do Caos, com o objetivo de libertá-lo. Vencida a guerra, os heróis civilizadores, sob o comando de Georges Duby e Jacques Le Goff, teriam instaurado a ordem, sem a qual não se poderia mais sobreviver nesse território, como se depreende do seguinte trecho:
Georges Duby et Jacques Le Goff dominent de haut cette nouvelle école, par leurs propres travaux et par l‘inspiration qu‘ils ont donné à de nombreux et savants élèves. Pour la réflexion sur Chrétien de Troyes en particulier, le
savoir nouvellement acquis sur l‘histoire et l‗évolution de la chevalerie est d‘une importance capitale (voir surtout Flori 1986), comme l‘est aussi l‘élucidation concise des structures familiales (constitution des lignées, mariages) et féodales (y compris les rituels).106
Ora, salvo se o estudioso de narrativas ficcionais se insere numa linha de pesquisa privilegiando as relações entre literatura e sociedade e, dentro dela, pertence a um subgrupo que acredita numa relação de determinação na qual o poético se subordina ao real, os elementos mencionados por Nykrog não são fundamentais para o estudo da poesia. Para o pesquisador interessado em práticas escriturais, processos de ―criação‖ e outros fenômenos relativos ao fazer poético, o estudo da evolução da cavalaria e das estruturas familiares e feudais torna-se absolutamente dispensável.
Afinando-se com os comentários de Nykrog, Michel Zink acredita que estética literária, história e etnologia constituem o tripé que sustenta uma boa pesquisa sobre as letras na Idade Média, sendo desastrosa a falta de atenção do pesquisador a um desses três elementos. Ele também destaca a importância de Georges Duby e Jacques Le Goff, cujos seminários foram frequentados por inúmeros alunos, historiadores ou não, hoje medievalistas renomados.107 O interesse dos estudiosos de literatura pelo discurso da História viria de um desejo de alargar seus horizontes inserindo suas pesquisas no quadro mais amplo da história
106 NYKROG, P. Chrétien de Troyes: romancier discutable. Genève: Droz, 1996. p. 34: ―Georges Duby e
Jacques Le Goff dominam do alto essa nova escola, por seus próprios trabalhos e pela inspiração que deram a numerosos e sábios alunos. Para a reflexão sobre Chrétien de Troyes em particular, o saber recentemente
adquirido sobre a história e a evolução da cavalaria é de uma importância capital (ver sobretudo Flori 1986), como o é também a elucidação concisa das estruturas familiares (constituição das linhagens, casamentos) e feudais (inclusive os rituais)‖. (grifos meus) O autor se referiu a FLORI, J. L‘essor de la chevalerie, XIe-
XIIesiècles. Genève: Droz, 1986.
107 ZINK, M. Trente ans avec la littérature médiévale. Note brève sur de longues années. Cahiers de civilisation médiévale, Poitiers, n. 39, p. 30, 1996.
cultural. Esses profissionais talvez fossem movidos por um desencanto com o que Trachsler considera ―os excessos‖108 dos anos 1970.
Bem, o panorama exposto a partir dos textos de Nykrog, Zink e Trachsler mostra o ponto de vista europeu, notadamente francês. Interessante observar como o fato de estudar Chrétien de Troyes no Brasil promove um deslocamento que altera essa perspectiva.
Em nosso país, apesar de medievalistas se destacarem em diferentes áreas, a predominância dos historiadores é inconteste. Mesmo dentre os estudiosos de ―literatura medieval‖ — nosso interesse mais imediato —, muitos dialogam intimamente com historiadores dedicados à história social e à história da cultura.
Mas os profissionais franceses dedicados à história da Idade Média possuem maior repercussão internacional que os especialistas na poesia do mesmo período. Portanto, o deslocamento a que me referi não diz respeito a esse predomínio da História. A mudança de perspectiva se dá por outro motivo: no Brasil, em razão do caráter relativamente recente dos estudos sobre o medievo, os pesquisadores da poesia medieval não viveram a euforia europeia pelas novas ideias dos anos 1970 mencionadas por Trachsler. Portanto, reflexões e questionamentos sobre, por exemplo, a morte do autor, a autonomia do campo literário e as noções de escritura e de reescritura por parte do ―receptor‖ não preocupam, de modo geral, os estudiosos brasileiros da poesia da época de Chrétien.
Assim, se, na França, o recurso à História serviu para abrir um novo horizonte para o pensamento e para compensar supostos excessos imanentistas, no Brasil o império da História no campo dos estudos medievais não vem como contrapeso de uma realidade anterior. Não há realidade anterior. A medievalística brasileira já nasce sob o signo da História. Quanto aos não historiadores, relacionavam-se estreitamente com a disciplina de Le Goff e Duby ou concentravam-se no estudo da filologia. De um modo ou de outro, não consideravam as tendências das décadas de 1960 e 1970 na Europa, às quais os historiadores franceses teriam vindo impor limites.
Enfim, no campo brasileiro das pesquisas sobre a Idade Média, os historiadores representam a ordem, o já dado, o estabelecido. Diferentemente do caso europeu, no qual se apresentaram como uma nova opção, apresentam-se aqui quase como caminho único, o que se torna sem dúvida empobrecedor.
108 TRACHSLER, R. Un siècle de lettreüre. Observations sur les études de littérature française du Moyen Âge
entre 1900 et 2000. Cahiers de civilisation médiévale, Poitiers, n. 48, p. 372, 2005. Trachsler admite, no entanto, a importância das novas ideias no combate a um positivismo ainda detectável nos anos 1960.
Não se trata aqui de atacar os historiadores. O alargamento das abordagens por parte da chamada ―nova história‖ possibilitou um enriquecimento indiscutível das ciências humanas. A diversificação dos objetos dignos de interesse para o historiador também fazem parte desse processo. Assim, hoje, um historiador pode se debruçar sobre um texto poético para, inteligentemente e cercando-se dos devidos cuidados, enriquecer seu estudo sobre, por exemplo, os valores, anseios, frustrações e a mentalidade da sociedade que o produziu. Ele não precisa mais se limitar aos documentos oficiais tradicionais. Evidentemente, o texto poético tem sua especificidade e o historiador precisa saber lê-lo, interrogá-lo, evitando associações diretas e relações deterministas com o real. Ou seja, o historiador pode utilizar o texto literário como uma fonte entre outras para seus estudos de uma sociedade. Não se trata de negar isso a ele. Trata-se, sim, de reivindicar o direito de, como estudiosos de poesia, não o fazermos. Assim, numa perspectiva ―literária‖, o texto poético é o alvo e não o meio para se atingir um fim.
Portanto, na França, a visão dos historiadores veio acrescentar algo ao quadro já existente e não se trata aqui de negar esses contributos. Mas, valendo-nos da mesma lógica, não podemos ignorar o fato de que as reflexões sobre a linguagem e sobre a literatura elaboradas nas décadas de 1960 e 1970 devem ser consideradas pelo pesquisador brasileiro da poesia medieval, pois, no seu contexto dominado pelos historiadores ou por posturas historicizantes, elas certamente ainda têm algo a dizer.