BÖLÜM II: FUTBOL VE BASKETBOL MEVZUATIMIZIN TANIDIĞI ULUSLARARASI SPOR BİRLİKLERİ TANIDIĞI ULUSLARARASI SPOR BİRLİKLERİ
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Dentro de nossa proposta de estudos, várias vezes recorremos a uma abordagem etimológica como parte inicial do movimento de conceituação. Assim também procedemos para desmistificar os sentidos cobertos por trás da leitura e do ato de ler. Como vimos na primeira parte da tese, um signo ideológico carrega em si a herança de outros signos que participaram de sua origem. Portanto, estudar um termo em língua portuguesa que tem sua origem na língua latina nos remete automaticamente a uma busca dos significados latinos, porque neles encontraremos algumas heranças sígnicas que os termos atuais carregam ainda hoje.
A palavra leitura remonta de seu correspondente em latim lectura, termo derivado do verbo legere, que em português resulta em ler. Comecemos nossa investigação por esse verbo, que teve sua origem no campo da agricultura, e não no meio letrado. O verbo em latim significa colher, escolher, recolher. O Dicionário escolar latino-português (1962) nos apresenta o vocábulo lectio como detentor desses significados. Ler é, neste sentido, a colheita dos frutos que o texto dá. Através dessa compreensão de leitura, podemos deduzir uma concepção desse ato que coloca o leitor num papel de coletor, mas não de produtor. Aqui, o texto é o produtor de sentidos, e cabe ao leitor o simples papel de colhê- los.
Pensando que em latim os termos legere e lectio tem o sentido estreitado com o ato de colher, podemos estender esse entendimento a outras palavras que tiveram a mesma origem. Associamos o sentido de selecionar a todos esses termos, como o caso de leitor (aquele que seleciona), de legível (aquilo que é passível de ser escolhido), de eleição (ato de selecionar), de lenda, de legenda (diz-se antigamente das práticas de leitura em público sobre a vida dos mártires cristãos, sendo lenda e legenda uma espécie de gerúndio derivado do latim), de inteligência (capacidade de escolher entre as possibilidades aquela que melhor convém), de coleção (grupo de coletados que carregam em si características que nos permitem agrupá-los em uma mesma classe) etc.
Para nos ajudar a pensar nos termos que circundam a leitura, retomamos os estudos de Hébrard (2007), que nos fornece outras pistas a respeito da leitura a partir de pesquisas que se pautam na herança do latim. O autor analisa a relação entre lição e
exercício. Em seu texto, aprendemos que no século XIII a pedagogia das escolas era pautada em uma aula que era ditada. A prática de exercícios era uma atividade a ser realizada fora da aula. Nesse sentido, a palavra lição também tem sua origem na mesma família de palavras. Derivado do lectio, lição e lecionar estão diretamente ligados a legere. Na língua inglesa, o termo lecture significa conferência, um discurso proferido com propósito de instrução.
Consideramos que a língua latina também exerceu grandes influências na constituição da língua inglesa, visto que a primeira era a língua franca do Cristianismo, a religião predominante na Europa quando do surgimento do inglês. O termo nesta língua lecture faz referência então a uma prática social em que um detentor do turno profere sua leitura enquanto outros sujeitos o escutam. Essa fórmula interativa é a que resulta nas aulas proferidas nas escolas do século XIII, e o termo até hoje designa, por exemplo, as aulas em universidades.
Como a história das Ilhas Britânicas não registra grande domínio territorial do Império Romano, a língua latina não prosperou ali como uma língua mãe, de modo que não houve um romance na região. O inglês surge da união de vários dialetos trazidos para o território no século V. Tendo o desenvolvimento central da língua independente do latim, podemos considerar que os valores ideológicos veiculados no desenvolvimento do inglês, apesar de terem influência latina, tomavam como base outras culturas. Podemos observar melhor esse fato através da etimologia. Se investigamos a herança do termo leitura, em português, que se iguala em origem ao espanhol lectura, ao francês lecture, ao italiano lettura, ao romeno lectură, em inglês o termo muda drasticamente. Temos reading na língua anglo-saxã. O dicionário etimológico online associa o verbo to read a avisar, aconselhar, persuadir, discutir, deliberar, orientar, etc. Esses termos preveem uma prática social mais interativa do que a origem latina nos remete.
Em latim, a leitura tem foco centralizado no leitor, que colhe do texto os sentidos que nele encontra. Em inglês, o foco está na relação entre o escritor e o leitor, sendo aquele dotado do desejo da persuasão em relação a este. Dessa maneira, a língua inglesa nos apresenta um esquema pautado na interação entre sujeitos, enquanto em latim o peso maior recai sobre a transmissão, no escritor que determina algo ao leitor, o determinado sem voz para dialogar com o texto. Persuadir é uma prática interativa que
não concebe o outro em uma passividade plena, enquanto determinar para o outro é desconsiderar qualquer manifestação ativa que possa vir do interlocutor.
Conceber que existem diferentes modos de entender a leitura através dos estudos etimológicos de línguas cujas origens na árvore genealógica são distantes é aceitar primeiramente que cada língua reflete um posicionamento ideológico perante a realidade. Se a leitura no seio latino nos remete a uma compreensão de colheita, de aceitação daquilo que o texto oferece, a origem anglo-saxã nos guia por uma discussão em que há a negociação de sentidos, a orientação, a instrução. Isso reflete, certamente, a postura que cada sociedade adota para com a leitura. Esta postura é parte da herança do signo ideológico.
Com o advento da expansão da coroa inglesa e da difusão de sua língua por todo o mundo, tornando-se hoje um dos símbolos mais fortes da globalização, o modo de conceber a leitura também se transformou nesse contexto. A Linguística Aplicada, por exemplo, nos oferece um estudo que também se serve da linha histórica para explicar diferentes concepções de leitura.
Se concebemos a leitura de modo diferente de acordo com sociedades também diferentes é porque a língua é compartilhada socialmente, regulada pelas relações interativas entre as dominâncias da Ideologia Oficial, e as práticas fortuitas da ideologia do cotidiano. Ler é uma prática social, e enquanto tal, cada sociedade estipula para si como convencioná-la. Isso nos explica as diferenças entre conceituar etimologicamente leitura nas línguas neolatinas e no inglês.
De forma geral, podemos dizer que a herança sígnica de leitura advinda do latim está relacionada à coleta, à escolha. Ler é escolher, é a colheita de sentidos do campo de um texto. Se em latim, que é nossa língua mãe, o sentido da leitura está relacionado com o ato de colher, podemos dizer que essa herança é ainda viva no signo ideológico da leitura. Os estudos no campo da Linguística Aplicada que visam explorar novas metodologias de ensino do ler e do escrever trabalham sobre a desconstrução desse conceito de que a leitura é um processo unilateral, em que o leitor recebe passivamente um produto obtido do texto. Veremos mais à frente algumas concepções de linguagem que a proposta interativa critica. Tendo recuperado a rede de sentidos que se desvelam por trás da leitura, passamos a seguir a explorar o termo a partir de outras perspectivas.