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III. BÖLÜM: 2008 KÜRESEL KRİZİ VE TÜRKİYE'DEKİ BANKACILIK

3.2. Küresel Finansal Krizin Nedenleri

3.2.7. Düzenleyici ve Denetleyici Kuruluşlar

Conforme já foi visto, algumas importantes contribuições à forma atual da cidade datam do início do período republicano, no final do século XIX. Elas, ao ampliarem as atividades comerciais e públicas, organizam uma nova estrutura administrativa, com serviços de educação, saúde, finanças e poder judiciário, marcando o surgimento de um aparato burocrático.

Essa diversificação de atividades aliou-se a um processo de modernização pautado por um ideário, fonte de inspiração para outras cidades brasileiras que viviam um momento similar. No caso de Natal, houve, inclusive, implementação de ações higienistas e de embelezamento e criação de infra- estrutura urbana e de serviços. Oliveira (2000) aponta as razões para essas ações promovidas pelo poder público, decorrentes, na verdade, de aspirações das elites locais, que viam a cidade como incompatível, considerando suas características rurais:

A cidade do Natal, centro político-administrativo do estado do Rio Grande do Norte, não podia manter as características de cidade colonial. Era imprescindível acompanhar a tendência de modernização que vinha se manifestando em cidades da Europa e em capitais de outros estados brasileiros. Para modificar essa condição, foram empreendidas intervenções públicas que, no entanto, aconteceram de forma lenta e descontínua, com períodos de grande intensidade e outros de estagnação (OLIVEIRA, 2000, p. 98-99).

Porém, segundo Mariz e Suassuna (2002), o segundo mandato do governo de Alberto Maranhão (1908-1913), inspirado nesse ideário, empreendeu ações, a partir de empréstimos externos, com o objetivo de melhorar as condições de vida de Natal e desenvolver as forças produtivas.

Dentre os empreendimentos realizados, podem-se citar: inauguração de Escola Normal; implantação do sistema de iluminação elétrica e de abastecimento d’água; substituição dos bondes puxados por animais por bondes elétricos; aquisição e ampliação da Vila Cicinatto, localizada na praça Pedro Velho, para residência dos governadores; instalação de monumentos de bronze nas praças Pedro Velho e Augusto Severo; abertura de 10 avenidas suburbanas no prolongamento do bairro Cidade Nova; arborização da avenida Tavares de Lira e criação do brasão do Estado. Acrescentem-se ainda a construção da estrutura física das seguintes instituições: Escola Doméstica de Natal; Hospital Juvino Barreto, depois Miguel Couto e atualmente Hospital Universitário Onofre Lopes (UFRN); Grupo Escolar Frei Miguelinho e Casa de Detenção.

A cidade, com seu caráter de centro administrativo, apresentava uma necessidade cada vez maior de organizar-se para assistir a sociedade norte-rio- grandense. Para tanto, incorporou a seu espaço diversas instituições de ensino e hospitais, dentre outras construções que fossem necessárias ao atendimento da população nos mais diversos aspectos e fortalecessem a presença do poder público, como, por exemplo, a Casa de Detenção, atualmente transformada no Centro de Turismo.

Sua limitação como centro comercial, em face da proximidade do Recife, cidade tradicionalmente hegemônica no contexto econômico regional, não lhe tirou a possibilidade de criar uma infra-estrutura que pudesse viabilizar as transações

comerciais próprias e sua função administrativa. O comércio da cidade ainda se encontrava limitado na sua estrutura e na diversificação, concentrando-se, principalmente, nas ruas do bairro da Ribeira.

No setor de transformação, a incipiente participação da indústria na economia local também não impediu a cidade de receber investimentos pontuais como uma fábrica de óleos vegetais (SANTOS, 1989), embora o processo de instalação de plantas industriais se apresentasse de forma tímida e pouco diversificada.

No que se refere à vida cultural, a cidade, pelo seu caráter de centro local, já apresentava demandas por uma estrutura de lazer. Em face de tal necessidade, inaugura-se, em 1904, o Teatro Carlos Gomes, atualmente Teatro Alberto Maranhão.

Afirma Ferreira (1987, p. 43):

Desde o início do século há uma certa preocupação com o controle da expansão físico-territorial urbana de Natal. O surgimento de vários planos, em parte implantados, direciona o parcelamento do solo e de uma determinada área da cidade até a década de 40.

Entre 1901 e 1940, Natal possuiu três propostas de intervenção urbanística (SILVA, Alexsandro, 2003).

O primeiro desses planos (1901-1904) foi o plano urbanístico denominado Cidade Nova. A sua implantação resultou no surgimento de um novo bairro, com o mesmo nome do plano, constituído, atualmente, dos bairros de Petrópolis e Tirol. A partir desse momento, tem-se a intervenção do Estado no sentido de ordenar o processo de desenvolvimento espacial da cidade, do platô até as dunas (CLEMENTINO, 1995; SANTOS, 1989).

Sem uma conotação de plano diretor, o também chamado plano Polidrelli tinha como preocupação a definição do parcelamento do solo e de seu arruamento, estabelecido como um tabuleiro de xadrez, forma respeitada nos planos que se seguiram. Assim, o antigo desenho de cidade colonial com suas ruas apertadas e irregulares estava sendo superado, com a inauguração, pela elite local, de um novo estilo de morar: com ruas largas e arejadas, distantes das classes populares e das péssimas condições ambientais que afetavam, na época, a parte antiga da cidade.

Como decorrência desse ordenamento, ocorreu a valorização das propriedades imobiliárias e ficaram evidentes os caminhos tortuosos de construção da cidade, por meio da expropriação da população pobre e dos posseiros que residiam na área do plano. A nova ordenação da cidade implicou a transferência de parte do poder administrativo em direção ao bairro da Cidade Alta e se caracterizou pela construção do Palácio Potengi, sede do governo estadual.

Cerca de trinta anos depois, em 1929, outro plano urbanístico, denominado Plano de Sistematização ou Plano Palumbo, foi elaborado, reafirmando e ampliando as bases de ocupação do solo urbano assentadas pelo plano anterior (CASCUDO,1999). O novo plano estabeleceu o zoneamento da cidade, definindo espaços específicos para a administração, o comércio, a indústria e a moradia, dentre outros. Entende-se que, nessa oportunidade, foi confirmada a cidade repartida, isto é, separada em partes, dividida por grupos ou classes, espacializada no modelo centro-periferia, que separa os locais de trabalho e de moradia. Ricos e pobres passaram a habitar locais distintos no território intra-urbano. Esse plano, que em sua maior parte não foi implementado, continha uma política de planejamento para um cidade de 100 mil pessoas, quando, na realidade, a população de Natal,

nesse período, era de aproximadamente 35 mil habitantes. Ao superdimensionar a cidade, o plano sobressaiu-se por sua flagrante visão de futuro.

O terceiro plano (1935), denominado Plano Geral de Obras, como os anteriores, mostrava uma preocupação importante com o lazer da população, o embelezamento e o saneamento da cidade, mediante a apresentação de projetos nessas áreas.

A reorganização territorial intra-urbana em discussão apresenta-se como uma decorrência do processo de acumulação do capital que precisa não só construir novos espaços para a concentração de população necessária à sua reprodução, como também controlar e manipular o conflito. É nesse sentido que o problema de moradia segrega a própria residência, fragmentando a cidade em bairros de ricos, de classe média e de pobres.

A produção fundiária/habitacional, que já engendrava a formalidade e a informalidade na produção do espaço urbano de Natal, mediatizada por relações mercantis e não-mercantis, afigura-se, compondo, assim, o passo inicial para o agravamento da pobreza urbana e conseqüente segregação espacial.

Essa produção fundiária vê-se conectada aos cíclicos fenômenos de estiagem, que originam fortes contingentes migratórios do interior em direção à capital e, com seu crescimento, acabam por pressionar os serviços. Essa cadeia, conseqüentemente, acentua a formação do espaço urbano segregado. A intensidade desse crescimento populacional é atestada por Santos (1989), ao dizer que a seca de 1904 trouxe, à cidade de Natal, um contingente de 15 mil pessoas que fugiam da calamidade.

Os reflexos do processo de segregação social, em sua forma espacial, manifestam-se nos elementos naturais, uma vez que o sítio de determinados bairros

adquire importância e condiciona sua forma de ocupação e seu corte social. Originam-se aí os primeiros bairros de elite ou o que aqui denominaremos bairros de

status (segunda parte do trabalho) e outros que vão concentrar a pobreza.

Esse processo de segregação reflete espacialmente as relações estabelecidas entre as elites gerenciais dominantes e capturadoras do Estado (historicamente), que, ao exercerem funções direcionais, viabilizam a renda fundiária decorrente da expansão urbana.

Entende-se, dessa forma, que a busca pelo bem-viver associada ao processo de acumulação possui uma dinâmica que é balizada por recortes temporais, que ora elevam os preços da terra em determinados bairros, ora depreciam o valor dos imóveis ali localizados. Essa dinamicidade alia-se aos “caminhos” que a cidade toma no seu espraiamento, que, por sua vez, se direciona para as áreas de consumo e de melhor dotação de bens e serviços. Esse caminhar em direção às melhores áreas é acompanhado de perto pelas elites, que desses espaços se apropriam, seja para morar ou auferir lucros. Na contrapartida há um outro processo de expansão que se presta à resolução dos conflitos iminentes pela posse da terra urbana. Assim, regiões e bairros são alçados ao status de áreas nobres, de acordo com a sua capacidade de receber investimentos e de retribuir na reprodução do capital imobiliário da cidade.

A partir dessa dinâmica, pode-se compreender como se configura o espaço atual da cidade de Natal. Essa distinção entre bairros que acomodam classes socais diferentes permite um recorte que, neste trabalho, é entendido metaforicamente como uma onda de intencionalidade do turismo, por concentrar essas elites e os sofisticados serviços que chegaram à cidade nos últimos anos.

Naturalmente que, com a apartação social, instalam-se mecanismos de valorização fundiária que impulsionam essa formação espacial intra-urbana e consideram a ocupação das paisagens naturais mais aprazíveis. Esses mecanismos, que se perpetuam até os dias atuais, caracterizam-se pela pouca mobilidade social interna nos bairros de Natal (SILVA, Ângelo, 2003).

Ainda em relação a essa espacialização que “distingue” classes sociais, já nesse período se observa (SILVA, Ângelo, 2003) o início do conjunto de vias irrigantes, o que corrobora para o entendimento da “onda” do turismo, ou seja, uma tendência já se desenhava e acompanhava a expansão dos bairros de melhor renda no sentido centro-sul. Na ocasião, merecia destaque a incorporação da praia como área aprazível para o lazer, através de novas artérias, como a avenida Getúlio Vargas, que passavam, assim, a fazer parte da dinâmica urbana de Natal.

O ajuntamento da praia à cidade necessitava de uma estruturação viária completamente nova, pois, até então, esse espaço se encontrava muito próximo espacialmente, mas muito distante sob o aspecto dos hábitos dos habitantes locais.

Assim, não só as vias que foram construídas às margens da linha praiana, como a avenida Café Filho, e aquelas que subiam a falésia constituíam a estrutura viária para a incorporação da praia, mas também aquelas que já existiam e haviam sido interligadas como parte dessa acessibilidade na conformação de uma malha urbana que se moldava. A avenida Nilo Peçanha cumpriu esse papel de integração da cidade à praia, quando se interligou com a avenida Getúlio Vargas.

Mesmo que de forma incipiente, esses locais assistem a uma instalação gradual de população, de estabelecimentos comerciais e de infra-estrutura, como vias de acesso, iluminação pública e início do processo de urbanização. Estes, portanto, constituem alguns dos efeitos dessa chegada da praia à cidade e para a

cidade, quer seja pela integração, quer seja pelas mudanças realizadas na linha de praia.

A “entrada” da praia na cidade deu-se através dos bairros de Petrópolis e Tirol, que já haviam sofrido as intervenções dos citados planos. Teriam sido esses locais concebidos e dotados com infra-estrutura de pavimentação, eletrificação pública e transporte coletivo, além da arborização, que os tornava aprazíveis para viver. Habitados pela elite natalense, simbolizavam status.

Sua integração aos bairros de comércio e serviços era feita por avenidas, como a Jundiaí. Natal, nesse momento, encontrava-se em acelerada fase de expansão e denotava um processo de mudança, sobretudo, pela desconcentração urbana que já ocorrera da Ribeira para a Cidade Alta e que agora se expandia em direção ao bairro do Alecrim. Deve-se ressaltar que o Alecrim não concorria com a Cidade Alta, pois se especializara no comércio popular; a este último cabia o comércio de elite, com suas lojas e vitrines, bem como o centro financeiro da capital potiguar, do qual a avenida Rio Banco era a mais importante via.

Na década de 1930, o crescimento da cidade continuava sem apresentar nenhuma atividade econômica de maior expressividade. A despeito dessa limitação em relação ao seu crescimento econômico, Natal tinha um ponto a seu favor: a posição estratégica que viabilizou sua inserção nas rotas internacionais de aviação, tornando-a ponto de escala de diversas empresas internacionais que realizavam os primeiros vôos comerciais. Nesse contexto, Natal se notabilizou como rota de aviação, sobretudo intercontinental, entre países da América do Sul, da África e da Europa. Esse fato, decorrente do desenvolvimento do correio aéreo e do espírito de aventura dos pilotos da época, encontrou resposta na particularidade posicionamento geográfico da cidade com relação àqueles continentes. Por sua

posição estratégica, Natal é incluída no conflito militar mundial, na década de 1940, com o desenrolar da Segunda Grande Guerra.

No final desse período, que compreende os primeiros 40 anos do século XX, Natal já se estruturava como cidade, encontrando-se em um processo dinâmico de expansão e diversificação de suas atividades. Estava dado mais um passo na transformação espacial da cidade, encerrando-se, assim, a fase, denominada por Clementino (1995), “cidade provinciana”, o que a lançou em direção às novas fases de modernização.

Esse processo de modernização continuou no período compreendido entre os anos de 1940 a 1950, marcado por mudanças políticas e sociais, num momento em que o país se pautava pelo crescimento econômico para dentro, ampliando a rede urbana e acentuando sua hierarquização. Nesse momento, também crescia e se fortalecia o setor terciário, que sustentava a industrialização do país e a conseqüente expansão urbana. Cabe ressaltar que, no contexto local, a industrialização era a tônica da expansão urbana; esse crescimento se mostrava expressivo e seria, sobremaneira, dinamizado no período da Segunda Guerra Mundial.

Benzer Belgeler