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Dans Eden Robot

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2. HAFTA: ROBOTLAR İLE HAREKET

2.1. Dans Eden Robot

O modelo biomédico é o resultado da influência do paradigma cartesiano sobre o pensamento médico e constitui ainda o alicerce conceitual da moderna medicina científica. Nesse modelo o corpo humano é considerado uma máquina que pode ser analisada em termos de peças (órgãos) onde a doença é vista como um mau funcionamento de um desses mecanismos biológicos. Em situações de mau funcionamento o papel dos médicos é intervir física ou quimicamente para que o defeito seja reparado. Tal olhar se estendeu aos demais profissionais de saúde, entre eles o fisioterapeuta (CAPRA, 2012).

Este modelo reflete o referencial técnico-instrumental das biociências e exclui o contexto psicossocial dos significados, dos quais uma compreensão adequada dos pacientes e sua condição clínica depende. De acordo com Vieira (1998), o modelo biomédico, associado ao paradigma positivista e ao modelo cartesiano predomina em todas as áreas da saúde desde o fim do século XIX.

Ao apresentar um caráter reducionista e fragmentador, o modelo biomédico tem como propósito a cura das doenças e a recuperação da saúde, isto é atua quando a doença já está instalada, o que nos remete a prática do profissional fisioterapeuta que se volta para a reabilitação daqueles já acometidos de lesão.

Quando voltamos nosso olhar para partes cada vez menores do corpo humano, perdemos de vista o paciente como ser humano e todo o processo de inter-relação social, cultural, psicossocial e até espiritual que permeia qualquer doença. Assim o sujeito-paciente se reduz a um mero portador de doença. Assim sendo, o foco, o ataque à doença, aumenta- se a distância entre aquele que trata e o que é tratado, não ocorrendo espaço para o desenvolvimento de vínculo entre o profissional da saúde e o sujeito-paciente. E ainda, o não estabelecimento de vínculo entre a doença e o doente na maioria das vezes não leva em conta o sofrimento do paciente, reforçando as intervenções tecnicistas. Aqui o foco do tratamento é a doença tornando cada vez maior a distância entre o profissional da saúde e o sujeito paciente (AUGUSTO et al., 2008).

Capra (2012) afirma que a maior mudança na história da medicina ocidental se deu com a revolução cartesiana, pois, antes de Descartes as práticas em saúde atentavam para a interação de corpo e alma e consideravam o contexto do meio ambiente social e espiritual de seus pacientes. A filosofia de Descartes alterou tal visão ao dividir rigorosamente corpo e mente, resultando em práticas concentradas no funcionamento da máquina corporal, negligenciando os aspectos psicológicos, sociais e ambientais da doença.

O avanço da moderna medicina científica teve início no século XIX com os grandes progressos feitos pela biologia. No início do século, a estrutura do corpo humano em suas particularidades era quase completamente conhecida. Além da compreensão dos processos fisiológicos do organismo, o que só sustentava a fidelidade reducionista de biólogos e médicos ao dirigirem seus olhares a partes cada vez menores, aquelas constituintes das peças ou engrenagens da máquina. Tal tendência de abordagem desenvolveu-se em duas direções: a biologia celular como base da ciência médica (Rudolf Virchow); e o estudo intensivo de micro-organismos (Louis Pasteur) que ocupou os pesquisadores biomédicos.

Ao longo da história da medicina, ocorreram debates acerca da possibilidade de uma doença específica ser causada por um único fator ou ser o resultado de uma constelação de fatores agindo simultaneamente. Tais pontos de vista foram enfatizados no século XIX por Pasteur e Bernard, respectivamente. Bernard concentrou-se em fatores ambientais externos e internos ao indivíduo e definiu doença como o resultado de um desequilíbrio interno envolvendo em geral a concorrência de uma variedade de fatores. Já Pasteur esforçou-se na descoberta do papel das bactérias no surgimento das doenças, associando tipos específicos de doenças a micróbios também específicos. A teoria microbiana de Pasteur venceu o debate e recebeu prontamente a adesão dos médicos. A razão mais importante de tal vitória foi o fato de que a doutrina da causação específica de doença se ajustava à estrutura da biologia. Nessa concepção, “(...) a ideia de que uma doença ser causada por um único fator estava em perfeita concordância com a concepção cartesiana dos organismos vivos como sendo máquina cujo desarranjo pode ser imputado ao mau funcionamento de um único mecanismo” (CAPRA, 2012, p.124).

Durante o século XIX os progressos em biologia foram acompanhados pelo avanço da tecnologia médica e gradualmente a atenção dos médicos era transferida do paciente para a doença. A tendência reducionista persistiu na ciência biomédica também no século XX.

A medicina do século XX caracteriza-se pela progressão da biologia até o nível molecular e pela compreensão de vários fenômenos biológicos nesse nível. Tal progresso firmou-se então como forma de pensamento, se impôs às ciências humanas e consequentemente, configurou-se como base científica da medicina.

O detalhado conhecimento das funções biológicas em níveis celulares e moleculares levou ao desenvolvimento da Farmacoterapia.

Apesar do considerável aumento nos gastos com saúde nas ultimas três décadas, e em meio aos pronunciamentos dos médicos acerca do valor da ciência e da tecnologia, a saúde da população não parece ter apresentado uma melhora significativa (CAPRA, 2012, p.129).

De acordo com Capra (2012), uma concepção mais abrangente de medicina e saúde envolveria a saúde do individuo e a saúde da sociedade, tendo que incluir as doenças mentais e também as patologias sociais. Pois, assim se mostraria que embora a medicina tenha contribuído para a descoberta e eliminação de algumas doenças, isso não restabeleceu necessariamente a saúde. O autor nos remete a concepção holística de doença, na qual a enfermidade física representa apenas uma das diversas manifestações de um desequilíbrio do organismo e ainda:

Outras manifestações podem assumir a forma de patologias psicológicas e sociais; e quando os sintomas de uma enfermidade física são efetivamente suprimidos por intervenção médica, uma doença pode muito bem expressar-se de algum outro modo (CAPRA, 2012, p.130).

Para Capra (2012), a ciência biomédica tem realizado grande progresso ao descobrir mecanismos biológicos associando-os a doenças especificas e ao desenvolvimento de tecnologia que serão utilizadas para dizimar tais doenças. Porém, como os mecanismos biológicos não se configuram na tua totalidade como as únicas e exclusivas causas das doenças, compreendê-los não perfaz necessariamente promover ou proporcionar saúde. Capra (2012, p.132) lembra que alguns críticos falam que a medicina fez poucos progressos nos últimos vinte anos, pois se referem a cura e não somente a conhecimento cientifico. Porém essas duas vertentes de progresso não são, segundo o autor, incompatíveis e ressalta “a pesquisa biomédica continuará sendo uma parte importante da futura assistência à saúde, ainda que integrada numa abordagem mais ampla, holística”.

Segundo o autor o modelo biomédico está firmemente assente no pensamento cartesiano. Descartes introduziu a rigorosa separação de mente e corpo, a par da ideia de que o corpo é uma máquina que pode ser completamente entendida em termos da organização e do funcionamento de suas peças. Uma pessoa saudável seria como um relógio bem construído e em perfeitas condições mecânicas; uma pessoa doente um relógio cujas peças não estão funcionando apropriadamente. As principais características do modelo biomédico, assim como muitos aspectos da prática médica atual (aqui incluo a Fisioterapia) podem ter sua causa primeira nessa metáfora cartesiana.

Segundo Capra (2012) obedecendo à abordagem cartesiana, a ciência médica limitou-se à tentativa de compreender os mecanismos biológicos envolvidos numa lesão em

alguma das várias partes do corpo. Concentram-se olhares aos mecanismos do ponto de vista celular e molecular, deixando de fora toda e qualquer influência de circunstâncias não biológicas sobre os processos biológicos. Assim, em meio à enorme rede de fenômenos que influenciam a saúde, a abordagem biomédica estuda apenas alguns aspectos fisiológicos. Tal prática reducionista e limitante causa mais sofrimento e doença do que cura, segundo alguns críticos e para Capra (2012, p.135), “isso não mudará enquanto a ciência médica não relacionar seu estudo dos aspectos biológicos da doença com as condições físicas e psicológicas gerais do organismo humano e o seu meio ambiente”.

Com base nesse espírito reducionista, os problemas em saúde são analisados passando-se ao estudo de fragmentos cada vez menores, seja de órgãos, tecidos, células e depois para fragmentos dessas células e finalmente para moléculas isoladas. Esse espírito reducionista com frequência deixa de lado o fenômeno original, aquele causador da doença. Assim a história da ciência médica mostrou rapidamente que a redução da vida a fenômenos moleculares não é suficiente para a compreensão da condição humana. E ainda, “um tão limitado ponto de vista desconsidera os sutis aspectos psicológicos e espirituais da doença (...)” (CAPRA, 2012, p.140)

A abordagem cartesiana influenciou a prática em saúde em vários e importantes aspectos. Um deles é a divisão da profissão em dois campos distintos a saber: os médicos tratam o corpo, enquanto psiquiatras e psicólogos, da mente. Esses dois campos raramente se comunicam. Outro aspecto é a existência de dois corpos distintos de literatura na pesquisa em saúde. Na literatura psicológica, os estados emocionais e sua importância para a doença é exaustivamente debatida. Já as produções literárias médicas se fundamentam quase que exclusivamente na fisiologia.

Compreender o paciente como sujeito adoecido implica considerá-lo em todos os seus aspectos, não somente biológicos e psíquicos, mas também enquanto porta-voz de um conjunto de representações sociais, culturais e agente de um processo de interação (CAVALCANTE, 2012).

Cavalcante (2012), afirma que a centralidade da doença no paradigma da medicina ocidental contemporânea e a crescente intermediação tecnológica da prática médica atual, têm em muito contribuído para o distanciamento e a alienação do médico em relação à situação de adoecimento do sujeito. E ainda complementa a autora que “muitas das dificuldades da atenção àquele que sofre estão baseadas em práticas que, ao privilegiarem os aspectos técnicos da doença, abandonam a dimensão subjetiva do adoecer” (p.78). Capra (2012, p.137) defende que “o estado psicológico de uma pessoa não só é importante na geração da doença, mas também crucial para o processo de cura”.

Evitar as questões filosóficas e existenciais próprias do sujeito que adoece, é outra consequência da divisão cartesiana. Ou seja, o que é pertencente ao “domínio espiritual e consequentemente encontra-se fora da esfera da medicina pressupõe juízo moral e a medicina enquanto ciência objetiva não deve preocupar-se com tais questões” (CAPRA, 2012, p.140). Assim também é a morte por ser também considerada uma questão filosófica e existencial e além do mais dentro do âmbito mecanicista e tecnológico das ciências em saúde, a morte não pode ser qualificada, pois segundo o autor, a morte significa nessa concepção uma paralisação total da máquina (corpo).

Na medicina contemporânea as consequências da divisão cartesiana continuam latentes. A concepção mecanicista do organismo humano levou a uma abordagem técnica em saúde, na qual a doença é reduzida a um defeito mecânico e o tratamento à manipulação técnica.

De acordo com o ponto de vista biomédico a definição de doença tem como base a enfermidade. Pois a enfermidade é reduzida à doença (CAPRA, 2012). Enquanto que a enfermidade é condição do ser humano total, a doença é a condição de uma determinada parte do corpo; e assim, em vez de tratar pacientes que estão enfermos, os profissionais da saúde se voltam para o tratamento de suas doenças. O tratamento é dirigido exclusivamente para questões biológicas ou àquelas referentes a lesões.

O modelo biomédico tradicional baseia-se, quase totalmente, numa visão cartesiana do mundo e considera que a doença consiste em um mau funcionamento temporário ou permanente de um componente da máquina ou da relação entre os componentes. A cura de determinada doença, nessa perspectiva, significava, consertar, reparar essa máquina (BARROS, 2003). Tal visão nos remete ao termo racionalidade médica que foi criado por Madel Luz e apresenta-se como uma categoria operacional. Uma racionalidade médica é um conjunto integrado e estruturado de práticas e saberes composto de cinco dimensões interligadas: uma morfologia humana (anatomia), uma dinâmica vital (fisiologia), um sistema de diagnose, um sistema terapêutico e uma doutrina médica (explicativa). Tal racionalidade trata o sujeito que adoece investigando seu corpo em relação a anatomia e a fisiologia, para assim estabelecer um diagnóstico e intervenções de tratamento, onde todo sintoma clinico relaciona-se a uma alteração morfológica (CAMARGO JR., 2005).

Camargo Jr. (2005, p.178), resume a racionalidade biomédica em três proposições:

“(...) dirige-se à produção de discursos com validade universal, propondo modelos e leis de aplicação geral, não se ocupando de casos individuais:

caráter generalizante; os modelos aludidos tendem a naturalizar as máquinas produzidas pela tecnologia humana, passando o “Universo” a ser visto como uma gigantesca máquina, subordinada a princípios de causalidade linear tradutíveis em mecanismos: caráter mecanicista; a abordagem teórica e experimental adotada para a elucidação das “leis gerais” do funcionamento da “máquina universal” pressupõe o isolamento de parte, tendo como pressuposto que o funcionamento do todo é necessariamente dado pela soma das partes: caráter analítico”.

Associar determinada doença a uma parte definida do corpo é evidentemente muito útil em diversos casos. Mas a moderna medicina tem enfatizado excessivamente a abordagem reducionista e desenvolveu suas disciplinas especializadas a um ponto tal que os profissionais da saúde frequentemente não são mais capazes de ver a enfermidade como um desequilíbrio do organismo todo e consequentemente nem tratá-la. Daí a tendência ao cuidado de um determinado órgão, sem geralmente considerar o resto do corpo, os aspectos subjetivos e sociais do sujeito paciente.

De acordo com o modelo biomédico, somente o médico sabe o que é importante para a saúde do indivíduo, e só ele pode fazer qualquer coisa a respeito disso baseado no fato de que todo o conhecimento acerca da saúde é racional, científico, baseado na observação objetiva de dados clínicos (CAPRA, 2012, p.152).

Sob o impacto do Relatório Flexner, a medicina científica voltou-se ainda mais para a biologia, tornando-se mais especializada e exercida em grandes hospitais. Assim especialistas passaram a substituir clínicos gerais tanto no ensino quanto no atendimento ao sujeito paciente.

Capra (2012) finaliza apontando que os centros universitários têm como finalidade não somente o treinamento, mas a pesquisa. Pesquisas que priorizam aspectos biológicos são prontamente favorecidas por concessão de verbas para seu desenvolvimento. O que se vê é a aceitação do modelo biomédico cujos princípios básicos encontram-se enraizados na cultura do povo. E ainda, segundo o autor, o modelo biomédico é muito mais que um modelo, é um dogma, e para o grande publico está vinculado a sua cultura. Capra (2012) afirma que para superá-lo faz-se necessária uma revolução cultural para melhoria e manutenção da saúde. Tal modelo é útil desde que se reconheçam suas limitações. E que os pesquisadores precisam entender que a análise reducionista da máquina corpo não pode fornecer um completo e profundo conhecimento do homem. A pesquisa biomédica terá que ser integrada a outros campos de conhecimento para que as manifestações de todas as enfermidades humanas sejam encaradas como produto da interação corpo, mente e meio ambiente e também sejam estudadas e tratadas dentro dessa perspectiva abrangente.

Pensamos que um conceito de saúde que incorpore dimensões holísticas e ecológicas e que sejam aceitas em termos teóricos e práticos, exigirá uma mudança conceitual na ciência médica além de uma reeducação do público em geral. Capra (2012, p.157) acrescenta: “só será possível transcender o modelo biomédico se estivermos dispostos a mudar também outras coisas; isto estará ligado, em última instância, a uma completa transformação social e cultural”.

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